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domingo, 5 de julho de 2026

E se Beckett encontrasse Freire?

Fui ver, no final de junho (que já acabou, diosa!), Fim de partida, com Marco Nanini e Guilherme Weber. Os ingressos esgotaram rapidamente, mas consegui para o domingo. Para o espaço da Caixa, reduziram bastante o palco (como mostra a imagem da montagem com Lineu Dias, dos anos 1990). 
Não sou especialista em Beckett, mas amo os três textos que conheço do autor. Vi duas montagens de Esperando Godot e duas de Fim de jogo (ou de partida), uma delas sendo essa com Nanini e Weber. Nunca vi montagem de Dias felizes, somente li a peça. As três me levam a esse lugar onde a esperança luta desesperadamente para não sucumbir no vazio, que só não se instalou completamente porque ainda há vida, simbolizada nos duplos de cada texto. Tantas vezes na vida, a esperança-espera parece não ter razão de ser, como quem aguarda Godot sem se perguntar por quê - mas seguimos esperançando, para usar o verbo de mestre Paulo Freire.
Embora as falas de Fim de partida/jogo produzam ainda mais desconforto que as de Godot em uma relação de abuso e dependência, e Winnie pareça se negar a ver o que está diante de si e só enxergue/lembre os "belos dias", fico pensando se Beckett era realmente um desesperançado, se queria mostrar o ridículo da esperança, como mais uma "tradição inventada", um cacoete humano, o total absurdo, ou se, no fundo, lá no fundo, não quisesse nos deixar ver que a humanidade é justamente feita dessa matéria teimosamente à deriva que é a esperança. 
Gostaria de vê-lo se encontrando com Freire, talvez cochichando com o pernambucano que "somente assim veriam a verdade", pois é preciso, parafraseando outro mestre, um gaúcho, mostrar-lhes "tudo de novo".  E esses dois, dessa vez, sorririam um pro outro. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Orides, pássaros, silêncios e o não caber em si

Li em alguma postagem no Instagram que os diagnósticos de transtornos muitas vezes servem ao capitalismo e seus instrumentos - machismo, exploração do outro, violência etc. Assim é que classificar mulheres como histéricas, trabalhadores exaustos como preguiçosos, pessoas que não se enquadram como TDAH seria uma ferramenta para colocar todas e todos que não querem ser vistos como "anormais" a serviço do sistema. Faz sentido. 
Quando li isso, pensei logo em Orides Fontela. Acabo de preparar o texto de uma biografia sua. Fiquei consternada com a leitura. Orides parece dividida entre a necessidade de conter o próprio caos e o não caber em si. Cultiva o silêncio no templo zen e na poesia, mas não tem freios ao expressar seus desagrados. Parece indiferente ao desconforto que provoca, porém se ressente da crítica, venha de onde vier. Vejo-a lutando para sair de um casulo, talvez autoimposto, quem sabe? Não chegou a borboleta. Talvez por isso cante o vento, os pássaros, o mar, a liberdade que parece lhe fugir. 
É estranho, porque ela parece tão livre dos padrões, da normose (certamente, foi diagnosticada com alguma síndrome ou transtorno, talvez personalidade narcisista, ou borderline), e ao mesmo tempo busca a aprovação. Nunca se libertou da pobreza de origem, fala dela o tempo todo em entrevistas e conversas com amigos, usando-a muitas vezes como razão para seu não reconhecimento. Não duvido nada que isso seja uma razão - mulher, pobre, sem atrativos femininos clássicos -, mas me impressiona que não se tenha visto merecidamente o encantamento produzido por suas palavras certeiras, em romance com a filosofia. Como Drummond e João Cabral, mas ainda mais sucinta - talvez influência da cultura oriental, também um flerte com os haikais. 
Sua existência seria diferente se os papéis sociais, a normalidade não fossem tão arraigados? Mais fácil seria pensar que se ela não fosse estranha, se ela "gostasse" de trabalhar, se ela tivesse melhor aparência, se ela se contivesse - pouca diferença faria, porque seguiria mulher e pobre no mundo da fraternidade editorial, como vimos no caso recente de Vanessa Bárbara.
Entre tantos poemas - eu conhecia pouquíssimo da obra, um ou outro verso compartilhado por amigas poetas -, estes dois me falaram diretamente:
 

A onda
vem
do abismo mais
fundo

a onda
vem
e se
quebra: um
refundo

(a onda
dura
um mundo).


Errância

Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa da
procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

Margem de
erro: margem
de liberdade.


 Aplausos para você sempre, Orides, mestra de silêncios e voos. 

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Um refresco em meio a um mês conturbado

Estamos na metade de dezembro e já se pode dizer que este foi o mês mais conturbado do ano em termos de variedade de notícias tenebrosas. Um pico de feminicídios, Câmara e Senado atentando sem trégua contra nossos direitos, eventos climáticos extremos, ascensão da extrema-direita na América Latina, escalada de conflitos internos e externos pelo mundo. 
Mas alguns refrescos acontecem aqui e ali. No início de mês, Lavínia Dias, nossa colega de espanhol, lançou seu primeiro livro de poemas, Caderno vermelho sangue, pela prestigiada Editora Patuá. Tenho a satisfação de ter lido alguns antes do prelo e indicado o contato do Edu para Lavínia, e o resultado aí está, nós, sorridentes, prestigiando a querida caçula da turma, em pleno dia de Santa Bárbara (quase todos de vermelho, cor de Iansã e do livro de Lavínia). Que bons ventos espalhem força e poesia entre nós.  

