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domingo, 8 de agosto de 2021

Quase um ano e meio na direção do apocalipse zumbi

Ando bem sem vontade de escrever qualquer coisa. Cansaço pelo trabalho triplicado e repetitivo, o horror diário nas notícias, a galopada vertiginosa dos preços de tudo, a dificuldade de enxergar um futuro no meio disso tudo. Em meio às pandêmicas olimpíadas, a segunda temporada da CPI, e oscilo entre a alegria de testemunhar vitórias femininas e periféricas e a desesperança de ver qualquer mudança na realidade mais disparatada da história brasileira. 
Tenho esquecido até de respirar, sinal de que as coisas não estão bem - a respiração suspensa como o futuro. Tento um simulacro de porvir me inscrevendo numa segunda graduação, mas isso ainda não me aquece nem devolve completamente a respiração. Demorei mais de duas semanas para agradecer aos amigos que se lembraram do meu aniversário - algo quase impensável, no meu caso, memoriosa de efemérides que sou. Sonhos ruins vêm, noite sim, noite não, amargando temores antigos, metamorfoseados em ira.  
Ensaio uma volta à academia local, munida de cadeado, perfex, álcool, máscara, e acabo trancando tudo no armário com a chave dentro - e tenho que ir buscar um chaveiro para quebrar o cadeado, algo que nunca me aconteceu antes. Dou-me conta de que, além do estresse por tudo e pela pandemia, a idade também vem cobrando seu preço na memória, na pele que resseca cada vez mais fácil, nos cabelos que caem abundantemente. Sou tomada por um súbito pavor do que significa essa queda capilar quando lembro que preciso refazer meus exames médicos, com mais de um ano de atraso. 
Tenho uma boa ideia para um trabalho final da pós como ouvinte, mas desanimo a cada tentativa de respirar. Desânimo é alma que se esvai aos pouquinhos. 

sábado, 26 de junho de 2021

Vacinados - um alívio no meio do caos

Em uma semana que começou confusa, com pane elétrica que durou dois dias e já atrasou o trabalho sempre de prazos justos, conseguimos nos vacinar, na xepa do posto de saúde de Monte Gordo. 
Quando vimos que a fila por idade estava se aproximando da nossa, fomos ao posto, na segunda-feira, para fazer nossas carteirinhas do SUS, coisa que ensaio há uns 3 anos. Lá fomos muito bem atendidos e soubemos que havia uma lista para a xepa, aparentemente bem pequena. 
No dia seguinte, quando eu estava fazendo almoço - enquanto o eletricista terminava de arrumar as instalações que nos transtornaram a vida desde o dia anterior -, recebi uma ligação de número desconhecido. Atendi e ouvi: "Querida, vem vacinar. É Sandra, do posto." Perguntei se Guga poderia ir também, mas acho que ela não atinou que ele também estava na fila da xepa, acabou dizendo que não era mais para ir. Dali a pouco, os cubos de frango dourando na panela com curry, cebola e maçã, Guga grita pra eu largar o que estava fazendo e irmos para o posto. Sandra tinha ligado pra ele também. Eu, legalista, fiquei temerosa de ir sem ter sido confirmada, mas ele já foi pegando a chave do carro, e só tive tempo de jogar a panela do semi-almoço dentro do forno. 
Saímos correndo e chegamos ao posto quase vazio. Uma moça chegou ao mesmo tempo que nós, com cara de postulante à xepa. Logo encontramos a moça que nos ligou, que foi quem tinha feito as carteirinhas no dia anterior. Ela sorriu debaixo da máscara, disse que a enfermeira estava voltando do almoço. 
Dali a pouco, o bracinho que estava quase caindo de tanta espera recebeu a tão desejada vacina. Coronavac. Fomos tão felizes e aliviados pra casa que nem sei descrever. Foi outra grata surpresa local, a vacina tão à mão, ou tão ao braço. Com um atendimento tão eficaz e simpático. Sim, mil vivas ao SUS e aos profissionais da Saúde.
Somente no dia seguinte tivemos um pouco de sonolência, mas, à parte isso, nenhum sintoma mais sério. 
E agora aguardamos outra vacina, a Covaxin, operar uma maravilha contra o desgoverno que aí está. 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Um ano e dois meses

