quinta-feira, 23 de abril de 2026

E, contudo, se movem!


Pão, arte, liberdade

De novo, fui assistir à apresentação do Neojiba, abertura da temporada antes da turnê chinesa. Como sempre, lotado, ingressos esgotados, graças à deusa. Mendelssohn, Beethoven, Gershwin, impecáveis execuções, inclusive sem regência, impressionante. Houve participação do coro juvenil, afinadíssimo, mas com uma peça que me impactou pouco, em homenagem à visita do papa João Paulo II. E houve a presença mágica do virtuose francês David Grimal, que tocou um Stradivarius e regeu aquelas moças e rapazes tão talentosos da orquestra. A minha cara estupefacta ao final não me deixa mentir. 
Umas semanas antes, eu tinha assistido em sequência Pão e rosas, de Ken Loach, e Pão, rosas e liberdade, documentário produzido por Malala Yousafzai e Jennifer Lawrence. Na verdade, os dois filmes têm o mesmo título original, Bread and roses, que evoca o lema das sufragistas nos Estados Unidos do início do século XX. Muito adequado o acréscimo de "liberdade" ao título do documentário, porque ele trata da realidade de cerceamento da liberdade das mulheres afegãs com a volta do Talibã após a retirada das tropas estadunidenses. Tanto em um quanto em outro filme são as mulheres que lideram a resistência - trabalhadoras de serviços de limpeza no primeiro, mulheres de todas as classes no segundo. Não são histórias com final feliz, o que muito se explica pela opressão patriarcal sobre todas as mulheres ainda hoje. 
E o que, afinal, Neojiba tem a ver com esses filmes sobre resistências femininas e até mesmo com patriarcado e seus derivados? Ocorreu que, além de eu perceber muito claramente nessa apresentação primorosa que a maioria da orquestra ainda é composta por rapazes, calhou de uma colega da pós comentar que parou de tocar porque teve de fazer a escolha entre trabalhar e tocar, entre fazer pós e tocar, entre demandas familiares e tocar. Claro que quando estamos falando de jovens periféricos o corre é para todos - mas para as garotas é sempre um corre a mais. Até mesmo em um ambiente supostamente mais saudável os efeitos de um machismo sistêmico se fazem sentir. 
A arte, claro, nos permite sonhar e soar. Seguimos todas, porém, querendo meios de viver livres e com dignidade em todas as esferas. 

São Jorge por favor me empresta o Dragão

Salve Jorge. Ogunhê! Hoje consegui ilustrar no dia, e pari não uma, mas duas de vez! Uma engraçadinha, uma colagem. Adoro. Adoro mais quando saem tão rapidamente, da mente para a mão, da mão para o papel. Me emociono - a inspiração é como uma reza sincera. 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Somos rios, somos mar

Marchamos no 8M, por todo o Brasil, pelo mundo. Cada vez mais é necessário tomar as ruas diante das barbaridades crescentes contra meninas e mulheres. Às vezes - muitas vezes - bate um desânimo enorme diante de tudo o que temos visto acontecendo no mundo, contra mulheres, contra os minorizados politicamente, contra a paz, em favor de uma violência absurda. E ainda assim ganhamos flores aqui e ali e até presentes inúteis e baratos, peloamor, quando o que queremos não tem preço, não se pode tocar e é para sempre.
Ainda bem que, quando marchamos, vemos as águas se encontrando, formando um caudal, um mar imenso. E contra as águas, meu bem, repito aqui, não há obstáculo que lhes resista, como tudo aquilo que desejamos, que devemos tomar. Que sejamos, então, sempre água em movimento, fresca, abundante, destemida, vitalizadora. 

