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segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Bordado libérrimo

Por esses dias, resolvi iniciar o projeto do vestido bordado. Já não me lembro qual foi a motivação, talvez um grupo de artistas em Piaçabuçu que lutam pela preservação do rio São Francisco por meio da arte, talvez a busca de algo para combater a ansiedade. Até ia aproveitar pra dar uma praticada na aquarela, fazendo um esboço do bordado, mas já fui logo traçando as margens do rio para depois pensar nos elementos que colocaria. 
Não desenhei tudo de uma vez, como costumava fazer, para manter o foco no que estiver bordando e assim evitar a ansiedade de terminar logo, o que poderia me levar a desistir da tarefa. 
Aos poucos estou pesquisando pontos novos e antigos, imagens ribeirinhas e decidindo aos poucos a disposição das cenas. Andei apanhando bastante no nó francês, que já fiz tanto, ao decidir bordar um ipê amarelo. Quando canso (porque, como o ponto areia, o nó francês "rende" pouco), trabalho em outro desenho, como o dos queridos mandacarus, usando ponto-atrás e corrente. Até começo a inventar umas soluções, e me sinto mais criativa que nos outros projetos, em que acabava repetindo uma meia dúzia de pontos. Um bordado mais livre mesmo.
Gosto do que vai saindo, apesar de saber que o processo ainda é longo. Mas já ouvi elogios ao trabalho feitos pelo marido, que, quando soube que eu ia bordar um vestido, achou pouco provável que seria algo "vestível", pois um vestido todo bordado "é mais coisa de artista", não é algo que pessoas normais usam (ou fazem). Prova de que nunca sabemos tudo sobre as pessoas, nem mesmo sobre as pessoas com quem convivemos. 

domingo, 31 de janeiro de 2021

Nós que aqui estamos, pra onde será que vamos?

Como já imaginávamos, 2021 começou e pouca coisa mudou. Prosseguimos na pandemia, quarentenados, já com a chuva dando as caras após uma trégua de um mês. Dez meses e meio de quarentena, mas agora com mais temor da Covid-19, que vem de novas cepas do vírus, imagine só. Além das loucuras e desmandos diários do governo federal, da violência crescente contra mulheres, trans, negros e pobres, do aumento incessante dos preços de tudo, de gente vivendo em condições análogas à escravidão em pleno século 21. 
Se já estamos normalmente no final da fila de qualquer campanha de vacinação, agora, com a disputa eleitoreira, nem sabemos em que ano seremos vacinados. Talvez só nos reste pagar pela vacina, torcendo para que o valor cobrado caiba no bolso. 
Ontem, uma amiga com quem não falava faz tempo, ligou, reafirmando a vontade de voltar a nos encontrar, com esperança na vacina - ela, que faz parte do grupo da quarta fase, conta com ser vacinada ainda este ano. 
Realmente não sei quando voltaremos a transitar com mais segurança, e por isso me causa um certo horror ver pessoas conhecidas viajando pra lá e pra cá, postando suas fotos sem máscara com outras pessoas sem máscara circulando ao redor, tudo por uma selfie. Eu entendo que todos estão esgotados com a situação de pandemia, mas simplesmente jogar tudo pra cima me parece mais um ato egoísta de quem não se importa com o coletivo do que uma ação suicida. Sigo enxergando a divisão da sociedade entre quem se importa e quem não se importa. O único meio-tom possível é quem se importa mas não tem condições de ficar em casa, é obrigado a circular etc. 
Agora em janeiro tive uma fugaz esperança de encontrar uma pós-graduação, mas acabou-se quando soube que o professor que ministraria uma disciplina com vagas para aluno especial já foi acusado de assédio, machismo e homofobia. Foi inocentado pela instituição, mas resolvi não pagar pra ver. Ah, que mundo torto o nosso.
As coisas boas, a gente vai catando no meio dessa lama toda, como os grupos solidários que, se não conseguem o impeachment do Bozo, pelo menos ajudam quem precisa a sobreviver, caso do recente ECDE, maravilhoso, grupo de compra e venda da galera das esquerdas. As comunidades continuam se organizando para fazer frente à crise e garantir comida no prato da galera, como no projeto Arranjo Local da Penha, no Rio. Há movimentos de ajuda aos amazonenses, que vivem uma tragédia sem precedentes com a falta de oxigênio (suprema ironia) para os pacientes hospitalizados. 
Há muita picaretagem, fura-filas da vacina, corrupção na compra de insumos, mas ainda há gente boa, e seguimos tentando manter ao menos a cabeça acima da lama.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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