terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A culpa nunca foi dela

Assisti à tão falada série All Her Fault, no Prime Video, em dois dias. Na primeira metade, pensei que poderia ter dois episódios a menos (são oito no total). Também já sabia como ia terminar, quase não vi o restante. Mas persisti. 
E foi ótimo. Mesmo com algumas viradas rocambolescas, os plot twists que não podem faltar hoje, a mensagem-título é muito irônica e clara. O tempo todo as mulheres são culpabilizadas por todos, especialmente por seus companheiros, mas também por outras mulheres, quando há qualquer coisa que saia da rotina, das menores coisas até o desaparecimento de uma criança. Inclusive quando o desaparecimento está associado a uma mentira, a uma atitude masculina tomada anos antes. A união entre mulheres é que recoloca tudo nos trilhos de uma outra maneira, são elas que convencem umas às outras que a culpa nunca foi delas. Diante da incompetência masculina de um marido e o controle e toxicidade de outro, são elas que se apoiam mutuamente até mudar toda a situação. 
Como se trata de uma história com personagens brancas e prósperas, não pude deixar de pensar no tamanho da culpa que seria atribuída às mulheres de outras raças, classes sociais e tipos de feminilidade. Ainda mais tendo lido, enfim, o livro de Virginie Despentes, Teoria King Kong, que destrincha as armadilhas da feminilidade imposta pela heteronorma, e quase terminado o de Dahlia de la Cerda, Desde los zulos, que Marisa me trouxe do México e que discute a práxis feminista a partir dos "buracos", das brechas onde vivem as mulheres periféricas, não brancas, que não têm um "teto todo seu" para escrever o que quer que seja. 
Por maiores que sejam as diferenças entre as feministas das diferentes "ondas" e entre mulheres em geral, só me ocorre que apenas juntas, em meio às diversidades, é que conseguimos mudar as coisas. Admitindo privilégios e diferenças, acolhendo, ouvindo, tomando as ruas e os espaços, não assumindo responsabilidades alheias, rompendo com padrões a nós imputados. A culpa nunca foi delas, nem nossa.  

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Amizade que tece manhãs e histórias

Wagninho veio a trabalho para a Bahia e depois tratou de me honrar com sua companhia. Não nos víamos pessoalmente há quase quatro anos. Quanta história para colocar em dia! Falamos de alegrias e tristezas, passado, presente e futuros, tomamos muitos cafés e sorvetes, batemos perna por Salvador, uma Salvador menos turística, mais popular, negra e profunda a maior parte do tempo, tudo praticamente registrado por Wag. 
Teve exposição no Muncab com lindos trabalhos de artistas brasileiros e estadunidenses abordando a ancestralidade africana com os onipresentes Rubem Valentim e Mestre Didi, painéis de Carybé no Mafro, arroz de hauçá do Axego, sol forte no Pelourinho. Mais tarde, cantoria com Lívia, uma total desopilação com a turma sempre animada do Karaokê da Lapa e o sempre rabugento Jorge, que comanda o microfone - de bônus, o motorista que nos levou era apaixonado por Guilherme Arantes e pediu para ouvirmos as novas músicas. 
No dia seguinte, mesmo tendo dormido muito tarde, ainda fiz prova de proficiência do espanhol, antes de irmos à praia em Ondina mesmo e de encontrarmos em seguida com Guga para almoçar no Buddha Bistrô. Mais tarde, matamos o desejo de Wagninho por um acarajé na Dinha - e enfim tirei foto com Jorge (mais um Jorge) e Zélia. 
Finalizamos nosso encontro feliz na festa de São Lázaro, com missa afrobrasileira e o engajado padre Clóvis, que, criado em um terreiro dedicado a Ogum, pregou contra a desigualdade própria do capitalismo, conclamando à mudança, maravilhoso (e é pároco da única igreja de São Jorge em Salvador). Além do banho de cheiro, pipoca e folhas, fomos aspergidos mais três vezes antes, durante e depois da missa. Que coisa linda essa missa ao som de atabaques e presença das mães e filhas de santo! Para coroar, chuva de pétalas sobre nós, cura completa orquestrada por Obaluaê/São Lázaro. Ainda descobri que o tal bar A Boneca Cobiçada, na frente da paróquia, deve seu nome a uma música, um bolero sertanejo, e foi escolhido pelo avô do atual proprietário. Na volta, já em casa, fizemos um brunch com bolivianos, mingau de carimã (delicioso, que eu não conhecia), pão delícia com queijo reino da Apipão. E café, claro!
No meio dessa perfeição toda, adicionamos mais pontos e fios à tessitura de nossa amizade de mais de trinta anos.  

