Mostrando postagens com marcador contemporâneo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador contemporâneo. Mostrar todas as postagens

sábado, 5 de novembro de 2022

Consciência de classe, consciência de si

Tenho tido muita preguiça de escrever. Preguiça não - uma espécie de paralisia estupefata. Com tudo que temos vivido nos últimos 4 anos, e muito piorado neste ano, quem é contra a injustiça teve que levantar a cabeça muito mais vezes para respirar. 
Mas não hoje. Dia 30 foi dia de eleição, do nosso sagrado direito e dever democrático de votar, de dizer nas urnas que não queríamos um fascista no poder. Que queremos uma vida melhor para todos. Hoje o fôlego tem de ser enorme e coletivo. Porque vencemos. Pudemos, depois de tantos anos, gritar a plenos pulmões o nosso alívio.
Foi por pouco, o que não invalida a vitória, mas acende o alerta. Já devo ter dito isso, mas repito como me espanta que as pessoas não privilegiadas votem no genocida. Desde a moça que vende Hinode e replica fake news sobre o governo de esquerda que certamente a beneficiou de algum modo, ao ex-colega de Federal que é umbandista e publica que agora os brasileiros terão de comer carne de cachorro com o governo do PT reeleito, passando por muitas variações de falas insanas vindas de membros de classes não favorecidas. Muita gente enganada pela falácia do pseudoempreendedorismo, da defesa da religião e do moralismo, querendo igualar-se à verdadeira elite do país, buscando pontos em comum e, na verdade, reproduzindo um discurso preconceituoso em todos os aspectos, contra negros, pobres, mulheres, LGBT, nordestinos, artistas, professores. Mas também muita gente que só esperava que aparecesse alguém que dissesse exatamente o que essa turba pensa, e aí temos mesmo uma falha de caráter. 
Não elenco aqui a elite desejosa de manter seus privilégios coloniais, mas os servis, os enganados e os cruéis de diversas classes, que ajudaram a engrossar esse caldo de vilania que nos acanhou e violentou todos esses anos. Essa turba que, logo após o resultado suado do domingo, mesmo com todas as tentativas de fraude e com o uso desavergonhado da máquina pública, saiu às ruas para protestar contra a democracia e pedir intervenção militar. Esses desfavorecidos iludidos é que me espantam muito mais pois não têm consciência da classe a que pertencem, não têm, portanto, consciência de quem são. Não podemos tirar o mérito do capitalismo e do ultraliberalismo, que ajudaram a cimentar as ilusões de consumo que prendem essas pessoas à caverna obscurantista, anulando a real percepção de si - e, no caso do que temos visto depois de domingo, do ridículo a que se têm sujeitado. 
A luta será contínua, para não permitir que o fascismo se instale novamente. Deveríamos seguir o exemplo da Argentina, que alimenta continuamente sua memória, sua consciência de si, negando-se a esquecer o passado, como no ótimo Argentina, 1985, com o querido Darín, sobre o julgamento dos comandantes da ditadura. E como disse uma pastora querida que conheci na minha época de igreja - uma das pessoas mais lúcidas naquele contexto -, só quem não se esquece de onde veio sabe aonde quer chegar. 
Porque sabemos quem somos, sabemos com quem queremos estar e com quem podemos contar. 

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

O Brasil não conhece o Brasil

Tive uns 3 dias de completa ressaca moral após o primeiro turno das eleições. O que mais me estarreceu no resultado do genocida foi constatar que há muitos brasileiros que preferem ignorar todas as ações contra a vida e os direitos humanos realizadas pelo belzebu em exercício. Ou talvez até as louvem. Ou seja, somos piores do que pensávamos, e não me saía da cabeça a música de Aldir Blanc, "Querelas do Brasil", a obra de um compositor vítima justamente do projeto de morte da atual presidência. Aldir, que morreu com insuficiência cardiorrespiratória provocada pela Covid, por falta de vacina, por abandono, por completa indiferença do genocida, que, claro, nem sequer lamentou a morte do artista genial, como faria qualquer chefe de Estado. 
Continuamos, portanto, até dia 30 de outubro, sem saber o que será da vida neste país. Tudo é tão tênue, tão frágil, tão inseguro, e isso se reflete em todas as instâncias da vida para além da política - no trabalho com parceiros escorregadios, na suspensão de projetos e esperanças, na possibilidade de perder Kong a qualquer momento (a veterinária disse que ele tem uma expectativa de vida de 2 anos). 
Olho para dentro da vida, e vejo a indefinição, a realidade gasosa/líquida de Marx/Berman e Bauman ditando nossos dias. Olho para fora e vejo, com horror, a violência, o ódio ao diferente, a indiferença diante da iniquidade, a normose como regra. Tenho cada vez mais dúvidas se conheci o país que habito, que me parece cada vez menos meu. 

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Mesmo com o nada feito, com a sala escura, com um nó no peito

