Salve Jorge. Ogunhê! Hoje consegui ilustrar no dia, e pari não uma, mas duas de vez! Uma engraçadinha, uma colagem. Adoro. Adoro mais quando saem tão rapidamente, da mente para a mão, da mão para o papel. Me emociono - a inspiração é como uma reza sincera.
Mostrando postagens com marcador desenho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador desenho. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 23 de abril de 2026
segunda-feira, 9 de março de 2026
Somos rios, somos mar
Marchamos
no 8M, por todo o Brasil, pelo mundo. Cada vez mais é necessário tomar
as ruas diante das barbaridades crescentes contra meninas e mulheres. Às vezes - muitas vezes - bate um desânimo enorme diante de tudo o que temos visto acontecendo no mundo, contra mulheres, contra os minorizados politicamente, contra a paz, em favor de uma violência absurda. E ainda assim ganhamos flores aqui e ali e até presentes inúteis e baratos, peloamor, quando o que queremos não tem preço, não se pode tocar e é para sempre.
Ainda bem que, quando marchamos, vemos as águas se encontrando, formando um caudal, um mar imenso. E contra as águas, meu bem, repito aqui, não há obstáculo que lhes resista, como tudo aquilo que desejamos, que devemos tomar. Que sejamos, então, sempre água em movimento, fresca, abundante, destemida, vitalizadora.
terça-feira, 14 de outubro de 2025
Kintsugi, ou o que fazer quando a gente quebra
A arte japonesa do kintsugi consiste em consertar uma cerâmica quebrada, unindo as partes com goma laca e pó de ouro. O sentido por trás disso não é somente o reaproveitamento do objeto, mas principalmente a valorização da resiliência representada pela cicatriz que fica.
E o que fazer quando o que quebra somos nós? Se alguém me perguntasse, recomendaria terapia. Em casos extremos, ajuda médica. Mas me parece que, na maioria das vezes, como em tantas situações na vida, a pessoa adoecida é a última a saber o que está acontecendo com ela.
As duas últimas semanas foram tão extenuantes, e mesmo assim segui carregando tudo, que minha mente deu um basta e meu corpo não teve como não pedir arrego. Pressão descontrolada, taquicardia: a crise de ansiedade não chegou do nada e varreu o que viu pela frente, lançou projetos para longe.
Agora colamos os cacos, ainda sem acreditar na força da onda que veio. Parece que foi em outro lugar, parece que foi com outra pessoa, o que é assustador. Não dá para ser sempre o bambu que resiste a tudo. De novo, reaprender a respirar.
Marcadores:
ansiedade,
desenho,
ilustra,
ilustração,
kintsugi,
saúde mental
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
Carimbó
Desde a primeira vez que vi alguém dançando carimbó, essa mistura de ritmos indígenas, africanos, caribenhos e tão brasileira, fiquei apaixonada. Senti que era a pura representação do direito de todo mundo à alegria, à dança, à festa. É claro que há os melhores dançarinos, como em toda dança, mas o carimbó convida primeiro a se alegrar, a experimentar, para depois saber como se faz. Como crianças, somos chamadas e chamados para a roda, para sentir a pulsação, para ver a energia subindo pelos pés e percorrendo todo o corpo até fazer o sorriso desabrochar.
Foi exatamente assim na oficina de lundu e carimbó na Escola de Dança da UFBA. Beatriz e Maya, jovens que vieram de Belém para o congresso de antropologia, não só trouxeram a dança, mas também o legado dos mestres e mestras paraenses. Que lindo vê-las, e mais algumas paraenses presentes, dançando com todo prazer e orgulho! Lembrei de Chico César dançando com uma violoncelista do Quinteto de Cordas da Paraíba, uma leveza, uma alegria contagiante.
E foi essa alegria que também contagiou o grupo na sala de dança na última sexta. Sem a preocupação de saber dançar, e sim dançar para saber. Não se intimidar pelo medo da imperfeição, nunca, nunca.
