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terça-feira, 7 de julho de 2020

Sumiê e material adequado

Tem final de semana que até consigo dar umas pinceladas no curso de aquarela/sumiê on-line. Como gosto de usar pincel! Nem sei se sei, mas gosto muito dos gestos, dos efeitos que cada pincel produz, dos resultados, mesmo que imperfeitos. 
Por isso comprei mais uns pinceizinhos simples, mas redondos (como pede a aquarela, aprendi), além do papel para aquarela, que nunca tinha tido. Que diferença faz! Quando fiz o curso da Susan Hirata, usei papel filtro, mas tinha o pincel de sumiê e a tinta sólida - além da assistência presencial da Susan, claro -: por isso, acho que o resultado era bem melhor do que o vinha tendo com a aquarela. Talvez até use a tinta sólida em alguns testes, a ver.
Com o papel adequado, Canson de gramatura 300, os exercícios tiveram um resultado melhor, com ajuda das ranhuras do papel. Os pincéis novos não são lá essas coisas (prefiro os Keramik, mas a maioria dos que tenho tem ponta fina ou achatada), ainda patino um pouquinho com a aquarela em bisnaga, que usava como guache, um efeito mais blocado, sem transparência. Mas Guga sugeriu me dar de presente de aniversário algo ligado a pintura, e escolhi uma aquarela da Koh-i-Noor, maravilhosa e subestimada marca tcheca de materiais de arte. Como as marcas japonesas, a Koh-i-Noor normalmente tem produtos ótimos a preço acessível - para ficar no exemplo das aquarelas, um terço do preço de uma Winsor & Newton pelo triplo de cores. 
Agora estou como criança, esperando meu colorido presente (mas já querendo mais pincéis, oh, God!).

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Arte contra depressão

Nunca estudei nenhum tipo de arte formalmente. Nem informalmente, pra dizer a verdade. Sempre que encasquetei com algo do tipo, tentei meter as caras pra fazer, nem sempre com sucesso. Porém, como minhas expectativas normalmente eram baixas, me satisfazia com o resultado na maior parte das vezes. Assim é que dei aula de xilogravura para alunos da periferia para que eles compusessem seus cordéis (o texto sim, pude ensinar de fato a criar), ilustrei um livro que escrevi para os sobrinhos, criei com colagens ilustrações para uma música de Chico Buarque sob orientação de Odilon Moraes e Fernando Vilela, bordei uma mandala iniciada numa oficina de Sávia Dumont. Dessas tentativas todas, o bordado talvez tenha sido um pouco mais constante, mas ainda está bem longe da perfeição. 
Daí veio a quarentena. Naquele início meio atordoante, achei que tinha que fazer mil coisas diferentes, até para afastar o pensamento das incertezas, mas logo lembrei que não estava de férias. Ainda assim, fiz os tais cursos do Senac de alimentos, o da Faber-Castell para iniciantes em aquarela. E me inscrevi, como comentei por aqui, em um de aquarela em estilo japonês da plataforma Domestika (que eu achava que era argentina, mas tem sede na Califórnia) e recentemente em um de ilustração com bordado, também da Domestika. 
Somente hoje comecei a fazer os exercícios propostos. Não que eu achasse que seria fácil, mas foi bem mais difícil que eu pensava, a começar pela adequação ao tipo de aquarela que tenho, em bisnaga, diferente da utilizada pela professora, em pastilha. Descobri, inclusive, que as marcas que ela utiliza são muito mais caras do que eu imaginava - eu, que tenho uma caixa de 24 cores da japonesa Pentel, pela qual paguei tão baratinho, nunca sonhei em dar 200, 300 reais por uma caixa de 12 cores da Winsor & Newton. Difícil também acertar a quantidade de tinta no pincel, o movimento da pincelada. A parte mais fácil foi desenhar algumas personagens - fiz as mesmas que ela e acrescentei uma minha, Francisco, da minha obra inacabada sobre o rio. Sou boa em copiar traços, pelo menos.
Ao fim, fotografei as imagens, mas não ficou bom. Escaneei, o scanner alterou as cores. Fotografei com a Nikon, aí ficou mais próximo da realidade, clareei um pouco no Lightroom. Ainda preciso adequar a iluminação no escritório. Enfim, toda essa movimentação foi essencial para me afastar um pouco mais de um possível estado depressivo. Depois de dormir muito, não trabalhar, não me exercitar, ficar infeliz com ter que cozinhar três vezes, a arte, minha pequena arte, foi minha salvação. 

