Agosto tem a fama de ser um mês muito longo, de ser o mês do desgosto. Discordo, ainda mais quando ele começa tão bem, com visita de enteado, teatro na Concha com o genial Gregório Duvivier e participação no excelente Olhares sobre Estudos Feministas, apresentando Roberta Scatolini e ouvindo-a falar sobre seu trabalho inspirador na área da educação. Começou bem demais esse agosto.
Nem guerê nem pipoca
domingo, 9 de agosto de 2026
Gostinho de agosto
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terça-feira, 4 de agosto de 2026
Ser aliada não é só diversão
É muito fácil apreciar a beleza do que cantoras e cantores, escritoras e escritores, atrizes e atores negros criam. Mesmo quando falam das dores da racialização, do preconceito cotidiano, do lugar que ocupam na sociedade, muita gente branca se sensibiliza. Mas muitas vezes passa rápido. Por que, afinal, o que é se aliar de verdade às lutas das pessoas subalternizadas? Claro, me coloco aqui como mulher não negra e não branca.
Por exemplo, fui com Liu e Igor assistir ao lindíssimo show de Lazzo Matumbi cantando a Bahia, com participação de Ravi, Rachel Reis e Baiana System (e me emocionei demais com a interpretação de "É d'Oxum"!). Quando Lazzo falou da população negra e sua luta, foi largamente ovacionado, como era de se esperar. Houve um momento, porém, em que falou da necessidade de as mulheres ocuparem os espaços, e bem menos gente que o esperado aplaudiu sua fala.
Justamente porque me preocupo com não ser antirracista de ocasião, fui com Liu, dias antes, assistir ao minidoc lançado pelo Instituto AzMina sobre a Marcha das Mulheres Negras em seu balanço de dez anos de movimento. Emocionante, e me espanta que não vejamos mais burburinho em Salvador. Eu era uma das poucas pessoas não negras no lugar, o que, de novo, era de se esperar - embora também seja um dado pouco animador. Onde estão as demais pessoas que as apoiam? Claro que não temos que "invadir" o território alheio, como quase sempre acontece, mas precisamos encontrar uma forma de nos mostrarmos ao lado das demais pessoas subalternizadas, e elas precisam saber disso, que somos ALIADAS.
A ideia não é só dançar e cantar juntas, mas também fazer parte da caminhada, única forma de conquistar um mundo mais justo. Manifestar-se é o primeiro passo, sempre.
terça-feira, 21 de julho de 2026
Vou festejar

Que delícia este julho de comemorações, entre tantas demandas!
O livro que ganhei de amiga-secreta de Bárbara inaugurou os presenteares em alto estilo, com Chimamanda. Em seguida, me presenteei com as tatoos muito significativas do colibri e das espadas com bichano, a partir de desenho meu, pelas mãos habilidosas de Jackie (que me chegou por João Paulo, mestre de cajón).
Teve a cantoria delícia com amigos de diversos cantos, com cantos diversos, na Lapa. E o povo todo festejou com a gente ao som de Beth Carvalho, um apogeu na vida.
Para nunca perder o costume, ponguei no aniversário de dona Amélia, com minha querida família do coração. Teve o melhor bolo de morango que já provei, para coroar os festejos.
Mas os maiores presentes, sem sombra de dúvida (e sem sombras em geral), são a presença e o agora. Com companhia e tempo de qualidade, festejar é inevitável.
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domingo, 19 de julho de 2026
Começo, meio, começo

