sábado, 10 de outubro de 2026

Poder, ganância e ressentimento na pauta do dia e da política

Fomos às urnas no dia 4, sabendo que essas eleições não seriam fáceis. No fim, um gosto amargo na boca: segundo turno com Tariflávio à frente de Lula. Congresso e Senado tomados pelo PL e outros partidos extremistas. 
Porém, o mais triste é pensar no que esses resultados representam em termos de escolha dos eleitores brasileiros, inclusive de algumas pessoas próximas. Duas pessoas queridas a quem enviei algumas postagens progressistas disseram que estavam muito decepcionadas com o novo governo, que era hora de "mudar", atribuindo a Lula a corrupção de tudo que está aí, esse impressionante, mas não inexplicável, fenômeno do antipetismo. 
Minha mãe, que diagnóstico sempre equivocado, com o classismo escondido em cada fala! E também esse olhar curto para a realidade, achando que não serão afetadas pelas "mudanças" - porque já têm casa própria, plano de saúde, estabilidade financeira, não pensam no efeito da volta à pobreza extrema e à fome de milhões de pessoas, como isso impacta a economia, a segurança, a pesquisa científica, as aposentadorias de todos, a oferta de vacinas e de medicamentos, leis que favorecem a todas as pessoas, independentemente da classe econômica, como a Maria da Penha, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a liberdade de fé religiosa e até mesmo o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do país! A cultura e a educação, então, nem se fala - grandes vítimas do governo do Bozo pai. 
Fiquei chateada, mas não surpresa. Porque isso é o que pensam milhões de brasileiros, ou por essa condição cômoda na sociedade, ou por se espelharem nos mais ricos, acreditando que um dia podem chegar "lá". Pior: muitos nem "pensam" assim, só reproduzem discursos, especialmente nesta era de domínio de redes sociais e analfabetismo político. Tenho pensado muito na ganância pelo poder e pelo dinheiro e como isso produz ressentimento em quem fica de fora e violências de toda sorte (inclusive de quem detém o poder e o dinheiro, até para manter um e outro). Muito a ver com o mandato da masculinidade teorizado por Rita Segato, mas também com o sucesso da empresa colonial, excludente e racista no Brasil. 
Um aprendizado, independentemente do resultado que teremos no segundo turno, é a de que os progressistas reais (não aqueles que combatem identidades) enfim estão descendo do salto para ouvir, sem querer ensinar ao outro como pensar, agir e votar. Parece mesmo que estamos chegando ao ponto de não retorno em tudo - talvez disso surja uma refundação, mas, como não temos certeza de nada, só nos resta agir enquanto é tempo de deter a barbárie, como têm feito os estudantes não só em todo o Brasil, mas ao redor do mundo, ao lado de trabalhadoras e trabalhadores. 
O mundo arde, literal e metaforicamente. Que esse fogo seja purificador, e não só destruição.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Modos de lutar

Nas ruas, nas redes, no teatro, na universidade, na festa, no encontro. Mais que nunca, organizar a raiva para defender a alegria. 

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Meio-homem, ou o horror da masculinidade heteropatriarcal

Presto muita atenção a indicações do Celso Lima de livros, filmes e séries. São certeiras, sempre antecipadas por um texto deliciosa e criticamente bem escrito. Numa das últimas, ele veio com Half Man, série da HBO escrita por Richard Gadd, mesmo autor e protagonista da série Bebê Rena, sucesso da Netflix. Divide a cena com Gadd o ótimo Jamie Bell, prodígio de Billy Elliot (2000). 
Traduzida no Brasil como Pela metade, a série mostra a relação tóxica de dois irmãos de criação, o valentão Reuben e o delicado nerd Niall. O título brasileiro serve como uma luva, porque o relacionamento dos dois é simbiótico, além de tóxico até a morte. O machismo está presente em todas as suas nuances: a violência masculinista, a misoginia, a homofobia (inclusive de Niall, que é homossexual), o desejo de dominação. 
Assisti quase sem respirar, porque a violência extrema não está apenas nos socos descontrolados desferidos por Reuben, mas nas próprias histórias familiares e no modo como as personagens lidam com elas. É tudo muito real, e por isso mesmo desesperador. Porém, é necessário trazer à luz essa conversa sobre o mandato da masculinidade de que fala Rita Segato, como a ânsia por dominar o outro produz monstruosidades. 
Como vivemos hoje uma crise estética, além de política (e econômica, e social etc.), fiquei pensando se isso não provocaria em incells e red pills um gozo de identificação, até mesmo de validação. Mas é um risco que, infelizmente, corremos ao tentar buscar formas de atravessar a tormenta sem nos perdermos e, de quebra, dar a mão a quem queira mudanças e não goza (ou não se deixa levar ao gozo) com a violência da cultura heteropatriarcal. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Miscelâneas

