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segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Belinha foi encontrar Chico no céu

Quando trouxemos Chico e Zen, Bela se apaixonou perdidamente por Chico. Ficava olhando embevecida para ele dentro da bolsa de transporte. Tentou ser amiga, se aproximar. Em vão. Até seu último dia conosco, Chico, o intrépido, não se adaptou aos cachorros, tão diferente de Zen, o sobrevivente. Ficaram as imagens dessa tentativa de encontro.
Hoje Bela nos deixou. Meu Deus, que tristeza! Ela tinha calazar, tomava medicamentos, mas era sempre tão feliz, tão doidinha, tão carinhosa! Mãe do nosso Kong e de Balu, doidinhos de diferentes jeitos. Balu hoje chorou por horas, provavelmente sabendo que ela estava de partida. Aliás, desde o final de semana ele não saía do lado dela, não deixando que eu me aproximasse - a primeira coisa que me ocorreu foi que ele sabia que ela não estava bem.
E foi tudo muito rápido: percebemos que ela não estava bem na quinta-feira; ela toda acabrunhada, com dificuldade para andar. Há pouco, a veterinária me mandou o resultado do exame, indicando insuficiência renal grave. Como saber muito antes para evitar chegar a isso? Não soubemos, não achamos atendimento no final de semana, nem sei se adiantaria muita coisa, e hoje ela partiu. Mas com certeza viveu da melhor forma possível, foi tão amada, tão cuidada até o fim, mesmo com o diagnóstico de calazar, que, sabíamos, abreviaria sua vida mais cedo ou mais tarde. 
Goldie, Goldinha, já sentimos tanto sua falta! Dê umas boas lambidas em Chico e convença-o a brincar com você, saltando de nuvem em nuvem, numa alegria infinita. 

domingo, 20 de março de 2016

A liberdade também leva embora









Quando Chico e Zen chegaram à minha casa para nos conhecermos, não puderam ficar de pronto. Eu não ia passar a noite lá, então pedi à tutora que os trouxesse no dia seguinte, para que ficassem definitivamente. Antes de eles irem, já os dois na caixa de transporte, senti um toque macio sobre o meu pé (eu estava parada ao lado da caixa, conversando com Carol): era a patinha de Chico, que me acarinhava, me reconhecia como sua nova família.
Desde então, a aceitação mútua foi irrestrita, e os dois gatinhos se tornaram meus companheiros de todas as horas. Zen mais falante, Chico mais voltado para a ação. Aqui no sítio, meu gatinho-cachorro vinha correndo quando eu o chamava, me acompanhava à horta e na hora de estender roupas. Gostava de dormir no colo de Guga. Trazia presentes toda noite - quando percebeu que não gostávamos das baratas, passou a trazer folhinhas. Parecia grato por ter recebido de uma hora pra outra tanto espaço, tanta liberdade. Ronronava ao roçar nas nossas pernas, contava o que tinha visto em suas andanças. Quando acordávamos, ele já estava em casa, e o chão, coberto de folhinhas que ele trazia no seu vaivém noturno.
Então, há dois dias, quando acordei, ele não estava em casa. Não apareceu quando abri as janelas. Não veio correndo quando eu chamei. E no calado do meu coração veio a certeza de que ele não viria mais.
Assim como ele foi explorar o quintal do vizinho nos primeiros dias, ele provavelmente foi espiar outras redondezas interessantes. O que aconteceu, não sabemos. Talvez um encontro infeliz com cachorros da vizinhança, talvez tenha se perdido, talvez então tenha sido achado por alguém, que o viu tão bonito e o levou consigo. Mais não quero aventar, porque fico triste. Ontem, cada passo que eu dava para espalhar cartazes com sua foto parecia me distanciar mais do meu Chiquito.
No fundo, eu sabia que isso poderia acontecer mais cedo ou mais tarde. Aqui, ou em outro lugar, já que pensava em me mudar de qualquer modo para um lugar aberto. No caso de Chico, a liberdade adquirida parecia grande demais para ele. Eu sempre procurei dizer a mim mesma, à guisa de pré-consolo, que o normal é que os bichos atendam ao chamado selvagem, que a qualquer momento (especialmente os gatos) podem ir embora. Mas dói.
E é na ausência de outro ser que sinto maior o preço cobrado pela irresistível liberdade.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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