A gente vai levando. Assim é desde há muito, mas muito piorado com a ascensão do facínora, que teve como pano de fundo perfeito de seu governo uma pandemia como nunca antes vista. Trinta e três milhões de pessoas passam fome no Brasil de hoje, nossos biomas têm sido devastados numa velocidade pandêmica, a violência contra crianças, mulheres, negros e LGBTs não cessa e tem se tornado mais banal que nunca. Nosso país cheira a morte, por toda parte - e o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips vem coroar essa trilha de horror que se tornou o Brasil. Podemos dizer que a última eleição trouxe num só mandante/mandato os quatro cavaleiros do apocalipse. 
A tristeza é profunda e diária. E, no entanto, seguimos tendo de acordar diariamente, tendo de trabalhar. Às vezes, parece algo tão sem sentido, criar algo neste país cujo futuro foi roubado desde a origem. Gerar riqueza para quem? Enquanto 33 milhões passam fome, os povos originários e seus defensores são dizimados, multidões passam a morar nas ruas das grandes cidades e os velhos representantes da política colonial e patriarcal riem na nossa cara?
Ainda por cima, tem o texto pungente de Eliane Brum não só sobre o assassinato de Bruno e Dom e o extermínio dos indígenas, ambientalistas e dos biomas brasileiros mas principalmente sobre as guerras em que o Brasil está mergulhado hoje, sobre a urgência de assumir um lugar na guerra que é de todos. E vimos outro dia, por fim, o tocante Sertão velho cerrado, filme de André d'Elia, que lança luzes sobre nossa ignorância cotidiana acerca do Brasil ao redor, para além da nossa bolha. Só fazemos confirmar os mandatários de sempre e como é urgente e imprescindível organizar uma resistência efetiva contra o sistema vigente. 
A gente vai levando, e para desfazer o nó no peito a rotina não basta. O que salva é a arte, do tamanho que for, do jeito que for. Às vezes, é a literatura, às vezes, o bordado deixado na sala escura é que vem iluminar a casa toda, essa casa que é a alma. Não à toa, como quereria Jung, bordo casas. 

sexta-feira, 25 de março de 2022

Longa jornada noite adentro contra o machismo e outras intolerâncias

Quando pensei em escrever este post, estava impactada pela notícia de um estupro coletivo que aconteceu no Carnaval deste ano, em Buenos Aires, em pleno bairro boêmio de Palermo. Uma jovem deixou uma boate local na companhia de rapazes que viajavam de carro pela Argentina e foi estuprada por eles no interior do veículo, diante de uma padaria do bairro. Não sabemos se ela estaria viva pra contar a história se os donos da padaria, que estavam ali para abrir o estabelecimento pela manhã, não tivessem visto a estranha movimentação no interior do veículo e constatado, aterrados, que ali acontecia um estupro. Munidos de vassouras e aos gritos, marido e mulher avançaram contra os criminosos, que tentaram fugir, mas foram impedidos por outras pessoas da vizinhança. A moça estava tão dopada que disse não saber como tinha ido parar ali, mas percebeu, entre flashes de consciência, que estava sendo estuprada. Nem sei nomear o que sinto com uma notícia dessas.
Pouco tempo depois, um deputado bolsonarista-morista, que supostamente teria ido à fronteira da Ucrânia com a Polônia como integrante de um grupo de ajuda humanitária, declarou que as mulheres ucranianas eram "fáceis" porque eram pobres. Mesmo tendo sido punido pelo partido e pela opinião pública, é desolador que essa ainda seja uma visão de boa parte dos homens - no Brasil, inclusive, estimulada pela onda ultraconservadora que cobriu o país. Dói ouvir que há puta em toda parte, que esta seja a resposta automática diante do absurdo expresso pelo político. 
Como o machismo não dá trégua, sobrou até pra Pedrito Almodóvar, a quem declarei de novo meu amor outro dia. Li um artigo pouco depois que chamava a atenção para a visão feminista torta em Madres paralelas, e acho que há uma certa razão quando se critica a construção da personagem de Penélope Cruz (que "usa" a jovem apaixonada por ela e ainda volta para o homem que duvidou da sua paternidade), mas mais ainda para a presença do estupro em alguns filmes do espanhol - Atame, Kika, Fale com ela, Volver, A pele que habito. No caso de Madres paralelas, até podemos pensar nas contradições vividas pelas mulheres até hoje, de se relacionarem erraticamente com boys lixo ao mesmo tempo que lutam por sua liberdade, afinal, ninguém é perfeito mesmo. Mas no caso dos outros filmes, e só falo dos casos de que me lembro, vê-se o olhar machista que persiste até mesmo em quem certamente foi vítima desse machismo. 
Só para exemplificar a extensão da jornada-luta contra o machismo, indico o magistral documentário da Netflix baseado nos diários de Andy Warhol, editados por sua secretária Pat Hackett e lançados pouco depois da morte do artista. As imagens de época e os textos dos diários lidos por um artista que teve a voz modificada por inteligência artificial para se assemelhar à de Warhol são emocionantes e nos aproximam de uma época efervescente - também varrida pela onda conservadora - e de um homem solitário e provocador, revolucionário e contido, um nome fundamental para a completa transformação da arte contemporânea e da cultura de massas em todo o mundo. É tristíssimo que Andy não possa ter vivido o amor de forma plena, sufocado pelo preconceito de sua criação e da sociedade ao redor, que ele, que resistiu a uma saraivada de tiros, tenha assistido à morte de tantos amores e amigos, vitimados pela Aids, esse tsunami de horror dos anos 1980. Até mesmo Andy Warhol, homem branco, genial, bem inserido no circuito cultural novaiorquino, sofreu os revezes do machismo, muitas vezes de si contra si. 
O machismo mata sempre. Quem for a favor da vida, do amor, da liberdade, do futuro, não pode ser a favor do machismo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Quem fala?

