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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Pão, arte, liberdade

De novo, fui assistir à apresentação do Neojiba, abertura da temporada antes da turnê chinesa. Como sempre, lotado, ingressos esgotados, graças à deusa. Mendelssohn, Beethoven, Gershwin, impecáveis execuções, inclusive sem regência, impressionante. Houve participação do coro juvenil, afinadíssimo, mas com uma peça que me impactou pouco, em homenagem à visita do papa João Paulo II. E houve a presença mágica do virtuose francês David Grimal, que tocou um Stradivarius e regeu aquelas moças e rapazes tão talentosos da orquestra. A minha cara estupefacta ao final não me deixa mentir. 
Umas semanas antes, eu tinha assistido em sequência Pão e rosas, de Ken Loach, e Pão, rosas e liberdade, documentário produzido por Malala Yousafzai e Jennifer Lawrence. Na verdade, os dois filmes têm o mesmo título original, Bread and roses, que evoca o lema das sufragistas nos Estados Unidos do início do século XX. Muito adequado o acréscimo de "liberdade" ao título do documentário, porque ele trata da realidade de cerceamento da liberdade das mulheres afegãs com a volta do Talibã após a retirada das tropas estadunidenses. Tanto em um quanto em outro filme são as mulheres que lideram a resistência - trabalhadoras de serviços de limpeza no primeiro, mulheres de todas as classes no segundo. Não são histórias com final feliz, o que muito se explica pela opressão patriarcal sobre todas as mulheres ainda hoje. 
E o que, afinal, Neojiba tem a ver com esses filmes sobre resistências femininas e até mesmo com patriarcado e seus derivados? Ocorreu que, além de eu perceber muito claramente nessa apresentação primorosa que a maioria da orquestra ainda é composta por rapazes, calhou de uma colega da pós comentar que parou de tocar porque teve de fazer a escolha entre trabalhar e tocar, entre fazer pós e tocar, entre demandas familiares e tocar. Claro que quando estamos falando de jovens periféricos o corre é para todos - mas para as garotas é sempre um corre a mais. Até mesmo em um ambiente supostamente mais saudável os efeitos de um machismo sistêmico se fazem sentir. 
A arte, claro, nos permite sonhar e soar. Seguimos todas, porém, querendo meios de viver livres e com dignidade em todas as esferas. 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Bugonia, misoginia, câmara de eco e Chico Tosco derrapando bonito

Fui com Guga assistir ao último filme de Yorgos Lantimos, Bugonia, com Emma Stone e Jesse Plemons, brilhantes, e o surpreendente Aidan Delbis, um jovem ator autista que rouba a cena muitas vezes. O roteiro reúne teoria da conspiração, câmara de eco, misoginia, fascismo, extrema violência em uma parábola de nosso tempo. Não escapa a ninguém minimamente atento que a treta com a personagem de Emma Stone só acontece por ela ser mulher, e uma mulher com poder. 
Calhou de pouco antes de assistirmos ao filme Chico Tosco ter atacado de novo, primeiro em uma entrevista infeliz na infeliz Veja, depois atacando a atriz Alice Carvalho por ter comentado que ele "só falou bosta". Tosco disse que Alice é sempre "agressiva" e então, como argumento de sua tosquice misógina, desfilou alguns títulos que ele publicou. Dessa vez, a galera caiu sobre ele, e o pobre teve de se retirar das redes, mas deixou acólitos e defensores em seu lugar. 
Ao mesmo tempo que me desanima repetir as mesmas explicações, que não existe esse negócio de que toda "opinião" é válida, porque isso é flertar com o fascismo e a "liberdade de expressão" apropriada exatamente pelos fascistas, sinto um ventinho de esperança quando vejo mais pessoas, mulheres e alguns homens, que bom, clamando que a herança do patriarcado é inadmissível e que não somos nós, mulheres, que temos de fazer a lição dos homens que se dizem injustiçados por uma nova realidade - justamente, a de luta contra a opressão, seja ela qual for. 

https://f.i.uol.com.br/fotografia/2025/11/26/17642026026927986ae3c77_1764202602_3x2_md.jpg

domingo, 20 de julho de 2025

Descasar também é coisa de cinema

Assisti outro dia a um filme indicado por Dani, Mon roi, da diretora francesa Maïwenn. Poderia dizer que é um filme de terror - Georgio, personagem de Vincent Cassel, é um restaurateur charmoso e abusivo que se relaciona com a advogada Tony, vivida por Emmanuelle Bercot. Ele decide tudo no relacionamento: ter um filho, o nome da criança, deixar a namorada/mulher no apartamento enquanto vai morar em outro onde recebe a ex. Georgio é claramente tóxico, mas sedutor, se faz de vítima, um puer aeternus típico, e Tony não consegue se desvencilhar, e até o fim ficamos presas ao filme, sem fôlego, à espera de que ela consiga ir embora. Terrível! Há quem diga que Maïwenn se inspirou na sua história com Luc Besson. 
Isso me fez pensar em outros filmes sobre términos difíceis de casamento após relacionamentos tóxicos. História de um casamento, de Noah Baumbach, traz o casal Nicole e Charlie, vividos pelos charmosos Scarlett Johansson e Adam Driver, vivendo o fim do casamento de forma progressivamente dolorosa. Nicole também abre mão de seus interesses em prol da relação - ela, uma atriz em ascensão, deixa tudo para cuidar da família com o marido diretor, que não abandona nem um milímetro de sua carreira. A advogada Nora, interpretada pela ótima Laura Dern, ajuda Nicole a enxergar a realidade. 
A esposa, filme de Björn Runge, traz Glenn Close no papel de Joan, mulher de Joe, premiado escritor que acabou de ser premiado com o Nobel de Literatura. É exatamente a ocasião em que Joan revê seu casamento, sua dedicação irrestrita que a levou a suplantar seu próprio talento e tornar o marido um escritor reconhecido. E decide abandonar o marido, no meio da cerimônia de premiação. Descobrimos, então, que era ela quem escrevia os livros de Joe, que também tem um ego gigante, como os companheiros das outras películas. 
Acabei hoje revendo A lula e a baleia, também de Noah Baumbach. Impressionante como esse filme de 2005, vinte anos portanto, é totalmente atual. Não há nada nele que possamos chamar de "datado", o que, no fundo, é triste: o machismo, a cultura patriarcal, o marido que manipula, que coloca para baixo para não se sentir inferior e que não suporta a ascensão da mulher - de novo, um casal de escritores. A personagem de Jeff Bridges, o marido, ainda procura alienar os filhos - o mais velho, que busca aprovação paterna, cede, mas o pequeno saca melhor a dinâmica familiar. Walt, o mais velho, tem o pai como exemplo e, ao ser desmascarado por usar uma música do Pink Floyd como sua, diz que sentia que poderia ter escrito a música - algo que seu pai provavelmente diria, no alto de sua arrogância. As mulheres são rotuladas por Walt e seu pai, homens que não amam mulheres. Mas Walt pode ter sua redenção, depois de se lembrar de ocasiões em que teve momentos especiais com a mãe e o pai nunca estava presente. E a mãe, Joan (outra Joan), vivida por Laura Linney, também já deu seu passo rumo a uma vida autônoma. 
A questão nesses filmes não é o dano do casamento em si. Todos eles tratam, na verdade, de homens narcisistas, que colocam as parceiras como apêndices, apoios de seu sucesso, e só. São incapazes de partilha, de se alegrar com as conquistas alheias. Cada vez mais temos visto a realidade de exaustão feminina nas telas - mas, diferentemente de Kramer vs Kramer, em que a mulher é retratada como a vilã que abandona o filho e o pai que, afinal, tem que fazer o básico e é visto como herói. 
Mesmo com tanto ultraconservadorismo hoje, seguimos dando um passo a cada dia, sem interromper a caminhada. Não importa quando, sempre é tempo de fazer o melhor. 

