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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A revolução será feminista, ou não será

Com o verdadeiro tsunami de feminicídios no país neste final de ano, logo milhares de mulheres se organizaram no Levante Mulheres Vivas. Ao primeiro indício de organização, fui perguntar nos grupos de que faço parte, ligados à universidade, se íamos participar do movimento. Cri-cri-cri. Depois perguntei no perfil das Juristas Negras e no grupo Tamo Juntas, que respondeu que estava havendo um grupo oficial, o do Levante, do qual, a essas alturas, eu já fazia parte. Entrei primeiro no nacional, depois encontrei o de Salvador. Na primeira reunião, só seis participantes. Sandra Munhoz, da Casa Mariele Franco Brasil, no Campo Grande, levou na unha a organização, quase sem apoio político e financeiro. 
Teve treta porque fizemos uma semana depois do nacional, em função de feriados e também por uma informação dada num dia e alterada em outro. Teve treta com o grupo de homens que queria que nos juntássemos ao ato contra a anistia a golpistas, a PL da dosimetria. Embora um ou outro defendesse que o protagonismo fosse todo das mulheres, não se chegou a um consenso - e foi incrível ver, pela primeira vez, homens tendo sua demanda negada. Um aprendizado para os dois lados, me pareceu - para quem ainda está no chão da fábrica e para quem ainda domina os debates. 
No dia 14, fomos para o morro do Cristo pela manhã. Algumas pessoas do ato contra a anistia, que sairia em seguida ao das mulheres, já estavam lá. Encontrei colegas do PPGNEIM lá, mas éramos poucas. Liu se juntou a nós e fomos marchar, algo que sempre renova as esperanças. 
Mas é importante dizer que, embora uma das pautas do Levante fosse a criminalização da misoginia, não acredito que o mero punitivismo vá resolver nada - prova disso é que o aumento da pena para feminicídios não reduziu a quantidade de crimes. Enquanto não houver mais mulheres na política, cobrança de medidas reais de proteção às mulheres e educação ampla da sociedade para que todas e todos enxerguem os meandros da misoginia e os homens se tornem aliados de fato, milhares de mulheres continuarão sendo vítimas da violência do sistema patriarcal. Os homens, por extensão, também - não é a vida que perdem, mas o próprio sentido de ser, apenas reproduzindo um modelo de masculinidade essencialmente violenta. 


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Heatcliffs e as mulheres

Outro dia, vi um anúncio da nova versão cinematográfica de O morro dos ventos uivantes, de Emily Brönte (aliás, li há pouco o livro de Rosa Montero, Nós, mulheres, que fala de diversas mulheres históricas, entre elas as melancólicas e criativas irmãs Brönte). 
Li o livro de Emily Brönte ainda meninota e ele também foi responsável por me fazer acreditar que amores de verdade eram dolorosos. Pelo jeito, a diretora da nova versão em filme, Emerald Fennell, também acredita nisso, ao dizer que se trata "da maior história de amor de todos os tempos". 
Hoje, tantos anos depois, com o distanciamento necessário e em plena semana de organização do Levante Mulheres Vivas, contra a epidemia de feminicídios no Brasil (mulheres espancadas, mutiladas, queimadas, mortas a tiros em diversas cidades), parece irônico que esse tipo de comportamento masculino, totalmente tóxico, abusivo, obsessivo, violento, possa ser considerado amoroso. 
Mesmo com um homem lindo como Jacob Elordi (antes dele, Lawrence Olivier, Ralph Fiennes, Tom Hardy - aliás, todos brancos, bem diferentes da personagem criada por Brönte, que o descreve como cigano, de pele escura) é um desserviço (re)vender essa ficção como modelo de relacionamento (amor além da morte, cruz credo!). Também é um desserviço tirar da história o racismo e o classismo evidentes - o que não justifica, embora explique em parte a violência masculina.
A realidade grita nas ruas algo muito diferente desse modelo de "amor". Nós, mulheres, gritamos em resposta pela nossa liberdade e pelo nosso direito de viver. 

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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