Acabei de ler outro livro de Elena Ferrante, Dias de abandono. Assim como em outras narrativas (os livros da tetralogia napolitana, A filha perdida, Mentiras que os adultos contam), há o contraponto entre a vida pobre em Nápoles e uma nova vida proporcionada pelo conhecimento, além dos desencontros amorosos. Mas aqui, desde a primeira página, há um quê de Simone de Beauvoir em A mulher desiludida - o que se confirma quase ao final, numa menção direta ao livro da filósofa e escritora francesa. 
Ambas, Ferrante e De Beauvoir, constroem uma narrativa do ponto de vista da mulher adulta que se vê diante de mudanças na vida a dois, com a chegada da maturidade e o surgimento de outro interesse amoroso ou outra meta por parte do companheiro. Não é difícil mergulhar nas narrativas de ambos os livros, identificar-se, sentir o mesmo, inclusive a perda do senso de realidade que há em Dias de abandono. O lugar de fala das personagens (nem estou falando das autoras, considerando aqui que Ferrante seja mesmo uma mulher) ajuda a fazer esse mergulho, pois soa bem convincente.
A propósito do assunto lugar de fala, há pouco tempo aconteceu uma suposta polêmica com Chico Buarque sobre sua canção "Com açúcar, com afeto", composta a pedido de Nara Leão, que a interpretava lindamente. Depois li uma entrevista de Chico dizendo que não houve polêmica, que ele desconhecia haver feministas revoltadas contra ele pelo teor machista da canção, que ele não disse que nunca mais cantaria a canção por conta disso. Produziu-se uma celeuma em torno de algo que não houve (é fake news que chama?). Chico disse que não canta mais porque é impossível continuar cantando todas as mais de 400 composições de sua autoria, e que essa música já tão datada não era mais cantada nem por Nara, que provavelmente a abominaria hoje. 
Um amigo meu, professor de literatura, escreveu que Chico quis retratar uma mulher que vive aquele tipo de relacionamento, está ciente dele, mas no final ela é que domina a coisa toda. É um ponto de vista. Concordo que a personagem parece ter consciência do que vive, o que não quer dizer que não sofra. Porém, como afirma Chico na entrevista, não há mais lugar para a mulher que se lamuria, que deixa de conquistar seu espaço por causa de um homem. Chico não tem, é claro, esse lugar de fala, porque é homem, mas, como artista, pode criar qualquer personagem. Como artista, pode ser que conceba personagens pouco convincentes, que erre a mão, não só em questões de gênero, mas de classe social e de raça. Mas, vejam só, Chico sempre foi elogiado por cantar a alma feminina como ninguém. Ainda acho que consegue, e ele se mostra consciente das mudanças femininas e feministas no tempo. A cantora Marília Mendonça, que morreu precoce e tragicamente, aos 28 anos, vinha mostrando o lado feminino do sertanejo, muitas vezes sofrido, nem sempre libertário, mas verdadeiro. Talvez isso seja justamente o que mais cativa, o que mais importa - a verdade iluminadora trazida pela ficção. 

domingo, 31 de janeiro de 2021

Nós que aqui estamos, pra onde será que vamos?

Como já imaginávamos, 2021 começou e pouca coisa mudou. Prosseguimos na pandemia, quarentenados, já com a chuva dando as caras após uma trégua de um mês. Dez meses e meio de quarentena, mas agora com mais temor da Covid-19, que vem de novas cepas do vírus, imagine só. Além das loucuras e desmandos diários do governo federal, da violência crescente contra mulheres, trans, negros e pobres, do aumento incessante dos preços de tudo, de gente vivendo em condições análogas à escravidão em pleno século 21. 
Se já estamos normalmente no final da fila de qualquer campanha de vacinação, agora, com a disputa eleitoreira, nem sabemos em que ano seremos vacinados. Talvez só nos reste pagar pela vacina, torcendo para que o valor cobrado caiba no bolso. 
Ontem, uma amiga com quem não falava faz tempo, ligou, reafirmando a vontade de voltar a nos encontrar, com esperança na vacina - ela, que faz parte do grupo da quarta fase, conta com ser vacinada ainda este ano. 
Realmente não sei quando voltaremos a transitar com mais segurança, e por isso me causa um certo horror ver pessoas conhecidas viajando pra lá e pra cá, postando suas fotos sem máscara com outras pessoas sem máscara circulando ao redor, tudo por uma selfie. Eu entendo que todos estão esgotados com a situação de pandemia, mas simplesmente jogar tudo pra cima me parece mais um ato egoísta de quem não se importa com o coletivo do que uma ação suicida. Sigo enxergando a divisão da sociedade entre quem se importa e quem não se importa. O único meio-tom possível é quem se importa mas não tem condições de ficar em casa, é obrigado a circular etc. 
Agora em janeiro tive uma fugaz esperança de encontrar uma pós-graduação, mas acabou-se quando soube que o professor que ministraria uma disciplina com vagas para aluno especial já foi acusado de assédio, machismo e homofobia. Foi inocentado pela instituição, mas resolvi não pagar pra ver. Ah, que mundo torto o nosso.
As coisas boas, a gente vai catando no meio dessa lama toda, como os grupos solidários que, se não conseguem o impeachment do Bozo, pelo menos ajudam quem precisa a sobreviver, caso do recente ECDE, maravilhoso, grupo de compra e venda da galera das esquerdas. As comunidades continuam se organizando para fazer frente à crise e garantir comida no prato da galera, como no projeto Arranjo Local da Penha, no Rio. Há movimentos de ajuda aos amazonenses, que vivem uma tragédia sem precedentes com a falta de oxigênio (suprema ironia) para os pacientes hospitalizados. 
Há muita picaretagem, fura-filas da vacina, corrupção na compra de insumos, mas ainda há gente boa, e seguimos tentando manter ao menos a cabeça acima da lama.