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Heatcliffs e as mulheres

Outro dia, vi um anúncio da nova versão cinematográfica de O morro dos ventos uivantes, de Emily Brönte (aliás, li há pouco o livro de Rosa Montero, Nós, mulheres, que fala de diversas mulheres históricas, entre elas as melancólicas e criativas irmãs Brönte). 
Li o livro de Emily Brönte ainda meninota e ele também foi responsável por me fazer acreditar que amores de verdade eram dolorosos. Pelo jeito, a diretora da nova versão em filme, Emerald Fennell, também acredita nisso, ao dizer que se trata "da maior história de amor de todos os tempos". 
Hoje, tantos anos depois, com o distanciamento necessário e em plena semana de organização do Levante Mulheres Vivas, contra a epidemia de feminicídios no Brasil (mulheres espancadas, mutiladas, queimadas, mortas a tiros em diversas cidades), parece irônico que esse tipo de comportamento masculino, totalmente tóxico, abusivo, obsessivo, violento, possa ser considerado amoroso. 
Mesmo com um homem lindo como Jacob Elordi (antes dele, Lawrence Olivier, Ralph Fiennes, Tom Hardy - aliás, todos brancos, bem diferentes da personagem criada por Brönte, que o descreve como cigano, de pele escura) é um desserviço (re)vender essa ficção como modelo de relacionamento (amor além da morte, cruz credo!). Também é um desserviço tirar da história o racismo e o classismo evidentes - o que não justifica, embora explique em parte a violência masculina.
A realidade grita nas ruas algo muito diferente desse modelo de "amor". Nós, mulheres, gritamos em resposta pela nossa liberdade e pelo nosso direito de viver. 

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Livros "de mulher"?

Outro dia, vi que a PUC-RS, onde fiz meu curso de gastronomia lato sensu, estava oferecendo um minicurso do Luiz Antonio Assis Brasil de escrita literária. Oba, pensei, mais um curso para ir afinando ideias, ainda mais de um professor desse quilate, e tal. Também ganhei de Guga o livro do renomado professor, Escrever ficção, para incrementar minhas leituras, junto com Francine Prose, Daniel Pennac, James Wood. Um brasileiro, ora.
Maravilha, comecei o curso, um pouco lento no início (gosto mais do livro, já sei), mas a coisa foi se constituindo. No outro dia, ao prosseguir na plataforma, selecionei uma aula mais à frente, sem querer, e tive um choque com os comentários feitos pelo professor sobre a literatura atual. Ele disse, num tom despeitado, que tudo hoje é sobre gerações de mulheres, histórias de abuso e homens enfraquecidos. Que "está na moda". Epa. 
Interessante é que ele, para dar um exemplo de uma grande obra, tenha citado O tempo e o vento, que, ora vejam, tem gerações de mulheres, histórias de abusos e alguns homens enfraquecidos - embora conte com as presenças dos heróis fundantes do Rio Grande do Sul, reais e imaginários. 
Comentei isso com Guga, e ele disse que só tem visto livros de mulheres, pouco encontrando autores homens. Tenho certeza de que não, de que o que acontece é que ele nunca tinha visto tantas mulheres escrevendo e ganhando destaque. Prova disso é o que a Flip mostrou este ano - muitas mesas com mulheres. E aqui volto ao comentário ranzinza de Assis Brasil.
Algumas das autoras da Flip (que são só uma gota no oceano, claro) realmente falam em seus livros sobre abuso, de vários tipos. Provavelmente, porque não integram somente suas experiências, mas a da maioria das mulheres. Falar de outras gerações é uma ferramenta para entender a sua situação no mundo, o "estado das coisas" - até porque muitas delas se repetem para as mulheres. E quando essa "revisão" acontece, os homens ainda presos ao machismo, reais ou não, perdem força. Como Assis Brasil gosta de repetir, "simples assim". 
Eu já me perguntei se haverá um dia em que as escritoras e os escritores negros possam se livrar da experiência de racismo e deixar de falar dela. Nem todas e todos falam, é claro. Mas um número suficiente o faz, a ponto de chamar a atenção de alguém que não sofre racismo da mesma forma - e isso é fundamental. O mesmo pode ser dito das mulheres de todas as raças e classes - nem todas falam de abuso, mas várias falam, enquanto quase autor homem (branco) nenhum menciona esse tipo de acontecimento. Aliás, homens brancos bem nascidos parecem muito mais livres para abstrair, até fabular. Ao restante da humanidade, sobra a realidade, em matizes de dureza associados a gênero, raça e classe social. 
O efeito que se deseja nesses livros "de mulher" é justamente o de choque de realidade em quem não vive essa realidade mais dura. Que mais pessoas possam ecoar o que disse, sabiamente, Jamil Chade no encontro com as Juristas Negras: que ele não irá mais participar de mesas em que não haja mulheres, sobretudo mulheres negras. Nós, mulheres, não esperamos menos que isso. 

terça-feira, 11 de março de 2025

Pelo amor do livro!

