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segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Deu Pati, alto astral

Desde que ouvi falar do vale do Pati, quis conhecê-lo. Do marido, ouvi que era muito difícil para mim, e isso só o tornou mais desejável. Mas só agora é que pude realizar o desejo. 
As condições eram as mais favoráveis? Nunca são, nunca espero que sejam. Só me basta uma brecha para ir em busca. Comentei com amigos queridos que queria ir, eles também queriam, fomos dando forma ao desejo em comum e o sonho virou projeto. Quando já tínhamos combinado tudo, veio a notícia de uma possível demissão, e a viagem se tornou ainda mais urgente.
Lá fomos nós, munidos dos equipamentos listados por nossa guia, Renata. Saímos de Salvador para Palmeiras, de lá para a vila do Guiné, numa típica estrada de terra no coração da Chapada Diamantina. Chegamos à noite, pois ainda ficamos parados na BR por causa de um acidente perto de Santo Estêvão. Na Pousada Donana, um casarão ricamente decorado com madeiras e ferros de demolição, uma comidinha quente nos esperava. No outro dia, de manhã, seguimos de carro até o início da subida do Aleixo, atravessamos os Gerais do rio Preto e descemos a insana rampa. Ali ainda não sabia usar o cajado, e o medo de escorregar era grande. A descida parecia não ter fim, mas teve, e rumamos pra famosa Igrejinha, hoje uma espécie de arraial com vários quartos e banheiros, além de espaço para jantar e café da manhã e gengidrinque, bebida onipresente no Pati. 
No dia seguinte, rumamos pra casa de dona Raquel, na minha opinião a mais fofa das visitadas, tocada por sua filha Lia e o marido Altemar, e de lá fomos conhecer as cachoeiras Bananeiras e dos Funis. Também foi cansativo, ainda mais carregando roupa molhada, e a chuva que tinha caído à noite já deixou os caminhos enlameados e escorregadios. Para mim, o grande aprendizado de perder o medo de andar em pedras, caminhos de rios etc. desde a queda do bote em Brotas. Renata achou que não daríamos conta de subir o Morro do Castelo (na verdade, da Lapinha) ou fazer a trilha do Calisto, por isso a ida para as cachoeiras. Acabamos voltando para a casa de dona Raquel já à noite e precisamos usar lanterna para caminhar. O jantar ótimo e o clima alegre da casa compensaram tudo, e dá-lhe gengidrinque e alfajor caseiro.
Cedinho fomos para a antiga Prefeitura, ao lado da casa de Jailso e Marta, da família de dona Raquel (a Racheland é um sucesso). Desisti de sair e fiquei sozinha para ajustar meu diapasão interno, o que foi ótimo. Mais tarde, ficamos observando as estrelas no céu absurdamente lindo do vale, e até estrelas cadentes vimos. A especialidade local são o vinagre de banana e o licor de banana clarificado feitos por Jailso; claro que trouxe um frasquinho de vinagre para enriquecer meus pratos.
Partimos para a trilha do encontro dos rios Pati e Cachoeirão, mais maneira, em plena Mata Atlântica. Rolou terapia e visita de libélulas azuis, sinal de bom augúrio. Somente então, depois de banho nos pocinhos com hidromassagem, rumamos para a casa de seu Eduardo, tropeiro lendário - a casa é cuidada por seus filhos Domingos e Vítor. Aliás, a diferença entre as casas cuidadas por homens e as cuidadas por mulheres é evidente - há mais capricho, apreço pelos detalhes nos pousos liderados por mulheres, desde papel higiênico de qualidade e espelho e sabão líquido nos banheiros a jardim de flores e ervas. Mas todas as casas são muito limpas e organizadas. A casa de seu Eduardo é a mais rústica; a comida é boa mas não se compara às da Racheland. O gengidrinque pode deixar de pileque. Até recarregar o celular é mais difícil ali, embora em todos os lugares a energia elétrica seja bastante controlada, e em nenhum lugar haja rede de celular (só carregávamos os nossos para usar a câmera, e eu tentava manter o Garmin no ponto). 
No sábado bem cedinho partimos para o maior desafio: atravessar a fenda do Cachoeirão, subir os Gerais do Cachoeirão e depois os do rio Preto, num caminho mais longo que o da vinda, e então descer o Aleixo. Houve um momento em que achei que minhas panturrilhas iam estourar na subida sem fim de pedras e pequenos abismos. Atravessamos corredores de tiriricas, servimos de alimento para mutucas, andamos 10 horas quase sem parar. A água foi rareando e também ficando menos fresca. Tomei um gel para dar uma animada. Pensei que levar isotônico pode ser muito útil, além de hidrosteril (que esqueci). Uma vista mais incrível que a outra, mas muitos turistas nos dois mirantes, quebrando o clima de contemplação com muito ruído. O Garmin morreu no caminho. Quando chegamos enfim à descida do Aleixo, me pareceu muito mais fácil, e até foi rápido descer. O cajado e os tensores nos joelhos foram fundamentais. Fiquei orgulhosa de ter preservado os joelhos. Saí só com trapézio dolorido, além das picadas mil e uns roxos nas pernas, principalmente das batidas da pochete. Fiquei orgulhosa de nós, de termos ido até o fim mesmo sem todo "preparo".  De prêmio, encontramos pizza fresquinha na Pousada Casarão, em Palmeiras, feita pela simpaticíssima Cida. 
Sim, o caminho se faz ao andar. É preciso sempre dar o primeiro passo. Se estivermos em boa companhia, fica mais fácil e ainda melhor.

