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quinta-feira, 18 de julho de 2024

Alice Munro, Virginia Woolf e Mary Oliver

Há uns quatro anos topei com As luas de Júpiter na Livraria Cultura. Gostei do título, não conhecia nada da canadense Alice Munro (que nos deixou este ano), embora o nome não me soasse estranho. Mas foi só há dois anos que fui atrás do título pelo Kindle. Comecei a ler muito tempo depois, e parei. Retomei o ano passado, achando, por algum motivo, que tinha relação com a inglesa Virginia Woolf, cujo Um teto todo seu eu tinha acabado de ler.
Talvez a única relação com Woolf tenha sido a de um conto, "Dulse", tratar justamente de uma editora, uma quase poeta. Aliás, conto dolorido em vários aspectos - a mulher desajeitada de si mesma, querendo caber no universo de um homem que ela nem sabe se é essa cocada toda etc. Talvez esse malajambramento é que tenha me remetido a Woolf, que defende em Um teto todo seu que a mulher tenha autonomia, que tenha direito a um espaço tranquilo para desenvolver seus talentos, sem ficar presa à rotina de cuidados imposta pelo patriarcado. Virginia, tão à frente do seu tempo, vista apenas como louca por muita gente - aliás, fui ver a montagem de Claudia Abreu com texto escrito pela atriz; talvez, para quem não sabe muito de Virginia Woolf, tenha ficado só a impressão de que foi uma escritora suicida, que não batia bem dos pinos. 
Na forma muito diferente de Woolf e Munro, a poesia da norte-americana Mary Oliver também me chegou outro dia, já não sei por que vias. Oliver se inspira muito na natureza, nos ciclos naturais, num certo apaziguamento diante da vida quando integrada à natureza. Mas vejo-a em perfeito diálogo com as outras duas, talvez aconselhando-as em suas aflições, apoiando-as em suas decisões. Dizendo a Woolf que tudo vai ficar bem, ajudando a personagem de Munro a se reconectar consigo. Como no poema "The Journey", que me atrevi a traduzir e que veio até mim na forma de um clarão (como a maioria das coisas que importam):

Um dia, você enfim soube

o que tinha que fazer, e começou

embora as vozes ao seu redor

continuassem gritando

seus maus conselhos

embora a casa toda

começasse a tremer

e você sentisse

o velho puxão nos seus tornozelos.

“Conserte minha vida!”,

cada voz gritava.

Mas você não se deteve.

Você sabia o que tinha que fazer,

Embora o vento se infiltrasse

Com seus dedos rígidos

Até as mínimas fundações

Embora a melancolia delas

Fosse terrível.

Era já bastante tarde, e a noite selvagem,

E a estrada repleta de galhos caídos e pedras.

Mas, pouco a pouco,

À medida que você deixava as vozes para trás,

As estrelas começaram a queimar

Através das camadas de nuvens,

E havia uma nova voz

Que você lentamente

Reconheceu como sua,

Que ficou em sua companhia

Enquanto você caminhava

Mais e mais profundamente

No interior do mundo

Determinada a fazer

A única coisa que você poderia fazer.

Determinada a salvar

A única vida que você poderia salvar.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Não basta não ser etarista, tem que ser antietarista

E assim com relação ao racismo, ao machismo, à lgbtfobia. 
Me peguei sendo etarista esta semana. Fui ao salão de beleza fazer depilação e, no lugar da mocinha que sempre me atendia, encontrei uma senhora de quase 70 anos ou talvez mais. Na verdade, não sei precisar sua idade, mas o fato é que ela parecia um pouco maltratada pelos anos, e até me deu a impressão de não ter todos os dentes. A primeira coisa que pensei foi que ela fosse uma atendente. 
Dali a pouco ela me chamou para a sala de depilação e eu ainda tive o desplante de perguntar se era ela quem ia fazer o serviço. Ela assentiu, na maior humildade. Fez o trabalho perfeitamente, perguntando de minuto a minuto se a cera estava quente e se explicando muito quando a coisa ia doer mais. Quando a vi com a dona do salão, não percebi nenhuma relação diferente da que ela tem com as outras funcionárias. Ou seja, só eu achei diferente haver uma mulher mais velha realizando aquele trabalho. 
Foi mesmo uma lição para mim, que, afinal chegada aos 50, venho combatendo as expressões etaristas no dia a dia, mas ainda preciso aprender na prática a olhar para outras mulheres como merecedoras do lugar que quiserem ocupar, tenham elas a idade que for. 
E logo estarei com dona Alba, minha nova depiladora maestra, de novo. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Cropped

