segunda-feira, 9 de março de 2026

Somos rios, somos mar

Marchamos no 8M, por todo o Brasil, pelo mundo. Cada vez mais é necessário tomar as ruas diante das barbaridades crescentes contra meninas e mulheres. Às vezes - muitas vezes - bate um desânimo enorme diante de tudo o que temos visto acontecendo no mundo, contra mulheres, contra os minorizados politicamente, contra a paz, em favor de uma violência absurda. E ainda assim ganhamos flores aqui e ali e até presentes inúteis e baratos, peloamor, quando o que queremos não tem preço, não se pode tocar e é para sempre.
Ainda bem que, quando marchamos, vemos as águas se encontrando, formando um caudal, um mar imenso. E contra as águas, meu bem, repito aqui, não há obstáculo que lhes resista, como tudo aquilo que desejamos, que devemos tomar. Que sejamos, então, sempre água em movimento, fresca, abundante, destemida, vitalizadora. 

domingo, 1 de março de 2026

O pessoal, o público e a arte são políticos

Acompanhei nos últimos dias um debate intenso sobre identitarismo e decolonialidade nas redes. Claro que já tem rolado há algum tempo, sobretudo em ataques às identidades feitos pela extrema-direita. A novidade, porém, são as críticas virulentas vindas de intelectuais ligados à esquerda. 
Vladimir Safatle publicou um texto na Piauí fazendo uma crítica às teorias decoloniais, segundo ele muito ligadas aos teóricos dos países colonizadores. Pessoalmente, não vi como isso poderia desqualificar as teorias - não é possível se apropriar das anteriores e fazer a própria releitura, antropofagicamente, como sugeriria Oswald de Andrade? 
Na esteira de Safatle, Douglas Barros, que inicialmente me pareceu interessante por falar de identidades com Rita von Hunty - e que depois descobri ser um crítico do chamado identitarismo (termo usado pelos ultraconservadores), a respeito do qual ele lançou um livro -, saiu em ataque contra Nego Bispo e os originários em geral, que não têm, segundo ele, arcabouço teórico para discutir a realidade e propor soluções, ao contrário do marxismo. Gente!
Para lá e para cá pipocaram ataques e defesas de antidecoloniais e decoloniais, sobre quem consegue ou não fazer a crítica ao capitalismo, propor um novo estado de coisas. Interessante como esses autores, ao falarem de decolonialidade, nem citaram as lutas feministas, que buscam justamente unir a questão de luta de classes com gênero e raça, como fizeram as ativistas negras. Enquanto isso, a extrema-direita se regozija com as lutas internas dos progressistas, alguns deles tomados pelo desejo de reconhecimento e brilho, não há dúvida. O capitalismo faz muito bem seu trabalho (explorando o trabalho dos outros) há séculos. 
Daí assisti, por fim, a aula magna do Leandro Colling na USP Leste. Leandro é muito combativo, mas não incoerente. Ele se organiza para os debates; não é avesso à crítica em si, mas à violência que pode advir de uma crítica irresponsável. Ao final, sempre me pergunto, eu que nem tenho esse arcabouço teórico todo, por que é tão difícil se unir pela causa comum, que deveria ser a luta pela justiça social em uma sociedade tão diversa. E não quem tem mais seguidores, vende mais livros, vence o debate. 
É curioso como é mais simples que um artista consiga unir as pessoas em prol de uma causa, pelo menos na superfície. Bad Bunny, o trapper porto-riquenho que ganhou vários Grammys, tem botado a boca no trombone para criticar Trump e sua política anti-imigração. No evento mais visto dos Estados Unidos, o Super Bowl, ele apresentou em 13 minutos um videoclipe ao vivo, em plano-sequência, cantando em espanhol, com várias referências latino-americanas tão conhecidas nossas, e ainda chamou de América todos os países do continente, para desgosto dos estadunidenses conservadores. Genial!
Ele conseguiu fazer milhões no mundo se orgulharem de suas raízes latinas. Partiu da sua casita porto-riquenha e atingiu o universal, pelo menos latino-americano. A arte tornou público o pessoal. Uma fagulha, no mínimo, para incendiar os debates. No caso de Bad Bunny, sua especificidade não foi criticada; antes, atraiu milhões que cantaram com ele - em São Paulo, milhares lotaram o Alliance Park. 
No caso de Nego Bispo, das feministas e dos ativistas LGBT, porém, o embate é certo. Porque, nestes exemplos, o pessoal não é só público, como apregoava Carol Hanisch, como também, necessariamente, o que é público é político e o que é político é (ou deveria ser) público. Quando se rejeitam as identidades, as especificidades de grupos, perde-se o entendimento do que é coletivo, o que acontece também quando se põe o foco tão somente no que é específico, ora vejam! Todos perdemos na luta contra a desigualdade quando os aliados se afastam e se enfrentam. Quem ganha são sempre os mesmos donos do poder. 
Nesse sentido, a lição de Bad Bunny está além da bandeira da América Latina e da América de todos: ela mostra a potência da arte como água que invade espaços, dissolve barreiras e, quando menos se espera, está em toda parte. Pelo jeito, é por meio dela que se pode avançar mais na construção de direitos. Como a água, muitas vezes parece inofensiva, mas sua essência é sempre abrangente, desarmante e poderosamente transformadora. 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Fevereiro tem Carnaval

