domingo, 5 de julho de 2026
E se Beckett encontrasse Freire?
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
Orides, pássaros, silêncios e o não caber em si
Entre tantos poemas - eu conhecia pouquíssimo da obra, um ou outro verso compartilhado por amigas poetas -, estes dois me falaram diretamente:
A onda
vem
do abismo mais
fundo
a onda
vem
e se
quebra: um
refundo
(a onda
dura
um mundo).
Errância
Só porque
erro
encontro
o que não se
procura
só porque
erro
invento
o labirinto
a busca
a coisa
a causa da
procura
só porque
erro
acerto: me
construo.
Margem de
erro: margem
de liberdade.
Aplausos para você sempre, Orides, mestra de silêncios e voos.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Urgentemente hoje
terça-feira, 16 de dezembro de 2025
Um refresco em meio a um mês conturbado
segunda-feira, 8 de dezembro de 2025
Heatcliffs e as mulheres
quinta-feira, 21 de agosto de 2025
Livros "de mulher"?
terça-feira, 11 de março de 2025
Pelo amor do livro!
quinta-feira, 18 de julho de 2024
Alice Munro, Virginia Woolf e Mary Oliver
Um dia, você enfim soube
o que tinha que fazer, e começou
embora as vozes ao seu redor
continuassem gritando
seus maus conselhos
embora a casa toda
começasse a tremer
e você sentisse
o velho puxão nos seus tornozelos.
“Conserte minha vida!”,
cada voz gritava.
Mas você não se deteve.
Você sabia o que tinha que fazer,
Embora o vento se infiltrasse
Com seus dedos rígidos
Até as mínimas fundações
Embora a melancolia delas
Fosse terrível.
Era já bastante tarde, e a noite selvagem,
E a estrada repleta de galhos caídos e pedras.
Mas, pouco a pouco,
À medida que você deixava as vozes para trás,
As estrelas começaram a queimar
Através das camadas de nuvens,
E havia uma nova voz
Que você lentamente
Reconheceu como sua,
Que ficou em sua companhia
Enquanto você caminhava
Mais e mais profundamente
No interior do mundo
Determinada a fazer
A única coisa que você poderia fazer.
Determinada a salvar
A única vida que você poderia salvar.sábado, 27 de abril de 2024
Uma possível conversa entre "O avesso da pele" e "Ficção americana"?
quarta-feira, 5 de abril de 2023
Carla Madeira e a literatura que é rio
A experiência que tive, de chegar às lágrimas, me fez lembrar de outros livros igualmente devorados. Eu ouviria as piores notícias dos seus lindos lábios, do Marçal Aquino, tem uma energia parecida, de encontro e desencontro de amantes, uma pitada de tragédia e uma ponta de esperança. Mas Tudo é rio tem mais personagens interessantes, todas construídas com um cuidado carinhoso da autora - a gente se sente próximo de todo mundo ali, quase adentrando as casas para um cafezinho. Embora não se diga onde se passa a história, imagino que seja em uma pequena cidade mineira. Talvez a casa de Manu pudesse abrigar a própria Hilda Furacão, mas abriga Lucy, a personificação do desejo sem limites.
O livro de Carla foi além das minhas experiências intensas anteriores porque não me emocionou somente por identificação com a situação emocional de uma personagem (por exemplo, quando tirei da estante da biblioteca da FFLCH - que saudade daquela biblioteca! - A paixão segundo G.H. foi porque a lombada do livro praticamente se atirava sobre mim, e desde a primeira página foi um turbilhão, a liberação de um mar de lágrimas, pois Clarice falava diretamente comigo, naquele momento, naquela imensa solidão). Também não foi porque me identificasse com um aspecto específico das personagens - como a miopia de Miguilim em Campo geral, e os óculos que são passaporte para um novo mundo, uma outra viagem, agora sem o irmão e companheiro Dito. Poderia, talvez, dizer que Tudo é rio me provoca algo parecido com o experimentado em Ensaio sobre a cegueira, de Saramago, quanto ao poder de uma mulher, a única a ver, e a luz que há na solidariedade, que sempre, sempre me emociona - no livro de Carla Madeira, há mãe e filha com clarividência no sentir, portadoras do milagre do perdão.
O que quero dizer é que, para além das minhas conexões aparentemente forçadas entre este livro e os outros, o de Carla me tocou profundamente porque é tão bem escrito que nos leva a caminhar, amar, viver como as personagens, e essa sensação de adentrar uma história sem ser totalmente tomada por um tsunami há tempos eu não tinha. Não fui só levada pelas águas - o rio de Carla Madeira, mesmo com vórtices de paixão, me permitiu também nadar junto, respirar na superfície, descansando na narrativa (uma espécie de trégua?), e assim observar a paisagem ao redor e também a interior, sem perder um minuto de toda sua beleza.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022
Quem fala?
