Ainda não retomei o bordado, mesmo com o retorno de Aracne ao meu imaginário. Mas queria ilustrar minimamente o mundo fantástico que devia sair de suas linhas e agulhas, e assim recorri à colagem, que outras vezes me salvou do vazio ao querer dar vida a uma ideia.
A minha Aracne, como minha protagonista da "Ciranda da Bailarina", recebeu tecido, papel de origami, linha e aquarela. Como a bailarina, teve elementos orientais, mas com um toque indígena (tanta gente já me confundiu com uma índia, afinal), mais precisamente das arpilleristas chilenas, bordadeiras da resistência. (Pensava que se dizia arpilleras dessas mulheres que bordam a dor, mas esse é o nome da tela sobre a qual bordam - de todo jeito, mantenho assim o nome da minha Aracne). E o mito continua a falar comigo, sequioso de mais oferecer.
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domingo, 3 de julho de 2016
domingo, 12 de junho de 2016
Os fios de Aracne
Me meti com bordados faz pouco tempo, como já disse aqui e no Ser o que soa. Isso me fez buscar no íntimo as histórias de Ariadne, Penélope e até Sherazade, essa bordadora de palavras.
Porém, mais no íntimo ainda, havia uma história antiga com o bordado: a história de Aracne. Talvez tenha sido pela evocação de Atena como protetora das bordadeiras e artesãos, quando escrevi sobre Ariadne e Penélope, talvez pelas pequenas e até grandes aranhas que aparecem aqui em casa, todos os dias. Por tudo isso, talvez, tenha voltado a imagem de Aracne, direto de uma pequena coleção de livros que minha mãe nos dera na infância, sobre o princípio das coisas ou algo parecido. Havia um sobre aranhas, que me fascinava, e ele principiava com a lenda de Aracne, mostrando sua disputa com Atena. Lá da infância, seus fios vieram me buscar.
Ora, Aracne era uma artesã lídia. Extremamente habilidosa, não havia quem se lhe igualasse nos bordados. Até se dizia que a própria Atena havia lhe ensinado a arte de bordar. Elogiada em toda parte, porém, ela cometeu o pecado da arrogância, dizendo a quem quisesse ouvir que devia seu talento apenas a si mesma, especialmente quando evocavam Atena, ou para fazer comparações, ou para lhe dizer de onde vinha, afinal, sua arte.
É claro que Atena ouviu essa blasfêmia. Em algumas versões do mito, havia se disfarçado para saber diretamente de Aracne o que ela pensava sobre seu dom. Despeitada, como todo bom deus grego, diante da petulância humana, Atena desafiou a artesã para um concurso de bordados.
Tendo como juradas as ninfas, deusa e artesã principiaram a bordar. Cada uma realizava um trabalho mais bonito que o outro, mas logo ficou evidente que o trabalho de Aracne era realmente melhor que o da deusa. Indignada, Atena destruiu o bordado da rival, para que as ninfas não o pudessem ver e assim considerá-lo melhor que o seu. A fúria da deusa também pode ter sido provocada pela temática dos bordados de Aracne: as torpezas cometidas pelos deuses.
Há quem diga que Aracne tentou se matar, e que Atena, com pena, transformou-a numa aranha, para que pudesse continuar bordando eternamente. Outras versões chamam a isso uma maldição da deusa - Aracne teria que bordar para sempre, sem descanso, na forma de um ser abjeto. Acho que isso tem mais a ver com um deus grego, a pena (no sentido de castigo) perpétua.
Seja como for, Aracne lança seus fios sobre minha memória, irremediavelmente apanhada até que possa dar forma a essa ideia. Criar é sempre a outra ponta do fio, a saída possível ou a transformação da teia em um mundo infindo de conexões, cores, texturas.
Porém, mais no íntimo ainda, havia uma história antiga com o bordado: a história de Aracne. Talvez tenha sido pela evocação de Atena como protetora das bordadeiras e artesãos, quando escrevi sobre Ariadne e Penélope, talvez pelas pequenas e até grandes aranhas que aparecem aqui em casa, todos os dias. Por tudo isso, talvez, tenha voltado a imagem de Aracne, direto de uma pequena coleção de livros que minha mãe nos dera na infância, sobre o princípio das coisas ou algo parecido. Havia um sobre aranhas, que me fascinava, e ele principiava com a lenda de Aracne, mostrando sua disputa com Atena. Lá da infância, seus fios vieram me buscar.
Ora, Aracne era uma artesã lídia. Extremamente habilidosa, não havia quem se lhe igualasse nos bordados. Até se dizia que a própria Atena havia lhe ensinado a arte de bordar. Elogiada em toda parte, porém, ela cometeu o pecado da arrogância, dizendo a quem quisesse ouvir que devia seu talento apenas a si mesma, especialmente quando evocavam Atena, ou para fazer comparações, ou para lhe dizer de onde vinha, afinal, sua arte.
É claro que Atena ouviu essa blasfêmia. Em algumas versões do mito, havia se disfarçado para saber diretamente de Aracne o que ela pensava sobre seu dom. Despeitada, como todo bom deus grego, diante da petulância humana, Atena desafiou a artesã para um concurso de bordados.
Tendo como juradas as ninfas, deusa e artesã principiaram a bordar. Cada uma realizava um trabalho mais bonito que o outro, mas logo ficou evidente que o trabalho de Aracne era realmente melhor que o da deusa. Indignada, Atena destruiu o bordado da rival, para que as ninfas não o pudessem ver e assim considerá-lo melhor que o seu. A fúria da deusa também pode ter sido provocada pela temática dos bordados de Aracne: as torpezas cometidas pelos deuses.
Há quem diga que Aracne tentou se matar, e que Atena, com pena, transformou-a numa aranha, para que pudesse continuar bordando eternamente. Outras versões chamam a isso uma maldição da deusa - Aracne teria que bordar para sempre, sem descanso, na forma de um ser abjeto. Acho que isso tem mais a ver com um deus grego, a pena (no sentido de castigo) perpétua.
Seja como for, Aracne lança seus fios sobre minha memória, irremediavelmente apanhada até que possa dar forma a essa ideia. Criar é sempre a outra ponta do fio, a saída possível ou a transformação da teia em um mundo infindo de conexões, cores, texturas.
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- "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
- "Geografia da fome", de Josué de Castro
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- "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
- "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
- "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
- "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
- "O estrangeiro", de Albert Camus
- "Campo geral", de João Guimarães Rosa
- "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
- "Sagarana", de João Guimarães Rosa
- "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
- "A outra volta do parafuso", de Henry James
- "O processo", de Franz Kafka
- "Esperando Godot", de Samuel Beckett
- "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
- "Amphytrion", de Ignácio Padilla
