Foram semanas de tensão, de dedos gastos no celular e no computador repostando, comentando, colocando emojis, produzindo cards, cumprindo missões, pesquisando no Google, comparecendo a manifestações quando possível. Mantendo o foco, não pensando demais na possibilidade de derrota, não me animando demais com a de vitória, um pouco desesperada de não ser rápida o suficiente para cumprir as tarefas do comandante Janones, esse fenômeno das redes que concentrou a briga iniciada nas ruas. Mas, secretamente, me alimentei do esperançar coletivo, o que me permitiu segurar a mão de pessoas queridas quando elas desacreditavam.
E daí a virada aconteceu. A vitória foi ACACHAPANTE - há quanto tempo não ouvia essa palavra, e ela ressoou em toda parte, prenhe de sentido com o evento que parecia ter nascido para ela, a escolha de Lula, pela quarta vez, para presidente do Brasil. Esse Brasil que, para mim pelo menos, agora parece verdadeiramente um país, um povo, irmanado na luta pela liberdade e pela democracia, pela manutenção e ampliação de direitos.
Devemos muito aos artistas, influenciadores, políticos, intelectuais, jornalistas independentes, atletas, anônimos que se posicionaram em favor da democracia. Devemos tudo não só aos jovens, que nos despertaram da letargia do primeiro turno e de tantos anos, lá de Niterói para todos os cantos - todos mesmo - do país, às mulheres, claro, normalmente mobilizadoras, aos povos ribeirinhos e indígenas, que enfrentaram toda sorte de dificuldade para votar, e, principalmente, às centenas de milhares de idosos com mais de 70 anos que foram exercer seu direito ao voto, chegando à menor abstenção de votos em vinte anos no Brasil. Eles, que não são mais obrigados a votar, chegaram sozinhos, carregados em cadeiras, no colo de netos, amparados por vizinhos - a melhor imagem de um exército do bem de todos os tempos (e reproduzo aqui algumas imagens emocionantes de jornais, como a icônica senhora vestindo vermelho e seguindo intrépida com seu andador).
Foram muitos recordes: a maior votação de Lula, a maior votação do Nordeste, a maior virada de todos os tempos (a periferia de São Paulo deu a letra, que orgulho!), o maior evento democrático nas ruas do Brasil, o maior já registrado na Avenida Paulista. Lindo demais sorrir para desconhecidos nas manifestações, num misto de espanto e alegria, e nos reconhecermos como iguais.
De novo, estive com queridos durante a apuração, os mesmos de quatro anos atrás, e gritamos, e pulamos, e cantamos com o anúncio da vitória. Foram 10 milhões de votos a mais no segundo turno, com uma diferença de 4,4 milhões de votos para o adversário (outro recorde). Acachapante, indiscutível.
No outro dia, acordei com o corpo alquebrado. Moída, como se tivesse voltado do Pati. Porém, logo me lembrei de que não tinha acordado em um país fascista, que não tinha sonhado com a vitória, o que foi um tremendo alívio, um respiro para prosseguir na luta que, sabemos, será diária. E na cabeça ainda ressoa toda a playlist de músicas e hashtags produzidas nas eleições para que não esqueçamos que foi duro, foi difícil, foi por um triz, mas principalmente foi autêntico e transformador. Agora seguimos nos mobilizando coletivamente, com muitas pautas a defender.



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