Emprestei um livro e ele voltou desbeiçado, a película da capa descolada e parcialmente arrancada de modo displicente, como eu ainda não tinha visto acontecer entre os meus. Provavelmente vou restaurá-lo. Porém, fiquei espantada com o desamor pelo objeto. Claro que um livro amado nem sempre fica inteiro, às vezes tem marcas da leitura, anotações, até manchas de café e tal, como hematomas, sinais da paixão (talvez abusiva?) que desperta. Acidentes podem acontecer? Com certeza. Mas o mínimo que se espera é um aviso a respeito. Ou não? Só sei que este foi tão somente devolvido, sem grandes comentários acerca do conteúdo, nenhum a respeito do estado atual, objeto puro e simples. Voltou roto sem sequer ter despertado qualquer paixão. Mais parece que foi lido por "estar na moda".
Sei que estou ficando mais chata e menos tolerante com a idade. Não que eu fosse zen, isso nunca fui. É que eu amo livros, tenho respeito por eles, não são um simples objeto para mim. Ainda pretendo ter um novo projeto de leitura - mas, para que mais pessoas possam ler, é preciso cuidar bem dos livros. Circularidade sim, simples descarte não - para tudo na vida.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Alice Munro, Virginia Woolf e Mary Oliver

Há uns quatro anos topei com As luas de Júpiter na Livraria Cultura. Gostei do título, não conhecia nada da canadense Alice Munro (que nos deixou este ano), embora o nome não me soasse estranho. Mas foi só há dois anos que fui atrás do título pelo Kindle. Comecei a ler muito tempo depois, e parei. Retomei o ano passado, achando, por algum motivo, que tinha relação com a inglesa Virginia Woolf, cujo Um teto todo seu eu tinha acabado de ler.
Talvez a única relação com Woolf tenha sido a de um conto, "Dulse", tratar justamente de uma editora, uma quase poeta. Aliás, conto dolorido em vários aspectos - a mulher desajeitada de si mesma, querendo caber no universo de um homem que ela nem sabe se é essa cocada toda etc. Talvez esse malajambramento é que tenha me remetido a Woolf, que defende em Um teto todo seu que a mulher tenha autonomia, que tenha direito a um espaço tranquilo para desenvolver seus talentos, sem ficar presa à rotina de cuidados imposta pelo patriarcado. Virginia, tão à frente do seu tempo, vista apenas como louca por muita gente - aliás, fui ver a montagem de Claudia Abreu com texto escrito pela atriz; talvez, para quem não sabe muito de Virginia Woolf, tenha ficado só a impressão de que foi uma escritora suicida, que não batia bem dos pinos. 
Na forma muito diferente de Woolf e Munro, a poesia da norte-americana Mary Oliver também me chegou outro dia, já não sei por que vias. Oliver se inspira muito na natureza, nos ciclos naturais, num certo apaziguamento diante da vida quando integrada à natureza. Mas vejo-a em perfeito diálogo com as outras duas, talvez aconselhando-as em suas aflições, apoiando-as em suas decisões. Dizendo a Woolf que tudo vai ficar bem, ajudando a personagem de Munro a se reconectar consigo. Como no poema "The Journey", que me atrevi a traduzir e que veio até mim na forma de um clarão (como a maioria das coisas que importam):

Um dia, você enfim soube

o que tinha que fazer, e começou

embora as vozes ao seu redor

continuassem gritando

seus maus conselhos

embora a casa toda

começasse a tremer

e você sentisse

o velho puxão nos seus tornozelos.

“Conserte minha vida!”,

cada voz gritava.

Mas você não se deteve.

Você sabia o que tinha que fazer,

Embora o vento se infiltrasse

Com seus dedos rígidos

Até as mínimas fundações

Embora a melancolia delas

Fosse terrível.

Era já bastante tarde, e a noite selvagem,

E a estrada repleta de galhos caídos e pedras.

Mas, pouco a pouco,

À medida que você deixava as vozes para trás,

As estrelas começaram a queimar

Através das camadas de nuvens,

E havia uma nova voz

Que você lentamente

Reconheceu como sua,

Que ficou em sua companhia

Enquanto você caminhava

Mais e mais profundamente

No interior do mundo

Determinada a fazer

A única coisa que você poderia fazer.

Determinada a salvar

A única vida que você poderia salvar.

sábado, 27 de abril de 2024

Uma possível conversa entre "O avesso da pele" e "Ficção americana"?