Marcadores:
ancestralidade,
arte,
arte salva,
carimbó,
cultura,
dança,
desenho,
feminismo,
ilustra,
ilustração,
imperfeição
quinta-feira, 15 de maio de 2025
Antônio e José
Sempre que eu via Pepe Mujica, me lembrava de meu avô, embora seu Antônio fosse um tipo mais bonachão e Pepe, um observador filosófico da vida e do mundo.
Ontem, Pepe partiu, após uma longa luta contra o câncer. Faria aniversário por esses dias, 90 anos. Não pôde esperar. Avisou a todo mundo que em breve partiria, e assim foi, sem dramas, apesar da nossa tristeza. Honras de estadista, mas principalmente de homem do povo. Já faz falta.
Ontem, Pepe partiu, após uma longa luta contra o câncer. Faria aniversário por esses dias, 90 anos. Não pôde esperar. Avisou a todo mundo que em breve partiria, e assim foi, sem dramas, apesar da nossa tristeza. Honras de estadista, mas principalmente de homem do povo. Já faz falta.
Hoje juntei os dois, meu avôhai e Pepe, Antônio e José. Se se conhecessem, ah, como seria incrível esse encontro! Dois gigantes que não perderam tempo se lamentando, cada um a sua maneira. Gente que faz falta.
Marcadores:
avôhai,
desenho,
ilustração,
Pepe Mujica,
retrato,
seo Antônio
quarta-feira, 23 de abril de 2025
terça-feira, 8 de abril de 2025
Emocionada
Mal começaram as aulas no Neim e já devo ter chorado uma meia dúzia de vezes, ouvindo aquelas histórias tão diversas e tão conhecidas. O que dizer, então, da professora Alba Motta, do alto de seus 93 anos, pioneira do núcleo, que venceu as dificuldades de locomoção para compartilhar conosco, com voz muito baixinha, suas histórias? E da presença da pequena Aya no salão da congregação da Faculdade de Direito, um espaço ainda não tomado pelas feministas? A melhor imagem dessa emoção são as mãos que se buscam na troca de afetos, na foto feita num dia intenso, dia de usar azul para vencer as demandas todas. Pelo menos por hoje, venci, vencemos.
Marcadores:
desenho,
diversidade,
equidade,
feminismo,
ilustração,
justiça social,
neim,
revolução,
transfeminismo,
UFBA
sexta-feira, 10 de janeiro de 2025
O vaivém de Virginia
Na época do colégio, eu adorava copiar fotos e ilustrações que me encantavam, como os retratos de Virginia Woolf, Olga Benário, Chico Buarque e a famosa ilustração de Santiago e o menino feita por Raymond Sheppard para O velho e o mar. Costumava presentear os amigos com minha "cópia", às vezes na forma de cartão de aniversário. Quando encontrei Carlos, ele me lembrou de eu tê-lo presenteado com uma releitura de Picasso num cartão. Ousada, eu.
Dos retratados, Virginia Woolf é a que volta e meia mais me reaparece na vida. Desde sua descoberta, aos 14 anos, com Orlando, que me espantou em tudo, passando por Entre os atos, aos tardios Um teto todo seu e Mrs. Dalloway.
Calhou de minha cunhada ser uma especialista em Woolf e nos presentear com suas traduções primorosas. E Woolf, que havia voltado como ícone feminista, agora retornou com um trabalho. Daí recuperei este desenho feito nos anos 1990. Acho que suavizei o queixo, um pouco mais proeminente. Mas continua me encantando/espantando essa personalidade tão repleta de luzes e sombras, uma ode marítima de emoções.
Marcadores:
desenho,
feminismo,
ilustra,
Virginia Woolf
domingo, 5 de janeiro de 2025
quarta-feira, 1 de janeiro de 2025
quarta-feira, 14 de agosto de 2024
United Colors of All the Women in the World
Já faz um tempinho que comprei, por fim, uma caixa de lápis de cor "das peles". Eu já buscava há anos, mas quando havia eram poucas opções de cor - não tinha, por exemplo, para pele amarela. Também era mais comum achar giz de cera em vez de lápis de cor. Numa das minhas passadinhas em papelaria, buscando outra coisa, é que me deparei com a caixa de 12 cores da Faber Castell. Irresistível.
