quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Acachapante, minha nova palavra favorita

Foram semanas de tensão, de dedos gastos no celular e no computador repostando, comentando, colocando emojis, produzindo cards, cumprindo missões, pesquisando no Google, comparecendo a manifestações quando possível. Mantendo o foco, não pensando demais na possibilidade de derrota, não me animando demais com a de vitória, um pouco desesperada de não ser rápida o suficiente para cumprir as tarefas do comandante Janones, esse fenômeno das redes que concentrou a briga iniciada nas ruas. Mas, secretamente, me alimentei do esperançar coletivo, o que me permitiu segurar a mão de pessoas queridas quando elas desacreditavam. 
E daí a virada aconteceu. A vitória foi ACACHAPANTE - há quanto tempo não ouvia essa palavra, e ela ressoou em toda parte, prenhe de sentido com o evento que parecia ter nascido para ela, a escolha de Lula, pela quarta vez, para presidente do Brasil. Esse Brasil que, para mim pelo menos, agora parece verdadeiramente um país, um povo, irmanado na luta pela liberdade e pela democracia, pela manutenção e ampliação de direitos. 
Devemos muito aos artistas, influenciadores, políticos, intelectuais, jornalistas independentes, atletas, anônimos que se posicionaram em favor da democracia. Devemos tudo não só aos jovens, que nos despertaram da letargia do primeiro turno e de tantos anos, lá de Niterói para todos os cantos - todos mesmo - do país, às mulheres, claro, normalmente mobilizadoras, aos povos ribeirinhos e indígenas, que enfrentaram toda sorte de dificuldade para votar, e, principalmente, às centenas de milhares de idosos com mais de 70 anos que foram exercer seu direito ao voto, chegando à menor abstenção de votos em vinte anos no Brasil. Eles, que não são mais obrigados a votar, chegaram sozinhos, carregados em cadeiras, no colo de netos, amparados por vizinhos - a melhor imagem de um exército do bem de todos os tempos (e reproduzo aqui algumas imagens emocionantes de jornais, como a icônica senhora vestindo vermelho e seguindo intrépida com seu andador). 
Foram muitos recordes: a maior votação de Lula, a maior votação do Nordeste, a maior virada de todos os tempos (a periferia de São Paulo deu a letra, que orgulho!), o maior evento democrático nas ruas do Brasil, o maior já registrado na Avenida Paulista. Lindo demais sorrir para desconhecidos nas manifestações, num misto de espanto e alegria, e nos reconhecermos como iguais. 
De novo, estive com queridos durante a apuração, os mesmos de quatro anos atrás, e gritamos, e pulamos, e cantamos com o anúncio da vitória. Foram 10 milhões de votos a mais no segundo turno, com uma diferença de 4,4 milhões de votos para o adversário (outro recorde). Acachapante, indiscutível. 
No outro dia, acordei com o corpo alquebrado. Moída, como se tivesse voltado do Pati. Porém, logo me lembrei de que não tinha acordado em um país fascista, que não tinha sonhado com a vitória, o que foi um tremendo alívio, um respiro para prosseguir na luta que, sabemos, será diária. E na cabeça ainda ressoa toda a playlist de músicas e hashtags produzidas nas eleições para que não esqueçamos que foi duro, foi difícil, foi por um triz, mas principalmente foi autêntico e transformador. Agora seguimos nos mobilizando coletivamente, com muitas pautas a defender.  

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Vida ao redor e a beleza das comunidades quilombolas

Como parte da programação do Coninter, houve uma visita a duas comunidades quilombolas na região da Baixa do Iguape, em Cachoeira, os quilombos de Dendê e de Kaonge. 
Que lindeza foi aprender sobre o fabrico de farinha, de azeite de dendê, de xarope de ervas, a criação de ostras, o samba de roda com pequenos que dançavam lindamente e nos tiravam para dançar! O que mais me encantou, porém, foram a alegria e a confiança de cada pessoa com quem conversamos. Muitos jovens, a maioria mulheres, universitárias, articuladíssimas. Orgulhosas de suas raízes. 
Foi a melhor forma de fechar um congresso que fala de trocas multiculturais, com todo mundo se enriquecendo. Gente vinda de vários cantos - Rio, Maranhão, Pará, Minas, Santa Catarina, Paraná, Salvador, São Paulo, Alagoas - disposta a aprender e a compartilhar experiências, uma riqueza imensa.


Eu vou à luta é com essa juventude

Como alguém pode não amar a democracia, para além dos privilégios? A democracia é que permite a festa e, como diz Luís Antonio Simas, festejamos para aguentar o rojão, talvez parafraseando Gonzaguinha. 
Estar com todo mundo que é tão diferente de mim, estar com os meus, isso é festa. Festa é a Primavera dos Estudantes, que conclamam a todos para marchar alegremente. Organizamos a raiva para defender a alegria. 


domingo, 18 de outubro de 2026

Dentro da vida universitária

Em meio às lutas pela democracia, lutamos pelo conhecimento dentro e fora da universidade, levando e trazendo saberes, reforçando a ponte entre a academia e toda a sociedade, porque é assim que tem que ser. Tive o privilégio de ver as queridíssimas do PPGNEIM compartilhando suas experiências no Fórum de Mobilidade Internacional - além da riqueza dos relatos, inclusive com eventuais dificuldades enfrentadas mas principalmente com muita troca cultural, a possibilidade de reencontrar cada uma delas, após alguns meses de fim de curso. No dia seguinte, apresentei, com algumas das colegas, uma comunicação sobre bordado e política no XV Coninter - Congresso Internacional Interdisciplinar em Sociais e Humanidades. No final de semana ainda teve visita a dois quilombos com a galera do Congresso, mas isso já é outro post, embora faça parte dessa riqueza toda de vivência na universidade e fora dela. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Nas ruas e nas redes, a defesa da democracia

Uma coisa linda e emocionante de ver é o movimento popular nas ruas, puxado principalmente pelos estudantes secundaristas e universitários. Não é a primeira vez que acontece, claro, e parece bem diferente dos anos 1960 e dos atos de 2013, porque a galera se mostra mais consciente da pluralidade do povo brasileiro e do que é preciso combater - o bolsonarismo, e não a direita, que foi engolida nos últimos oito anos pelo extremismo político. 
Já falei por aqui de pessoas queridas que preferem não votar, como se pudessem se eximir de qualquer responsabilidade com o resultado da eleição. Creio que são as que acreditam que o bolsonarismo é de direita, uma lástima. 
O bolsonarismo raiz, no entanto, captura para si as pessoas que reagem com violência aos opositores, sem qualquer chance de diálogo, até mesmo porque não têm proposta alguma - prova disso é a série de eventos criminosos nos últimos dias, com incêndios na UFPE, no estacionamento do SAMU em Salvador, em um teatro no Espírito Santo, em uma igreja católica em Santa Catarina, em reservas indígenas, destruição de imagens de Nossa Senhora, invasão do site da Ancine para ofender nordestinos, tiros disparados para o alto em passeata de estudantes em Sergipe. Perversos e violentos são os bolsonaristas convictos, intolerantes com tudo que não lhes diga respeito. Até no baixíssimo escalão de cooptados, como um professor querido da Federal, que nos ajudou muito em uma recuperação coletiva na disciplina de Desenho, veio fazer comentários ridículos em uma postagem minha no Facebook. Nada de debate, só ataque puro e simples.
Do lado progressista, as imagens falam por si. Famílias, diversidade, solidariedade, alegria para a luta. Agora sim, estamos em toda parte.  

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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