Comprei O avessso da pele, de Jeferson Tenório, pouco antes de me mudar para Salvador, junto com dois outros livros. Meu exemplar ainda estava no shrink quando surgiu a polêmica no Sul (sempre o Sul) de que o livro não deveria ser adotado nos colégios do Paraná. Vi que estava mais do que na hora de começar a leitura. 
E que leitura! Desde a primeira linha somos levados ao mundo das lembranças do narrador, que ora conversa com o pai que acabou de morrer, ora conta sobre a infância e juventude da mãe e como ela e o pai se conheceram. Permeando essas relações e realidades, o racismo diário, que cada uma das personagens compreende de uma forma, algumas vezes se surpreendendo com o motivo de serem (des)tratados de dada maneira. A violência policial é quase uma personagem à parte, absolutamente verossímil e palpável. Tenório constrói a narrativa alternando as experiências do narrador e seus pais de forma fluida mas - como poderia dizer? - pedregosa. Porque são muitos os percalços atravessados por essas pessoas entre vida e morte. 
Calhou de eu assistir na sequência ao filme Ficção americana, com o ótimo Jeffrey Wright. Este ano vi quase tudo que estava concorrendo ao Oscar, mas porque os filmes estavam muito diversos e interessantes. Pois Ficção americana tem uma premissa atraente, que é a de um escritor com bloqueio criativo que resolve criar uma persona do "gueto" para escrever um livro que caia nas graças de editores em busca de algo "exótico". O autor, que é negro, precisa ir em busca da cultura negra que ele não vivencia. Há várias críticas implícitas na história, mas me pareceu às vezes caricato demais - ainda mais no país que tem como símbolo da luta antirracista o assassinato de George Floyd, impedido de respirar e de viver por policiais. Pensei que teria sido ótimo se o diretor e o roteirista tivessem lido o livro de Jeferson Tenório para uma vivência mais real da experiência de uma família negra, mesmo de classe média. Talvez o filme perdesse algo do humor que tenta imprimir, mas ganharia demais em profundidade.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Carla Madeira e a literatura que é rio

Outro dia, minha cunhada comentou sobre a entrevista de Carla Madeira no Roda Viva e disse que tinha se interessado em ler seu livro Tudo é rio. Lembrei-me de já ter topado com o título em algum momento e também ter me interessado pela história (que já não lembrava) e pelo título (porque, embora tenha medo de águas escuras de rio e um temor recente do mar, amo a imagem das águas). Ainda nem sabia que Carla Madeira, escritora e jornalista mineira, tinha se tornado uma das autoras mais lidas do país. 
Carol propôs então que todas nós (eu, ela, Nana e minha sogra) lêssemos o livro para conversar sobre ele. No meio de uma tarde de muito tédio com um trabalho chatíssimo, que já passou da hora de ter fim, comecei a ler. Não consegui parar até terminá-lo, em dois dias. 
A experiência que tive, de chegar às lágrimas, me fez lembrar de outros livros igualmente devorados. Eu ouviria as piores notícias dos seus lindos lábios, do Marçal Aquino, tem uma energia parecida, de encontro e desencontro de amantes, uma pitada de tragédia e uma ponta de esperança. Mas Tudo é rio tem mais personagens interessantes, todas construídas com um cuidado carinhoso da autora - a gente se sente próximo de todo mundo ali, quase adentrando as casas para um cafezinho. Embora não se diga onde se passa a história, imagino que seja em uma pequena cidade mineira. Talvez a casa de Manu pudesse abrigar a própria Hilda Furacão, mas abriga Lucy, a personificação do desejo sem limites. 
O livro de Carla foi além das minhas experiências intensas anteriores porque não me emocionou somente por identificação com a situação emocional de uma personagem (por exemplo, quando tirei da estante da biblioteca da FFLCH - que saudade daquela biblioteca! - A paixão segundo G.H. foi porque a lombada do livro praticamente se atirava sobre mim, e desde a primeira página foi um turbilhão, a liberação de um mar de lágrimas, pois Clarice falava diretamente comigo, naquele momento, naquela imensa solidão). Também não foi porque me identificasse com um aspecto específico das personagens - como a miopia de Miguilim em Campo geral, e os óculos que são passaporte para um novo mundo, uma outra viagem, agora sem o irmão e companheiro Dito. Poderia, talvez, dizer que Tudo é rio me provoca algo parecido com o experimentado em Ensaio sobre a cegueira, de Saramago, quanto ao poder de uma mulher, a única a ver, e a luz que há na solidariedade, que sempre, sempre me emociona - no livro de Carla Madeira, há mãe e filha com clarividência no sentir, portadoras do milagre do perdão.
O que quero dizer é que, para além das minhas conexões aparentemente forçadas entre este livro e os outros, o de Carla me tocou profundamente porque é tão bem escrito que nos leva a caminhar, amar, viver como as personagens, e essa sensação de adentrar uma história sem ser totalmente tomada por um tsunami há tempos eu não tinha. Não fui só levada pelas águas - o rio de Carla Madeira, mesmo com vórtices de paixão, me permitiu também nadar junto, respirar na superfície, descansando na narrativa (uma espécie de trégua?), e assim observar a paisagem ao redor e também a interior, sem perder um minuto de toda sua beleza. 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Quem fala?