Pois, pois - por conta de trabalho, que bom, fiquei por aqui no Carnaval. Cris e Julio se hospedaram aqui, o que sempre é sinal de agito. Ainda por cima, terminaram de encher o congelador com comidinhas prontas - que eles nem tiveram tempo de comer, diga-se de passagem. 
Já tinha tido uma sorte tremenda, porque no ensaio do Cortejo Afro, a convite de Cris e na companhia de suas amigas do Batalá, duas semanas antes, houve participação do querido Saulo Fernandes. Quando fomos, no sábado de Carnaval, para a orla, lotada como nunca, estávamos já conformados com nossa pouca sorte quando fomos surpreendidos pela passagem do trio de Maga, nossa ministra da Cultura Margareth Menezes. Faraó pediu, a gente respondeu. 
No domingo, eu bem que tentei sair de pipoca ao lado do Cortejo Afro, que tinha cordas, mas o atraso enorme me fez voltar para casa. Porém, de novo, a sorte me sorriu e eu vi, graças ao mesmo atraso, a rainha Daniela Mercury e a lenda Armandinho. Puxa, como valeu ter saído de casa! 
Carnaval ainda é a festa mais democrática do Brasil, apesar da invasão das marcas patrocinadoras que só bancam as mega-atrações, puxando também os incentivos governamentais, o que escanteia os pequenos blocos, os grupos "originários", populares desde o nascimento. Apesar das cordas também - mas creio que metade dos grupos hoje libera a pipoca para o povo. 
Aliás, o trabalho dos cordeiros é um daqueles dinheiros muito, muito suados. Este ano, receberam 80 reais para segurar as cordas em torno dos trios, colocando para fora os penetras sem abadá ou pulseira. E o que dizer da corrida dos ambulantes em guardar lugar nas calçadas do circuito quase duas semanas antes do início do Carnaval? Crianças vêm junto com pais e mães, muitas vezes, pois não há com quem deixá-las. Mas, dentre as diversas ocupações geradas no Carnaval, a que mais me choca ao evidenciar desigualdades é a das escoltas feitas por seguranças para convidados VIP que querem chegar aos camarotes sem serem "importunados" pelo povo. No Carnaval. Uma festa po-pu-lar. Rapaz! 
Apesar de toda desigualdade e gentrificação, ainda fico com Simas, quando fala da inversão que ocorre na festa, quando os invisibilizados podem mostrar sua cara, sua dança, sua alegria. Atrás ou não do trio elétrico, vivos. Vivos.  