Com direito a pegar numa espécie de urtiga-cansanção achando que era muda de mamoeiro e ficar com os dedos e palmas das mãos vermelhos e queimando e coçando vários dias, a ser atacada por mutucas e cigarras, a ter que deixar baldes e bacias em pontos estratégicos da sala e do escritório porque, afinal, começou o inverno baiano e as goteiras se multiplicam - e por conta da chuva também arrumei um minijump, pra substituir as caminhadas nos arredores (15 minutos e quase tenho um treco, mas já tenho melhorado meu desempenho).  
Também começou a CPI para apurar responsabilidades na condução do combate à pandemia. Mas seguimos descrentes de tudo. Sempre detestei juízos de valor com relação ao Brasil, mas está sendo impossível não pensar que somos filhos do atraso travestido de cordialidade. A violência, as chacinas, a intolerância brotam de toda parte. A carestia não dá trégua. E a alma pesa, pesa, pesa. 

domingo, 7 de março de 2021

Um ano de quarentena

É sério: não consigo curtir fotos de amigos e conhecidos en voyage por aí, desde que a pandemia começou e ainda mais agora, no seu pior momento. Teve até quem tentasse se justificar, porque já havia comprado pacote de viagem e tal, mas me desculpe, acho que não há o que dizer a quem resolve viajar e ficar se exibindo sem máscara em paraísos tropicais, pobrezinho-tão-cansado-da-pandemia, enquanto contabilizamos mais de 250 mil mortos. É desrespeitoso e absurdo demais esperar que disso venha um like. Isso vale para anônimos e famosos. Mas é assim que chegamos a um ano de quarentena, assistindo a esse show de horrores humano, nas altas e baixas esferas. 
Hoje tomamos sol na grama, no nosso privilégio de classe média baixa. A maior parte dos estados brasileiros vive situação de calamidade, com 90% ou mais de leitos ocupados, gente morrendo dentro de ambulâncias ou em cadeiras fazendo as vezes de leito em hospitais. O governador baiano chora ao se solidarizar com um pai que perdeu sua filha de 16 anos para a Covid-19. O perverso-mor continua lançando suas chispas de ódio, cortina de fumaça para os descalabros familiares, como a recém-comprada mansão do filho mais velho, que está conseguindo se livrar da maior parte das investigações contra ele. Continuamos apáticos diante da hecatombe, da onda gigante, tsunami de destruição. Nem em meus piores pesadelos eu sonharia em viver uma situação assim, em assistir ao desastre brasileiro, à derrocada humana, a uma crise humanitária mundial.
É desesperador imaginar que dias piores ainda virão, com muita gente morrendo não só de Covid, mas de fome e pela violência, porque tudo agora está interligado. Mesmo fazendo força para manter o equilíbrio, a alma não pode sair intacta. Mesmo tendo mais clareza do que importa, do que trago para dentro como mais valioso, é difícil sonhar o futuro.

domingo, 31 de janeiro de 2021

Nós que aqui estamos, pra onde será que vamos?