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Questões de classe(s)

Há alguns dias, fui assistir ao novo filme de Juliette Binoche, Entre dois mundos, do diretor francês Emmanuel Carrère. De cara, me lembrei de Dias perfeitos de Wim Wenders, por Carrère mostrar a rotina de trabalhadoras na limpeza de banheiros e cabines de navio. Claro, são duas propostas muito diferentes, o longa de Wim Wenders se assemelha a um haikai, tamanha sua capacidade de captar a poesia do cotidiano. O filme de Carrère pouco tem de poético, leva-nos num moto-contínuo de trabalho exaustivo junto com as mulheres contratadas por agências para limpar a sujeira alheia enquanto lidam com seus próprios dramas, a maioria deles produzido pela falta de recursos materiais e emocionais. Embora a gente torça para um real envolvimento da personagem de Binoche com suas colegas, a realidade fala mais alto, e ela não sobe novamente na balsa com elas depois de ter conseguido lançar seu livro, um sucesso, aliás, justamente a respeito daquelas trabalhadoras. A classe continua a determinar as distâncias, apesar do interesse "antropológico" da protagonista. 
Como se trata de um filme sobre as classes operárias, poderíamos lembrar também de Ken Loach, quase um E. P. Thompson das telas, outro britânico que traz os desvalidos para o centro da cena, nunca de forma redentora, mas dolorosamente solidária e sem atravessadores de ocasião. Mas, mesmo com a dureza da vida proletária traduzida pelos seus não atores, Loach mostra, como Carrère, que existem mesmo dois mundos separados, não mais proletários e patrões, mas explorados e exploradores. E ainda há quem queira reduzir tudo a questões de "identitarismo", quando o que temos é uma minoria interessada na manutenção da miséria para não abrir mão de seus privilégios. 
Que a arte, seja a de Carrère ou a de Loach, nunca nos deixe esquecer do que se trata.  

https://rollingstone.com.br/media/_versions/2025/05/binoche-conduz-reflexao-sobre-etica-e-invisibilidade-no-drama-entre-dois-mundos_widelg.jpg

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Na guerra contras as identidades, a maioria perde

Um dos efeitos indesejados do sucesso do filme Ainda estou aqui, de Walter Salles Jr., foi evidenciar ainda mais o ataque contra as pautas identitárias. Em meio à premiação de Fernanda Torres como melhor atriz de drama no Globo de Ouro (com direito a aplausos entusiasmados e em pé de Tilda Swinton), houve comentários negativos, inclusive do Chavoso da USP, sobre o valor do filme, já que retrata pessoas brancas, de classe média alta, enquanto pessoas negras sofrem o terror todo dia, até hoje. 
Como discordar dessa constatação, de que pessoas pobres e negras sofrem muito mais que pessoas brancas e com mais recursos? O problema é encampar a luta por quem sofre mais em vez de se unirem todos contra o opressor comum - capitalismo, patriarcado, a zorra toda. Cujos líderes seguem felizes enquanto nos atacamos uns aos outros. A iniquidade não vai acabar com lutas internas. E ainda mais quando pessoas da própria esquerda ou minimamente mais liberais veem as pautas alheias como frescura. Vejo isso no meu círculo, e sinto uma tristeza enorme, mas também uma preguiça de debater. É nesse desencontro que a extrema direita se fortalece, e as desigualdades sociais seguem cristalizadas.
Até o fato de Walter Salles Jr. ser rico serviu de argumento demeritório. Mas que bom que ele resolveu empregar o dinheiro dele (não, ele não usou a Lei Rouanet) para produzir um filme com ESSA história, sobre AQUELE período. E que valor imenso teve Eunice Paiva, para além de esposa do ex-deputado Rubens Paiva, na constituição da Comissão da Verdade para apuração das mortes dos desaparecidos políticos e também junto aos povos indígenas. Que bom que as lutas que escolheram foram pela maioria da população, e não somente pelos integrantes de seus quadrados. Se negassem as existências, as identidades alheias - as ALTERIDADES -, perderíamos muito mais e nem nos daríamos conta.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

E eu não sou uma mulher?

https://tm.ibxk.com.br/2024/09/10/10081637314008.jpg?ims=1200x675 
Sojourner Truth foi uma ex-escravizada estadunidense que conseguiu se libertar e passou a lutar contra a escravidão e para libertar seu filho; foi quando adotou esse nome, que significa "verdade peregrina". Ela se tornou famosa pelas suas lutas, e principalmente após seu discurso, depois transformado em livro, em que questionava um júri se "ela não era uma mulher", já que tinha menos direitos que uma mulher branca. 
Esse "e eu não sou uma mulher?" ressoa em lutas diversas, porque ser mulher não é um dado meramente biológico, como Simone de Beauvoir nos alertou. Mais ainda, como nos ensinaram Lélia González e Kimberlé Crenshaw, há muitas categorias do feminino, que envolvem também raça e classe. Por fim, mas não menos importante, as transfeministas também agregaram a essa discussão a pergunta: mas, afinal, o que é ser mulher? Por que alguém almeja sê-lo?
Na programação da pós, apresentei um seminário sobre o documentário Divinas divas, de Leandra Leal, que mostra as principais travestis brasileiras - Rogéria, Jane di Castro, Eloína dos Leopardos, Fujika de Halliday, Marquesa, Brigitte de Búzios, Camille K e Divina Valéria - em um show que fizeram por dez anos no Teatro Rival, na Cinelândia. Além do preconceito e da violência sofridos, inclusive do Estado militar, o que mais me chamou a atenção foi a questão de quererem ou não ser mulheres e o que fazer para chegar a isso, inclusive se arriscando com aplicação indiscriminada de hormônios - o que me fez lembrar do Fofão da Augusta, personagem icônica do Centro de São Paulo, com suas imensas e maquiadas bochechas.
A busca desesperada pela beleza e juventude, que teoricamente seria o que define uma mulher (e Dustin Hoffman, falando sobre sua personagem em Tootsie, revela como percebeu que uma mulher, para ele, tinha que estar associada a um padrão de beleza predeterminado para ser minimamente considerada), é o tema muito pertinente, pra não dizer urgente, do filme A substância, da francesa Coralie Fargeat, estrelado por Demi Moore e Margareth Quailey e acertadamente classificado como terror. Terror dos bons, que prende até o último segundo, e que mostra, sem esconder nada, o que está no fundo da busca da "nossa melhor versão" - o esvaziamento de si mesmo/a. É preciso se tornar outra para ser melhor?  
As mulheres cis e trans vivem esse dilema o tempo todo - o que, afinal, é ser mulher? Não podemos ser pretas, pobres, velhas, gordas, fora do "padrão" sempre imposto pelo patriarcado? É preciso mesmo entrar numa caixinha para ser? Ou será que impor nossa existência não vencerá pelo cansaço esses haters do feminino? Há muito que pensar, mas mais ainda o que fazer - e isso não passa pelos procedimentos estéticos.