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Belo e maldito

Pouco depois que Wag foi embora, soube da passagem de Carvalho. Nós havíamos falado tanto dele! 
Paulinho, Cacá, Carvalhinho, Professor Carvalho. Desde meu primeiro momento no Anglo, seu sorriso e suas palavras doces me receberam. Mesmo não sendo do meu círculo mais íntimo, um amigo por quem sempre tive um imenso carinho e a quem sempre admirei, pela postura profissional e cordata, pela ética, pela inteligência rara, que mesclava a grande erudição filosófica e literária com a alma aberta ao outro mas avessa às injustiças de todo tipo. Rimbaud e Che Guevara numa mesma pele. Belo e maldito, aguerrido e terno. 
Continuamos nos seguindo nas redes, e acompanhei seu tratamento contra um linfoma, o cotidiano no campo, o amor pela filha, pelos amigos e pelos bichos, seus embates traduzidos em textos eruditos e poéticos. Até ser surpreendida pela partida abrupta. O coração, tão grande e vibrante, subitamente cessou todo movimento. 
Lembro de um comentário de Jonas, coordenador de matemática, acerca de uma calça estampada que eu usava - ele disse que parecia saída do guarda-roupa do Carvalho. Foi um elogio enorme para mim, ser comparada de alguma forma a ele, mestre de estilo no viver. Como tantos amigos saudaram, acertadamente, evoé, Carvalhinho! Siga fazendo arte entre as estrelas, brilhe entre elas como brilhou entre nós, querido.   

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A culpa nunca foi dela

Assisti à tão falada série All Her Fault, no Prime Video, em dois dias. Na primeira metade, pensei que poderia ter dois episódios a menos (são oito no total). Também já sabia como ia terminar, quase não vi o restante. Mas persisti. 
E foi ótimo. Mesmo com algumas viradas rocambolescas, os plot twists que não podem faltar hoje, a mensagem-título é muito irônica e clara. O tempo todo as mulheres são culpabilizadas por todos, especialmente por seus companheiros, mas também por outras mulheres, quando há qualquer coisa que saia da rotina, das menores coisas até o desaparecimento de uma criança. Inclusive quando o desaparecimento está associado a uma mentira, a uma atitude masculina tomada anos antes. A união entre mulheres é que recoloca tudo nos trilhos de uma outra maneira, são elas que convencem umas às outras que a culpa nunca foi delas. Diante da incompetência masculina de um marido e o controle e toxicidade de outro, são elas que se apoiam mutuamente até mudar toda a situação. 
Como se trata de uma história com personagens brancas e prósperas, não pude deixar de pensar no tamanho da culpa que seria atribuída às mulheres de outras raças, classes sociais e tipos de feminilidade. Ainda mais tendo lido, enfim, o livro de Virginie Despentes, Teoria King Kong, que destrincha as armadilhas da feminilidade imposta pela heteronorma, e quase terminado o de Dahlia de la Cerda, Desde los zulos, que Marisa me trouxe do México e que discute a práxis feminista a partir dos "buracos", das brechas onde vivem as mulheres periféricas, não brancas, que não têm um "teto todo seu" para escrever o que quer que seja. 
Por maiores que sejam as diferenças entre as feministas das diferentes "ondas" e entre mulheres em geral, só me ocorre que apenas juntas, em meio às diversidades, é que conseguimos mudar as coisas. Admitindo privilégios e diferenças, acolhendo, ouvindo, tomando as ruas e os espaços, não assumindo responsabilidades alheias, rompendo com padrões a nós imputados. A culpa nunca foi delas, nem nossa.  

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Amizade que tece manhãs e histórias