Como já imaginávamos, 2021 começou e pouca coisa mudou. Prosseguimos na pandemia, quarentenados, já com a chuva dando as caras após uma trégua de um mês. Dez meses e meio de quarentena, mas agora com mais temor da Covid-19, que vem de novas cepas do vírus, imagine só. Além das loucuras e desmandos diários do governo federal, da violência crescente contra mulheres, trans, negros e pobres, do aumento incessante dos preços de tudo, de gente vivendo em condições análogas à escravidão em pleno século 21. 
Se já estamos normalmente no final da fila de qualquer campanha de vacinação, agora, com a disputa eleitoreira, nem sabemos em que ano seremos vacinados. Talvez só nos reste pagar pela vacina, torcendo para que o valor cobrado caiba no bolso. 
Ontem, uma amiga com quem não falava faz tempo, ligou, reafirmando a vontade de voltar a nos encontrar, com esperança na vacina - ela, que faz parte do grupo da quarta fase, conta com ser vacinada ainda este ano. 
Realmente não sei quando voltaremos a transitar com mais segurança, e por isso me causa um certo horror ver pessoas conhecidas viajando pra lá e pra cá, postando suas fotos sem máscara com outras pessoas sem máscara circulando ao redor, tudo por uma selfie. Eu entendo que todos estão esgotados com a situação de pandemia, mas simplesmente jogar tudo pra cima me parece mais um ato egoísta de quem não se importa com o coletivo do que uma ação suicida. Sigo enxergando a divisão da sociedade entre quem se importa e quem não se importa. O único meio-tom possível é quem se importa mas não tem condições de ficar em casa, é obrigado a circular etc. 
Agora em janeiro tive uma fugaz esperança de encontrar uma pós-graduação, mas acabou-se quando soube que o professor que ministraria uma disciplina com vagas para aluno especial já foi acusado de assédio, machismo e homofobia. Foi inocentado pela instituição, mas resolvi não pagar pra ver. Ah, que mundo torto o nosso.
As coisas boas, a gente vai catando no meio dessa lama toda, como os grupos solidários que, se não conseguem o impeachment do Bozo, pelo menos ajudam quem precisa a sobreviver, caso do recente ECDE, maravilhoso, grupo de compra e venda da galera das esquerdas. As comunidades continuam se organizando para fazer frente à crise e garantir comida no prato da galera, como no projeto Arranjo Local da Penha, no Rio. Há movimentos de ajuda aos amazonenses, que vivem uma tragédia sem precedentes com a falta de oxigênio (suprema ironia) para os pacientes hospitalizados. 
Há muita picaretagem, fura-filas da vacina, corrupção na compra de insumos, mas ainda há gente boa, e seguimos tentando manter ao menos a cabeça acima da lama.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

O oitavo mês

Parece tão absurdo que tenhamos passado oito meses, 2/3 de um ano inteiro, em casa, mas não é. Cá estamos, ainda confinados. Ainda sem vacina, ainda com um louco a desgovernar o país. Pelo menos o Biden venceu (embora o maluco-mor não queira largar o osso), a Bolívia voltou a ter governo popular, o Chile votou pela mudança na Constituição. Seguimos no atraso, nós, brasileiros. 
Por aqui, parece que é só pensar "amanhã vou voltar a caminhar" que volta a chover, tipo hoje. Passamos a quarentena na chuva, porque agora chove a maior parte do ano na Bahia. Por sorte, deu pra fazer pilates e tai chi dentro de casa, por videoconferência. 
Ainda esqueço de tomar sol, quando há. A mente segue entre desconcentrada e descarrilada. Na meditação em grupo, nunca sei se meditei a ponto de relaxar muito ou se dormi mesmo. Sigo cansada - de cozinhar, de gastar, de trabalhar, de escrever. Não tenho vontade de fazer nada criativo. Parece que já usei todas as fichas. O que gostaria de fazer, não posso, por conta da pandemia. 
Meio rastejante, cozinho, trabalho, escrevo, lavo roupa, lavo louça. Não tenho pintado nem bordado, literalmente. Às vezes, assisto a um filme no computador. Faço longas listas de autocuidado, com zilhões de rotinas que deveria ter mas não tenho, sempre me perguntando como é que nunca fiz nada disso antes. 
O oitavo mês tem tudo para ser eterno, mas daqui a pouco já será Natal. 