sábado, 26 de dezembro de 2020

Barulhinho bom

Outro dia, assistimos a uma comédia britânica fofa, Questão de tempo, do querido Richard Curtis (Simplesmente amor, Quatro casamentos e um funeral, Notting Hill, Yesterday etc.) com o Bill Nighy e a Rachel McAdams. O protagonista, vivido pelo ator irlandês Domhnall Gleeson, poderia ser filho do Benedict Cumberbatch com o Martin Freeman, só que ruivo. Tudo adorável.
De repente, já ao final, meu marido me sai com essa: "Não tinha um ator negro nesse filme". Realmente não tem - todo mundo é branco, ou louro ou ruivo (só a Rachel McAdams tem cabelos escuros, e ela se refere a eles, num acesso de insegurança, como "too much brown", e também um rapaz que é meio mau-caráter e o chefe indiano meio escroto), ninguém tem problemas com grana, aliás, a família do protagonista tem uma casa maravilhosa na Cornualha, onde costuma tomar chá no jardim. Não há espaço para personagens negras. 
Na verdade, o que mais chamou minha atenção foi meu marido ter indicado isso, até antes de mim. Significa que o barulho que os movimentos anti-racistas estão fazendo surte efeito, é capaz de mudar nossa percepção. Em 2013, ano em que o filme foi lançado, muito provavelmente não acharíamos - me incluo completamente nisso - tão estranha a falta de diversidade do elenco. Hoje é algo inconcebível, como também é bizarro que alguém não ache isso estranho. 
Esse barulho necessário vale para todas as frentes que pregam igualdade e justiça social. Como os galos tecendo a manhã de João Cabral, uma tessitura linda e uma algazarra tão impossível de ignorar que só pode mesmo provocar mudanças, revolucionar uma época, refrescar olhares. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Finalizações num ano sem fim

Embora 2020 pareça nunca terminar - e a depender da pandemia e da demora da vacinação no Brasil, vai adentrar boa parte de 2021 -, algumas coisas chegam à sua conclusão, que bom!
Este mês, vi meu enteado querido apresentar brilhantemente seu TCC do curso de Direito, imagine! O menino que conheço desde os 13 anos, que foi ganhando barba e refinando a inteligência e o caráter, arrasou na defesa de um tema ousado de forma "aguerrida" (e me lembrei de ter ouvido esse mesmo elogio à minha escrita no mestrado), que orgulho!
Também chegou por fim meu volume do livro Vkhutemas, desenho de uma revolução, organizado pelo Celso Lima e pela Neide Jallageas e de cujo financiamento coletivo participei - era para termos recebido o livro em março, mas daí a pandemia, já sabemos. Foi outro motivo de orgulho, ter participado de forma indireta desse projeto tão importante e bonito.
Por fim, embora ainda precise entregar meu TCC, produzi um videozinho para o curso de jornalismo - aprendi na marra a colocar legendas e áudio no iMovie.
Conseguir concluir qualquer coisa este ano já é de grande valor, é pura guerrilha.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Desenredes sociais

Todo mundo comentando e por fim assistimos a O dilema das redes, documentário da Netflix com entrevistas de ex-diretores e ex-criadores de conteúdo das principais redes sociais no mundo - Google, Facebook, Twitter, YouTube, WhatsApp etc. Na verdade, mais interessante do que eu esperava. Repleto de informações impactantes sobre o poder que essas redes têm de nos manipular o tempo todo, conduzindo o nosso consumo e nossa forma de pensar e agir. 
Tínhamos já assistido há algum tempo Brexit, o filme com Bennedict Cumberbatch no papel de Dominic Cummings, estrategista político responsável pela formação/manipulação de eleitores na Grã-Bretanha quanto ao assunto da permanência ou não do Reino Unido na União Europeia. Assustadoramente esclarecedor. Talvez por isso não me impressionei muito quando li os comentários sobre O dilema das redes - toda a manipulação cibernética já tinha sido escancarada nos algoritmos que levaram não só à aprovação do Brexit como à eleição de personagens nefastas como Trump e Bolsonaro. 
De qualquer modo, o documentário da Netflix traz algumas novidades ao cenário aterrorizante: o fato de a inteligência artificial ter um comportamento próprio que pode levar a resultados imprevisíveis no que tange à manipulação de milhões de pessoas e essa mesma aleatoriedade ser o que dita nosso padrão de comportamento e consumo. Eu concordo com parte disso - realmente, o que vemos na tela do computador, ou do celular, nos leva a consumir mais; desde que começou a pandemia, por exemplo, meu consumo pela internet aumentou muito, e houve muitos momentos em que pensei por que havia mesmo comprado aquelas coisas. Meu freio foi a incerteza quanto ao futuro. Também assistimos diariamente à proliferação das notícias sem autoria que pululam em grupos de WhatsApp e canais do YouTube, levando a desinformação a níveis exponenciais, replicada por pessoas mais ou menos próximas. 
Contudo, entretanto, todavia, acho que esse discurso propalado no documentário também acaba perigosamente isentando da crítica a ação humana que gerou tudo isso. Fica parecendo que ninguém pode controlar as máquinas, que houve uma total perda de controle e nada pode ser feito. Não creio que seja totalmente assim - se houvesse interesse de fato dos que lucram bilhões com essa manipulação algum tipo de freio já teria sido aplicado, e não apenas essas falas insossas sobre controle de fake news. 
Sim, as perspectivas são sombrias, com todo esse ódio crescente no mundo, mas não dá para só lamentarmos o monstro que foi criado e não fazer nada a respeito em nível global, nos limitando a desligar o celular das crianças. Será preciso romper as bolhas e se manifestar na vida real, abertamente, politicamente, para que alguma mudança efetiva aconteça. 