Wagninho veio a trabalho para a Bahia e depois tratou de me honrar com sua companhia. Não nos víamos pessoalmente há quase quatro anos. Quanta história para colocar em dia! Falamos de alegrias e tristezas, passado, presente e futuros, tomamos muitos cafés e sorvetes, batemos perna por Salvador, uma Salvador menos turística, mais popular, negra e profunda a maior parte do tempo, tudo praticamente registrado por Wag. 
Teve exposição no Muncab com lindos trabalhos de artistas brasileiros e estadunidenses abordando a ancestralidade africana com os onipresentes Rubem Valentim e Mestre Didi, painéis de Carybé no Mafro, arroz de hauçá do Axego, sol forte no Pelourinho. Mais tarde, cantoria com Lívia, uma total desopilação com a turma sempre animada do Karaokê da Lapa e o sempre rabugento Jorge, que comanda o microfone - de bônus, o motorista que nos levou era apaixonado por Guilherme Arantes e pediu para ouvirmos as novas músicas. 
No dia seguinte, mesmo tendo dormido muito tarde, ainda fiz prova de proficiência do espanhol, antes de irmos à praia em Ondina mesmo e de encontrarmos em seguida com Guga para almoçar no Buddha Bistrô. Mais tarde, matamos o desejo de Wagninho por um acarajé na Dinha - e enfim tirei foto com Jorge (mais um Jorge) e Zélia. 
Finalizamos nosso encontro feliz na festa de São Lázaro, com missa afrobrasileira e o engajado padre Clóvis, que, criado em um terreiro dedicado a Ogum, pregou contra a desigualdade própria do capitalismo, conclamando à mudança, maravilhoso (e é pároco da única igreja de São Jorge em Salvador). Além do banho de cheiro, pipoca e folhas, fomos aspergidos mais três vezes antes, durante e depois da missa. Que coisa linda essa missa ao som de atabaques e presença das mães e filhas de santo! Para coroar, chuva de pétalas sobre nós, cura completa orquestrada por Obaluaê/São Lázaro. Ainda descobri que o tal bar A Boneca Cobiçada, na frente da paróquia, deve seu nome a uma música, um bolero sertanejo, e foi escolhido pelo avô do atual proprietário. Na volta, já em casa, fizemos um brunch com bolivianos, mingau de carimã (delicioso, que eu não conhecia), pão delícia com queijo reino da Apipão. E café, claro!
No meio dessa perfeição toda, adicionamos mais pontos e fios à tessitura de nossa amizade de mais de trinta anos.  

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Mais ferramentas para (re)começar a pintar

Amo pincéis desde sempre, e agora ganhei de Natal os pincéis com reservatório de água. Adorei - traço preciso, controle fácil. Na foto, coloquei-os com meus materiais de pintura, inclusive a tinta acrílica que me foi vendida como aquarela e tive preguiça de devolver (não havia a opção de troca após a venda errada, e deixei isso claro na minha avaliação do vendedor). Como me dou bem com tinta acrílica, resolvi ficar com ela. Acho que vai dar um bom samba nas ilustrações. 
Já bastante equipada, não tenho mais desculpas para não praticar. Ótimo. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Passeios de verão com amadinhos

Uma vantagem da chegada do calor é que os amigos se animam a vir a Salvador! Meus queridos Harley e Marisa voltaram aqui e nos encontramos com menos pressa que da última vez, que bom. Rolou muito papo e também visitas a lugares favoritos: Ribeira, para apresentar devidamente o sorvete homônimo, Bonfim, onde fomos diretamente aspergidas com nossas fitas pelo padre, e Santo Antônio Além do Carmo, com direito a finalmente almoçar no Ulisses, que é uma simpatia e tem equipe ótima, e oferece vista linda e feijoada deliciosa. Brindamos a Wagninho que logo menos estará aqui. Na volta, uma pequena aventura pela rua do Taboão, ainda bem que acompanhados de uma moça que ia para São Joaquim e foi nossa guia e salvo-conduto! 
Também pude conhecer a Casa de Oxumarê, onde fomos guiadas, eu e Má, na visita pelo simpaticíssimo Franklin, em meio a muito verde e paz, depois de nossos respectivos Ubers nos deixarem em outro ponto da Vasco da Gama.
Ainda fiz bolivianos para Marisa e Harley provarem, porque é desaforo vir a Salvador e não conhecer a iguaria, oxe! 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Orides, pássaros, silêncios e o não caber em si