Acabei de ler outro livro de Elena Ferrante, Dias de abandono. Assim como em outras narrativas (os livros da tetralogia napolitana, A filha perdida, Mentiras que os adultos contam), há o contraponto entre a vida pobre em Nápoles e uma nova vida proporcionada pelo conhecimento, além dos desencontros amorosos. Mas aqui, desde a primeira página, há um quê de Simone de Beauvoir em A mulher desiludida - o que se confirma quase ao final, numa menção direta ao livro da filósofa e escritora francesa. 
Ambas, Ferrante e De Beauvoir, constroem uma narrativa do ponto de vista da mulher adulta que se vê diante de mudanças na vida a dois, com a chegada da maturidade e o surgimento de outro interesse amoroso ou outra meta por parte do companheiro. Não é difícil mergulhar nas narrativas de ambos os livros, identificar-se, sentir o mesmo, inclusive a perda do senso de realidade que há em Dias de abandono. O lugar de fala das personagens (nem estou falando das autoras, considerando aqui que Ferrante seja mesmo uma mulher) ajuda a fazer esse mergulho, pois soa bem convincente.
A propósito do assunto lugar de fala, há pouco tempo aconteceu uma suposta polêmica com Chico Buarque sobre sua canção "Com açúcar, com afeto", composta a pedido de Nara Leão, que a interpretava lindamente. Depois li uma entrevista de Chico dizendo que não houve polêmica, que ele desconhecia haver feministas revoltadas contra ele pelo teor machista da canção, que ele não disse que nunca mais cantaria a canção por conta disso. Produziu-se uma celeuma em torno de algo que não houve (é fake news que chama?). Chico disse que não canta mais porque é impossível continuar cantando todas as mais de 400 composições de sua autoria, e que essa música já tão datada não era mais cantada nem por Nara, que provavelmente a abominaria hoje. 
Um amigo meu, professor de literatura, escreveu que Chico quis retratar uma mulher que vive aquele tipo de relacionamento, está ciente dele, mas no final ela é que domina a coisa toda. É um ponto de vista. Concordo que a personagem parece ter consciência do que vive, o que não quer dizer que não sofra. Porém, como afirma Chico na entrevista, não há mais lugar para a mulher que se lamuria, que deixa de conquistar seu espaço por causa de um homem. Chico não tem, é claro, esse lugar de fala, porque é homem, mas, como artista, pode criar qualquer personagem. Como artista, pode ser que conceba personagens pouco convincentes, que erre a mão, não só em questões de gênero, mas de classe social e de raça. Mas, vejam só, Chico sempre foi elogiado por cantar a alma feminina como ninguém. Ainda acho que consegue, e ele se mostra consciente das mudanças femininas e feministas no tempo. A cantora Marília Mendonça, que morreu precoce e tragicamente, aos 28 anos, vinha mostrando o lado feminino do sertanejo, muitas vezes sofrido, nem sempre libertário, mas verdadeiro. Talvez isso seja justamente o que mais cativa, o que mais importa - a verdade iluminadora trazida pela ficção. 

domingo, 21 de março de 2021

A obra que podia ter sido

Terminei de ler Torto arado, do Itamar Vieira Jr., esta semana. Tinha muitas expectativas quanto ao livro, que descobri pouco depois de ter sido lançado, já premiado em Portugal mas ainda sem o Jabuti subsequente. Comecei animada, querendo saber a história das duas irmãs quilombolas que vivem no coração da Chapada Diamantina. Itamar é geógrafo e começou a escrever o romance ainda jovenzinho. Depois tornou-se funcionário do Incra, e pôde se aproximar, por conta do trabalho, dessas populações interioranas. 
De fato, há muitas descrições de paisagens naturais - mas pouca exploração dos hábitos cotidianos. Fala-se um pouco do que acontece no terreiro, fala-se dos alimentos que os moradores da região encontram na seca e na enchente. Mas há poucos aromas, poucos gostos, poucas cores. Inevitável pensar em autores que exploram a luminosidade extrema em paisagens assemelhadas, como Graciliano, Jorge Amado, até Camus, com seu Meursault cego pela luz do sol. Graciliano e toda a geração de 30, assumida referência de Itamar, que conseguem nos guiar pelos desertos, nos fazem ter sede, fome, ilusões de ótica. 
O que mais me incomodou, porém, foi, como sempre, a construção das personagens, mais especificamente a forma como falam com o leitor. Uma das irmãs se interessou por estudar, a outra se interessou pela lida na terra. No entanto, ambas se expressam em sua apreensão da realidade de forma muito sofisticada. Claro que a sabença não está só no saber dizer, mas principalmente na forma como se pensa. Mas, mesmo no pensar, a linguagem acompanha o pensante, ou é o que costuma acontecer. Não é o que acontece no livro. A linguagem pensante de ambas tende ao rebuscado, inclusive com pouco do vocabulário local. As expressões locais, tanto da Chapada quanto da Bahia, pouco integram os pensamentos das irmãs. Poderia ser uma história de qualquer lugar. 
Alguém pode alegar que uma boa história é uma história de todo lugar. Sim, mas neste caso é tão importante o lugar em si - tudo gira em torno do pertencer àquela terra - que é estranho que ele não se entranhe completamente no falar-pensar das personagens. 
Por fim, surge uma terceira voz narrativa, a de uma entidade. Descobrimos, sem que tenha sido dada nenhuma pista anterior, que o elemento sobrenatural explica a morte de um algoz da comunidade quilombola. A ideia é ótima, aliás, o argumento geral do romance é todo ótimo. Mas daí chegamos ao título do post, sobre o que poderia ter sido a obra, e não foi, pelo menos para mim. Talvez para o autor tenha sido suficiente, acredito que foi sim. Para mim, foi como dar muitas braçadas, mesmo sem muita esperança, sabendo que ia morrer na praia. E morri, eu, leitora, à beira-mar, cheia de sabão na boca. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Envelhecer