domingo, 21 de março de 2021

A obra que podia ter sido

Terminei de ler Torto arado, do Itamar Vieira Jr., esta semana. Tinha muitas expectativas quanto ao livro, que descobri pouco depois de ter sido lançado, já premiado em Portugal mas ainda sem o Jabuti subsequente. Comecei animada, querendo saber a história das duas irmãs quilombolas que vivem no coração da Chapada Diamantina. Itamar é geógrafo e começou a escrever o romance ainda jovenzinho. Depois tornou-se funcionário do Incra, e pôde se aproximar, por conta do trabalho, dessas populações interioranas. 
De fato, há muitas descrições de paisagens naturais - mas pouca exploração dos hábitos cotidianos. Fala-se um pouco do que acontece no terreiro, fala-se dos alimentos que os moradores da região encontram na seca e na enchente. Mas há poucos aromas, poucos gostos, poucas cores. Inevitável pensar em autores que exploram a luminosidade extrema em paisagens assemelhadas, como Graciliano, Jorge Amado, até Camus, com seu Meursault cego pela luz do sol. Graciliano e toda a geração de 30, assumida referência de Itamar, que conseguem nos guiar pelos desertos, nos fazem ter sede, fome, ilusões de ótica. 
O que mais me incomodou, porém, foi, como sempre, a construção das personagens, mais especificamente a forma como falam com o leitor. Uma das irmãs se interessou por estudar, a outra se interessou pela lida na terra. No entanto, ambas se expressam em sua apreensão da realidade de forma muito sofisticada. Claro que a sabença não está só no saber dizer, mas principalmente na forma como se pensa. Mas, mesmo no pensar, a linguagem acompanha o pensante, ou é o que costuma acontecer. Não é o que acontece no livro. A linguagem pensante de ambas tende ao rebuscado, inclusive com pouco do vocabulário local. As expressões locais, tanto da Chapada quanto da Bahia, pouco integram os pensamentos das irmãs. Poderia ser uma história de qualquer lugar. 
Alguém pode alegar que uma boa história é uma história de todo lugar. Sim, mas neste caso é tão importante o lugar em si - tudo gira em torno do pertencer àquela terra - que é estranho que ele não se entranhe completamente no falar-pensar das personagens. 
Por fim, surge uma terceira voz narrativa, a de uma entidade. Descobrimos, sem que tenha sido dada nenhuma pista anterior, que o elemento sobrenatural explica a morte de um algoz da comunidade quilombola. A ideia é ótima, aliás, o argumento geral do romance é todo ótimo. Mas daí chegamos ao título do post, sobre o que poderia ter sido a obra, e não foi, pelo menos para mim. Talvez para o autor tenha sido suficiente, acredito que foi sim. Para mim, foi como dar muitas braçadas, mesmo sem muita esperança, sabendo que ia morrer na praia. E morri, eu, leitora, à beira-mar, cheia de sabão na boca. 