Só esta semana é que resolvi testar de fato, usando um caderninho lindo que comprei no BazaRozê com folhas para aquarela. Fiz do meu jeito meio ligeiro, mas gostei. Valeu a espera, valeu a compra! Só falta dominar a pintura a lápis.
Marcadores:
cor da pele,
desenho,
feminino,
ilustração
quarta-feira, 7 de agosto de 2024
O pódio de Rebeca e de todas dura quanto tempo?
Talvez a imagem mais reproduzida das Olimpíadas de Paris 2024 até agora tenha sido a de Rebeca Andrade, ouro na ginástica na apresentação de solo, sendo reverenciada pela estratosférica Simone Biles e por Jordan Chiles, as estadunidenses que levaram prata e bronze. Apesar da beleza no reconhecimento de Rebeca como uma "rainha" na modalidade, sobretudo em um pódio formado por mulheres negras, a imagem de que mais gostei foi gerada segundos depois, quando as três se dão as mãos. Ali vi companheirismo, admiração e fortalecimento mútuo, tudo ao mesmo tempo.
Muita gente vibrou com a vitória das mulheres, sobretudo negras, no "Time Brasil". Mas também muita gente tem assinalado que, apesar das dificuldades, tais e tais atletas superaram tudo por esforço próprio, a praga da meritocracia. Houve quem se atrevesse mais, a pedir que não olhássemos para o fato de serem mulheres negras e pobres mas sobretudo boas atletas. Haja estômago!
Tem também repórter que força a entrevista até a entrevistada chorar, aquele gosto pelo sofrimento alheio, que nada tem a ver com empatia. Seu pai morreu, como você se sente?
O que mais me chama a atenção na forma como é encarada a performance dessas mulheres que tiveram de se colocar acima da iniquidade social é que ali em Paris a dificuldade é passado, a pobreza e a injustiça social no Brasil nem existem mais. Poucos pensam em como será depois, como se uma medalha no peito de uma Rebeca fosse suficiente para calar a boca das reclamonas - "viu como a situação das mulheres é boa? viu como nem há racismo no Brasil?". A dificuldade que houver é porque a "Bolsa Atleta paga mal", não porque vivemos num país essencialmente desigual, escravista e colonialista. Não porque falta educação de qualidade, saneamento básico, alimentação saudável, trabalho digno. Não porque os índices de estupro e feminicídio não param de subir.
Embora feliz por Rebeca, por sua graça vitoriosa, sambando na cara dos preconceituosos, lamento o peso que ela carrega para além das medalhas, atribuído por quem não quer encarar as desigualdades brasileiras. Injusto com ela, injusto com todas que atravessam os dias procurando manter a cabeça acima das dificuldades de toda ordem. O país só se tornará melhor quando a maioria se aperceber da realidade e der as mãos no enfrentamento da injustiça contra mulheres, e também contra pessoas negras, pessoas LGBTQIA+, a população empobrecida.
Marcadores:
desenho,
equidade,
esporte,
feminismo,
ilustração,
interseccionalidade,
justiça,
mulheres negras,
Olimpíadas,
Rebeca Andrade,
transfeminismo
quinta-feira, 2 de maio de 2024
A flor que venceu o medo
No dia das trabalhadoras e dos trabalhadores, lembremos daquela que tinha medo, mas "não usava", a grande Margarida Alves.
sábado, 27 de abril de 2024
Povo de livros
Alguns estudiosos dos livros sagrados se referem às três principais religiões monoteístas como "povos do Livro", neste caso a Bíblia, referência central do judaísmo (o Velho Testamento), do cristianismo (principalmente o Novo Testamento) e do islamismo (da leitura feita por Maomé, o Alcorão). Séculos depois, Guttemberg revolucionaria a leitura não só dos livros sagrados, mas de todos os livros, ampliando seu alcance em toda parte. O que não quer dizer que tudo passou a ser lido, pois, antes de tudo, é preciso haver leitores, quem domine as ferramentas do ler.
