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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A culpa nunca foi dela

Assisti à tão falada série All Her Fault, no Prime Video, em dois dias. Na primeira metade, pensei que poderia ter dois episódios a menos (são oito no total). Também já sabia como ia terminar, quase não vi o restante. Mas persisti. 
E foi ótimo. Mesmo com algumas viradas rocambolescas, os plot twists que não podem faltar hoje, a mensagem-título é muito irônica e clara. O tempo todo as mulheres são culpabilizadas por todos, especialmente por seus companheiros, mas também por outras mulheres, quando há qualquer coisa que saia da rotina, das menores coisas até o desaparecimento de uma criança. Inclusive quando o desaparecimento está associado a uma mentira, a uma atitude masculina tomada anos antes. A união entre mulheres é que recoloca tudo nos trilhos de uma outra maneira, são elas que convencem umas às outras que a culpa nunca foi delas. Diante da incompetência masculina de um marido e o controle e toxicidade de outro, são elas que se apoiam mutuamente até mudar toda a situação. 
Como se trata de uma história com personagens brancas e prósperas, não pude deixar de pensar no tamanho da culpa que seria atribuída às mulheres de outras raças, classes sociais e tipos de feminilidade. Ainda mais tendo lido, enfim, o livro de Virginie Despentes, Teoria King Kong, que destrincha as armadilhas da feminilidade imposta pela heteronorma, e quase terminado o de Dahlia de la Cerda, Desde los zulos, que Marisa me trouxe do México e que discute a práxis feminista a partir dos "buracos", das brechas onde vivem as mulheres periféricas, não brancas, que não têm um "teto todo seu" para escrever o que quer que seja. 
Por maiores que sejam as diferenças entre as feministas das diferentes "ondas" e entre mulheres em geral, só me ocorre que apenas juntas, em meio às diversidades, é que conseguimos mudar as coisas. Admitindo privilégios e diferenças, acolhendo, ouvindo, tomando as ruas e os espaços, não assumindo responsabilidades alheias, rompendo com padrões a nós imputados. A culpa nunca foi delas, nem nossa.  

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

E eu não sou uma mulher?

https://tm.ibxk.com.br/2024/09/10/10081637314008.jpg?ims=1200x675 
Sojourner Truth foi uma ex-escravizada estadunidense que conseguiu se libertar e passou a lutar contra a escravidão e para libertar seu filho; foi quando adotou esse nome, que significa "verdade peregrina". Ela se tornou famosa pelas suas lutas, e principalmente após seu discurso, depois transformado em livro, em que questionava um júri se "ela não era uma mulher", já que tinha menos direitos que uma mulher branca. 
Esse "e eu não sou uma mulher?" ressoa em lutas diversas, porque ser mulher não é um dado meramente biológico, como Simone de Beauvoir nos alertou. Mais ainda, como nos ensinaram Lélia González e Kimberlé Crenshaw, há muitas categorias do feminino, que envolvem também raça e classe. Por fim, mas não menos importante, as transfeministas também agregaram a essa discussão a pergunta: mas, afinal, o que é ser mulher? Por que alguém almeja sê-lo?
Na programação da pós, apresentei um seminário sobre o documentário Divinas divas, de Leandra Leal, que mostra as principais travestis brasileiras - Rogéria, Jane di Castro, Eloína dos Leopardos, Fujika de Halliday, Marquesa, Brigitte de Búzios, Camille K e Divina Valéria - em um show que fizeram por dez anos no Teatro Rival, na Cinelândia. Além do preconceito e da violência sofridos, inclusive do Estado militar, o que mais me chamou a atenção foi a questão de quererem ou não ser mulheres e o que fazer para chegar a isso, inclusive se arriscando com aplicação indiscriminada de hormônios - o que me fez lembrar do Fofão da Augusta, personagem icônica do Centro de São Paulo, com suas imensas e maquiadas bochechas.
A busca desesperada pela beleza e juventude, que teoricamente seria o que define uma mulher (e Dustin Hoffman, falando sobre sua personagem em Tootsie, revela como percebeu que uma mulher, para ele, tinha que estar associada a um padrão de beleza predeterminado para ser minimamente considerada), é o tema muito pertinente, pra não dizer urgente, do filme A substância, da francesa Coralie Fargeat, estrelado por Demi Moore e Margareth Quailey e acertadamente classificado como terror. Terror dos bons, que prende até o último segundo, e que mostra, sem esconder nada, o que está no fundo da busca da "nossa melhor versão" - o esvaziamento de si mesmo/a. É preciso se tornar outra para ser melhor?  
As mulheres cis e trans vivem esse dilema o tempo todo - o que, afinal, é ser mulher? Não podemos ser pretas, pobres, velhas, gordas, fora do "padrão" sempre imposto pelo patriarcado? É preciso mesmo entrar numa caixinha para ser? Ou será que impor nossa existência não vencerá pelo cansaço esses haters do feminino? Há muito que pensar, mas mais ainda o que fazer - e isso não passa pelos procedimentos estéticos.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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