sábado, 6 de julho de 2024

A delicadeza afrontada em "Close"

Desde que soube da existência de outro filme de Lucas Dhont, o mesmo diretor de Girl, fiquei de olho em que streaming ele apareceria. Demorou, mas em maio Close estreou no Netflix. Embora os dois filmes sejam bem diferentes, há em ambos a dor de quem quer ser apenas quem é mas encontra a intolerância e o preconceito pela frente, nos dois casos, chocantemente, em outros jovens que estão apenas começando a viver. 
Close mostra a amizade entre dois garotos de 13 anos numa cidade bucólica da Bélgica. A questão não é saber se se trata de uma relação amorosa; o que se vê é uma inocência patente na maneira como os amigos se tratam um ao outro. Até poderia se tornar uma história de amor, mas não saberemos jamais, tudo porque a violência da intolerância nascente vai abreviar essa história. A possibilidade de vida e amor é minada pelo ódio herdado de uma cultura machista. O título se refere, de antemão, a um comentário que uma colega faz acerca da relação de Leo e Remi, de que eles estavam sempre "perto", sempre juntos, se isso queria dizer que eles tinham um "relacionamento". Leo fica incomodado, pela primeira vez - nunca havia pensado nisso. Remi, uma alma de artista, nem parece se aperceber do comentário maldoso, mas sofre horrivelmente com o afastamento do amigo. 
Mais uma vez, Lucas Dhont dirige de forma magistral seus atores, a ponto de nos partir o coração. Mais uma vez, a suavidade das personagens é engolfada pela tragédia. Mas isso não é motivo para não assistirmos ao filme, pelo contrário - é a oportunidade que a arte nos dá de enxergarmos o outro, de lhe emprestarmos a nossa pele e nos deixarmos afetar, sinal indiscutível de que estamos vivos.
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sábado, 27 de abril de 2024

As novas minas no cinema

No final do maravilhoso curso do Paulo Henrique Fernandes Silveira na FEUSP, escrevi sobre a imagem das mulheres no cinema, passando de enfeites e coadjuvantes, durante muito tempo, a protagonistas das narrativas nos últimos anos. Parece que agora demos mais um passo nas películas, no sentido de as protagonistas soltarem o verbo contra o machismo. 
Só para ficar no exemplo dos filmes oscarizados deste ano, trago Barbie, Pobres criaturas e (eu acrescento) Anatomia de uma queda. Não fui a única a perceber essa relação, claro, especialmente entre os dois primeiros, puro deboche antimachista, e houve quem relacionasse o terceiro ao ótimo História de um casamento, como se a esposa do filme francês, vivida por Sandra Hüller, tivesse tido a coragem de dar as respostas que a personagem de Scarlett Johansson não conseguiu ao vomitório de insatisfações do marido. Eu colocaria os três indicados deste ano na mesma chave de leitura, com protagonistas que vivem sua vida sem se render à cartilha do patriarcado e, com isso, provocam espasmos e histeria dos machos de plantão - Mark Ruffalo chega mesmo a rolar no chão diante da liberdade plena da Bella Baxter de Emma Stone. 
Em outra postagem, comentei sobre Barbie em relação a outros filmes que traziam símbolos da infância, Indiana Jones e Asterix. Não tinha, contudo, enfatizado o discurso feminista, o ótimo texto, a fala exemplar da personagem de América Ferrera sobre tudo o que é exigido de uma mulher, nada menos que a perfeição e mais, se possível for. 
Com humor ou com tragédia, os três filmes trazem as mulheres questionando o patriarcado, arregaçando as mangas contra ele e provocando reações masculinas contrárias, dentro e fora dos filmes. Mas o que mais me agrada é que nenhuma das protagonistas se culpa por fazê-lo, algo que muitas de nós ainda precisam aprender. 

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Senescência na ordem do dia e do processo inescapável da vida