É triste que hoje, ainda, haja tanta gente que não possa ter o privilégio da leitura - por conseguinte, de imaginar mundos, de ter pensamento crítico, de conseguir defender suas ideias, de fazer a revolução. Ainda é privilégio mesmo, no sentido daquilo que poucos alcançam, uma lástima. Quantos Fabianos ainda há no mundo!
Sempre me maravilho com saber ler, sortuda que sou. Outro dia falei do maravilhamento com saber andar de bicicleta, mas ler é algo, para mim, que suplanta toda maravilha. Já falei disso aqui, mas eu mesma preciso às vezes lembrar que sou parte do povo de livros, assim, no plural, porque são muitos os nossos textos sagrados. Na última semana, foi Dia Internacional do Livro, mesmo dia de São Jorge, senhor das demandas, que nos reveste com suas armas e cores e palavras.
Então esta semana também fui, pela primeira vez, à Bienal do Livro Bahia, no Centro de Convenções de Salvador. Fazia anos que eu não ia a uma bienal; agora é principalmente o espaço de encontro de jovens e crianças com autores, o que é perfeito. Não rolou fazer networking, o forte é a venda de livros já faz tempo. Mas tudo bem, comprei livros, paquerei outros tantos, atentei para as novidades, inclusive para as editoras que não conhecia, como Malê e Paralelo 13S. Também participei de um evento na Caixa Cultural, num dia com Itamar Vieira Jr. e Luciany Aparecida (que começou na Paralelo 13S), e ainda ganhei livro do mediador, Patrick Torres; no outro dia, com a jovem Roberta Gurriti e o simpaticíssimo Stefano Volp, cujo livro eu havia comprado na véspera, às cegas. Aprendi um tanto com os mais jovens, sobre tecnologias para lançar conteúdos, e com os mais velhos sobre o que é ser um autor negro e nordestino e quanto há ainda a conquistar - enquanto, nós, brancos ou quase, temos a percepção de que há "tantos" autores negros no mercado hoje em dia (isso rende outro post). Pelo menos em Salvador, a literatura feita por pessoas negras e tratando de personagens negras tem tido destaque - me saltou aos olhos o livro que mostra Machado de Assis menino negro, um avanço na forma de contar a história do gênio-bruxo do Cosme Velho.
Amo ver as crianças e jovens encantados com os livros, com as possibilidades infinitas que eles trazem. E registrei o encontro de uma garota com o professor, provavelmente de Português - o entusiasmo dela ao correr para falar com ele, certamente para compartilhar a alegria de estar ali também. É impressionante a magia da leitura, em todas as fases de nossa vida, como ela nos faz lembrar que somos seres em transformação, em constante recomeço como nas palavras de Cora Coralina no marcador de página com que Guga me presenteou. Leia, plante uma roseira, faça doces. E recomece, sempre.
domingo, 10 de março de 2024
Os macho pira, e a gente caminha
No último 8M, saí para cortar as madeixas. Já tinha visto várias mensagens lindas sobre o Dia Internacional das Mulheres, especialmente de mulheres, obviamente - dos homens, normalmente, aquele "vocês são fortes mas delicadas, embelezam o mundo, tome uma flor" blábláblá. Daí, o motorista de Uber, que vinha bem na conversa, falando dos malês, da Maria Quitéria, do Dois de Julho, de racismo, de como a educação para mais pessoas possibilitou que os jovens negros ocupem mais espaços etc., me solta essa quando já tínhamos chegado ao shopping: "Feliz dia da mulher! Mas esse empoderamento feminino, na verdade, está acabando com os relacionamentos". Deve ter sido o meu choque que me fez demorar uns segundos a mais no banco do carro ou foi porque o homem se transformou numa metralhadora e acabei perdendo mais de cinco minutos com o discurso de macho ferido, casado há 29 anos, que não entende por que a esposa ainda está insatisfeita se ele, tão disposto a ajudar, assumiu o "papel" que era dela e ficou em casa para ela trabalhar. Só sei que nesse bololô entraram Anitta e Beyoncé, que pregam empoderamento mas "não se dão o respeito", e golpes em aplicativos de relacionamento contra os pobres machos fragilizados por nosso empoderamento. Apesar do choque, fui abrindo a porta do carro e, pezinho já para fora, disse a ele que essa conversa era longuíssima, que ele e esposa deviam fazer terapia, rever combinados porque não existe essa de "papéis" de cada um mas sim papéis que são dos dois, mas que ele devia saber, na verdade, que "as mulheres estão exaustas". Ainda desejei sorte, embora imagine que a esposa está mais para futura ex que qualquer outra coisa - e espero que ele aceite isso sem violência, e que isso o faça refletir sobre a própria postura e entendimento da vida e do mundo.