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Dia 171

No dia 171, temos presidente fazendo campanha para que os brasileiros se vacinem só se quiserem, capangas do prefeito carioca nas portas dos hospitais tocando o terror para evitar a veiculação de informações negativas sobre o sistema de saúde, a dança dos ministros para julgar políticos e a si mesmos, 123 mil mortos no país por covid-19, a bizarra Flordelis amante-mãe-sogra-assassina some no mundo, mais meninas sendo engravidadas por parentes próximos, o Brasil é realmente um país difícil de encarar. 
Reunião de trabalho, infecção dentária tratada com antibiótico, dorzinha do piriforme querendo se reinstalar, pensamento no bolo de aniversário da sogra, promoção irresistível de vestidos que provavelmente serão usados em casa, um tortano de presente para um encontro que acaba não acontecendo, uma compra de cobertores para doação desfeita porque não realizam entrega, um aviso sobre um curso interessante de literatura e gastronomia. Tudo é um vir a ser como se a gente ainda tivesse tempo para esperanças. 
Porém, o que persiste é a vontade de largar tudo, de nunca mais fazer tarefas domésticas, coisa que aliás não desejo pra ninguém. A perspectiva de permanecer ainda muito tempo nessa forma encolhida de viver é desoladora, não tem sentido nenhum. Talvez a meditação proposta por amigos ajude a reencontrar um eixo, talvez a arte traga alguma reconexão. Talvez, talvez. O talvez é nosso presente e nosso futuro. 

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Inflamação no piriforme e a moussaka que não fiz

Tinha planejado fazer uma moussaka, receita do Akropolis, para o Dia das Mães. Compramos tudo com antecedência, bonitinho. Mas aconteceu de, após uma faxina, a dorzinha costumeira na lombar ir se transformando em algo incapacitante e duradouro. Tive que passar os ingredientes e a receita para a sogra, uma injustiça, para ela preparar o almoço em homenagem a ela! Isso porque ela já havia cuidado da sobremesa também.
A receita já virou minha favorita, com as batatas cortadas em fatias e fritas antes de compor as camadas. O molho bechamel, bem denso por conta do acréscimo de queijo, ficou maravilhoso.
E afinal tive de marcar um horário com minha instrutora de pilates e fisioterapeuta, eu já temerosa de ter de ir a um hospital a essas alturas de pandemia. Depois de muitos apertões, soube que, ainda bem, era só uma inflamação do músculo piriforme, e não um problema renal, ou uma infecção, ou uma hérnia de disco recém-nascida. A depender da posição, o piriforme pode irradiar para o ciático, e daí essa dor escrota, que parece enfraquecer as pernas e fazer estalar a coluna, o quadril e os joelhos, enviando pequenos choques pela perna até o pé. Uó.
Pelo menos, houve um grande alívio após a fisioterapia. Sigo no ciclo do anti-inflamatório e com Mercuria, a bolsa de água quente.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Earbugs e o consumo na quarentena

Com essa história de não poder sair para pedalar, correr e treinar, tenho tentado fazer alguma coisa em casa. Além do pilates em casa via Zoom, estou me esforçando para usar os treinos do Darebee e as aulas de yoga do canal Namu. Acabo de descobrir que minha antiga professora de tai chi chuan está oferecendo aulas on-line gratuitas também, a ver. 
Bueno, e então tive a ideia de comprar uns fones de ouvido bluetooth para ouvir as aulas e não acordar/atrapalhar o marido. Pesquisei umas resenhas de corredores e cheguei a esse Edifier, bom preço, ainda por cima cor-de-rosa. Muito bom, quase não se percebe que está usando, ótimo som, encaixe perfeito, pareamento rápido. 
Essa ótima compra, porém, me fez pensar muito no consumo durante a quarentena. Na verdade, por pura ansiedade comprei várias coisas on-line, algumas mais urgentes (lentes de contato, remédios dos pets), outras, nem um pouco (roupas, sapatos). E uma faixa intermediária de compras (os fones, as frutas secas da zona cerealista) me fez ter uma consciência dolorosa de como vivemos numa bolha, de como nosso país é um abismo de desigualdades. 
Não consigo parar de pensar nos milhões de brasileiros que não têm sequer água encanada em casa, que dirá frutas secas ou fones de ouvido. Me deu um enjoo fazer compras, mesmo as primordiais presenciais. Me deu ainda mais clareza de como inventamos necessidades para consumir, o próprio sentido do capitalismo, cada vez mais feroz e desagregador. Porque pertencemos a uma classe média baixa e olhe lá, e também porque a crise econômica só se agravou com a pandemia e instalou-se um cenário incerto, em que é praticamente impossível fazer planos a médio e longo prazo, não é muito inteligente nem ético gastar. 