A população mundial cada vez mais é composta de velhos, em comparação com as demais faixas etárias. O Brasil, mergulhado nas suas desigualdades históricas, acompanha como pode esse fenômeno. Parece um contrassenso caminharmos para o ápice da pirâmide etária, para a maior expectativa de vida, ao mesmo tempo que o planeta vai cada vez menos deixando de ser um lugar viável para a humanidade - não nos esquecendo, claro, que a culpa dessa inviabilidade é quase toda nossa. 
Não é à toa, portanto, que há um interesse crescente nessa população, tanto em termos de pesquisa quanto em um viés consumista. Por fim, surgiram produtos voltados para o público 50-60-70+, e não apenas medicamentosos e geriátricos. Produtos ligados à saúde, ao bem-estar, à beleza, próprios de gente que tem escolhido se cuidar e viver mais e melhor - claro que, para quem pode pagar, sempre há de tudo, em qualquer faixa etária, não nos esqueçamos também disso. 
Em termos de pesquisa, tem havido uma distinção entre senescência e senilidade. A senescência tem a ver com o fenômeno natural de envelhecimento, enquanto a senilidade indica doenças e limitações que vitimam os idosos. Essa distinção deve ajudar esse grupo nas tratativas com planos de saúde, já que não necessariamente ser velho é sinônimo de ser doente, mas principalmente faz com que a sociedade volte sua atenção para essas pessoas, que continuam a existir, e naturalize o envelhecimento. 
No cinema, a arte visual mais popular, cada vez mais vemos protagonistas mais velhos. Não como um ator velho que é convidado para aquele papel, sobretudo homens à la Clint Eastwood. Agora é a situação de uma pessoa velha que está em pauta. O que fazem os velhos, onde vivem? Estas são as questões que estão na ordem do dia. Outro dia falei sobre o filme Nyad, com Annette Bening no papel da nadadora de mais de 60 anos que faz uma travessia marítima desafiadora. Temos visto atrizes que eram musas pedindo para não terem sua aparência retocada, disfarçada. Jodie Foster, que participou da Nyad e foi protagonista da nova temporada de True Detective, mostrou cada uma de suas rugas em cena. A também sexagenária e belíssima Isabella Rosselini pediu para não usar maquiagem na capa da Vogue. Ontem assisti ao excelente Boa noite, Leo Grande, com a querida Emma Thompson, que retrata uma mulher madura, viúva, que resolve contratar um garoto de programa em busca de experiências que ela nunca teve na vida, inclusive um orgasmo. Boa parte da fala de Thompson é sobre como a mulher que envelhece é vista, e ela inclusive se mostra, nua, com as tintas da senescência natural humana. 
Mas o fato é que encarar a velhice não é fácil, principalmente a fragilidade que vem a reboque. No adorável filme Ella e John, um casal de idosos resolve pegar a estrada, mesmo com todas as limitações da senilidade - cardiopatia, Alzheimer, dificuldade em dirigir. No mundo real, além de notícias de pessoas queridas que encararam ou encaram recentemente alguma doença, passei três semanas com minha mãe, que se recuperava de uma cirurgia num dos joelhos após uma queda. Embora ela praticamente não me tenha dado trabalho - conseguia andar, mesmo muito devagar, tomava banho sozinha, tomava seus inúmeros medicamentos, aplicava insulina -, foi muito aflitivo constatar o seu envelhecimento com várias limitações, como diabetes, cardiopatia e pressão alta, além de ela enxergar pouco, o que explica muitas das suas quedas. Creio que, além de me angustiar como será a vida de minha mãe daqui até o final (e então vêm todos os imbróglios familiares imagináveis), o mais difícil foi ver nela um espelho, e também pensar em como será envelhecer em uma realidade tão caótica, talvez mais precária que hoje. Imaginar o futuro tem sido angustiante em vários sentidos, portanto. 
Então ontem, enquanto pensava mais uma vez e cada vez mais em possibilidades pouco animadoras, eu a vi, a pequena borboleta, pousada na rede de proteção. Resistindo ao vento, que tem sido forte nessa época que já anuncia chuvas mais intensas. Existindo, resistindo, talvez descansando, talvez se preparando para novo voo, mas principalmente sendo o que nasceu para ser. Como em outros momentos da minha vida, uma beleza alada apareceu para lembrar dos ciclos a que estamos sujeitos, entre nascer e morrer, passado e futuro. Mas, no meio disso tudo, o presente, o conhecido, o inescapável viver. 

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Continue a nadar

Eu ia postar somente sobre o filme Nyad, com as maravilhosas Jodie Foster e Annette Bening, mas calhou de ontem de eu ter ido ver Ritchie na Concha Acústica e acho que as duas coisas se complementam perfeitamente. E também ter assistido, num outro dia, ao ótimo Quantos dias, quantas noites, documentário de Cacau Rhoden sobre finitude e velhice. 
Nyad é a história da nadadora Diana Nyad, que, depois de amargar na juventude o insucesso da travessia marítima de Cuba à Flórida, resolve, com mais de 60 anos, realizar o feito. Annette Bening nos arrebata no papel da nadadora obcecada e algo intratável, sobretudo por se mostrar na idade que tem - ela, que foi uma diva do cinema e se mostra ainda melhor sem o disfarce da beleza juvenil. Ela é escudada pela talentosíssima Jodie Foster, que vive sua amiga e treinadora - e vemos que o filme tem como pano de fundo uma competição consigo mesma, mas é muito mais que isso, é sobre amizade, solidariedade, afeto, confiança, envelhecimento. 
O documentário Quantos dias, quantas noites trata também do envelhecimento, tanto no seu aspecto de longevidade, uma realidade a que cada vez mais se assiste no mundo todo (apesar da fome, crises humanitárias, guerras), quanto no de aceitação da finitude - sim, estamos indo longe, mas uma hora o caminho acaba. E o que fazemos com essa verdade inviolável? Há vários momentos tocantes no documentário, mas eu destacaria dois, o da jovem ativista de cuidados paliativos AnaMi, que aceita sua finitude na luta contra o câncer, se despedindo sem desesperos da vida (ela morreu poucos dias depois de assistir ao doc pronto), e o de Mona Rikumbi, bailarina cadeirante de cerca de 50 anos que celebra a vida de maneira contagiante. Ambas mostram, para além da relação com longevidade e finitude, como se relacionam com o que a vida lhes trouxe. A lição parece simples, mas é preciso que se repita sempre: se tiver que descascar cebolas, descasque cebolas. Ou, uma vez no mar, continue a nadar - já nos ensinou a peixinha Dory. 
Quando vi aquelas milhares de pessoas, a maioria entre 50 e 70 anos, lotando a Concha Acústica para ver Ritchie, vi que estavam não só em busca da nostalgia das canções de 40 anos atrás, mas presentes numa experiência de grande alegria, cantando, dançando, recordando o bom do amor. Lá estava Ritchie, do alto dos seus 71 anos, ainda fazendo o que sabe fazer tão bem, embalando nossas histórias, mas com novas camadas, como a homenagem feita a várias mulheres, entre elas Zilda Arns, Angela Davis, Maria da Penha, Marielle Franco e Rita Lee. E quando a gente vai atrás dessa experiência de alegria percebe que também continua a nadar, mesmo achando que não sabe. 

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

"Girl" ou o quanto desconhecemos a dor do outro

Poucas vezes vi um filme tão contidamente doloroso como Girl, do jovem diretor belga Lukas Dhont.  Apesar das críticas ao fato de o ator protagonista não ser uma menina trans, mas um garoto cisgênero, a performance desse jovem, Victor Polster, é irretocável, no sentido de nos levar junto na sua travessia de luta por ser quem é, sofrendo silenciosamente violências grandes e pequenas numa sociedade aparentemente progressista como a belga. Polster é bailarino, então suas cenas de dança são vertiginosas na busca da perfeição e de um lugar naquele mundo. Tem um quê de Cisne negro nessa vertigem do movimento e também na busca pela transformação - no caso de Girl, a transformação da protagonista em si mesma, naquilo que nasceu para ser, uma mulher, e uma mulher que dança.
Neste momento preciso, no Brasil, a comunidade LGBTQIA+ sofreu um baque na garantia de seus direitos. Justamente os direitos de existirem, de constituírem família, de simplesmente serem. Apesar da vitória de Lula, sabíamos que a luta não findaria, e a ultradireita continua seus ataques obscenos contra os direitos humanos. Apesar da insipiência argumentativa, eles detêm o capital financeiro que direciona as leis. E o mundo parece cada vez mais do avesso quando vemos parte da humanidade zelosa em promover a infelicidade alheia. 
Isso tudo, os ataques reais e os ataques que a personagem de Girl sofre (mesmo com todo o apoio familiar, as jovens bailarinas exigindo que ela mostre seu membro, e toda a pressão para que não se misture às outras meninas, chegando ao fim trágico da mutilação), me fazem lembrar da fala de Rubem Alves no documentário Eu maior, sobre a tragédia grega e a compreensão de Nietzsche acerca dela, de que os gregos não se entregavam à inevitável tragédia da vida porque cultivavam a beleza. Hoje está mais difícil pensar na beleza em meio ao horror cotidiano, até porque a arte e a natureza, portadoras dessa beleza, também têm sido violentadas. 
Talvez por isso tudo a dor silenciosa em Girl soe como a mais perfeita tradução para esse sofrimento que muitas e muitos de nós não conhecemos, mas que justamente por isso não devemos ignorar. Nisso é que residem a empatia e a verdadeira compaixão, e são elas que nos fazem verdadeiramente humanos.
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segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Nossos ídolos ainda são os mesmos?