domingo, 23 de agosto de 2020

Sem tempo, irmão

Outro dia li uma crítica à atual produtividade em momentos de lazer, um fenômeno próprio da quarentena. Tipo ver série na Netflix ao mesmo tempo que faz bolo e participa de videoconferência no Zoom. 
Bom, não tecerei críticas a isso, porque fiz isso desde sempre, três ou quatro coisas simultaneamente, fosse para ganhar tempo porque morava longe e/ou porque demorei a ter acesso a várias dessas coisas (inglês/francês/judô/trabalho/faculdade/licenciatura na mesma época, por exemplo), fosse por alguma posição astral favorável dada no meu nascimento e sempre salientada por meu querido amigo Marcelo. Na verdade, agora, com a pandemia, tendo a seguir na direção contrária, de tentar focar em uma coisa de cada vez para não pirar. 
A nossa relação com o tempo sempre dá pano pra manga. Hoje, com a pandemia, o tempo parece ter saído dos trilhos, já que a rotina foi desmantelada, e é ela que nos coloca na conta do relógio, no final das contas. Não é de estranhar o sucesso de uma série como Dark, já que falei em Netflix, especialmente durante a quarentena. Os paradoxos do tempo e da existência vêm dar um nó definitivo na cabeça, apertar a mente geral. Some-se a esse tempo desmantelado a cultura das novas tecnologias portáteis e das redes sociais, e pronto, a salada está feita. Acho até que para as novas gerações isso é normalíssimo, não é nenhum fenômeno pandêmico - meu enteado consegue conversar conosco, fazer pesquisas na internet e responder a mensagens no WhatsApp, além de dar umas espiadas no filme a que estamos assistindo, sem perder a postura low profile.
Na pandemia, tudo urge, mesmo em meio ao ócio. Uma contradição digna de Dark. Todos que podem tentam fazer o tudo ao mesmo tempo dos millennials mas nem todos o fazem com a mesma naturalidade, e disso advêm estresse e frustração, porque a realidade é que, apesar da confusão temporal trazida pela Covid-19, as responsabilidades do mundo capitalista continuam a chegar, e têm sido incrementadas pelas necessidades sociais e econômicas e sanitárias de milhões de desconhecidos. Não só a sensação de poder gerir o próprio tempo foi tomada, como também invadida pelos problemas alheios, que agora são de todos. Como, então, curtir ao máximo na quarentena em casa se lá fora o panorama é dos piores? Não dá só para maratonar séries, fazer cursos, assistir a lives, bater papo no Zoom enquanto o mundo acaba e também quando ainda é preciso trabalhar, limpar a casa, comprar e fazer comida - e que bom que isso ainda é possível para muita gente!
No começo da quarentena, como já disse, fiquei meio desnorteada, e até embarquei nessa de fazer mais zilhões de coisas. Fiquei exaurida em pouco tempo, porque ainda tinha que trabalhar, limpar casa, cozinhar etc. Não, não dei conta. E vi que nem precisava, que não estou aqui para isso. Aliás, a única coisa que me devolve a sensação de ter uma rotina é justamente criar uma, fazendo uma coisa de cada vez, finalizando tarefas - e a qualidade de ser multitarefas num momento tão atípico como este acaba se esgarçando, e parece que as tarefas não têm fim (OK, algumas não têm mesmo, como limpar a casa). Teve dia que escolhi finalizar dois cursos de hortas no lugar de lavar banheiro. E tudo bem. Lavei no outro dia, e ninguém morreu. Tenho me cobrado menos, embora mantenha no horizonte minhas responsabilidades, que também ando revendo.
Talvez - essa é uma grande esperança - seja sinal de maturidade o fazer o que é possível no momento, um dia de cada vez. Ou talvez - o paradoxo dá nova volta no parafuso - não haja tempo para ser de outro modo.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O mundo está ao contrário e ninguém reparou?

É tanta notícia ruim neste país nos últimos dias que a mente demora muito a serenar para que a gente possa se tornar minimamente produtiva ao longo do dia. Não bastassem as notícias da violenta expulsão das famílias de Campo do Meio, MG, que ocupavam há mais de 20 anos terras da usina falida onde haviam trabalhado, e lá produziam agricultura orgânica e o melhor café da região, do avanço da Covid-19 no país e no mundo, do desmonte incessante da cultura e da educação, da morte de centenas de indígenas por assassinato ou por Covid-19, há essa história horrível da menina capixaba de 10 anos, estuprada pelo tio desde os 6, grávida, que não conseguia abortar porque os médicos se recusaram e depois enfrentou uma turba de fanáticos religiosos, diante do hospital que aceitou fazer o aborto, que chamavam a criança de "assassina". Fiquei tão perturbada desde que soube dessa história, e dos seus desdobramentos que indicam todo nosso retrocesso e fracasso social, que hoje nem consegui trabalhar. Só pensava na criança, assustada, roubada de sua vida, aviltada por alguém da família e por estranhos. Que país, que mundo, que tempo são estes?
Depois de tudo o que temos visto sob a luz atordoante dessa pandemia, vamos seguir sendo os mesmos, sabendo-mas-ignorando as situações gritantes de desigualdade do nosso país? Ou vamos agir de forma efetiva e contundente para evitar que as trevas cubram tudo até não sabermos mais onde estamos nem quem somos?

domingo, 9 de agosto de 2020

Paus versus pais

Outra polêmica destes tempos pandêmicos e sombrios foi a que envolveu a campanha da Natura que coloca Thammy Miranda como exemplo de pai presente, junto com outros diversos pais, conhecidos ou não. Thammy aparece sempre em fotos com a esposa Andressa e seu lindo e feliz bebê Bento. Isso mesmo - Bento parece uma criança já felicíssima, cercada de amor, como deveriam ser todas as crianças.
Mas sabemos que não é assim. Centenas de milhares de crianças não conhecem seus pais, ou os encontram esporadicamente, ou são maltratadas e até abusadas por eles, ou sofrem com sua indiferença. Se nem toda mulher nasceu para ser mãe, com os homens acontece o mesmo - mas a sociedade não exige dos homens que participem tanto da criação dos filhos como as mulheres. Nem estou falando de pais e mães perfeitos, mas somente de gente que tope o compromisso, dividir as responsabilidades e tarefas cotidianas. Porém, no interior de uma sociedade machista como a nossa, muitos homens se limitam a ser paus, e não pais. 
E parece que é isso que importa - a representação da masculinidade, normalmente tóxica -, e não o comprometimento humano com o outro. Quando Thammy anunciou que estava participando da campanha da Natura, houve uma revolta dos machistas que não entendiam como uma mulher - eles não o reconhecem como homem trans - podia representá-los com o slogan "pai é quem cria". O que na verdade não podia representá-los é o próprio slogan, porque machistas convictos normalmente não são bons pais, não cuidam de ninguém a não ser de si mesmos. Setores conservadores da sociedade, especialmente da igreja, clamaram pelo boicote da marca. Acabaram vendo o efeito contrário, as ações da Natura subindo e a marca ganhando ainda mais projeção positiva.
Eu tive um pai nada presente, um pau autodeclarado, indiferente, arrogante e ciumento das atenções dadas aos filhos. Não queria nos legar nada, mas não pôde evitar a genética e até as heranças de seu desamor que transformamos como pudemos, cada um com seu cada um. Mas tive um avô, avôhai, seu Antônio Barbosa, gigante amoroso de olhos cinzentos, orgulhoso dos netos, conversador, justo. Não foi um bom marido para minha avó, mas esteve com ela até o fim na nossa criação. Pai é quem cria. Eu atesto, com amor. 