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Plantas, pincéis e paciência

Afinal a empresa onde trabalhamos entrou no programa de ajuda do governo federal, que promete arcar com 70% do gasto com folha de pagamento durante três meses. Ora, em se tratando do governo do Bozo, nunca se sabe. Esperamos que dê tudo certo, mas resolvemos apertar um pouco mais os cintos por enquanto. Era isso, ou ficar sem nada - e mesmo com essa mudança não sabemos muito mais do futuro que os próximos três meses, ainda assim com esse aspecto de incerteza próprio do bolsonarismo vigente. Então só nos resta ter paciência.
Aliás, paciência tem sido a qualidade/virtude mais requisitada nestes tempos de pandemia e quarentena. Tudo o que fazemos é esperar. E esperar não é fácil, exige um certo treino, um certo estado mental que nem sempre temos à mão, por assim dizer. Sobretudo quando não sabemos o que esperar, caso do período que vivemos. O futuro nos foi roubado, não sabemos por quanto tempo. As possibilidades nos foram roubadas, não sabemos por quanto tempo. Fica difícil fazer planos, sonhar. Para sobreviver, para resistir ao vento sem quebrar, acaba sendo necessário ser mais nietzschiano ou mais zen. Com tanta tragédia no mundo, prefiro tentar ser zen.
Acredito que algumas práticas ajudam a traçar um caminho mais zen quando você não necessariamente é um estudioso do caminho. No dia a dia, o contato com a terra e as práticas manuais e artísticas me parecem boas opções para se chegar a esse estado de maior aceitação do que não pode ser mudado sem necessariamente ficar passivo diante do que não deve ser aceito. 
Já vinha ensaiando uma das minhas inúmeras voltas à hortinha - Guga ri cada vez que digo que vou retomar os cuidados com as plantas, acha que não levo nenhum jeito. Mas minha sogra acredita no que digo, além de compreender que faço muita coisa, e sempre me oferece mudinhas de plantas bonitas que ela tem e que tem aproveitado para colocar em ordem, neste período de quarentena. Dela foi que ganhei a muda de árvore da felicidade e as filhotas de babosa, que já acomodei em vasos. Aproveitei para limpar o espaço das mudas de temperos, e espero pelo menos ter manjericão fresco - vi que o alecrim, mesmo ressecado, continuou se expandindo no vaso, algo incrível, e que a alfazema, mesmo seca, ainda exalava perfume. 
Resolvi dar de presente ao marido um curso on-line de desenho, depois de ter visto seu interesse por uma propaganda no FB, e acabei me inscrevendo também em um de sumiê para ilustração, da mesma plataforma argentina, Domestika. Parece bom, e me fez lembrar das aulas com Susan Hirata, há 7 anos. Até tentei retomar a prática há algum tempo, mas não consegui relembrar os gestos e pinceladas de modo satisfatório. Mas só organizar o material já nos faz entrar em modo zen. 
Acaba de me ocorrer que o modo zen é mesmo o modo do fazer. Logo que começou a quarentena, totalmente desconcentrada para ler ou trabalhar, fui buscar coisas práticas, que me faziam imediatamente entrar na meditação, no deixar os pensamentos passarem, sem me prender a eles, porque estava cozinhando, ou bordando, ou pintando, ou organizando coisas. O caminho se faz ao andar, o zen se faz ao fazer. 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Coisa de mulherzinha ou Quando a alma grita