Li em alguma postagem no Instagram que os diagnósticos de transtornos muitas vezes servem ao capitalismo e seus instrumentos - machismo, exploração do outro, violência etc. Assim é que classificar mulheres como histéricas, trabalhadores exaustos como preguiçosos, pessoas que não se enquadram como TDAH seria uma ferramenta para colocar todas e todos que não querem ser vistos como "anormais" a serviço do sistema. Faz sentido. 
Quando li isso, pensei logo em Orides Fontela. Acabo de preparar o texto de uma biografia sua. Fiquei consternada com a leitura. Orides parece dividida entre a necessidade de conter o próprio caos e o não caber em si. Cultiva o silêncio no templo zen e na poesia, mas não tem freios ao expressar seus desagrados. Parece indiferente ao desconforto que provoca, porém se ressente da crítica, venha de onde vier. Vejo-a lutando para sair de um casulo, talvez autoimposto, quem sabe? Não chegou a borboleta. Talvez por isso cante o vento, os pássaros, o mar, a liberdade que parece lhe fugir. 
É estranho, porque ela parece tão livre dos padrões, da normose (certamente, foi diagnosticada com alguma síndrome ou transtorno, talvez personalidade narcisista, ou borderline), e ao mesmo tempo busca a aprovação. Nunca se libertou da pobreza de origem, fala dela o tempo todo em entrevistas e conversas com amigos, usando-a muitas vezes como razão para seu não reconhecimento. Não duvido nada que isso seja uma razão - mulher, pobre, sem atrativos femininos clássicos -, mas me impressiona que não se tenha visto merecidamente o encantamento produzido por suas palavras certeiras, em romance com a filosofia. Como Drummond e João Cabral, mas ainda mais sucinta - talvez influência da cultura oriental, também um flerte com os haikais. 
Sua existência seria diferente se os papéis sociais, a normalidade não fossem tão arraigados? Mais fácil seria pensar que se ela não fosse estranha, se ela "gostasse" de trabalhar, se ela tivesse melhor aparência, se ela se contivesse - pouca diferença faria, porque seguiria mulher e pobre no mundo da fraternidade editorial, como vimos no caso recente de Vanessa Bárbara.
Entre tantos poemas - eu conhecia pouquíssimo da obra, um ou outro verso compartilhado por amigas poetas -, estes dois me falaram diretamente:
 

A onda
vem
do abismo mais
fundo

a onda
vem
e se
quebra: um
refundo

(a onda
dura
um mundo).


Errância

Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa da
procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

Margem de
erro: margem
de liberdade.


 Aplausos para você sempre, Orides, mestra de silêncios e voos. 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Roberto e o esgarçamento das relações

Na passagem do Ano-Novo, um rapaz e uma moça, supostamente amigos, foram se aventurar numa trilha montanhosa no Paraná. O rapaz, Roberto, aparentemente não tinha experiência com trilhas e foi deixado para trás, em algum momento, pela amiga, que continuou fazendo registros felizes da sua conquista em chegar ao topo, com as devidas fotos de amanhecer postadas no Instagram. Roberto logo foi dado como desaparecido pela família e a amiga publicou que a "aventura" completa logo seria postada nas redes (ela até então não conseguia abandonar o foco em si mesma, na "sua" experiência). Com a reação na internet de pessoas questionando como ela havia abandonado o amigo no caminho, ela disse simplesmente que tinha "errado", inclusive em fazer trilha com alguém que não tinha a vibe certa. Gente!
Para sorte de Roberto, ele conseguiu chegar a uma fazenda depois de quatro dias e 20 quilômetros andados. Perdeu os óculos no caminho. Provavelmente aprendeu que nem todo mundo é amigo, que precisamos saber quem está ao nosso lado (ou à frente) quando entramos em uma aventura, com todos os riscos inerentes a isso. Vale para todas as relações, mas no caso da amizade isso é uma condição sine qua non
Que bom que não aconteceu com ele o mesmo que aconteceu com Juliana, a moça brasileira abandonada pelo guia e que morreu na cratera de um vulcão. Claro que a amiga de Roberto não tinha obrigação de cuidar dele, como era o caso do guia de Juliana. Mas num e noutro caso é impossível não ver a mesma indiferença pelo outro, essa característica de uma sociedade cada vez mais individualista exacerbada com as redes sociais. Quase não há tempo de olhar para o outro porque muita gente só consegue olhar para seu reflexo na câmera do celular - antes olhasse para dentro de si, o que sempre é um ganho, individual e coletivo. 

sábado, 3 de janeiro de 2026

É assim que acaba - 2025

Eita, aninho arrastado! Acho feio, ingrato e injusto reclamar, porque houve muitas oportunidades em meio ao caos, mas que teve muita angústia junto, ah, isso teve. Além disso, se a senescência se mede por começar a tomar remédio, então ela chegou de vez.
Boto fé em 2026. Não vai ser nada fácil - muito fogo pela frente, em ano de eleições, ano do Cavalo de Fogo, de Ogum e Iansã, ano que começa com invasão à Venezuela por Trump. Porém, vejo que 2025 no mínimo nos instrumentalizou para o que vem. Que venha 2026, então, que o fogo já está ardendo em nós.