Ambas, Ferrante e De Beauvoir, constroem uma narrativa do ponto de vista da mulher adulta que se vê diante de mudanças na vida a dois, com a chegada da maturidade e o surgimento de outro interesse amoroso ou outra meta por parte do companheiro. Não é difícil mergulhar nas narrativas de ambos os livros, identificar-se, sentir o mesmo, inclusive a perda do senso de realidade que há em Dias de abandono. O lugar de fala das personagens (nem estou falando das autoras, considerando aqui que Ferrante seja mesmo uma mulher) ajuda a fazer esse mergulho, pois soa bem convincente.
domingo, 21 de março de 2021
A obra que podia ter sido
Por fim, surge uma terceira voz narrativa, a de uma entidade. Descobrimos, sem que tenha sido dada nenhuma pista anterior, que o elemento sobrenatural explica a morte de um algoz da comunidade quilombola. A ideia é ótima, aliás, o argumento geral do romance é todo ótimo. Mas daí chegamos ao título do post, sobre o que poderia ter sido a obra, e não foi, pelo menos para mim. Talvez para o autor tenha sido suficiente, acredito que foi sim. Para mim, foi como dar muitas braçadas, mesmo sem muita esperança, sabendo que ia morrer na praia. E morri, eu, leitora, à beira-mar, cheia de sabão na boca.
quarta-feira, 11 de novembro de 2020
Envelhecer
É isso. Os escritores e os poetas sempre sabem de tudo antes de nós.
quarta-feira, 29 de julho de 2020
Ler mulheres, a aventura de redescoberta
quarta-feira, 15 de julho de 2020
Viola, Chimamanda e o racismo nosso de cada dia
domingo, 31 de maio de 2020
De volta pro aconchego da escrita
segunda-feira, 25 de maio de 2020
Por que reler "As brumas de Avalon"
Junte-se ao dilúvio a dor do piriforme/ciático, e o bode que dela advém, e aí me peguei com vontade de reler As brumas de Avalon, a saga de Marion Zimmer Bradley que li aos 12 ou 13 anos, na coleção de banca de jornal de meu pai. Sejam quais forem as motivações, gosto sempre dessa história contada femininamente. Que espada presa na bigorna que nada! Foi uma mulher que deu ao rei o poder na forma da Excalibur. E mesmo empoderadas as mulheres de Avalon são tratadas com machismo.
Aqui, Morgana não carrega a espada para entregá-la. Ela a empunha para lutar, porque a luta é diária, a luta é sempre.
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
Espelhos, padrões e outras coisas pontiagudas
Bom, o fato é que me vi nas histórias contadas por Lenu, protagonista e xará de Ferrante. Dentre outras questões, pela da autoimagem que constrói ao longo da vida, a relação com o próprio corpo e com o corpo do outro etc. Serei a única? Claro que não - Ferrante é o fenômeno que é pela capacidade de empatia que seu texto traz de forma tão fluida.
Eu mesma, por muito tempo, não gostei do que vi no espelho. Ou melhor, evitava me olhar nele porque só enxergava uma imagem indefinida, um borrão do que eu era. Talvez fosse a miopia, mas certamente era também uma recusa de si. Por outro lado, nunca quis me parecer com outra pessoa, ter outra aparência, outro corpo. A presença paterna também tornou complicado me reconhecer como mulher: era quase um sinônimo de vulgaridade; cuidar-se era sinônimo de idiotia e superficialidade. Também o apreço pelas artes, a leveza, a alegria, tudo isso foi sendo posto sob vigilância. Só queria me transportar por aí em um invólucro neutro, ser simplesmente aceita.
Porém, o mundo rejeita a neutralidade com seus padrões. Não se pode ser neutro, mas também não é desejável o ser diferente. A respeito da aparência, lembro-me de uma colega de trabalho ter dito que eu vestia bem todas as roupas por ser a pessoa com o corpo mais "regular", "proporcional", que ela conhecia. Na mesma época, visitando um brechó de um conhecido, experimentei uma blusa que não me caiu bem, mas serviu a outra colega, e tive de ouvir do dono do brechó, com a voz mais afetada possível: "É que você é fora do padrão, né?". Fiquei sem palavras. O que significava esse padrão? Cintura fina, bunda grande? Não há povo mais diverso que o brasileiro, e esse padrão a que ele se referia é uma falácia. Mas a fala fere, atravessa o invólucro, e tanta gente sofre por tentar se adequar ao suposto padrão e não conseguir.