Nos últimos tempos, vi três filmes de puro entretenimento que trazem ícones de infância e juventude atualizados, mais politicamente corretos, antenados com as questões prementes da sociedade. Indiana Jones, Barbie e Asterix tratam agora de etarismo, machismo e intolerância contra os imigrantes. 
Indiana Jones foi um ícone na minha infância e adolescência. Afinal, era um arqueólogo, tudo bem que usando meios escusos (qual arqueólogo nunca?) para obter artefatos antigos, a maioria com poderes mágicos. 
Asterix entrou na minha vida bem tarde, pra dizer a verdade. Embora eu já conhecesse as personagens, não tinha acesso fácil às BD. No colégio, um amigo que colecionava de tudo é quem me emprestou alguns exemplares - de Asterix, e também de Groo, Sandman, mangás. Na época da Alliance Française pude me esbaldar, porque a biblioteca era absolutamente maravilhosa, recheada de BD, e os franceses são especialistas em quadrinhos de cunho histórico, como a série mais recente Les sept vies de l'épervier, muito boa também. 
Barbie nunca fez parte da minha infância - eu tive uma Susie (único brinquedo que ganhei de meu pai, num arroubo de generosidade dele), e talvez já fosse meio grandinha quando Barbie virou objeto de desejo no Brasil. Mesmo sabendo da influência da cultura ianque representada na boneca loira sobre as meninas do mundo todo que depois se tornariam, muitas delas, mulheres buscando um padrão inalcançável, agora alimentado por modelos que reproduzem o padrão Barbie, mesmo assim fui ver o filme. E amei, ri muito, achei uma grande sacada da própria empresa desconstruir a si mesma, claro que de olho nos milhões perdidos com a decadência da imagem da boneca, em descompasso com as mulheres de hoje. Curti demais a multidão de mulheres de todas as idades indo ver o filme. Margot Robbie e Ryan Gosling estão maravilhosos - quando eu soube que Gosling ia fazer um filme da Barbie, fiquei chocada, mas agora entendo o porquê da escolha. 
Assim como acontece em Barbie, Indiana e Asterix voltaram repaginados em Indiana Jones e o chamado do destino e Asterix e Obelix: o Reino do Meio. Se Barbie trouxe as discussões antipatriarcado e seus efeitos nefastos sobre a autoimagem feminina às claras, Indiana voltou como o herói envelhecido, afrontando o etarismo sem negar o envelhecimento natural de todos (Harrison Ford com seus 80 anos quis mostrar tudo isso) e entregando um final emocionante, com direito a encontro com Arquimedes e com um grande amor (sem falar na participação luxuosa de Phoebe Waller-Bridge, que preenche todos os espaços da aventura, a danada). Já Asterix ganha um dos filmes mais engraçados que já vi na vida, uma adaptação perfeita dos quadrinhos sem ser caricato - Obelix escancara a típica fofura na pele de Gilles Lelouche, os engraçadíssimos José Garcia e Ramzy Bedia vivem, respectivamente, o biógrafo de César (impagável Vincent Cassel) e um mercador árabe -, trazendo à tona, em meio ao humor, a questão urgentíssima dos imigrantes na Europa e no mundo. 
Até mesmo para os heróis da ficção, é preciso estar atento, forte e atualizado para não ser passado para trás. 

domingo, 5 de março de 2023

"Ah, se eu pudesse"

Na semana passada, assisti ao longo longa Tudo em todo lugar ao mesmo tempo, com os ótimos Michelle Yeoh (O tigre e o dragão, Chang-shi e a lenda dos dez anéis, Memórias de uma gueixa, Podres de ricos) e Ke Huy Quan (Goonies e Indiana Jones e o Templo da Perdição) - aliás, foi a volta triunfal do ator, afastado há anos do cinema e agora vencedor do Globo de Ouro e do SAG Awards e indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante. 
O filme tem incríveis sequências de luta, efeitos especiais e figurinos e ótima direção, embora pudesse ser realmente menos longo. De qualquer modo, além da representatividade oriental necessária, o que me chamou a atenção no filme foi a temática do "e se eu pudesse voltar atrás", algo que não deixa nunca de figurar em algum filme ou livro mas tem sido mais reincidente na atualidade, especialmente com o fortalecimento da teoria dos universos paralelos. Já vimos isso em Interestelar, e mais atrás, em outra medida, em Feitiço do tempo, além de uma infinidade de outros títulos menos ovacionados. 
Outro dia, ainda, li o livro de ganhei de minha amiga-Thelma-secreta Kate, A biblioteca da meia-noite, de Matt Haig, um título que me chamou a atenção (amo livros sobre livros, filmes sobre livros) em alguma livraria e por isso escolhi como presente. A protagonista desiste, aos 30 e poucos anos (cedíssimo), de sua vida sem sentido e resolve dar cabo dela. Acaba despertando numa estranha biblioteca dirigida por uma bibliotecária que ela conheceu no passado e que oferece à jovem a chance de escolher um livro com um diferente enredo para sua história. Embora bastante teen no início, o romance vai ganhando força a cada vida experimentada (ela tem uma biblioteca inteira à disposição, lembram?), e a constatação a que a jovem chega (spoiler) é que a melhor vida é aquela da qual ela queria desistir, porque, como diz o sempre preciso Gil, "o melhor lugar do mundo é aqui e agora". 
Eu não chego a ter arrependimentos que me levem a esse tipo de questão - como seria se eu tivesse feito outra escolha? - até porque no fundo me pauto numa fala do eterno mestre Nicolau Sevcenko, a de que a história é fato, o "se" é ficção, literatura. Mas é claro que, ciente de tantas possibilidades na vida quantos são os meus interesses, eu sinto falta do que fica de fora - e que não necessariamente deveria - quando escolho algo. Para ser mais exata, fico me perguntando se preciso mesmo abrir mão de algumas coisas porque escolhi determinado estilo de vida. 
Enquanto algumas coisas são dadas pelas circunstâncias (por exemplo, estar longe de um grande centro urbano), outras derivam de um certo tipo de comodismo (achar que a vida a dois restringe viajar, fazer cursos, dar aula). A estas é que devemos prestar atenção, sobretudo no caso de nós, mulheres. Muitas vezes nos acomodamos por força da cultura patriarcal que nos ronda, mas cada vez menos nos amedronta. A personagem de Michelle Yeoh é emblemática: uma mulher tentando dar conta de tudo e que não realiza suas reais possibilidades, e que descobre, à beira do colapso, que pode dizer não, fazer ajustes, mudar, retomar o caminho, retomar seu tamanho.  
Embora pareçam vidas diferentes, como no livro de Haig, todas se encontram num mesmo ponto, o da essencialidade do ser, o que nos faz sermos únicas e únicos, com todas as possibilidades que carregamos em nós. Não nos percamos, seja lá qual for o caminho que decidirmos trilhar. Seguir sendo, esse é o maior poder. 