domingo, 1 de março de 2026

O pessoal, o público e a arte são políticos

Acompanhei nos últimos dias um debate intenso sobre identitarismo e decolonialidade nas redes. Claro que já tem rolado há algum tempo, sobretudo em ataques às identidades feitos pela extrema-direita. A novidade, porém, são as críticas virulentas vindas de intelectuais ligados à esquerda. 
Vladimir Safatle publicou um texto na Piauí fazendo uma crítica às teorias decoloniais, segundo ele muito ligadas aos teóricos dos países colonizadores. Pessoalmente, não vi como isso poderia desqualificar as teorias - não é possível se apropriar das anteriores e fazer a própria releitura, antropofagicamente, como sugeriria Oswald de Andrade? 
Na esteira de Safatle, Douglas Barros, que inicialmente me pareceu interessante por falar de identidades com Rita von Hunty - e que depois descobri ser um crítico do chamado identitarismo (termo usado pelos ultraconservadores), a respeito do qual ele lançou um livro -, saiu em ataque contra Nego Bispo e os originários em geral, que não têm, segundo ele, arcabouço teórico para discutir a realidade e propor soluções, ao contrário do marxismo. Gente!
Para lá e para cá pipocaram ataques e defesas de antidecoloniais e decoloniais, sobre quem consegue ou não fazer a crítica ao capitalismo, propor um novo estado de coisas. Interessante como esses autores, ao falarem de decolonialidade, nem citaram as lutas feministas, que buscam justamente unir a questão de luta de classes com gênero e raça, como fizeram as ativistas negras. Enquanto isso, a extrema-direita se regozija com as lutas internas dos progressistas, alguns deles tomados pelo desejo de reconhecimento e brilho, não há dúvida. O capitalismo faz muito bem seu trabalho (explorando o trabalho dos outros) há séculos. 
Daí assisti, por fim, a aula magna do Leandro Colling na USP Leste. Leandro é muito combativo, mas não incoerente. Ele se organiza para os debates; não é avesso à crítica em si, mas à violência que pode advir de uma crítica irresponsável. Ao final, sempre me pergunto, eu que nem tenho esse arcabouço teórico todo, por que é tão difícil se unir pela causa comum, que deveria ser a luta pela justiça social em uma sociedade tão diversa. E não quem tem mais seguidores, vende mais livros, vence o debate. 
É curioso como é mais simples que um artista consiga unir as pessoas em prol de uma causa, pelo menos na superfície. Bad Bunny, o trapper porto-riquenho que ganhou vários Grammys, tem botado a boca no trombone para criticar Trump e sua política anti-imigração. No evento mais visto dos Estados Unidos, o Super Bowl, ele apresentou em 13 minutos um videoclipe ao vivo, em plano-sequência, cantando em espanhol, com várias referências latino-americanas tão conhecidas nossas, e ainda chamou de América todos os países do continente, para desgosto dos estadunidenses conservadores. Genial!
Ele conseguiu fazer milhões no mundo se orgulharem de suas raízes latinas. Partiu da sua casita porto-riquenha e atingiu o universal, pelo menos latino-americano. A arte tornou público o pessoal. Uma fagulha, no mínimo, para incendiar os debates. No caso de Bad Bunny, sua especificidade não foi criticada; antes, atraiu milhões que cantaram com ele - em São Paulo, milhares lotaram o Alliance Park. 
No caso de Nego Bispo, das feministas e dos ativistas LGBT, porém, o embate é certo. Porque, nestes exemplos, o pessoal não é só público, como apregoava Carol Hanisch, como também, necessariamente, o que é público é político e o que é político é (ou deveria ser) público. Quando se rejeitam as identidades, as especificidades de grupos, perde-se o entendimento do que é coletivo, o que acontece também quando se põe o foco tão somente no que é específico, ora vejam! Todos perdemos na luta contra a desigualdade quando os aliados se afastam e se enfrentam. Quem ganha são sempre os mesmos donos do poder. 
Nesse sentido, a lição de Bad Bunny está além da bandeira da América Latina e da América de todos: ela mostra a potência da arte como água que invade espaços, dissolve barreiras e, quando menos se espera, está em toda parte. Pelo jeito, é por meio dela que se pode avançar mais na construção de direitos. Como a água, muitas vezes parece inofensiva, mas sua essência é sempre abrangente, desarmante e poderosamente transformadora. 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Fevereiro tem Carnaval