Minha "cápsula protetora" contra as estocadas alheias acabou sendo o conhecimento; na verdade, um outro tipo de padrão que permite caminhar em freguesias diversas, ainda que não em todas. Afinal, dentro desse padrão, mesmo que mais amplo que o da aparência, ainda é preciso lidar com as questões "de classe".
A personagem de Elena Ferrante também acaba por descobrir que nada nos protege mais que a autoaceitação. Saber o que é importante de fato para si, auscultar-se. Talvez para a maioria das pessoas isso só venha com o tempo, com a tal maturidade, quando nos importamos cada vez menos com a opinião dos outros e conseguimos ouvir com mais clareza a voz interior. Uma pena que esse encontro tão importante e apaziguador possa demorar tanto a acontecer; por outro lado, as marcas que trazemos a essas alturas são o que nos distingue uns dos outros, torna-nos únicos e inutiliza (ou deveria) toda forma de comparação inútil.
terça-feira, 9 de janeiro de 2018
Eu e Pamuk
Orhan Pamuk ganhou o Nobel de Literatura em 2006, após ter lançado seu romance Neve. Em 1998, já havia lançado Meu nome é vermelho, que ganhou destaque anos depois. O fato é que Pamuk é hoje o principal nome da literatura na Turquia, com outros trabalhos de destaque ao longo dos anos.Eu não havia lido nada dele até topar com Meu nome é vermelho na loja de Kindle. O nome logo me atraiu: a trama, insólita, com diversos narradores diferentes, inclusive a cor vermelha, em um cenário histórico tão interessante, Istambul no século XVI, onde acontece o assassinato de um miniaturista... Em vários momentos, me lembrei de O nome da rosa, de Umberto Eco. O mistério, o crime, saberes proibidos, a religião protegida a todo custo - mas, principalmente, pela erudição e pelo detalhamento extremos.
No livro de Eco, porém, a trama se desenrola com mais fluidez, por sua narrativa mais tradicional, o que não necessariamente é uma qualidade por si só. No caso de Pamuk, com o vaivém de narradores, um mais rebuscado que o outro, e a possível crítica/ironia usada todo o tempo, sem meias medidas, o relato é mais cansativo que instigante. Pode ser também que eu esteja destreinada desses processos mentais mais elaborados. Pode ser que eu esteja muito acostumada com o modo ocidental de narrar, tanto livros quanto filmes. Mas a verdade é que foi um custo terminar a leitura e ainda não ser surpreendida - antes, ficar aliviada com o livro ter chegado ao fim.
quarta-feira, 28 de junho de 2017
Quando coisas lindas acontecem para outras coisas lindas acontecerem
Sim, o Universo conspira sempre. Estar no fluxo faz as coisas acontecerem. Começar a caminhar traça os caminhos. Verdades que sei, sempre soube. Mas às vezes esqueço.Daí, porque venho ouvindo de novo a mim mesma e pensando sobre o que ouço, lá vem o Universo-Deus fazer lembrar e sacudir a poeira. Xô, marasmo!
Meu enteado, que veio nos visitar, comentou que sua avó ia ver Mia Couto, mas não sabia em que lugar de Salvador. Fiquei interessada, mas logo esqueci. E ontem, lá veio dona Dora buscar o neto para um passeio - e qual foi o primeiro comentário que ela fez, toda feliz? Que ia ver Mia Couto, no TCA. Meu interesse se reacendeu, perguntei dos ingressos, como comprar etc., mas ela fez um ar pouco animado do tipo "já devem ter acabado".
De fato, em seguida procurei na internet e li no site de compra a terrível palavra: "ESGOTADO". Ou seja, Mia Couto e eu, juntos em Salvador, no aconchego intelectual do TCA, never more.
Mas eis que lá vem o Universo atrever-se, e ontem mesmo, à noite, recebo uma ligação de dona Dora, animada-espantada dizendo que o tal do Universo conspirara e que sua irmã ligara para oferecer a ela dois ingressos para ver Mia Couto no TCA que acabara de ganhar de CORTESIA. Cortesia, palavra linda, sinônimo de gentileza, amabilidade, gesto delicado, presente, mimo - foi tudo isso que dona Dora me ofereceu ontem. E que hoje fui buscar, e vou oferecer também à minha sogra, que bem merece uma cortesia de vez em muito.
Tudo de bão
Cabeceira
- "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
- "Geografia da fome", de Josué de Castro
- "A metamorfose", de Franz Kafka
- "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
- "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
- "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
- "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
- "O estrangeiro", de Albert Camus
- "Campo geral", de João Guimarães Rosa
- "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
- "Sagarana", de João Guimarães Rosa
- "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
- "A outra volta do parafuso", de Henry James
- "O processo", de Franz Kafka
- "Esperando Godot", de Samuel Beckett
- "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
- "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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