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Toda vez que a adulta balança a menina me dá a mão

Era pra ser uma viagem a dois, nossa última e única semana de férias do ano. Mas acabei indo sozinha a Lençóis para não perder nem o dinheiro já transferido para a pousada nem a oportunidade de descansar alguns dias das tarefas domésticas.
Mesmo gastando mais do que pretendia, foi ótimo para arejar a mente, ver outras paisagens, viver outras experiências. Foi também uma forma de me lembrar das coisas que são essenciais para mim, como viajar. Porque no dia a dia, cedendo aqui e ali o tempo todo, vamos nos esquecendo de quem somos, do que nos constitui. Na solidão, voltamos a nos enxergar, a ouvir a voz interior.
Talvez, se soubesse que iria sozinha, eu não teria ido a Lençóis, lugar de trilhas e mais trilhas. Não tenho muita destreza com a natureza selvagem, sobretudo com tantas pedras, subidas e descidas. Tenho ainda algum temor de escorregar nas pedras molhadas, de entrar em águas escuras como as das cachoeiras locais. Com a idade, e depois de um acidente durante o rafting, assumi que não sei nadar. Mas, ao fim e ao cabo, ter ido a Lençóis acabou sendo bem desafiador, exigiu de mim me manter no presente constantemente, sem tempo para elucubrações mentais.
Nisso resultou a playlist que trouxe "Bola de meia, bola de gude", do Milton, e a lembrança da criança interior que nos traz de volta a quem somos. Também trouxe a visita à Serra das Paridas, sítio arqueológico pouco conhecido que nos dá um gostinho da pintura rupestre brasileira; a descida de 60 m até a Cachoeira do Mosquito com direito a perninhas moles e a almoço com a beterraba mais doce da vida na Fazenda Santo Antonio; a visita, por fim, ao Cozinha Aberta, restaurante slow food no centrinho, onde almocei duas vezes (roupa velha de carne de sol com arroz vermelho, purê de banana com gengibre, saladinha e farofa; nhoque de batata-doce com pesto de manjericão e castanhas); pousada roots com anfitriões adoráveis (Cris, Everaldo e Hortência); solados descolados (literalmente) de papete e bota, remediados pelos guias locais ali na hora; jantar no Sabor da Serra, uma deliciosa e inesperada combinação de grão de bico com shimeji e molho de castanhas, acompanhada de salada e arroz com brócolis e uma kombucha local; pets e não pets adoráveis em toda parte; prova de fogo na Cachoeira do Sossego, uma trilha de 18 km totais com muita, muita, muita pedra e subidas e descidas sem fim, acompanhada de colegas jovens e fofos (que me deram a mão e tiraram fotos lindas por mim) e seguida de um banho maravilhoso, com colete salva-vidas emprestado, no poço de 6 m de profundidade; fisgada no joelho logo no início da trilha; banho no Ribeirão de Cima, uma jacuzzi natural e refrescante; rolezinho básico ao Serrano, com os joelhos e as panturrilhas prejudicados da trilha anterior; ceviche mais para tartar no Tomatito; descoberta da Bavarois, padaria-hamburgueria-sorveteria com dona pouco simpática mas bons pães e sonho com falso creme de confeiteiro (com leite condensado, argh); compras de produtos locais: banana-passa, café, sabonete, argila. 
Nesses poucos dias, enchi os olhos de montanhas e nuvens, evitei os doces e as massas, e me senti muito bem. Fiquei um pouco decepcionada com meu condicionamento físico, que eu julgava melhor. Acho que vou perder pelo menos uma unha do pé, contundida na trilha do Sossego. Mas volto mais viva, de mãos dadas com minha menina interior.
 
 

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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