Impressionante como os homens ainda tentam nos culpar pelo fracasso do modelo patriarcal! É porque não queremos mais esse modelo que eles estão infelizes - ou seja, se alguém tem que ficar infeliz, que sejamos nós, mulheres. Só quem sentiu a infelicidade bloqueando qualquer possibilidade de existir, de respirar pode se colocar contra esse tipo de situação.
Comentei com minha cabeleireira, assim que cheguei ao salão, sobre o episódio. E ela disse que, mesmo sem conhecer a esposa do motorista, não poderia jamais lhe dar razão, só poderia ficar ao lado dela. Achei de uma beleza reconfortante essa fala. A luta é de todas nós, sempre, todo dia, inclusive contra o machismo de mulheres. E então revi, entre as postagens do 8M, a imagem histórica de Rose Zehner organizando as operárias na fábrica da Citroën, na França, em 1938, registrada por Willy Ronis e só publicada nos anos 1980. E me vieram ao coração tantas mulheres que engrossaram as fileiras nas últimas décadas que o desenho saiu fácil, representando latinas, negras, palestinas, indígenas, orientais, trans, mulheres de todo tipo e de todo canto. Todas no mesmo caminho contra a opressão, porque a nossa natureza é a liberdade, e só podemos ser livres de fato se todas forem.
Marcadores:
8M,
desenho,
dia da mulher,
feminismo,
ilustra,
ilustração,
machismo
segunda-feira, 1 de novembro de 2021
Bordado libérrimo
Por esses dias, resolvi iniciar o projeto do vestido bordado. Já não me lembro qual foi a motivação, talvez um grupo de artistas em Piaçabuçu que lutam pela preservação do rio São Francisco por meio da arte, talvez a busca de algo para combater a ansiedade. Até ia aproveitar pra dar uma praticada na aquarela, fazendo um esboço do bordado, mas já fui logo traçando as margens do rio para depois pensar nos elementos que colocaria.
Não desenhei tudo de uma vez, como costumava fazer, para manter o foco no que estiver bordando e assim evitar a ansiedade de terminar logo, o que poderia me levar a desistir da tarefa.
Aos poucos estou pesquisando pontos novos e antigos, imagens ribeirinhas e decidindo aos poucos a disposição das cenas. Andei apanhando bastante no nó francês, que já fiz tanto, ao decidir bordar um ipê amarelo. Quando canso (porque, como o ponto areia, o nó francês "rende" pouco), trabalho em outro desenho, como o dos queridos mandacarus, usando ponto-atrás e corrente. Até começo a inventar umas soluções, e me sinto mais criativa que nos outros projetos, em que acabava repetindo uma meia dúzia de pontos. Um bordado mais livre mesmo.
Gosto do que vai saindo, apesar de saber que o processo ainda é longo. Mas já ouvi elogios ao trabalho feitos pelo marido, que, quando soube que eu ia bordar um vestido, achou pouco provável que seria algo "vestível", pois um vestido todo bordado "é mais coisa de artista", não é algo que pessoas normais usam (ou fazem). Prova de que nunca sabemos tudo sobre as pessoas, nem mesmo sobre as pessoas com quem convivemos.
Marcadores:
bordado,
criatividade,
desenho,
ilustração,
reaprendizagem,
rio São Francisco,
rotina,
roupas bordadas,
terapia
sábado, 29 de maio de 2021
Desafio (bor)dado
Depois da semana com as meninas Dumont, retomei o bordado. Primeiro, finalizando meus poucos trabalhos, pra mandar emoldurar e virar essas páginas. Depois, adquirindo outros insumos, como as linhas de cores metálicas da Cairel e da Silko (ambas distribuídas pela Corrente) para novos projetos, como o do vestido bordado.
