quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Meio-homem, ou o horror da masculinidade heteropatriarcal

Presto muita atenção a indicações do Celso Lima de livros, filmes e séries. São certeiras, sempre antecipadas por um texto deliciosa e criticamente bem escrito. Numa das últimas, ele veio com Half Man, série da HBO escrita por Richard Gadd, mesmo autor e protagonista da série Bebê Rena, sucesso da Netflix. Divide a cena com Gadd o ótimo Jamie Bell, prodígio de Billy Elliot (2000). 
Traduzida no Brasil como Pela metade, a série mostra a relação tóxica de dois irmãos de criação, o valentão Reuben e o delicado nerd Niall. O título brasileiro serve como uma luva, porque o relacionamento dos dois é simbiótico, além de tóxico até a morte. O machismo está presente em todas as suas nuances: a violência masculinista, a misoginia, a homofobia (inclusive de Niall, que é homossexual), o desejo de dominação. 
Assisti quase sem respirar, porque a violência extrema não está apenas nos socos descontrolados desferidos por Reuben, mas nas próprias histórias familiares e no modo como as personagens lidam com elas. É tudo muito real, e por isso mesmo desesperador. Porém, é necessário trazer à luz essa conversa sobre o mandato da masculinidade de que fala Rita Segato, como a ânsia por dominar o outro produz monstruosidades. 
Como vivemos hoje uma crise estética, além de política (e econômica, e social etc.), fiquei pensando se isso não provocaria em incells e red pills um gozo de identificação, até mesmo de validação. Mas é um risco que, infelizmente, corremos ao tentar buscar formas de atravessar a tormenta sem nos perdermos e, de quebra, dar a mão a quem queira mudanças e não goza (ou não se deixa levar ao gozo) com a violência da cultura heteropatriarcal. 

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Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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