terça-feira, 28 de abril de 2020

Dia da Marmota, A Peste e por aí vai - ou volta

Entramos na sexta semana de quarentena. A rotina, ainda meio capenga - treinos de vez em quando, só o pilates segue firme embora caseirão; a bike, abandonada. Continuo torcendo para meu dente trincado permanecer quietinho. Os cabelos, uma versão sem coiffure dos de Renata Vasconcelos, chegarão ao fim da infinita quarentena totalmente quebrados pelo uso de elásticos. Pelo menos, o melasma deu uma boa diminuída pela falta de sol na cara. As mãos sequíssimas pelo uso do álcool e do sabão pedem socorro e hidratação. A pele do rosto, meu Deus, nem se fala, grita por uma limpeza decente.
Os dias são de muita louça, fazer faxina semanal (lembrando o tempo todo de muitos detalhes deixados de lado), cozinhar três vezes por dia. Os cuidados com roupa dependem da existência ou não de sol, porque agora só chove por estas terras. De vez em quando, quando sobra tempo, trabalho no material da editora. Ou tento ler os textos da pós.
O tempo passa cada vez mais rápido, e logo é dia de faxina de novo. As más notícias se repetem na TV e na internet. Por fim, vivemos a distopia que só víamos em filmes e livros. Uma tristeza geral toma conta das pessoas queridas. Estamos todos presos em um tempo suspenso, sem vislumbre de futuro, sem conseguir avançar um passo, só voltando ao início de cada dia, como no Dia da Marmota. Somos como Bill Murray acordando estremunhado, apercebendo-se de que vive sempre o mesmo dia em looping desesperador.
Inevitáveis essas referências: Feitiço do tempo, Ensaio sobre a cegueira, A peste, O amor nos tempos do cólera. Porque nunca foi tão importante, em tempos recentes, pensar na importância da arte para a sobrevivência da alma. 

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Projetos do hoje e após

Como será o amanhã, responda quem puder, já cantava Simone nos anos 1980. Não temos a menor ideia, e por ora nem os cientistas podem responder. Essa quarentena pode durar meses, e temos mesmo que recriar a rotina para sobreviver.
Pessoalmente, demorei para começar a criar um outro cotidiano. Estava fazendo bastante atividade física, e de repente passei a fazer 25% do que fazia. O trabalho, por sua vez, não teve tanta mudança (embora tenha rolado uma tensão inicial quanto ao futuro). A rotina de casa, sim - muita louça, cozinhar várias vezes, fazer faxina, além de incorporar os novos hábitos de desinfecção a cada saída/volta.
Logo que começou a quarentena, a galera passou a divulgar no Facebook mil links de livros, cursos e visitas virtuais a museus. No início, dá aquela vontade de fazer várias coisas, até a gente se lembrar de que realmente "quarentena não é férias", como nos lembra o alto-falante do mototáxi contratado pela prefeitura. Vem a procrastinação diante do trabalho e da atividade física, agora feita em casa, pois é uma dificuldade buscar novas formas de viver e encampá-las de fato. 
Bueno, mas acabou que tenho feito alguns cursos, além da pós em história da alimentação. Fiz um da Faber-Castell de aquarela, básico, mas ótimo para alguém como eu, que não manja de aquarela e só se mete a. Estou fazendo um do Senac (que está oferecendo vários cursos gratuitos durante a quarentena) de congelamento de alimentos, com outro engatilhado de aproveitamento total de alimentos. E me inscrevi ontem em um da Embrapa, de hortas em pequenos espaços. Tudo isso porque acho que pode rolar uma escassez de alimentos e este é o momento perfeito para termos uma atitude ecológica diante da vida, sair do mero discurso e ir para a ação mesmo. Também me inscrevi em um canal de yoga e hoje comecei um treino do Darebee, site de treinos já usado por Guga - porque não vou esperar chegar o fim da quarentena enquanto reencontro os quilos eliminados, né? Mas demorei para introjetar a ideia, pois faz mais de um mês que resolvemos nos entocar. Assisti também a alguns tutoriais para fazer nossas máscaras de TNT e tecido. 
O resultado dessas escolhas no presente contexto é que, embora não saiba até onde isso vai e se vamos sobreviver, me imagino virando uma especialista em alimentos fermentados, congelados, costuras talvez. Já sonho com comprar uma máquina de costura (que fez uma falta enorme na hora de produzir as máscaras!) num contexto pós-apocalíptico, o que parece algo non sense. Talvez morar em outro país, porque aqui ainda não nos recuperamos do choque da eleição de uma figura tão malévola (perdão à Malévola disneyana). Enfim, ter uma horta, fazer pão. Talvez nada tão diferente do que temos hoje, mas com muito mais gana e sabor e verdade. 