Estamos em um período muito louco, faz tempo, mas bastante piorado neste ano de eleições. A extrema-direita conta com ajuda do homem laranja para disseminar mentiras, para bagunçar o coreto, com denúncias e suspeitas minuciosamente selecionadas. Enquanto todos acompanhavam a sessão do STF, milhares se esqueciam do escândalo do Master diretamente ligado a Tariflávio e seus capangas. Precisamos urgentemente sair das redes sociais e ocupar mais as ruas, especialmente mulheres, pessoas negras e LGBT. E mesmo que tenhamos um resultado favorável à democracia, teremos de manter a atenção em tudo, nas cobranças por pautas coletivas e na defesa do Estado democrático de direito. Tempos loucos, louquíssimos, violentos, e somente a arte e a solidariedade para nos salvar. 
Sinto não só a urgência diante dos cataclismos sortidos como também que vou me desintegrando, e não só envelhecendo, a cada dia - sim, sinto na pele, quando acordo a cada manhã, e não apenas nas questões de saúde. Mas a alma segue jovial, apesar do sentido de desastre externo (do corpo e do mundo). E daí, após entregar uma proposta de projeto, vou dançar e cantar a plenos pulmões com uma multidão, na companhia de Liu, sucessos dos anos 80. Um texto enviado por Marise tratava disso, da nossa percepção de impermanência cada vez mais aguçada, que nos faz viver mais intensamente a partir deste ponto em que nos encontramos. 
Como disse, aqui e outras vezes, a arte nos salva do horror. Decalquei e desenhei camisetas das Operárias para as Thelmas, para nossa práxis político-artística nas eleições e além, e isso me alimenta. A práxis, sim, nos salva cotidianamente, e por isso comemoro dois artigos meus terem sido publicados na Revista Feminismos da UFBA, outro desafio de Vanessa que aceitei prontamente.  
Nessa mesma linha, da importância da ação e reflexão, especialmente nos dias de hoje, me inscrevi em um grupo de pesquisa de diálogos feministas, com a professora Patrícia Valim, também da UFBA, mulher porreta e engajada, historiadora como eu. Um grupo formado principalmente por jovens mulheres, já tão interessadas em mudar realidades, evoé, axé, amém.  
Me desintegro, mas a alma ainda canta.  

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Mulheridades

Fui assistir a uma apresentação de flamenco no Goethe, da impressionante cantaora Anna Colom, um escape depois de vários dias ainda me reorganizando após o fim de um PNLD caótico. Uma voz limpa, forte, bonita, acompanhada somente de guitarra flamenca, algo puro e emocionante. Ainda por cima, encontrei mis maestros Andrés, João Paulo e mi maestra Rita, ótimo para atualizar algumas notícias. 
Soube no mesmo dia que Lu Salgado estava em Salvador, em evento da universidade, e pedi a ela para nos encontrarmos, já que em SP é sempre uma epopeia. E não é que deu certo? Almoçamos pertinho e conversamos muito em quase 3 horas, a profundidade de sempre, como se o tempo não tivesse passado (fenômeno que ocorre sempre com gente querida). Tomamos o mesmo Uber e eu fiquei no Rio Vermelho enquanto ela seguia para o aeroporto. 
Na Escola Baiana de Arte e Moda, participei de uma oficina de bordado para iniciantes, coordenada por Sophia Buaiz. A ideia era ficar quatro horas sem celular. Para mim, que não participava de uma oficina desde 2017, foi fácil. Como é bom praticar! Minha Aracne ficou bem tosquinha, mas era o que dava para fazer com o tempo e o material disponíveis. O bom é reacender a vontade de fazer, de criar, e em grupo é muito estimulante - a força do coletivo.  

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Entre comemorar e lutar

Eita, que agosto acabou, já entrou setembro e daqui a pouco é Natal! Por aqui, foi um mês intenso, muito inspirador e criativo (ia dizer produtivo, mas não quero reduzir a riqueza do vivido a "produção"). 
Falo em criação porque recriei hábitos mais saudáveis, tirando do cardápio há quase um mês o café, o açúcar e o trigo, por conta de pré-diabetes e possível esofagite. O amado suco de laranja foi no mesmo bojo, e reduzi os lácteos, por conta da acidez mais que pela lactose. Nessa recriação, retomei a atividade física de fato, aumentando cargas, fazendo tudo direitinho. Exercitei meu senso de limites, descansando quando necessário, dizendo não sempre que foi preciso. Voltei a ir ver o mar. 
Também comemorei vitória de Nara, colega do PPGNEIM, defendendo sua dissertação ao lado de sua mainha, os 70 anos de Degas em linda festa organizada por Dani, cantei à beça fazendo faxina sob o olhar espantado de Zenzito, consegui finalizar um PNLD que teve muitas idas e vindas e atrasos e tocar outro trabalho, me inscrevi em processos de seleção e criei minha camiseta para as eleições, uma releitura feminista de Tarsila. 
Mais que o que acontece entre o nascer e o morrer, sinto, pelo menos hoje, que viver é o caminho feito entre o comemorar e o lutar. Vivamos, porque isso é bom. 


domingo, 9 de agosto de 2026

Gostinho de agosto


Agosto tem a fama de ser um mês muito longo, de ser o mês do desgosto. Discordo, ainda mais quando ele começa tão bem, com visita de enteado, teatro na Concha com o genial Gregório Duvivier e participação no excelente Olhares sobre Estudos Feministas, apresentando Roberta Scatolini e ouvindo-a falar sobre seu trabalho inspirador na área da educação. Começou bem demais esse agosto. 

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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