Presto muita atenção a indicações do Celso Lima de livros, filmes e séries. São certeiras, sempre antecipadas por um texto deliciosa e criticamente bem escrito. Numa das últimas, ele veio com Half Man, série da HBO escrita por Richard Gadd, mesmo autor e protagonista da série Bebê Rena, sucesso da Netflix. Divide a cena com Gadd o ótimo Jamie Bell, prodígio de Billy Elliot (2000).
Traduzida no Brasil como Pela metade, a série mostra a relação tóxica de dois irmãos de criação, o valentão Reuben e o delicado nerd Niall. O título brasileiro serve como uma luva, porque o relacionamento dos dois é simbiótico, além de tóxico até a morte. O machismo está presente em todas as suas nuances: a violência masculinista, a misoginia, a homofobia (inclusive de Niall, que é homossexual), o desejo de dominação.
Assisti quase sem respirar, porque a violência extrema não está apenas nos socos descontrolados desferidos por Reuben, mas nas próprias histórias familiares e no modo como as personagens lidam com elas. É tudo muito real, e por isso mesmo desesperador. Porém, é necessário trazer à luz essa conversa sobre o mandato da masculinidade de que fala Rita Segato, como a ânsia por dominar o outro produz monstruosidades.
Como vivemos hoje uma crise estética, além de política (e econômica, e social etc.), fiquei pensando se isso não provocaria em incells e red pills um gozo de identificação, até mesmo de validação. Mas é um risco que, infelizmente, corremos ao tentar buscar formas de atravessar a tormenta sem nos perdermos e, de quebra, dar a mão a quem queira mudanças e não goza (ou não se deixa levar ao gozo) com a violência da cultura heteropatriarcal.




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