segunda-feira, 6 de abril de 2020

A rotina transtornada

Completamos três semanas de isolamento social. Embora nossa rotina seja há tempos a do home office, os momentos de atividade física proporcionavam o escape necessário, já que eram feitos normalmente fora de casa - bike, corrida, pilates, academia.
No final da semana passada por fim fui pedalar, vencendo a culpa por fazer isso na estrada, longe de aglomerações. Mesmo assim, a sensação de estar quebrando um pacto subsiste. Será que isso acabará estimulando mais pessoas a sair de casa? Fico imaginando como se sentem as pessoas presas em apartamentos - nós ainda temos uma área externa grande, nossos pets não ficam trancados em casa, temos árvores e ar fresco ao redor.
Apesar de aparentemente ter havido pouca mudança na rotina, por incrível que pareça, a louça aumentou - não deveria, se continuamos fazendo praticamente a mesma coisa todo dia, com exceção do exercício fora de casa.
Também é fato que voltei a assumir a cozinha em modo integral; ainda faço a faxina, porque dispensamos por ora a diarista. Embora seja bom aproveitar o momento para aquela limpeza nos mínimos detalhes, logo fico cansada. Os dias ficaram bem mais curtos. Fico sonhando com voltar a comer fora, se possível, vários dias seguidos.
Junto com a vontade de sair vem o medo do contágio. Ir ao supermercado, como fizemos hoje, virou uma situação tensa, uma verdadeira operação de guerra, especialmente na volta, com a higienização de mãos, sapatos, compras (Guga só lava as mãos, talvez esteja certo em não ficar paranoico). Aproveitamos para estrear as máscaras de TNT que fiz com uma sacola da Cantão. Serviram bem, espero mesmo que tenham nos protegido. Já desinfectei também.
Ainda nem chegamos ao tal pico da epidemia, que deve começar esta semana, dizem. Na verdade, não temos tanta clareza do que vai acontecer. Imagino que a maioria das pessoas seja infectada em diferentes graus. Como agora, pelo Brasil, muita gente está se arriscando em locais de grande circulação, especialmente os eleitores do Bozo, o número de casos deve aumentar, o de mortes também.
Não sabemos quando será possível voltar a sair com o mínimo de segurança, ou de imunidade, pois ainda não há certeza quanto a um novo contágio por quem já teve a covid-19. Não sabemos o tamanho do estrago na economia, nem se ainda teremos trabalho.
Os mais otimistas acreditam numa transformação da humanidade e do mundo para melhor, após a pandemia. Há quem ache que tudo vai piorar. Eu acho que ainda vai piorar bastante antes de haver qualquer melhora, sobretudo num país em que a população não está acostumada com a ideia de bem comum.
A única coisa de que tenho certeza é que nada continuará do mesmo jeito. Drauzio Varella ainda acredita que nossa antiga vida vai demorar muito a voltar. Eu não acredito que volte.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Artesanato na quarentena: máscaras para proteção