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Mais ferramentas para (re)começar a pintar

Amo pincéis desde sempre, e agora ganhei de Natal os pincéis com reservatório de água. Adorei - traço preciso, controle fácil. Na foto, coloquei-os com meus materiais de pintura, inclusive a tinta acrílica que me foi vendida como aquarela e tive preguiça de devolver (não havia a opção de troca após a venda errada, e deixei isso claro na minha avaliação do vendedor). Como me dou bem com tinta acrílica, resolvi ficar com ela. Acho que vai dar um bom samba nas ilustrações. 
Já bastante equipada, não tenho mais desculpas para não praticar. Ótimo. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Passeios de verão com amadinhos

Uma vantagem da chegada do calor é que os amigos se animam a vir a Salvador! Meus queridos Harley e Marisa voltaram aqui e nos encontramos com menos pressa que da última vez, que bom. Rolou muito papo e também visitas a lugares favoritos: Ribeira, para apresentar devidamente o sorvete homônimo, Bonfim, onde fomos diretamente aspergidas com nossas fitas pelo padre, e Santo Antônio Além do Carmo, com direito a finalmente almoçar no Ulisses, que é uma simpatia e tem equipe ótima, e oferece vista linda e feijoada deliciosa. Brindamos a Wagninho que logo menos estará aqui. Na volta, uma pequena aventura pela rua do Taboão, ainda bem que acompanhados de uma moça que ia para São Joaquim e foi nossa guia e salvo-conduto! 
Também pude conhecer a Casa de Oxumarê, onde fomos guiadas, eu e Má, na visita pelo simpaticíssimo Franklin, em meio a muito verde e paz, depois de nossos respectivos Ubers nos deixarem em outro ponto da Vasco da Gama.
Ainda fiz bolivianos para Marisa e Harley provarem, porque é desaforo vir a Salvador e não conhecer a iguaria, oxe! 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Orides, pássaros, silêncios e o não caber em si

Li em alguma postagem no Instagram que os diagnósticos de transtornos muitas vezes servem ao capitalismo e seus instrumentos - machismo, exploração do outro, violência etc. Assim é que classificar mulheres como histéricas, trabalhadores exaustos como preguiçosos, pessoas que não se enquadram como TDAH seria uma ferramenta para colocar todas e todos que não querem ser vistos como "anormais" a serviço do sistema. Faz sentido. 
Quando li isso, pensei logo em Orides Fontela. Acabo de preparar o texto de uma biografia sua. Fiquei consternada com a leitura. Orides parece dividida entre a necessidade de conter o próprio caos e o não caber em si. Cultiva o silêncio no templo zen e na poesia, mas não tem freios ao expressar seus desagrados. Parece indiferente ao desconforto que provoca, porém se ressente da crítica, venha de onde vier. Vejo-a lutando para sair de um casulo, talvez autoimposto, quem sabe? Não chegou a borboleta. Talvez por isso cante o vento, os pássaros, o mar, a liberdade que parece lhe fugir. 
É estranho, porque ela parece tão livre dos padrões, da normose (certamente, foi diagnosticada com alguma síndrome ou transtorno, talvez personalidade narcisista, ou borderline), e ao mesmo tempo busca a aprovação. Nunca se libertou da pobreza de origem, fala dela o tempo todo em entrevistas e conversas com amigos, usando-a muitas vezes como razão para seu não reconhecimento. Não duvido nada que isso seja uma razão - mulher, pobre, sem atrativos femininos clássicos -, mas me impressiona que não se tenha visto merecidamente o encantamento produzido por suas palavras certeiras, em romance com a filosofia. Como Drummond e João Cabral, mas ainda mais sucinta - talvez influência da cultura oriental, também um flerte com os haikais. 
Sua existência seria diferente se os papéis sociais, a normalidade não fossem tão arraigados? Mais fácil seria pensar que se ela não fosse estranha, se ela "gostasse" de trabalhar, se ela tivesse melhor aparência, se ela se contivesse - pouca diferença faria, porque seguiria mulher e pobre no mundo da fraternidade editorial, como vimos no caso recente de Vanessa Bárbara.
Entre tantos poemas - eu conhecia pouquíssimo da obra, um ou outro verso compartilhado por amigas poetas -, estes dois me falaram diretamente:
 