terça-feira, 3 de maio de 2022

Para assistir de lencinho na mão

Os filmes Medida provisória, de Lázaro Ramos, e Lunana: A yak in the classroom, do butanês Pawo Choyning Dorji, e a série Julia, da HBO, aparentemente não têm nada em comum. 
Mas têm. Lázaro e Pawo, por exemplo, estreiam como diretores de longas com esses títulos. O filme do butanês gira em torno de um professor, enquanto o de Lázaro se inicia com uma professora da vida real, dona Diva Guimarães, que o ator e diretor conheceu na Flip e que o emocionou até as lágrimas com seu depoimento de superação de mulher negra que escolheu o conhecimento para lutar contra o preconceito e abrir caminho para outras gerações (no filme, ela seria a primeira brasileira negra a receber uma compensação financeira pela escravização de seus antepassados). Tanto os dois filmes quanto a série sobre a famosa apresentadora de TV que levou a culinária francesa aos lares norte-americanos nos lembram como é importante ter uma rede de apoio, seja para realizar um sonho, ensinar-aprender ou fazer a revolução. E todos os três - filmes e série - exigem que tenhamos um lencinho a postos porque, sim, vão nos fazer chorar em algum momento.
No caso de Lunana, o protagonista, professor à força, já que na verdade quer ser cantor, é escalado, por castigo, para a mais remota vila do Butão, onde encontrará as crianças mais fofas da Terra, sobretudo a pequena capitã do grupo, Pem Zam, que eu, se pudesse, escolheria como filha. Todas as personagens - o prefeito, o guia, a cantora, as crianças, o protagonista ranzinza, sua avozinha - são adoráveis. A figura do iaque não é nada gratuita, uma vez que esse boi selvagem é de extrema importância para aldeias como aquela, e a lenda local do pastor que canta para seu iaque perdido se encontra com o jovem professor, um iaque na sala de aula. Impossível conter as lágrimas diante de tanta beleza singela.
Medida provisória é um filme que nos faz rir e chorar ao mesmo tempo. As situações cômicas se mesclam às absurdas e revoltantes, e a sensação de estupefação por sabermos que tanto, tanto daquela distopia é real nos toma o tempo todo que dura o filme. Tive vontade de sair gritando em alguns momentos, o peito chegando a doer de aflição, mesmo o filme não se pretendendo triste. Não tem redenção, ainda bem, porque nem cabe ali, mas tem esperança, tem força, tem união. E a gente precisa tanto!
Por fim, a série sobre Julia Child. Depois que se assiste a Meryl Streep no papel da apresentadora, parece ser impossível que alguém a supere. Nem se trata de superar, mas de trazer uma interpretação mais doce e sexy de Julia Child: é o que a inglesa Sarah Lancashire faz lindamente. Não sei se era sua intenção, mas ela nos seduz. Ela e Paul (David Hyde Pierce) nos seduzem, como um casal afiadíssimo, cúmplices até o fim, algo que Meryl Streep e Stanley Tucci haviam entregue no filme de 2009, mas com um pouco menos de desejo. A gente chega ao fim de cada episódio querendo um amor como aquele, amor-sexo-amizade na medida. E tem sedução extra no episódio sobre pães: só quem faz pão sabe a emoção que é tirar do forno um pão bonito. Muito, muito maior que a de fazer um prato difícil que fica delicioso - o pão já nos diz a que veio na saída do forno, se abriu pestana, se caramelizou, se faz toc-toc ao bater no fundo. Mas antes também, quando depois de medir com exatidão ingredientes, misturar e sovar, pomos a massa a fermentar. E depois, se, ao cortar, sentimos a crocância da casca e imediatamente, em seguida, a maciez do miolo, o cheiro de nozes, os alvéolos abertos. E ainda a manteiga derretendo, e todo o sabor explodindo na boca, extasiando as papilas. O pão que dá certo é amor-sexo-amizade na medida, um milagre. Um milagre. 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

A urgência de Almodóvar e Campion nos dias de hoje

Uma das poucas certezas que tenho na vida é que amo Pedro Almodóvar. Pode até haver um filme dele que acho mediano, mas, de modo geral, no cômputo final, amo seu trabalho. Sempre me surpreendo, feliz, com as camadas que vou desvendando a cada película. Adoro as nuances hitchcockianas mais coloridas de seus closes e recortes, suas trilhas dramáticas ou tropicalmente alegres, mas principalmente suas personagens tão humanas e suas tramas profundas por mais corriqueiras que pareçam. Achei que não era possível amar mais, mas acabo de ver Madres paralelas, com Penélope Cruz. O feminismo, sempre presente na obra de Almodóvar, aparece devidamente repaginado, com questões LGBT urgentes, maternidade, estupro, identidade e a luta principalmente das mulheres para que a memória da violência não se perca - caso do reconhecimento dos corpos enterrados em uma cova de um povoado, nos primeiros dias da Guerra Civil (para mim, desde sempre, um período histórico de grande interesse). Absolutamente necessária hoje a fala de Janis, personagem de Penélope, para a jovem Ana (Milena Smit), de que ela deveria saber de que lado estava sua família durante a guerra e que esta não cessaria enquanto os corpos dos mais de 100 mil desaparecidos ao longo do regime franquista não pudessem ser enterrados por seus familiares. Aquele calor no coração que o chamado por justiça provoca, ai. Mas tenho certeza de que muita gente hoje em dia vai detestar esse chamado por justiça e liberdade de Almodóvar, como detestará também o filme de Jane Campion com 12 indicações ao Oscar, o maravilhoso Ataque dos cães
No caso de Campion, cria-se uma expectativa acerca da temática de seu filme, aparentemente um faroeste, porque o filme é ambientado em Montana, na verdade Nova Zelândia. Tudo parece ser, mas não é. O título em português irritou os não entendedores - o original é The power of the dog, homônimo do romance de Thomas Savage. Embora sim, o nome em inglês se relacione com a passagem bíblica apontada por Peter, personagem do excelente Kodi Smit-McPhee, não se perde em nada a metáfora do cão-demônio que ameaça a paz do casal Rose e George, vividos lindamente pelo casal na vida real Kirsten Dunst e Jesse Plemons (um dos meus atores favoritos no momento) - aliás, que cena mais delicada do mundo a de Rose e George tomando chá e dançando na planície! Não preciso nem comentar o trabalho do querido Benedict Cumberbatch, que tem a mesma habilidade de seu conterrâneo Ralph Fiennes para expressar um sofrimento arduamente contido. Se em Madres paralelas vemos as mulheres prontas para tudo - para lutar, para amar, para pedir ajuda, para enfrentar as consequências da verdade, seja qual for -, em Ataque dos cães, assistimos ao mundo machista engolindo a si mesmo por não aguentar a claridade ofuscante da verdade. 
Como dois filmes tão diferentes podem ter coisas em comum? Mais ainda: por que ambos podem ser tão importantes nos dias de hoje? A escrita do desejo proibido de Campion encontra a liberdade de ser de Almodóvar, e os dois caminham na busca da verdade, esse bem tão vilipendiado hoje, deformado a serviço de impostores, intolerantes, covardes. Porém, é importante que se diga que, embora Campion e Almodóvar lancem luzes sobre o obscuro, cabe somente a nós vermos. 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Marighella, bordado e a necessidade de mais cor e poesia para a luta