A gente sempre se prepara para o envelhecimento físico, reservando os sinais do envelhecimento mental para os outros - o pai esquecido, a avó que resgata histórias antiquíssimas, a mãe da amiga que troca seu  nome. A gente deve chegar lá também, mas por enquanto é primeiro o corpo que dá os sinais, com menos força, alguns tropeções, olhos pedindo óculos mais fortes, pele pedindo hidratação. Depois é que vêm os esquecimentos, os enganos. 
Tem um outro aspecto do envelhecimento de que a gente não se dá conta. O da alma. Meu terapeuta discorda, diz que não é a alma que envelhece, mas o self que está insatisfeito com o que temos feito da vida. Talvez sejam as duas coisas. Porque a sensação é de que a alma envelhece sim. 
E topei hoje com uma recordação de seis anos atrás, um trecho de As brasas, do Sándor Márai:

Depois, seu corpo envelhece; não todo de uma vez é verdade, primeiro envelhecem os olhos ou as pernas, o estômago, o coração. A gente envelhece assim, pedaço por pedaço. E então, de repente, sua alma envelhece: mesmo sendo o corpo efêmero e mortal, a alma ainda é movida por desejos e recordações, ainda procura a alegria. E quando também desaparece esse desejo de alegria, só restam as recordações e a inutilidade de todas as coisas; nesse estágio, estamos irremediavelmente velhos. Um dia você acorda e esfrega os olhos e não sabe mais por que acordou.

É isso. Os escritores e os poetas sempre sabem de tudo antes de nós.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Ler mulheres, a aventura de redescoberta

De uns tempos pra cá, comecei a ler mais mulheres - outro dia, comentei que tenho também lido mais mulheres negras.
Tenho a impressão de que o número de mulheres escrevendo aumentou - como também o de ótimos filmes, como já disse aqui, baseados em livros de autoras.
As mulheres me parecem mais capazes de falar da crueldade e do abuso. A crueldade narrada por uma mulher é muito mais crua, o abuso é desnudado. Não estou falando de violência. Acho que os homens são mais dados a ela. A narrativa de crueldade das mulheres é diferente, é predominantemente de quem observou ou sentiu, não de quem praticou. 
Além de ler mais autoras, também andei relendo coisas que estavam engavetadas, e nem me reconheço. Os escritos de ficção têm uma tentativa de emular a escrita tradicional, ou seja, masculina; uma necessidade de escrever muito certinho. Parece tudo muito artificial, com exceção daquilo que se relaciona com algo vivido. Deu até um rancinho.
Quando leio mulheres, vejo um texto que sangra pela página, que sempre traz um algo além do escrito, como aquilo que só os gatos veem. Quero isso para mim, posso isso também, já que sangro também. 

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Viola, Chimamanda e o racismo nosso de cada dia

Por estes dias, li uma declaração de Viola Davis sobre sua infeliz participação no filme Histórias cruzadas. Já escrevi sobre este filme aqui - eu gostei muito da ideia de solidariedade, da união que faz a força,  da compaixão, mas não dá para ignorar o argumento do branco (no caso, branca) salvador. Somente a personagem de Emma Stone para dar voz às pobres e exploradas empregadas negras - e só porque ela é também uma desajustada, que nem esperava fazer "tanto assim" pelas outras mulheres. 
Viola tem toda razão de dizer que se arrepende desse papel, apesar do sucesso do filme. Porque é como se participasse de uma farsa, a de dizer que está tudo bem entre brancos e negros, que o racismo não existe, mal existiu algum dia. Hoje, que tenho lido e aprendido muito mais sobre racismo sistêmico, por exemplo, ouvindo o excepcional professor e advogado Sílvio Almeida, só posso apoiar sua postura e até gostar um pouco menos do filme, ainda que as atuações  de Viola e de Octavia Spencer sejam magistrais. 
Além de estar atenta ao que dizem meus (poucos) amigos negros, sempre procurando rever minhas falas e atitudes para não replicar mais racismo e, pelo contrário, combater as atitudes racistas, tenho lido autoras negras. Quer dizer, vinha lendo mais MULHERES, e agora mulheres NEGRAS. Além dos socos no estômago de Toni Morrison - que já conhecia de Jazz e, recentemente, do terrível The bluest eye -, só tenho a me encantar com a jovem e prolífica Chimamanda Ngozi, de quem já li Hibisco roxo, Sejamos todos feministas e, agora, Americanah. 
Se em Hibisco roxo a protagonista fala de uma realidade quase tribal eivada de fé e violência, quase como se contasse uma história oculta atrás de um véu, em Americanah a personagem principal escancara tudo que há no mundo global - subdesenvolvimento, corrupção, racismo, machismo, academicismo, subemprego. A sensação que tenho de passar a conhecer a realidade de racismo frequente por que passam as pessoas negras se mescla com a já conhecida de, como mulher, ter vivido e observado algumas coisas bem semelhantes acerca de relacionamentos, autoestima, conhecimento, trabalho, adequação, estar no mundo. No entanto, a experiência de uma mulher negra sempre pode ser mais complicada em vários aspectos. 
Parece estranho que a gente possa aprender tanto com nossas iguais, mulheres, sejam brancas ou negras. Mas é que temos nos dado conta de que o mundo foi todo esse tempo sendo escrito e significado por homens, homens brancos. E o mundo feminino é tão criativo, fértil, profundo e coerente e ecoa tão tremendamente dentro de nós que é impossível não querer conhecer mais de tudo o que está sendo feito para saber mais de nossas irmãs e, portanto, de nós mesmas. Um caminho sem volta, como todo conhecimento de fato precioso. 