A onda
vem
do abismo mais
fundo

a onda
vem
e se
quebra: um
refundo

(a onda
dura
um mundo).


Errância

Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa da
procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

Margem de
erro: margem
de liberdade.


 Aplausos para você sempre, Orides, mestra de silêncios e voos. 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Roberto e o esgarçamento das relações

Na passagem do Ano-Novo, um rapaz e uma moça, supostamente amigos, foram se aventurar numa trilha montanhosa no Paraná. O rapaz, Roberto, aparentemente não tinha experiência com trilhas e foi deixado para trás, em algum momento, pela amiga, que continuou fazendo registros felizes da sua conquista em chegar ao topo, com as devidas fotos de amanhecer postadas no Instagram. Roberto logo foi dado como desaparecido pela família e a amiga publicou que a "aventura" completa logo seria postada nas redes (ela até então não conseguia abandonar o foco em si mesma, na "sua" experiência). Com a reação na internet de pessoas questionando como ela havia abandonado o amigo no caminho, ela disse simplesmente que tinha "errado", inclusive em fazer trilha com alguém que não tinha a vibe certa. Gente!
Para sorte de Roberto, ele conseguiu chegar a uma fazenda depois de quatro dias e 20 quilômetros andados. Perdeu os óculos no caminho. Provavelmente aprendeu que nem todo mundo é amigo, que precisamos saber quem está ao nosso lado (ou à frente) quando entramos em uma aventura, com todos os riscos inerentes a isso. Vale para todas as relações, mas no caso da amizade isso é uma condição sine qua non
Que bom que não aconteceu com ele o mesmo que aconteceu com Juliana, a moça brasileira abandonada pelo guia e que morreu na cratera de um vulcão. Claro que a amiga de Roberto não tinha obrigação de cuidar dele, como era o caso do guia de Juliana. Mas num e noutro caso é impossível não ver a mesma indiferença pelo outro, essa característica de uma sociedade cada vez mais individualista exacerbada com as redes sociais. Quase não há tempo de olhar para o outro porque muita gente só consegue olhar para seu reflexo na câmera do celular - antes olhasse para dentro de si, o que sempre é um ganho, individual e coletivo. 

sábado, 3 de janeiro de 2026

É assim que acaba - 2025

Eita, aninho arrastado! Acho feio, ingrato e injusto reclamar, porque houve muitas oportunidades em meio ao caos, mas que teve muita angústia junto, ah, isso teve. Além disso, se a senescência se mede por começar a tomar remédio, então ela chegou de vez.
Boto fé em 2026. Não vai ser nada fácil - muito fogo pela frente, em ano de eleições, ano do Cavalo de Fogo, de Ogum e Iansã, ano que começa com invasão à Venezuela por Trump. Porém, vejo que 2025 no mínimo nos instrumentalizou para o que vem. Que venha 2026, então, que o fogo já está ardendo em nós.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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