Na passagem do Ano-Novo, um rapaz e uma moça, supostamente amigos, foram se aventurar numa trilha montanhosa no Paraná. O rapaz, Roberto, aparentemente não tinha experiência com trilhas e foi deixado para trás, em algum momento, pela amiga, que continuou fazendo registros felizes da sua conquista em chegar ao topo, com as devidas fotos de amanhecer postadas no Instagram. Roberto logo foi dado como desaparecido pela família e a amiga publicou que a "aventura" completa logo seria postada nas redes (ela até então não conseguia abandonar o foco em si mesma, na "sua" experiência). Com a reação na internet de pessoas questionando como ela havia abandonado o amigo no caminho, ela disse simplesmente que tinha "errado", inclusive em fazer trilha com alguém que não tinha a vibe certa. Gente!
Para sorte de Roberto, ele conseguiu chegar a uma fazenda depois de quatro dias e 20 quilômetros andados. Perdeu os óculos no caminho. Provavelmente aprendeu que nem todo mundo é amigo, que precisamos saber quem está ao nosso lado (ou à frente) quando entramos em uma aventura, com todos os riscos inerentes a isso. Vale para todas as relações, mas no caso da amizade isso é uma condição sine qua non.
Que bom que não aconteceu com ele o mesmo que aconteceu com Juliana, a moça brasileira abandonada pelo guia e que morreu na cratera de um vulcão. Claro que a amiga de Roberto não tinha obrigação de cuidar dele, como era o caso do guia de Juliana. Mas num e noutro caso é impossível não ver a mesma indiferença pelo outro, essa característica de uma sociedade cada vez mais individualista exacerbada com as redes sociais. Quase não há tempo de olhar para o outro porque muita gente só consegue olhar para seu reflexo na câmera do celular - antes olhasse para dentro de si, o que sempre é um ganho, individual e coletivo.
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