Pois é, mudaram as indicações do Ministério da Saúde sobre o uso de máscaras de proteção durante a pandemia. Agora é recomendável que todo mundo use, mesmo as máscaras caseiras, para ir a locais públicos, evitando assim o contágio. 
Logo, pipocaram tutoriais na internet ensinando a fazer máscaras de materiais diversos. Mas, de repente, percebi que não tinha onde comprar material para fazer máscaras. Embora tivesse bastante tecido, não tinha elástico, por exemplo. Fui pedir uma doação para minha sogra, que também só encontrou um pedaço de elástico. Usei uma sacola de roupas feita de TNT e consegui fazer duas máscaras, uma pra mim e outra pra Guga. 
Parece que este é um adorno que veio para ficar por um longo tempo. 

sábado, 21 de março de 2020

Crônica do fim de um mundo

Somos privilegiados, sabemos disso. Podemos trabalhar em casa, e já fazemos isso há tempos. Moramos longe de um grande centro urbano, não precisamos tomar ônibus ou metrô lotado. 
Quando se anunciou a necessidade de isolamento social, fomos ao supermercado, compramos só o necessário para uma quinzena. As pessoas ainda não estavam em pânico. Não achamos álcool 70%, mas logo ganhamos um frasco de 1 L do tio de Guga e mais um frasquinho em gel da minha professora de pilates. Foram interrompidas as aulas no estúdio e na academia, minha sogra foi dispensada do trabalho para ficar em casa. Liguei para minha mãe, para lembrá-la de não sair por aí.
Parece o melhor dos mundos, fazer home office nessa situação de calamidade. Mas não é tão fácil relaxar diante da possibilidade de desemprego, de hecatombe na saúde coletiva e na economia nacional. Eu, naturalmente distraída, não consigo quase focar em trabalho e estudo, nem aproveitar para organizar coisas, ou ler, ou bordar. Fico meio no limbo. O negócio é, segundo o Christian Dunker, mudar essa chave, seguir uma rotina, mesmo diferente da que existia. Não sabemos até onde isso vai - eu havia, inocentemente, até comprado ingressos para ver Chico César e Geraldo Azevedo, mas pelo jeito, né. Hoje saí para caminhar por perto, evitando a proximidade das pessoas (e ainda havia gente bebendo nos botecos), porém já estou repensando. 
Claro que nem vou me comparar à situação de milhões de brasileiros que não têm como se proteger, ou porque têm que continuar saindo de casa para trabalhar, ou porque não têm casa, ou porque não têm água encanada nem dinheiro para comprar sabão nem comida na mesa. Sim, continuamos sendo privilegiados, mesmo que a bad venha bater à porta pela súbita insegurança, pelo encarceramento necessário. 
Ontem fomos a um outro supermercado próximo, só para comprar uns itens de limpeza que não encontramos. Ali a coisa já estava mais tensa, com a galera passando com carrinhos lotados de papel higiênico (um mistério essa estocagem de PH!) e caixas e caixas de leite longa vida. Quando chegamos, já fui colocando nossas roupas na máquina de lavar, por via das dúvidas. 
Precisamos fazer força para não deixar a coisa desandar, os quilos voltarem, a saúde ir pro saco, a mente idem. E na hora em que isso parecer muito difícil lembrar do outro normalmente fodido, diariamente. Muita gente romantiza a crise, chamando a atenção para o fato de que ela "nos iguala". Podemos, e devemos, sair empobrecidos dessa, mas a desigualdade seguirá esmagando ainda mais os mais pobres, a menos que haja uma mudança radical de pensamento, de diretriz político-econômica, de sociedade mesmo. Porque esta que aí está chegou ao fim.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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