Sempre gostei de roupas bordadas, e tinha algumas peças da Brazoo com bordados singelos. Anos depois, conheci o site das bordadeiras de Penedo, Alagoas, o Pontos e Contos, em que elas apresentam blusas, saias, camisas e vestidos bordados lindamente, via de regra com a temática do rio São Francisco. Até me arrisquei a perguntar quanto custava um vestido daqueles, e quando ouvi a resposta achei que deveria eu mesma tentar bordar o meu. Não porque não ache que valha cada centavo dos 750 reais pedidos, mas porque integro a categoria intelectuais sem plano de saúde, ou seja, o que não for gasto do que ganho ou vai pra doações, ou vai pra poupança emergencial.
Sempre gostei de roupas bordadas, e tinha algumas peças da Brazoo com bordados singelos. Anos depois, conheci o site das bordadeiras de Penedo, Alagoas, o Pontos e Contos, em que elas apresentam blusas, saias, camisas e vestidos bordados lindamente, via de regra com a temática do rio São Francisco. Até me arrisquei a perguntar quanto custava um vestido daqueles, e quando ouvi a resposta achei que deveria eu mesma tentar bordar o meu. Não porque não ache que valha cada centavo dos 750 reais pedidos, mas porque integro a categoria intelectuais sem plano de saúde, ou seja, o que não for gasto do que ganho ou vai pra doações, ou vai pra poupança emergencial.
Portanto, fui atrás das linhas indicadas pelas Dumont e de um vestido que pudesse bordar. Acabei achando um de linho misto da Hering, em promoção, maravilha dupla (o tecido e o preço). Agora é abraçar o desafio.
Marcadores:
arte,
bordadeiras de Penedo,
bordado,
customização,
desafios,
desenho,
feito por mim,
Matizes Dumont,
moda,
roupas bordadas
segunda-feira, 24 de maio de 2021
O espaço em branco
Há alguns (na verdade, muitos) anos, quando fiz uma oficina de ilustração de livros infantis com o Odilon Moraes e o Fernando Vilela, me vi no meio de um grupo supertalentoso, de artistas iniciantes e profissionais, com domínio maior ou menor de técnicas diversas. Eu estava lá de absolutamente atrevida que sou, beirando o sem-nocionismo, ou porque simplesmente me encanta estar no meio de gente talentosa e interessante e inteligente. A ideia era trabalhar um tema comum - o circo - para criar, individualmente, um livro ilustrado. Já fui logo avisando que não era artista, que não desenhava bem e tal.
Escolher o que fazer, para mim, foi algo bem fácil. Não poderia ser outra coisa além de O grande circo místico, de Chico Buarque e Edu Lobo. A canção "Ciranda da bailarina" é cheia de imagens poéticas e engraçadas, e foi ela então a convocada para a tarefa.
Com o ascendente em Áries, normalmente eu topo a parada para depois pensar em como é que vou executar. Como disse, o desenho, sobretudo no meio de um grupo de artistas, não era minha primeira opção. A pintura, menos ainda. E, no entanto, a oficina era de ilustração. O que fazer? O que me salvou foi a colagem.
Penei com o Fernando, que não se interessava, nos momentos de orientação, em ver meu projeto de livro, ainda muito incipiente. Mas que se surpreendeu com a apresentação final e fez um comentário revelador: de que eu sabia trabalhar muito bem com o espaço em branco, que o espaço em branco era parte da própria linguagem. De fato, as colagens conversavam com o branco da página o tempo todo. A partir desse comentário, percebi como gosto dessa possibilidade do espaço em branco, dos vazios debaixo do risco do meu desenho minimalista, das minhas colagens (como a que fiz para as gêmeas de Gleice). Pensando bem, confirma o meu senso de "incompletude" de que outro dia falava minha orientadora.
