Fomos às urnas no dia 4, sabendo que essas eleições não seriam fáceis. No fim, um gosto amargo na boca: segundo turno com Tariflávio à frente de Lula. Congresso e Senado tomados pelo PL e outros partidos extremistas.
Porém, o mais triste é pensar no que esses resultados representam em termos de escolha dos eleitores brasileiros, inclusive de algumas pessoas próximas. Duas pessoas queridas a quem enviei algumas postagens progressistas disseram que estavam muito decepcionadas com o novo governo, que era hora de "mudar", atribuindo a Lula a corrupção de tudo que está aí, esse impressionante, mas não inexplicável, fenômeno do antipetismo.
Minha mãe, que diagnóstico sempre equivocado, com o classismo escondido em cada fala! E também esse olhar curto para a realidade, achando que não serão afetadas pelas "mudanças" - porque já têm casa própria, plano de saúde, estabilidade financeira, não pensam no efeito da volta à pobreza extrema e à fome de milhões de pessoas, como isso impacta a economia, a segurança, a pesquisa científica, as aposentadorias de todos, a oferta de vacinas e de medicamentos, leis que favorecem a todas as pessoas, independentemente da classe econômica, como a Maria da Penha, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a liberdade de fé religiosa e até mesmo o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do país! A cultura e a educação, então, nem se fala - grandes vítimas do governo do Bozo pai.
Fiquei chateada, mas não surpresa. Porque isso é o que pensam milhões de brasileiros, ou por essa condição cômoda na sociedade, ou por se espelharem nos mais ricos, acreditando que um dia podem chegar "lá". Pior: muitos nem "pensam" assim, só reproduzem discursos, especialmente nesta era de domínio de redes sociais e analfabetismo político. Tenho pensado muito na ganância pelo poder e pelo dinheiro e como isso produz ressentimento em quem fica de fora e violências de toda sorte (inclusive de quem detém o poder e o dinheiro, até para manter um e outro). Muito a ver com o mandato da masculinidade teorizado por Rita Segato, mas também com o sucesso da empresa colonial, excludente e racista no Brasil.
Um aprendizado, independentemente do resultado que teremos no segundo turno, é a de que os progressistas reais (não aqueles que combatem identidades) enfim estão descendo do salto para ouvir, sem querer ensinar ao outro como pensar, agir e votar. Parece mesmo que estamos chegando ao ponto de não retorno em tudo - talvez disso surja uma refundação, mas, como não temos certeza de nada, só nos resta agir enquanto é tempo de deter a barbárie, como têm feito os estudantes não só em todo o Brasil, mas ao redor do mundo, ao lado de trabalhadoras e trabalhadores.
O mundo arde, literal e metaforicamente. Que esse fogo seja purificador, e não só destruição.




















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