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segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Belinha foi encontrar Chico no céu

Quando trouxemos Chico e Zen, Bela se apaixonou perdidamente por Chico. Ficava olhando embevecida para ele dentro da bolsa de transporte. Tentou ser amiga, se aproximar. Em vão. Até seu último dia conosco, Chico, o intrépido, não se adaptou aos cachorros, tão diferente de Zen, o sobrevivente. Ficaram as imagens dessa tentativa de encontro.
Hoje Bela nos deixou. Meu Deus, que tristeza! Ela tinha calazar, tomava medicamentos, mas era sempre tão feliz, tão doidinha, tão carinhosa! Mãe do nosso Kong e de Balu, doidinhos de diferentes jeitos. Balu hoje chorou por horas, provavelmente sabendo que ela estava de partida. Aliás, desde o final de semana ele não saía do lado dela, não deixando que eu me aproximasse - a primeira coisa que me ocorreu foi que ele sabia que ela não estava bem.
E foi tudo muito rápido: percebemos que ela não estava bem na quinta-feira; ela toda acabrunhada, com dificuldade para andar. Há pouco, a veterinária me mandou o resultado do exame, indicando insuficiência renal grave. Como saber muito antes para evitar chegar a isso? Não soubemos, não achamos atendimento no final de semana, nem sei se adiantaria muita coisa, e hoje ela partiu. Mas com certeza viveu da melhor forma possível, foi tão amada, tão cuidada até o fim, mesmo com o diagnóstico de calazar, que, sabíamos, abreviaria sua vida mais cedo ou mais tarde. 
Goldie, Goldinha, já sentimos tanto sua falta! Dê umas boas lambidas em Chico e convença-o a brincar com você, saltando de nuvem em nuvem, numa alegria infinita. 

sábado, 1 de agosto de 2020

Os sinos dobram

Sempre achei que começaria a perder amigos quando estivesse bem mais velha. Mas antes dos 50 anos já tenho sentido a partida de alguns deles em um curto espaço de tempo. Espero que isso não signifique uma torrente de perdas daqui pra frente, ainda mais em meio a uma pandemia.
Imagino que a época que vivemos acabe contribuindo para essas partidas. Com exceção de uma amiga que morreu pela complicação de uma gripe, meses antes da pandemia, eu arriscaria dizer que a morte dos outros pode estar associada a estes tempos sombrios, de tanta tristeza combinada. Um amigo antigo e querido, da época do trabalho no cursinho, nos deixou no início do ano, após um infarto fulminante. Outro, que trabalhou comigo na Mostra, também teve um infarto, meses depois, tão jovem ainda. Hoje soube de uma amiga da Bienal. Ela se suicidou; soube há pouco, e fiquei dilacerada.
Creio que estamos vivendo o ápice de uma crise de valores, de humanidade. Está difícil para quem se importa minimamente com o que está sendo feito das pessoas mais vulneráveis, dos animais, do planeta. Creio que foi isso que pesou para minha amiga que nos deixou ontem. Lembro-me dela no espaço expositivo, muito discreta e delicada, muito firme quando começava a falar de arte - low profile, como costumo dizer desses espíritos tranquilos, que gostam mais de ouvir do que de falar. Aliás, me parece que esse era o perfil de todos esses amigos que nos deixaram precocemente, a delicadeza firme, a convicção no direito do outro de ser ouvido. Por isso tenho a impressão de que esta época, este biênio, pesou mais sobre eles do que nos outros, em nós, que ficamos. 
E como ficamos? Sinto, a cada perda, que uma parte de mim se vai, como o sermão de John Donne às avessas. 

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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