Li há alguns dias um texto ótimo da sempre ótima Ana Paula Xongani sobre o filme Marighella, dirigido por Wagner Moura e por fim disponível nos cinemas brasileiros após dois anos de boicote descarado do genocida governo atual. 
Não bastasse o interesse na figura de Marighella, ainda havia a questão de honra de assistir ao filme boicotado pelo Bozo e de formar parte da resistência ao desgoverno e ao desmonte das políticas sociais no país. Eu gostei muito da atuação de Seu Jorge como o destemido líder revolucionário baiano, que eu conheci dos célebres livros de Jacob Gorender e frei Betto, dos relatos de meu primo Takao e da poesia do próprio Marighella. A visão que eu tinha do líder da ALN era de um cara mais incisivo em tudo, um Ogunzão à frente da batalha (mas daí descobri que ele é de Oxóssi, um orixá caçador, mas mais low profile, estratégico, menos atirado). 
Xongani chama a atenção, contudo, para o fato de não se falar tanto do lado poético de Marighella, de todos os camaradas brancos serem heroificados e de tudo descambar para muita violência no filme - sim, acaba sendo um filme de ação e violento, embora não de uma violência gratuita, mas a que temos em mente quando falamos da ditadura brasileira dos anos 1960-70. Imagino que isso se deva a uma escolha do Wagner Moura, de enfatizar uma história que corre o risco de cair no esquecimento. Mas concordo com ela de como essas escolhas acabam por associar não só à galera de esquerda a violência da guerrilha urbana, mas também reiteram a violência associada às pessoas negras - e não era ele o líder da galera que assalta bancos e aterroriza os cidadãos de bem? As demais personagens negras, mulheres, por sua vez, pouco destaque têm na história. OK, há uma licença poética de transformar os freis Ivo e Fernando, da Livraria Duas Cidades, no pastor Henrique Vieira, que aproveita uma deixa para falar do Jesus histórico, provavelmente de pele escura. 
Depois de ler o texto dela, me ocorreu que uma figura importante como Takao não tenha sido mencionado. Sempre me chamou a atenção um revolucionário oriental no Brasil. E ele, que estava à frente do GTA, não está no filme nem mesmo com outro nome, como acontece com Joaquim Câmara ou com Sérgio Paranhos Fleury. Ainda não terminei de ler a biografia que deu origem ao roteiro para saber se Takao aparece na história, mas fiquei pensando se isso não tinha a ver com questões de pele também. Sei lá, me ocorreu.
Calhou que, em meio ao bordado, estava também montando minha paleta de cores de pele para representar esse Brasil tão pouco branco, tão mais mestiço. Como fazem falta, em todo tempo, a cor e a poesia para fortalecer as lutas diárias por igualdade, respeito e justiça.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Como demorei tanto a assistir "Eu, Daniel Blake"?

Eu, Daniel Blake, filme de Ken Loach de 2016, já estava na minha lista de "assistíveis" na Netflix desde que entrou no catálogo do streaming, há uns dois anos. Sempre que Guga me perguntava sobre o que eu queria assistir, eu sugeria o título, mas acabava não emplacando diante do desinteresse do marido. Pessoalmente, eu achava que o filme era bastante dramático e sério, e também fui deixando-o para o final da lista, para quando eu estivesse no mood equivalente para assisti-lo.
E então, agora no início de janeiro, Guga topou assistir ao filme. Aproveitei a deixa, antes que ele librianamente mudasse de ideia, e vimos.
Cara, como diz o título do post, como pude demorar tanto a assistir a esse filme? Já entrou para o meu top 20, ao lado de O segredo dos seus olhos, O labirinto do fauno, Julie & Julia, O Grande Hotel Budapeste, Um conto chinês, Interestelar, Central do Brasil, Quem quer ser um milionário?, Minhas tardes com Margueritte, Oldboy, O carteiro e o poeta. Embora a trama seja muito menos mirabolante do que a dos filmes citados, ficamos sem fôlego ao acompanhar a luta de Dan Blake para vencer a burocracia estatal e conquistar um direito que é seu, algo tão entranhado na cultura brasileira que nem nos damos conta do quão absurdo e abusivo é. 
Mas Blake não se dobra nunca, o que é o grande tempero do filme. É firme sem querer parecer invencível, e não apela para a autopiedade mesmo prestes a isso. Não é artificialmente heroico, como poderia ser em algum longa norte-americano, mas sim justo e solidário. Que poder tem a solidariedade! De novo, uma solidariedade pura, sem vistas a recompensas e elogios. Assim é que o protagonista não pode ignorar as angústias alheias mesmo tendo as suas próprias. Pode parecer que beira o orgulho, mas acredito que tenha mais a ver com ser forte para o outro, estar ali pelo outro. 
Ken Loach conduz brilhantemente esses atores com todo jeito de gente comum, com problemas comuns e aflitivos, de modo que quase podemos transpor a tela e caminhar junto com eles pelas ruas inglesas. E há o humor, esse remédio tão eficaz, que nos faz esquecer um pouco as mazelas e acreditar que, sim, Dan Blake e seus amigos vão conseguir, juntos, vencer a injustiça. 
Mas a vida real está toda ali, e não vemos o final que gostaríamos que Dan tivesse. Sentimos o golpe lispectoriano no estômago, aplicado com soco inglês. Após a mágica cinematográfica, somos devolvidos à nossa pequenez humana - porém, envolvidos numa esperança misteriosa e muda de que o porvir se faz junto com outros pequenos. 