domingo, 31 de maio de 2020

De volta pro aconchego da escrita

Recebi de diferentes amigos o mesmo regulamento de um concurso de contos, tendo a quarentena como tema. Na hora, nem considerei a hipótese de participar. Mas, pouco tempo depois, Wagninho perguntou se eu andava escrevendo. Matutei: faz tempo que não sei o que é isso, escrever como processo criativo. Fico por aqui e com trabalhos da pós, e só. Claro que esse exercício já afasta as teias de aranha mentais, mas e os contos, as crônicas, os tantos projetos engavetados?
Lembrei-me de como escrevia bastante, textos curtos, geralmente, como me atrevia a participar de concursos, uma forma de estímulo, e até ganhei alguns. Parece que foi em outra vida, como tantas coisas essa quarentena faz crer.
Daí decidi escrever e me inscrever. O prazo era hoje, foi prorrogado para amanhã tamanho o número de pessoas sequiosas de contar suas experiências durante o período de isolamento social. Enviei há pouco, sem grandes expectativas, como sempre, mas feliz com o exercício, como sempre.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Por que reler "As brumas de Avalon"

Daí que chove canivete nesta Bahia de meu Deus. Não com a fúria das tempestades do ano passado, mas com uma constância muito maior, praticamente uma Guantanamera. 
Junte-se ao dilúvio a dor do piriforme/ciático, e o bode que dela advém, e aí me peguei com vontade de reler As brumas de Avalon, a saga de Marion Zimmer Bradley que li aos 12 ou 13 anos, na coleção de banca de jornal de meu pai. 
Guga conseguiu o volume único no formato Epub, e devorei-o em uns quatro dias, deitada de lado, para minimizar a dor muscular, com o Kindle colado na mão. 
Fiquei pensando na razão de ter querido relembrar as aventuras e desventuras de Morgana e companhia, e acho que há várias. Para começar, mesmo sendo uma obra dos anos 1980, é feminista - e continua atual na sua abordagem. Tem uma protagonista que nada tem de mocinha tradicional - não é reconhecida pela beleza padrão, mas por seus poderes, personalidade e atitude -, e sempre me identifiquei com isso. Por fim, fala de um mundo prestes a desaparecer nas brumas - um pouco como o que temos visto acontecer.
Sejam quais forem as motivações, gosto sempre dessa história contada femininamente. Que espada presa na bigorna que nada! Foi uma mulher que deu ao rei o poder na forma da Excalibur. E mesmo empoderadas as mulheres de Avalon são tratadas com machismo.
Aqui, Morgana não carrega a espada para entregá-la. Ela a empunha para lutar, porque a luta é diária, a luta é sempre.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Espelhos, padrões e outras coisas pontiagudas