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Fazia mais de vinte anos que eu não participava de um congresso, menos ainda de uma mesa. Pois, mesmo não fazendo (ainda) parte de um programa de pós-graduação, fui convidada a estar com mulheres admiráveis, com quem tenho convivido desde o ano passado.
Esse caminho de volta à universidade não tem sido fácil, meu eu do ano passado que o diga! Mas o acolhimento feminino tem sido fundamental no processo. Ter reiniciado a terapia também foi essencial para poder perceber a espiral de tempo, memórias e experiências, tomando de empréstimo a filosofia de Nego Bispo do começo-meio-começo. O livro infantil sobre Aracne, o amor pela arte na infância, o encantamento com o Chile de Neruda e Violeta, o mestrado em arte, a ida à foz do São Francisco e conhecer Pontos e Contos de Penedo, saber da luta do bispo Cappio, um dia acordar e começar a bordar, as oficinas com as irmãs Dumont, a mudança para a Bahia, o contato com as mulheres do semiárido baiano na especialização em história da alimentação, a mudança para Salvador ao lado da UFBA, ter bordado um vestido com o Opará e poder falar dele na apresentação, descobrir em meu caminho a Opará de águas agitadas, ter chegado ao PPGNEIM como aluna especial, redescobrir a arte como potência, ouvir mulheres falando de política e fazendo política no cotidiano, não se limitando ao que lhes é imposto. Como faz sentido a ilustra que fiz na pandemia, quando assistia a Lovecraft Country!
Essas sincronicidades não teriam qualquer sentido, porém, se eu não tivesse tido um tempo de silêncio em mim mesma, que me permitiu não só me ouvir e conhecer minhas limitações, mas ouvir às mulheres ao meu redor e crescer com elas. Ouvir e ressoar suas alegrias e dores, sentir o que nos une e nos distingue, pensar em como engrossar esse caudal revolucionário. Até mesmo o que não deu "certo" parece o mais acertado hoje. E eu agradeço e ressoo esse movimento em minhas águas.
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domingo, 5 de julho de 2026
Shakespeare com sotaque nordestino conclama à revolução
Julho começou com mais teatro, graças à deusa. Que bom que, quando bati os olhos na programação do CCBB ainda não inaugurado em Salvador (ele tem ocupado outros espaços culturais enquanto não abre as próprias portas), vi que Cão estava em cartaz e fui logo instigada pelo nome e pela resenha no Instagram. Ainda por cima, duas companhias teatrais nordestinas juntas conceberam a dramaturgia, assinada por Giordano Castro, da recifense Magiluth, e Paulo Yamamoto, da natalense Clowns de Shakespeare.
O resultado foram duas horas de risos, participação do público, torcida diante de uma encenação dinâmica, clownesca, política, inteligente, situadíssima e pautas trabalhistas, de classe e de gênero (desigualdade social, escala 6x1, jornada múltipla feminina, pajubá). Até Milei e seu cão-guru tiveram seu momento. Teve homenagem a outras obras, as mais evidentes como a perna cabeluda que muita gente conheceu em O agente secreto, as peças Coriolano e Auto da Compadecida (que provocou clamor) e as menos óbvias, como Ataque dos cães (não sei se proposital ou não).
A plateia do ótimo Cineteatro 2 de Julho estava repleta de jovens, estimulados por professores, presentes ou não. As perguntas mais interessantes, no bate-papo após o espetáculo, vieram deles. Contudo, a fala mais emocionante foi a de uma mulher que disse ter retomado aos 61 anos o sonho de fazer teatro e agora via o filho se formando em teatro na UFBA.
Os sonhos de uma noite de verão trouxeram uma manhã de ares revolucionários. O resto, meu caro bardo, é música.
E se Beckett encontrasse Freire?
Fui ver, no final de junho (que já acabou, diosa!), Fim de partida, com Marco Nanini e Guilherme Weber. Os ingressos esgotaram rapidamente, mas consegui para o domingo. Para o espaço da Caixa, reduziram bastante o palco (como mostra a imagem da montagem com Lineu Dias, dos anos 1990).
Não sou especialista em Beckett, mas amo os três textos que conheço do autor. Vi duas montagens de Esperando Godot e duas de Fim de jogo (ou de partida), uma delas sendo essa com Nanini e Weber. Nunca vi montagem de Dias felizes, somente li a peça. As três me levam a esse lugar onde a esperança luta desesperadamente para não sucumbir no vazio, que só não se instalou completamente porque ainda há vida, simbolizada nos duplos de cada texto. Tantas vezes na vida, a esperança-espera parece não ter razão de ser, como quem aguarda Godot sem se perguntar por quê - mas seguimos esperançando, para usar o verbo de mestre Paulo Freire.
Embora as falas de Fim de partida/jogo produzam ainda mais desconforto que as de Godot em uma relação de abuso e dependência, e Winnie pareça se negar a ver o que está diante de si e só enxergue/lembre os "belos dias", fico pensando se Beckett era realmente um desesperançado, se queria mostrar o ridículo da esperança, como mais uma "tradição inventada", um cacoete humano, o total absurdo, ou se, no fundo, lá no fundo, não quisesse nos deixar ver que a humanidade é justamente feita dessa matéria teimosamente à deriva que é a esperança.
Gostaria de vê-lo se encontrando com Freire, talvez cochichando com o pernambucano que "somente assim veriam a verdade", pois é preciso, parafraseando outro mestre, um gaúcho, mostrar-lhes "tudo de novo". E esses dois, dessa vez, sorririam um pro outro.
quinta-feira, 18 de junho de 2026
Junho comunicativo
Por fim, saiu meu texto escrito em março, na disciplina de Feminismos digitais, com Vanessa. Ela, sempre a nos estimular/desafiar, generosamente cedeu seu espaço na coluna do jornal A Tarde para publicarmos. É tão bom ver nosso texto impresso, tornado realidade! Ainda mais saindo na capa quase ao lado do Messi, imagine. Vamos avançando os dois, ainda que com velocidades e metas bem variadas.
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Tudo de bão
Cabeceira
- "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
- "Geografia da fome", de Josué de Castro
- "A metamorfose", de Franz Kafka
- "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
- "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
- "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
- "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
- "O estrangeiro", de Albert Camus
- "Campo geral", de João Guimarães Rosa
- "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
- "Sagarana", de João Guimarães Rosa
- "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
- "A outra volta do parafuso", de Henry James
- "O processo", de Franz Kafka
- "Esperando Godot", de Samuel Beckett
- "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
- "Amphytrion", de Ignácio Padilla


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