quarta-feira, 20 de maio de 2020

E Bacurau, afinal?

Por fim, assistimos a Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, diretor dos ótimos O som ao redor e Aquarius
Houve um furor na época do lançamento, e vi muitos amigos divididos entre achá-lo incrível e nada de mais. Eu sabia, de orelhada, que um tal Lunga fazia justiça contra os opressores e lavava a alma dos espectadores. 
Bom, pelo jeito, sou da turma do nada de mais. Embora o filme tenha sido lançado em agosto de 2019, quando o horror bolsonarista já estava instalado no país, e a película tenha lá seu quinhão crítico, ninguém estava preparado para a distopia que cresceria cada vez mais, incrementada por uma pandemia que só gera incertezas quanto ao futuro. Talvez isso tenha me dessensibilizado para a violência presente no filme - são tantas mortes, tanta violência, tanto descalabro no cotidiano nacional que a sanguinolência de algumas cenas de Bacurau não me impressionou. Também não há preocupações estéticas, mas isso é do cinema de Mendonça - uma pena, porque a região sertaneja, no Rio Grande do Norte, onde o filme foi feito daria uma fotografia incrível nas mãos, por exemplo, de um Walter Carvalho ou Affonso Henrique Beato. A crítica, no final das contas, me parece limitada ao que os gringos/ricos/brancos fazem contra os brasileiros/pobres/mestiços. E a matança promovida por Lunga, ao melhor estilo "vingança dos cangaceiros", é tão pá-pum que nem prepara a gente para aquela torcida, como acontece por exemplo em blockbusters como John Wick, quando tudo o que a gente quer é que o protagonista vivido por Keanu Reeves detone quem matou seu cachorrinho, só para começar. Marighella, dirigido por Wagner Moura, talvez fosse bem mais importante, mas, embora lançado em 2017, até hoje não foi distribuído por aqui, por puro boicote bolsonarista - também há os liberais incomodados com a figura de Marighella, talvez um pouco real demais, aumentando assim a simpatia de esquerda pelo violento mas fictício Lunga.
Um pouco antes de vermos Bacurau, assistimos à animação stop motion Ilha dos cachorros, de Wes Anderson, já um dos meus diretores favoritos há algum tempo. Além da lindeza da produção, da trilha sonora, do roteiro impecável, a crítica social ali é tão patente e atual, sem que seja preciso perder o estado de encantamento que o cinema proporciona, que fiquei muito grata ao diretor pela experiência. Fiquei muito mais impactada do que com o filme de Mendonça Filho.
Enfim, acontece. Mas sugiro que assistam aos dois. Certamente, Bacurau, mesmo não integrando minha lista de favoritos, entrará para a história do cinema nacional como um dos filmes que incomodaram, o que já é bastante no atual contexto. 

domingo, 12 de abril de 2020

Cada vez mais "feito em casa"


Doce de leite, batata palha, polpa de acerola, máscara de pano, leite de tigre - tudo feito em casa. O leite de tigre foi o mais criativo: caldo de legumes que tinha congelado, caldo de limão, alho e pedaços de filé de tilápia, tudo batido no processador e depois coado.

sábado, 11 de abril de 2020

Longe mas perto

Tenho familiaridade com educação à distância há alguns anos. Até passei em um concurso para ser tutora de um curso técnico, em Maceió - mas teria que pagar minha passagem uma vez por mês, então não rolou. Fiz curso de tutoria on-line, de espanhol (do Senac e do Cervantes), vários da Eduk, do Sebrae, pós em gastronomia da PUC-RS, de direitos humanos, ética, outra pós, na Unisc, em história da alimentação... Isso para não falar dos tutoriais mil, de culinária e outros assuntos, que encontramos na internet. Ou seja, o mundo virtual é um velho e gentil conhecido. Agora, então, em que o trabalho está sofrendo as transformações trazidas pela pandemia, será tudo mais virtual - e a graça vai ser contrabalançar isso com atividades presenciais. 
Bueno, enquanto o presencial vai sendo posto de lado na quarentena, estamos tendo aulas de pilates por videoconferência. Funciona muito bem, apesar de uma ou outra travadinha na chamada. Assim conseguimos inclusive rever pessoas queridas, afastadas de nós no contexto atual. É a conexão possível no momento, que nos ajuda a não enlouquecer com a falta de exercícios e da liberdade de ir e vir e com o excesso de notícias ruins. Só posso agradecer a Gleice por não se acomodar nunca. 