Engraçadas essas coisas da alma, né? Tem coisa que você sempre soube, que sabia que estava lá, meio oculta na sombra, mas ali ficou durante anos e anos. E muitas vezes é preciso ajuda, uma lanterna alheia para iluminar a coisa "ensombrada" (vem daí a palavra "assombrada", sem nenhum acaso).
Algo que tenho trazido à luz, que estava louco pra sair do escuro, era um lado mais feminino da alma. Além de eu nunca ter tido uma educação de "prendas" (algo que, de qualquer modo, já não era tão comum entre as meninas da minha geração), desde cedo tive minha sensibilidade e minha criatividade cerceadas pela figura paterna. Para me adequar/sobreviver, sempre mostrei meu lado mais forte, combativo - que é ótimo, que me ajudou a ir mais longe do que talvez fosse de outra forma. Mas que não sou eu inteira.
Aí, de uns tempos para cá, a alma começou a fazer barulho. Muito barulho. A mandar mensagens misteriosas (lembrei de O mundo de Sofia!) que me faziam ter vontade, de uma hora para outra, de dançar. Eu, que nunca fiz balé e afins. Algo que nunca desejei? Não - sempre achei lindíssimo, sempre me pegou pelo ventre, não o balé, mas danças mais terra a terra como o flamenco. E de repente fui fazer uma aula, pensando comigo mesma: se não levar jeito, tudo bem, desisto. Afinal, levo jeito? Na verdade, não me preocupo mais com isso, nem penso em ser bailaora, mas AMO quando consigo olhar só para dentro de mim, quando a imagem no espelho vai desaparecendo, tudo ao redor vai se esvaindo e só ouço os sons dos tacones e sinto os movimentos dos meus braços, pernas, cintura.
A alma, porém, continuou seu ruído: ela queria mais. E lá fui eu fazer sumiê - uma busca até então inconsciente da ancestralidade, talvez a parte mais yin dessa minha ancestralidade, já que a outra parte era tão presente e tão afirmativa, yang mesmo. Descobri/entendi de onde vinha um tipo de comportamento, encontrei uma atividade que me obrigava a respirar, a esvaziar a mente, a ficar completamente presente. Assumi minha habilidade-sem-técnica manual, artística.
Alguns dias depois, outra mensagem misteriosa: quero bordar! Fui ao armarinho, como já contei aqui, e, munida de meadas e agulhas, me pus a inventar coisas, ainda sem nenhuma técnica. Um ponto de cada vez, e as imagens foram se formando. Para meu espanto, ouvi dizer que estava bonito. Outra atividade que me colocou em contato comigo mesma, mas que agora trazia à tona minha criatividade. Claro que é angustiante que o flamboyant demore tanto a ficar pronto, mas criar não é algo que esvazia: parece um olho d'água rompendo o solo seco e se transformando em um fio, um rio, um mar. Lavando, nutrindo, comunicando.
Não por acaso, isso foi aparecendo quando comecei a dar mais valor à minha intuição, a perceber o que a vida estava me dizendo. Coisa de mulherzinha. E quanto ainda há a perceber, entender, mais que "aprender". Quanto mais sei sobre mim, sobre meus tesouros enterrados, mais sei sobre o outro, sobre as "civilizações" que são diferentes da minha. Acho que agora começo a entender, a ouvir o grito da minha alma, e da alma do outro protestando quando uso a minha medida para avaliar os seus valores. Já não acredito mais em alteridade, que seja possível se colocar no lugar do outro, mas acredito cada vez mais no encontro, que, quando desejado e completo, é algo maravilhoso.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Pertencimento

Com essa história do sumiê retornam as questões de pertencimento. Quando vou à Liberdade (como hoje, quando fui à Livraria Sol para comprar um pincel), sempre tenho a sensação de fazer parte daquele universo oriental. Puxo papo com as vendedoras, senhorinhas japonesas que lembram minha mãe, e tenho certeza de que elas não entendem meu olhar enternecido. Mesmo sem falar japonês, sem partilhar de todos os costumes, uma centelha de mim reacende quando boto os pés ali. Talvez por isso o origami  e o judô, tão tardios, tenham parecido "naturais" quando aconteceram.
Também sinto o mesmo quando visito o Nordeste, claro. Parece que estou na sala de casa, tomando fresca com as portas abertas. Rio de felicidade, quase sentindo o vento no rosto, ao ouvir uma expressão conhecida desde a infância - "parado como um dois de paus", "malajambrado", "cabaré de asa", "sururu de capote". Fico muito, muito à vontade. E é essa sensação de estar à vontade na própria pele que eu chamo de pertencimento. Como é boa, como é fundamental!
Clarice Lispector tem um texto lindo sobre pertencer. Foi originalmente publicado no JB, como crônica, e depois na coletânea A descoberta do mundo. Ela diz que pertencer vem muitas vezes de sua força, e não de depender de alguém mais forte - deseja pertencer para que sua força "não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa". Para não ficar com um presente embrulhado nas mãos sem ter a quem presentear. Não seria por acaso um dos aspectos da graça?
Ao final, Clarice fala, ao descobrir que pertencer é viver, de uma sede infinda, como quem, no deserto, bebesse as últimas gotas de água de um cantil. Aqui, agora, enquanto escrevo, imagino que viver/pertencer é mais como no deserto carregar um jarro d'água, que poderia derramar quando tropeçamos ou ir-se esvaziando quando damos de beber a alguém - mas, quase milagrosamente e ao mesmo tempo, vai se enchendo novamente da água trazida por outro passante. De forma abundante, até o fim.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Resgatando raízes

Então! Além da novidade da bike, resolvi fazer um curso de férias de sumiê, a ancestral arte da pintura japonesa. Aí na foto estou toda concentrada, tentando manter coordenação, velocidade e homogeneidade do traço. Não é fácil não!
Altos papos com Susan Hirata, professora da arte/técnica e especialista em cultura japonesa -  embora meio nordestina, algo cafuza, tipicamente paulistana, vagamente holandesa, volta e meia lusitana, dramaticamente espanhola sem ter um pingo de sangue espanhol, estou descobrindo que sou ainda mais oriental do que pensava. Fazer coisas por um sentido, e não apenas pelo resultado, a importância do yakusoku...

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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