Ainda acerca do espaço em branco, o querido Wagninho me enviou há algum tempo umas imagens de bordados feitos pela sueca com ascendência sámi Britta Marakatt-Laba, compondo uma espécie de tapeçaria de Bayeux dos bordados, mostrando uma longa narrativa, toda em linha preta sobre branco. Uma das coisas mais bonitas que já vi. Porque, embora ache lindíssimo o que fazem as meninas Dumont, preenchendo todos os espaços do tecido com cores e pontos, me fascina a capacidade de desenhar com a linha. Mas pode ser também porque não sou muito boa em preencher os espaços - a aquarela que o diga.
Transferindo para a página em branco do texto, seria como deixar coisas por dizer, à imaginação do outro. Uma história por construir.
Marcadores:
aprendizado,
autoconhecimento,
bordado,
brancos,
criatividade,
desenho,
escrita,
ilustração,
incompletude,
pintura,
vir a ser
domingo, 18 de abril de 2021
Thelmas & Louises
Outro dia, revi Thelma e Louise (1991) na TV. Na minha memória, é um dos primeiros filmes com protagonistas femininas e a tratar de temas sensíveis para as mulheres, mesmo sendo dirigido por um homem, Ridley Scott. Assistindo-o hoje em dia, porém, parece até um pouco ingênuo, apesar da violência contra a mulher. Ou talvez seja pelo fato de, além de possuir um olhar masculino, o do diretor, o nosso olhar feminino ter mudado após 30 anos, e tudo o que vivemos ter ficado tão às claras.
Não foi um acaso eu ter visto esse filme. Na verdade, procurei por ele, após ter criado com queridas de longa data um grupo de WhatsApp, Thelmas & Louises. Porque, para além das aventuras e desventuras vividas pelas maravilhosas Susan Sarandon e Geena Davis, a película, na minha opinião, fala sobretudo sobre amizade. Amizade entre mulheres, algo que tem sido redescoberto com a importância da sororidade nos debates feministas atuais.
Conheci as cinco integrantes do T&L no trabalho. Lembro-me de um amigo de lá me dizer que eu era muito ingênua de pensar que colegas de trabalho formavam uma família - ele, inclusive, é um irmão para mim até hoje. Mas não se tratava disso: eu sabia que a maioria das pessoas só passaria por mim como águas heraclitianas, para nunca mais voltar. E que uma parte, apenas uma parcela mesmo, ficaria, desembarcaria no meu porto e fundaria cidades no interior, criaria memórias e que tais. Assim tem sido com as cinco, há quase 30 anos.
Tão diferentes somos! Quantas combinações de qualidades diferentes há em cada uma, mas vejo em todas, em momentos diversos, humor, inteligência, sensibilidade, força e muita doçura. Sinto, mesmo à distância, a dor de cada uma, vibro com o sucesso de cada uma. Em nossas lives, vejo ainda as meninas que trabalhavam comigo, mas sobretudo com quem organizava amigos-secretos, festas de aniversário e à fantasia, com quem viajava, ria e compartilhava dramas, com quem aprendi tanto nesse longo aprendizado de ser e de ser mulher. Estão aí, elas. As mesmas meninas, o mesmo afeto.
Marcadores:
amigas,
amizade,
desenho,
feminismo,
filmes femininos,
ilustração,
pandemia,
quarentena,
sororidade,
tempo,
Thelma e Louise
Assinar:
Postagens (Atom)
Tudo de bão
Cabeceira
- "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
- "Geografia da fome", de Josué de Castro
- "A metamorfose", de Franz Kafka
- "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
- "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
- "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
- "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
- "O estrangeiro", de Albert Camus
- "Campo geral", de João Guimarães Rosa
- "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
- "Sagarana", de João Guimarães Rosa
- "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
- "A outra volta do parafuso", de Henry James
- "O processo", de Franz Kafka
- "Esperando Godot", de Samuel Beckett
- "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
- "Amphytrion", de Ignácio Padilla

.jpg)

.jpg)


























.jpeg)