Estou terminando de ler a tetralogia napolitana de Elena Ferrante, pseudônimo de uma escritora contemporânea de língua italiana. Há quem diga que se trata de um autor, mas acho pouco provável, já que as navalhadas na carne ao longo dos quatro volumes (A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem vai e de quem fica, História da menina perdida) soam a uma memória feminina, mais crua que violenta, como os escritos de Clarice Lispector, Patricia Highsmith e Carson McCullers, em que pesem os diferentes estilos. Mas isso é assunto para outro post, a crueza feminina mais terra a terra, a crueldade masculina mais associada à cultura, segundo minha certamente modesta opinião.
Bom, o fato é que me vi nas histórias contadas por Lenu, protagonista e xará de Ferrante. Dentre outras questões, pela da autoimagem que constrói ao longo da vida, a relação com o próprio corpo e com o corpo do outro etc. Serei a única? Claro que não - Ferrante é o fenômeno que é pela capacidade de empatia que seu texto traz de forma tão fluida.
Eu mesma, por muito tempo, não gostei do que vi no espelho. Ou melhor, evitava me olhar nele porque só enxergava uma imagem indefinida, um borrão do que eu era. Talvez fosse a miopia, mas certamente era também uma recusa de si. Por outro lado, nunca quis me parecer com outra pessoa, ter outra aparência, outro corpo. A presença paterna também tornou complicado me reconhecer como mulher: era quase um sinônimo de vulgaridade; cuidar-se era sinônimo de idiotia e superficialidade. Também o apreço pelas artes, a leveza, a alegria, tudo isso foi sendo posto sob vigilância. Só queria me transportar por aí em um invólucro neutro, ser simplesmente aceita.
Porém, o mundo rejeita a neutralidade com seus padrões. Não se pode ser neutro, mas também não é desejável o ser diferente. A respeito da aparência, lembro-me de uma colega de trabalho ter dito que eu vestia bem todas as roupas por ser a pessoa com o corpo mais "regular", "proporcional", que ela conhecia. Na mesma época, visitando um brechó de um conhecido, experimentei uma blusa que não me caiu bem, mas serviu a outra colega, e tive de ouvir do dono do brechó, com a voz mais afetada possível: "É que você é fora do padrão, né?". Fiquei sem palavras. O que significava esse padrão? Cintura fina, bunda grande? Não há povo mais diverso que o brasileiro, e esse padrão a que ele se referia é uma falácia. Mas a fala fere, atravessa o invólucro, e tanta gente sofre por tentar se adequar ao suposto padrão e não conseguir.
Minha "cápsula protetora" contra as estocadas alheias acabou sendo o conhecimento; na verdade, um outro tipo de padrão que permite caminhar em freguesias diversas, ainda que não em todas. Afinal, dentro desse padrão, mesmo que mais amplo que o da aparência, ainda é preciso lidar com as questões "de classe".
A personagem de Elena Ferrante também acaba por descobrir que nada nos protege mais que a autoaceitação. Saber o que é importante de fato para si, auscultar-se. Talvez para a maioria das pessoas isso só venha com o tempo, com a tal maturidade, quando nos importamos cada vez menos com a opinião dos outros e conseguimos ouvir com mais clareza a voz interior. Uma pena que esse encontro tão importante e apaziguador possa demorar tanto a acontecer; por outro lado, as marcas que trazemos a essas alturas são o que nos distingue uns dos outros, torna-nos únicos e inutiliza (ou deveria) toda forma de comparação inútil.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Eu e Pamuk

Orhan Pamuk ganhou o Nobel de Literatura em 2006, após ter lançado seu romance Neve. Em 1998, já havia lançado Meu nome é vermelho, que ganhou destaque anos depois. O fato é que Pamuk é hoje o principal nome da literatura na Turquia, com outros trabalhos de destaque ao longo dos anos.
Eu não havia lido nada dele até topar com Meu nome é vermelho na loja de Kindle. O nome logo me atraiu: a trama, insólita, com diversos narradores diferentes, inclusive a cor vermelha, em um cenário histórico tão interessante, Istambul no século XVI, onde acontece o assassinato de um miniaturista... Em vários momentos, me lembrei de O nome da rosa, de Umberto Eco. O mistério, o crime, saberes proibidos, a religião protegida a todo custo - mas, principalmente, pela erudição e pelo detalhamento extremos.
No livro de Eco, porém, a trama se desenrola com mais fluidez, por sua narrativa mais tradicional, o que não necessariamente é uma qualidade por si só. No caso de Pamuk, com o vaivém de narradores, um mais rebuscado que o outro, e a possível crítica/ironia usada todo o tempo, sem meias medidas, o relato é mais cansativo que instigante. Pode ser também que eu esteja destreinada desses processos mentais mais elaborados. Pode ser que eu esteja muito acostumada com o modo ocidental de narrar, tanto livros quanto filmes. Mas a verdade é que foi um custo terminar a leitura e ainda não ser surpreendida - antes, ficar aliviada com o livro ter chegado ao fim.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Quando coisas lindas acontecem para outras coisas lindas acontecerem

Sim, o Universo conspira sempre. Estar no fluxo faz as coisas acontecerem. Começar a caminhar traça os caminhos. Verdades que sei, sempre soube. Mas às vezes esqueço.
Daí, porque venho ouvindo de novo a mim mesma e pensando sobre o que ouço, lá vem o Universo-Deus fazer lembrar e sacudir a poeira. Xô, marasmo!
Meu enteado, que veio nos visitar, comentou que sua avó ia ver Mia Couto, mas não sabia em que lugar de Salvador. Fiquei interessada, mas logo esqueci. E ontem, lá veio dona Dora buscar o neto para um passeio - e qual foi o primeiro comentário que ela fez, toda feliz? Que ia ver Mia Couto, no TCA. Meu interesse se reacendeu, perguntei dos ingressos, como comprar etc., mas ela fez um ar pouco animado do tipo "já devem ter acabado".
De fato, em seguida procurei na internet e li no site de compra a terrível palavra: "ESGOTADO". Ou seja, Mia Couto e eu, juntos em Salvador, no aconchego intelectual do TCA, never more.
Mas eis que lá vem o Universo atrever-se, e ontem mesmo, à noite, recebo uma ligação de dona Dora, animada-espantada dizendo que o tal do Universo conspirara e que sua irmã ligara para oferecer a ela dois ingressos para ver Mia Couto no TCA que acabara de ganhar de CORTESIA. Cortesia, palavra linda, sinônimo de gentileza, amabilidade, gesto delicado, presente, mimo - foi tudo isso que dona Dora me ofereceu ontem. E que hoje fui buscar, e vou oferecer também à minha sogra, que bem merece uma cortesia de vez em muito.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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