Pois, pois - por conta de trabalho, que bom, fiquei por aqui no Carnaval. Cris e Julio se hospedaram aqui, o que sempre é sinal de agito. Ainda por cima, terminaram de encher o congelador com comidinhas prontas - que eles nem tiveram tempo de comer, diga-se de passagem. 
Já tinha tido uma sorte tremenda, porque no ensaio do Cortejo Afro, a convite de Cris e na companhia de suas amigas do Batalá, duas semanas antes, houve participação do querido Saulo Fernandes. Quando fomos, no sábado de Carnaval, para a orla, lotada como nunca, estávamos já conformados com nossa pouca sorte quando fomos surpreendidos pela passagem do trio de Maga, nossa ministra da Cultura Margareth Menezes. Faraó pediu, a gente respondeu. 
No domingo, eu bem que tentei sair de pipoca ao lado do Cortejo Afro, que tinha cordas, mas o atraso enorme me fez voltar para casa. Porém, de novo, a sorte me sorriu e eu vi, graças ao mesmo atraso, a rainha Daniela Mercury e a lenda Armandinho. Puxa, como valeu ter saído de casa! 
Carnaval ainda é a festa mais democrática do Brasil, apesar da invasão das marcas patrocinadoras que só bancam as mega-atrações, puxando também os incentivos governamentais, o que escanteia os pequenos blocos, os grupos "originários", populares desde o nascimento. Apesar das cordas também - mas creio que metade dos grupos hoje libera a pipoca para o povo. 
Aliás, o trabalho dos cordeiros é um daqueles dinheiros muito, muito suados. Este ano, receberam 80 reais para segurar as cordas em torno dos trios, colocando para fora os penetras sem abadá ou pulseira. E o que dizer da corrida dos ambulantes em guardar lugar nas calçadas do circuito quase duas semanas antes do início do Carnaval? Crianças vêm junto com pais e mães, muitas vezes, pois não há com quem deixá-las. Mas, dentre as diversas ocupações geradas no Carnaval, a que mais me choca ao evidenciar desigualdades é a das escoltas feitas por seguranças para convidados VIP que querem chegar aos camarotes sem serem "importunados" pelo povo. No Carnaval. Uma festa po-pu-lar. Rapaz! 
Apesar de toda desigualdade e gentrificação, ainda fico com Simas, quando fala da inversão que ocorre na festa, quando os invisibilizados podem mostrar sua cara, sua dança, sua alegria. Atrás ou não do trio elétrico, vivos. Vivos.  

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Belo e maldito

Pouco depois que Wag foi embora, soube da passagem de Carvalho. Nós havíamos falado tanto dele! 
Paulinho, Cacá, Carvalhinho, Professor Carvalho. Desde meu primeiro momento no Anglo, seu sorriso e suas palavras doces me receberam. Mesmo não sendo do meu círculo mais íntimo, um amigo por quem sempre tive um imenso carinho e a quem sempre admirei, pela postura profissional e cordata, pela ética, pela inteligência rara, que mesclava a grande erudição filosófica e literária com a alma aberta ao outro mas avessa às injustiças de todo tipo. Rimbaud e Che Guevara numa mesma pele. Belo e maldito, aguerrido e terno. 
Continuamos nos seguindo nas redes, e acompanhei seu tratamento contra um linfoma, o cotidiano no campo, o amor pela filha, pelos amigos e pelos bichos, seus embates traduzidos em textos eruditos e poéticos. Até ser surpreendida pela partida abrupta. O coração, tão grande e vibrante, subitamente cessou todo movimento. 
Lembro de um comentário de Jonas, coordenador de matemática, acerca de uma calça estampada que eu usava - ele disse que parecia saída do guarda-roupa do Carvalho. Foi um elogio enorme para mim, ser comparada de alguma forma a ele, mestre de estilo no viver. Como tantos amigos saudaram, acertadamente, evoé, Carvalhinho! Siga fazendo arte entre as estrelas, brilhe entre elas como brilhou entre nós, querido.   

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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