segunda-feira, 6 de abril de 2020

A rotina transtornada

Completamos três semanas de isolamento social. Embora nossa rotina seja há tempos a do home office, os momentos de atividade física proporcionavam o escape necessário, já que eram feitos normalmente fora de casa - bike, corrida, pilates, academia.
No final da semana passada por fim fui pedalar, vencendo a culpa por fazer isso na estrada, longe de aglomerações. Mesmo assim, a sensação de estar quebrando um pacto subsiste. Será que isso acabará estimulando mais pessoas a sair de casa? Fico imaginando como se sentem as pessoas presas em apartamentos - nós ainda temos uma área externa grande, nossos pets não ficam trancados em casa, temos árvores e ar fresco ao redor.
Apesar de aparentemente ter havido pouca mudança na rotina, por incrível que pareça, a louça aumentou - não deveria, se continuamos fazendo praticamente a mesma coisa todo dia, com exceção do exercício fora de casa.
Também é fato que voltei a assumir a cozinha em modo integral; ainda faço a faxina, porque dispensamos por ora a diarista. Embora seja bom aproveitar o momento para aquela limpeza nos mínimos detalhes, logo fico cansada. Os dias ficaram bem mais curtos. Fico sonhando com voltar a comer fora, se possível, vários dias seguidos.
Junto com a vontade de sair vem o medo do contágio. Ir ao supermercado, como fizemos hoje, virou uma situação tensa, uma verdadeira operação de guerra, especialmente na volta, com a higienização de mãos, sapatos, compras (Guga só lava as mãos, talvez esteja certo em não ficar paranoico). Aproveitamos para estrear as máscaras de TNT que fiz com uma sacola da Cantão. Serviram bem, espero mesmo que tenham nos protegido. Já desinfectei também.
Ainda nem chegamos ao tal pico da epidemia, que deve começar esta semana, dizem. Na verdade, não temos tanta clareza do que vai acontecer. Imagino que a maioria das pessoas seja infectada em diferentes graus. Como agora, pelo Brasil, muita gente está se arriscando em locais de grande circulação, especialmente os eleitores do Bozo, o número de casos deve aumentar, o de mortes também.
Não sabemos quando será possível voltar a sair com o mínimo de segurança, ou de imunidade, pois ainda não há certeza quanto a um novo contágio por quem já teve a covid-19. Não sabemos o tamanho do estrago na economia, nem se ainda teremos trabalho.
Os mais otimistas acreditam numa transformação da humanidade e do mundo para melhor, após a pandemia. Há quem ache que tudo vai piorar. Eu acho que ainda vai piorar bastante antes de haver qualquer melhora, sobretudo num país em que a população não está acostumada com a ideia de bem comum.
A única coisa de que tenho certeza é que nada continuará do mesmo jeito. Drauzio Varella ainda acredita que nossa antiga vida vai demorar muito a voltar. Eu não acredito que volte.

sábado, 21 de março de 2020

Crônica do fim de um mundo

Somos privilegiados, sabemos disso. Podemos trabalhar em casa, e já fazemos isso há tempos. Moramos longe de um grande centro urbano, não precisamos tomar ônibus ou metrô lotado. 
Quando se anunciou a necessidade de isolamento social, fomos ao supermercado, compramos só o necessário para uma quinzena. As pessoas ainda não estavam em pânico. Não achamos álcool 70%, mas logo ganhamos um frasco de 1 L do tio de Guga e mais um frasquinho em gel da minha professora de pilates. Foram interrompidas as aulas no estúdio e na academia, minha sogra foi dispensada do trabalho para ficar em casa. Liguei para minha mãe, para lembrá-la de não sair por aí.
Parece o melhor dos mundos, fazer home office nessa situação de calamidade. Mas não é tão fácil relaxar diante da possibilidade de desemprego, de hecatombe na saúde coletiva e na economia nacional. Eu, naturalmente distraída, não consigo quase focar em trabalho e estudo, nem aproveitar para organizar coisas, ou ler, ou bordar. Fico meio no limbo. O negócio é, segundo o Christian Dunker, mudar essa chave, seguir uma rotina, mesmo diferente da que existia. Não sabemos até onde isso vai - eu havia, inocentemente, até comprado ingressos para ver Chico César e Geraldo Azevedo, mas pelo jeito, né. Hoje saí para caminhar por perto, evitando a proximidade das pessoas (e ainda havia gente bebendo nos botecos), porém já estou repensando. 
Claro que nem vou me comparar à situação de milhões de brasileiros que não têm como se proteger, ou porque têm que continuar saindo de casa para trabalhar, ou porque não têm casa, ou porque não têm água encanada nem dinheiro para comprar sabão nem comida na mesa. Sim, continuamos sendo privilegiados, mesmo que a bad venha bater à porta pela súbita insegurança, pelo encarceramento necessário. 
Ontem fomos a um outro supermercado próximo, só para comprar uns itens de limpeza que não encontramos. Ali a coisa já estava mais tensa, com a galera passando com carrinhos lotados de papel higiênico (um mistério essa estocagem de PH!) e caixas e caixas de leite longa vida. Quando chegamos, já fui colocando nossas roupas na máquina de lavar, por via das dúvidas. 
Precisamos fazer força para não deixar a coisa desandar, os quilos voltarem, a saúde ir pro saco, a mente idem. E na hora em que isso parecer muito difícil lembrar do outro normalmente fodido, diariamente. Muita gente romantiza a crise, chamando a atenção para o fato de que ela "nos iguala". Podemos, e devemos, sair empobrecidos dessa, mas a desigualdade seguirá esmagando ainda mais os mais pobres, a menos que haja uma mudança radical de pensamento, de diretriz político-econômica, de sociedade mesmo. Porque esta que aí está chegou ao fim.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Para que serve o feminismo

