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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Ser aliada não é só diversão

É muito fácil apreciar a beleza do que cantoras e cantores, escritoras e escritores, atrizes e atores negros criam. Mesmo quando falam das dores da racialização, do preconceito cotidiano, do lugar que ocupam na sociedade, muita gente branca se sensibiliza. Mas muitas vezes passa rápido. Por que, afinal, o que é se aliar de verdade às lutas das pessoas subalternizadas? Claro, me coloco aqui como mulher não negra e não branca. 
Por exemplo, fui com Liu e Igor assistir ao lindíssimo show de Lazzo Matumbi cantando a Bahia, com participação de Ravi, Rachel Reis e Baiana System (e me emocionei demais com a interpretação de "É d'Oxum"!). Quando Lazzo falou da população negra e sua luta, foi largamente ovacionado, como era de se esperar. Houve um momento, porém, em que falou da necessidade de as mulheres ocuparem os espaços, e bem menos gente que o esperado aplaudiu sua fala.  
Justamente porque me preocupo com não ser antirracista de ocasião, fui com Liu, dias antes, assistir ao minidoc lançado pelo Instituto AzMina sobre a Marcha das Mulheres Negras em seu balanço de dez anos de movimento. Emocionante, e me espanta que não vejamos mais burburinho em Salvador. Eu era uma das poucas pessoas não negras no lugar, o que, de novo, era de se esperar - embora também seja um dado pouco animador. Onde estão as demais pessoas que as apoiam? Claro que não temos que "invadir" o território alheio, como quase sempre acontece, mas precisamos encontrar uma forma de nos mostrarmos ao lado das demais pessoas subalternizadas, e elas precisam saber disso, que somos ALIADAS. 
A ideia não é só dançar e cantar juntas, mas também fazer parte da caminhada, única forma de conquistar um mundo mais justo. Manifestar-se é o primeiro passo, sempre. 

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Brinde e luta

Nada como brindar antes de ir à luta. Assim foi o encontro promovido pelas Juristas Negras, organização capitaneada pela promotora pública Lívia Santanna Vaz, no Goethe Institut na última terça, com a presença luxuosa de Jamil Chade, um dos jornalistas e comentaristas políticos e de direitos humanos mais confiáveis da atualidade e desde há muito. Teve aluá, abará, cocadinha e cervejinha. Teve gente interessante e interessada. Teve trégua de são Pedro. E teve a conversa fundamental de Lívia e Jamil, trazendo tantas verdades em meio à distopia, lá nos Estados Unidos e cá no Brasil. 
Claro que dizer que devemos nos unir pela democracia não basta. Como chegamos a isso? Como promovemos a união? Ainda acho que precisamos tomar as formas de comunicação. Redes, impressos, boca a boca, as ruas. Não podemos continuar reféns da comunicação torta e "boateica" da extrema direita.  
Enquanto isso, tietei Lívia e Jamil, tão disponíveis os dois. E sim, me orgulho de ter estado literalmente no meio de quem luta por justiça e democracia neste país, neste mundo.  

sábado, 27 de abril de 2024

Uma possível conversa entre "O avesso da pele" e "Ficção americana"?

Comprei O avessso da pele, de Jeferson Tenório, pouco antes de me mudar para Salvador, junto com dois outros livros. Meu exemplar ainda estava no shrink quando surgiu a polêmica no Sul (sempre o Sul) de que o livro não deveria ser adotado nos colégios do Paraná. Vi que estava mais do que na hora de começar a leitura. 
E que leitura! Desde a primeira linha somos levados ao mundo das lembranças do narrador, que ora conversa com o pai que acabou de morrer, ora conta sobre a infância e juventude da mãe e como ela e o pai se conheceram. Permeando essas relações e realidades, o racismo diário, que cada uma das personagens compreende de uma forma, algumas vezes se surpreendendo com o motivo de serem (des)tratados de dada maneira. A violência policial é quase uma personagem à parte, absolutamente verossímil e palpável. Tenório constrói a narrativa alternando as experiências do narrador e seus pais de forma fluida mas - como poderia dizer? - pedregosa. Porque são muitos os percalços atravessados por essas pessoas entre vida e morte. 
Calhou de eu assistir na sequência ao filme Ficção americana, com o ótimo Jeffrey Wright. Este ano vi quase tudo que estava concorrendo ao Oscar, mas porque os filmes estavam muito diversos e interessantes. Pois Ficção americana tem uma premissa atraente, que é a de um escritor com bloqueio criativo que resolve criar uma persona do "gueto" para escrever um livro que caia nas graças de editores em busca de algo "exótico". O autor, que é negro, precisa ir em busca da cultura negra que ele não vivencia. Há várias críticas implícitas na história, mas me pareceu às vezes caricato demais - ainda mais no país que tem como símbolo da luta antirracista o assassinato de George Floyd, impedido de respirar e de viver por policiais. Pensei que teria sido ótimo se o diretor e o roteirista tivessem lido o livro de Jeferson Tenório para uma vivência mais real da experiência de uma família negra, mesmo de classe média. Talvez o filme perdesse algo do humor que tenta imprimir, mas ganharia demais em profundidade.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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