sábado, 26 de dezembro de 2020

Barulhinho bom

Outro dia, assistimos a uma comédia britânica fofa, Questão de tempo, do querido Richard Curtis (Simplesmente amor, Quatro casamentos e um funeral, Notting Hill, Yesterday etc.) com o Bill Nighy e a Rachel McAdams. O protagonista, vivido pelo ator irlandês Domhnall Gleeson, poderia ser filho do Benedict Cumberbatch com o Martin Freeman, só que ruivo. Tudo adorável.
De repente, já ao final, meu marido me sai com essa: "Não tinha um ator negro nesse filme". Realmente não tem - todo mundo é branco, ou louro ou ruivo (só a Rachel McAdams tem cabelos escuros, e ela se refere a eles, num acesso de insegurança, como "too much brown", e também um rapaz que é meio mau-caráter e o chefe indiano meio escroto), ninguém tem problemas com grana, aliás, a família do protagonista tem uma casa maravilhosa na Cornualha, onde costuma tomar chá no jardim. Não há espaço para personagens negras. 
Na verdade, o que mais chamou minha atenção foi meu marido ter indicado isso, até antes de mim. Significa que o barulho que os movimentos anti-racistas estão fazendo surte efeito, é capaz de mudar nossa percepção. Em 2013, ano em que o filme foi lançado, muito provavelmente não acharíamos - me incluo completamente nisso - tão estranha a falta de diversidade do elenco. Hoje é algo inconcebível, como também é bizarro que alguém não ache isso estranho. 
Esse barulho necessário vale para todas as frentes que pregam igualdade e justiça social. Como os galos tecendo a manhã de João Cabral, uma tessitura linda e uma algazarra tão impossível de ignorar que só pode mesmo provocar mudanças, revolucionar uma época, refrescar olhares. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Desenredes sociais

Todo mundo comentando e por fim assistimos a O dilema das redes, documentário da Netflix com entrevistas de ex-diretores e ex-criadores de conteúdo das principais redes sociais no mundo - Google, Facebook, Twitter, YouTube, WhatsApp etc. Na verdade, mais interessante do que eu esperava. Repleto de informações impactantes sobre o poder que essas redes têm de nos manipular o tempo todo, conduzindo o nosso consumo e nossa forma de pensar e agir. 
Tínhamos já assistido há algum tempo Brexit, o filme com Bennedict Cumberbatch no papel de Dominic Cummings, estrategista político responsável pela formação/manipulação de eleitores na Grã-Bretanha quanto ao assunto da permanência ou não do Reino Unido na União Europeia. Assustadoramente esclarecedor. Talvez por isso não me impressionei muito quando li os comentários sobre O dilema das redes - toda a manipulação cibernética já tinha sido escancarada nos algoritmos que levaram não só à aprovação do Brexit como à eleição de personagens nefastas como Trump e Bolsonaro. 
De qualquer modo, o documentário da Netflix traz algumas novidades ao cenário aterrorizante: o fato de a inteligência artificial ter um comportamento próprio que pode levar a resultados imprevisíveis no que tange à manipulação de milhões de pessoas e essa mesma aleatoriedade ser o que dita nosso padrão de comportamento e consumo. Eu concordo com parte disso - realmente, o que vemos na tela do computador, ou do celular, nos leva a consumir mais; desde que começou a pandemia, por exemplo, meu consumo pela internet aumentou muito, e houve muitos momentos em que pensei por que havia mesmo comprado aquelas coisas. Meu freio foi a incerteza quanto ao futuro. Também assistimos diariamente à proliferação das notícias sem autoria que pululam em grupos de WhatsApp e canais do YouTube, levando a desinformação a níveis exponenciais, replicada por pessoas mais ou menos próximas. 
Contudo, entretanto, todavia, acho que esse discurso propalado no documentário também acaba perigosamente isentando da crítica a ação humana que gerou tudo isso. Fica parecendo que ninguém pode controlar as máquinas, que houve uma total perda de controle e nada pode ser feito. Não creio que seja totalmente assim - se houvesse interesse de fato dos que lucram bilhões com essa manipulação algum tipo de freio já teria sido aplicado, e não apenas essas falas insossas sobre controle de fake news. 
Sim, as perspectivas são sombrias, com todo esse ódio crescente no mundo, mas não dá para só lamentarmos o monstro que foi criado e não fazer nada a respeito em nível global, nos limitando a desligar o celular das crianças. Será preciso romper as bolhas e se manifestar na vida real, abertamente, politicamente, para que alguma mudança efetiva aconteça. 

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Viola, Chimamanda e o racismo nosso de cada dia

Por estes dias, li uma declaração de Viola Davis sobre sua infeliz participação no filme Histórias cruzadas. Já escrevi sobre este filme aqui - eu gostei muito da ideia de solidariedade, da união que faz a força,  da compaixão, mas não dá para ignorar o argumento do branco (no caso, branca) salvador. Somente a personagem de Emma Stone para dar voz às pobres e exploradas empregadas negras - e só porque ela é também uma desajustada, que nem esperava fazer "tanto assim" pelas outras mulheres. 
Viola tem toda razão de dizer que se arrepende desse papel, apesar do sucesso do filme. Porque é como se participasse de uma farsa, a de dizer que está tudo bem entre brancos e negros, que o racismo não existe, mal existiu algum dia. Hoje, que tenho lido e aprendido muito mais sobre racismo sistêmico, por exemplo, ouvindo o excepcional professor e advogado Sílvio Almeida, só posso apoiar sua postura e até gostar um pouco menos do filme, ainda que as atuações  de Viola e de Octavia Spencer sejam magistrais. 
Além de estar atenta ao que dizem meus (poucos) amigos negros, sempre procurando rever minhas falas e atitudes para não replicar mais racismo e, pelo contrário, combater as atitudes racistas, tenho lido autoras negras. Quer dizer, vinha lendo mais MULHERES, e agora mulheres NEGRAS. Além dos socos no estômago de Toni Morrison - que já conhecia de Jazz e, recentemente, do terrível The bluest eye -, só tenho a me encantar com a jovem e prolífica Chimamanda Ngozi, de quem já li Hibisco roxo, Sejamos todos feministas e, agora, Americanah. 
Se em Hibisco roxo a protagonista fala de uma realidade quase tribal eivada de fé e violência, quase como se contasse uma história oculta atrás de um véu, em Americanah a personagem principal escancara tudo que há no mundo global - subdesenvolvimento, corrupção, racismo, machismo, academicismo, subemprego. A sensação que tenho de passar a conhecer a realidade de racismo frequente por que passam as pessoas negras se mescla com a já conhecida de, como mulher, ter vivido e observado algumas coisas bem semelhantes acerca de relacionamentos, autoestima, conhecimento, trabalho, adequação, estar no mundo. No entanto, a experiência de uma mulher negra sempre pode ser mais complicada em vários aspectos. 
Parece estranho que a gente possa aprender tanto com nossas iguais, mulheres, sejam brancas ou negras. Mas é que temos nos dado conta de que o mundo foi todo esse tempo sendo escrito e significado por homens, homens brancos. E o mundo feminino é tão criativo, fértil, profundo e coerente e ecoa tão tremendamente dentro de nós que é impossível não querer conhecer mais de tudo o que está sendo feito para saber mais de nossas irmãs e, portanto, de nós mesmas. Um caminho sem volta, como todo conhecimento de fato precioso. 

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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