"Isso é falta de homem" é uma frase que ouvi mais de uma vez na vida. Uma das vezes, foi dita por um cobrador de ônibus com quem discuti porque apoiei os pés na estrutura de ferro sob seu banco. Uma outra, foi meu ex-cunhado, que avançou sobre mim para "defender" minha irmã em uma discussão corriqueira entre nós duas - o mesmo cunhado que, após avançar também sobre meu irmão, agrediria minha irmã e que manteria contato com uma ex enquanto era casado. Seriam ele e o cobrador exemplos do homem que me faltava?
Outro dia foi dia da mulher, e eu repostei uma imagem que lembrava duas turistas brasileiras que foram assassinadas durante uma viagem. A mensagem dizia respeito ao direito das mulheres de viajarem sozinhas (= sem homens) em paz. Logo veio um amigo questionar o feminismo "de hoje", que prega o ódio das mulheres aos homens, afe. 
Se eu achasse que vale a pena, teria dito a ele uma ou duas palavras sobre o feminismo. Mas ele, no fundo, não quer saber. Invadiu uma postagem que fala de outra coisa - feminicídio - para dizer o que ELE, ómi conservador, acha do feminismo. Ainda teve a audácia de dizer como deveria ser o post, que "o certo seria". Gente! 
Como ele, muita gente não quer mesmo saber que o feminismo prega a igualdade de direitos entre homens e mulheres, e não a prevalência de umas sobre os outros. Direito de ir e vir em segurança, direito a equiparação de salários, direito a fazer o que quiser do próprio corpo, direito a fazer outra coisa da vida que não seja ser mãe e dona de casa. 
Há mulheres que querem botar fogo no parquinho? Há. Há mulheres que não querem mais saber de homem? Ô se há! Mas o fato é que mulheres normalmente não estão interessadas em guerra, violência gratuita, competição desenfreada. Não querem violentar outras pessoas para mostrar seu poder. 
"Ah, e se fossem elas que estivessem no poder? Não fariam as mesmas coisas?" Pois é - vou repetir: feminismo não é querer tomar o poder. É dividir o poder. É poder fazer junto para fazer melhor. O que não quer dizer que nós, mulheres, vamos ficar esperando os ómi aceitarem a ideia e mudarem por conta própria. É preciso ação, é preciso fazer barulho sim. Nisso, nas ações, é que está a radicalidade  (e não radicalismo) do movimento. 
Ai, será que ficou mais claro? Posso fazer mais desenhos.

domingo, 8 de março de 2020

Dia das Mulheres Todas Juntas

Mais um 8 de Março. Menos mensagens melosas, menos imagens de flores na internet - bom. Muito mais desejos de luta e cooperação. Mas sempre tem ómi indagando "aim, mas por que as mulheres não querem mais flores?" e afirmando que "o feminismo de hoje colocou as mulheres contra os homens", que "o certo seria". Sério, não tenho mais paciência pra esse papo. Daí, desenhei. Quem sabe assim fica mais claro, né?
Flores deixam tudo mais bonito, mas não resolvem os problemas de desrespeito e desigualdade de direitos. Enquanto isso - a resolução dos problemas - não acontece, seguimos de mãos dadas. E depois também.

terça-feira, 3 de março de 2020

Caça às bruxas, João e Maria e nazismo no mesmo balaio

Quando fazia terapia, era muito mais fácil estar atenta à sincronicidade, esse conceito junguiano para "explicar" acontecimentos que não têm relação causal, mas sim de significado. Tipo andar pela Avenida Paulista e quase ser atropelada por uma borboleta e depois topar com alguém usando uma camiseta com o nome do país que eu visitaria em seguida para na sequência ouvir alguém falando desse país. Ou estar vivendo um dia péssimo e estar dentro de um táxi e avistar uma menina atravessando a rua, e ela olhar para mim e fazer um sinal de positivo. Muitas vezes, as sincronicidades têm a cara de milagres cotidianos, envolvem pessoas que nunca mais veremos na vida.
Na última semana, porém, ela rolou de forma um pouco diferente. Estava terminando de ler o livro de Silvia Federici, Calibã e a bruxa, que trata da caça às bruxas e sua relação com o novo "papel" dado à mulher no capitalismo nascente. Tivemos de ir a Salvador para resolver umas coisas, e para fazer hora fomos ao cinema - infelizmente, só havia filmes dublados, e acabamos vendo, diante das opções infantis, um remake de João e Maria. Um pouco mais terrível, com Maria tomando o lugar da bruxa e os irmãos lançando-a no fogo sem piedade.
Nada disso tinha me chamado a atenção (até porque dormimos durante metade do filme) até assistirmos, na mesma noite, a um episódio da série Hunters, da Amazon, com Al Pacino. Trata-se de um grupo de caçadores de nazistas nos anos 1970 que acaba cruzando o caminho de uma investigadora do FBI - negra e lésbica. 
Na verdade, foi um único comentário que a personagem fez que acabou ligando todos os pontos na urdidura. Ela perguntou à namorada se conhecia a história de João e Maria (!); disse que eram duas crianças alemãs, louras de olhos azuis, que encontram uma velha senhora que mora sozinha na floresta e que era, supostamente, uma bruxa. As crianças comem tudo o que a mulher lhes oferece para depois roubar-lhe a fortuna, a casa e a vida. A investigadora da série associa a ação das crianças ao ódio aos judeus - e Federici justamente mostra em seu livro como judeus, mulheres e hereges são colocados no mesmo caldeirão, associados à bruxaria por sua não adequação ao novo status quo. Embora João e Maria sejam personagens consagradas pelos irmãos Grimm no século XIX,  a depreciação de mulheres (especialmente se independentes e consideradas inférteis) e judeus já acontecia desde o século XVI, e na Alemanha, ainda não unificada, isso só ganharia mais força, culminando no antisemitismo nazista do século XX. 
Parece que tudo isso aconteceu para que essas relações entre machismo, racismo, intolerância e sociedade de consumo só ficassem ainda mais claras para mim, mostrando a extensão dessa rede de fatos históricos que tece uma imagem tão sombria da humanidade. Triste, mas claríssima. 

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

Arquivo do blog