A primeira vez que li essa expressão "bota uma cropped e vai" (podia ser "vai malhar", "vai ser feliz", "vai ganhar o mundo", qualquer coisa positiva), não me identifiquei com a ideia. Até pouco tempo, ainda estava (embora cada vez menos) presa à ideia de uma vestimenta adequada a uma idade, mesmo achando (cada vez mais) que cada um tem direito de usar o que quiser. Ou seja, achava que uma blusa cropped não era para mim - aliás, nunca foi, nunca fui de mostrar a barriga ou mais pele do que braços e pernas, a menos que estivesse de biquíni. 
Porém, graças a tantas e tantas mulheres, influenciadoras ou não, que têm se mostrado do jeito que querem, com o corpo que têm, com a idade que têm, os ares da liberdade de ser estão em toda parte, e quero crer que seja um processo irreversível, mesmo com toda intolerância que grita contra. Ao mesmo tempo, tenho aprendido, aos 50, a vestir-me não para disfarçar "defeitos" mas para realçar aquilo de que mais gosto em mim - e tenho aprendido a gostar de cada vez mais coisas. Entonces, eu, que morro de calor, resolvi comprar blusas para malhar que ficam na cintura, e tops que deixam, sim, parte da barriga de fora. E amei, me senti fresca e linda, envolvida numa felicidade libertadora. 
Daí entendi o que queria dizer esse apelo de botar a cropped e ir por aí. Nada mais do que ser feliz sendo o que se é. Gostar de quem se é. Eu ando gostando, como nunca gostei. Ando me vendo, como nunca me vi, e gostando do que vejo. E uso cropped sem pedir permissão a ninguém. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Envelhecer

A gente sempre se prepara para o envelhecimento físico, reservando os sinais do envelhecimento mental para os outros - o pai esquecido, a avó que resgata histórias antiquíssimas, a mãe da amiga que troca seu  nome. A gente deve chegar lá também, mas por enquanto é primeiro o corpo que dá os sinais, com menos força, alguns tropeções, olhos pedindo óculos mais fortes, pele pedindo hidratação. Depois é que vêm os esquecimentos, os enganos. 
Tem um outro aspecto do envelhecimento de que a gente não se dá conta. O da alma. Meu terapeuta discorda, diz que não é a alma que envelhece, mas o self que está insatisfeito com o que temos feito da vida. Talvez sejam as duas coisas. Porque a sensação é de que a alma envelhece sim. 
E topei hoje com uma recordação de seis anos atrás, um trecho de As brasas, do Sándor Márai:

Depois, seu corpo envelhece; não todo de uma vez é verdade, primeiro envelhecem os olhos ou as pernas, o estômago, o coração. A gente envelhece assim, pedaço por pedaço. E então, de repente, sua alma envelhece: mesmo sendo o corpo efêmero e mortal, a alma ainda é movida por desejos e recordações, ainda procura a alegria. E quando também desaparece esse desejo de alegria, só restam as recordações e a inutilidade de todas as coisas; nesse estágio, estamos irremediavelmente velhos. Um dia você acorda e esfrega os olhos e não sabe mais por que acordou.

É isso. Os escritores e os poetas sempre sabem de tudo antes de nós.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

E no meio das aprendizagens... reaprendizagens

Às vezes, me pergunto: por que inventei de fazer um TCC? Nem era obrigatório, eu já havia terminado a especialização com ótimas notas, adorei o curso e tal. Mas não, insisti, fiquei perguntando ao pessoal da secretaria quando o programa estaria disponível, contratei a bagaça, indiquei duas possíveis orientadoras. 
E agora me vejo há dias em um parto de meia dúzia de páginas de um total estimado em 40. 
Quando resolvi escrever um conto para um concurso, há alguns meses, tinha já percebido a dificuldade de ter ficado tanto tempo sem praticar, além da sensação de fraude na escrita de ficção, ainda uma tentativa de emular outras escritas, principalmente masculinas, as disponíveis à época em que comecei a escrever. Parece que parei no tempo, antes de ter atingido um mínimo de maturidade narrativa - o que pode soar muito pretensioso, já que tantos autores maravilhosos levaram a vida para chegar a uma obra madura, mas é a sensação que tenho, e tenho estado mais atenta a sensações e sentimentos do que ao simples pensamento.
Com relação ao TCC, achava que seria muito mais fácil, porque tenho mais facilidade com essa escrita formal, justamente ao pensamento em si. Ou achava que tivesse. Pode ser culpa da falta de concentração típica da quarentena aliada à minha típica falta de concentração (deveria estar escrevendo o TCC e estou aqui postando no blog, por exemplo). Pode ser o ser interrompida pelo gato ou para fazer almoço e jantar ou para responder onde acredito que esteja algo que não vi. Pode ser só a necessidade de um pouco de silêncio, interno e externo.
Sinto que estou tendo que reaprender a pensar e a escrever, algo que eu já considerava resolvido na vida. Não só num contexto louco de pandemia e incertezas de toda ordem, mas também sem estar sozinha, com tudo acontecendo ao mesmo tempo no meu entorno. Com a fina ironia de estar tentando escrever sobre emancipação feminina e precisando me lembrar e reafirmar a minha própria diariamente. 
O bagulho é mais louco do que eu pensava!

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Romi ófici

Como já disse, o romi ófici aqui é das antigas. Na verdade, muito das antigas, de quando comecei a trabalhar na equipe de redação do cursinho. Fiquei mal acostumada, ou melhor, encontrei meu jeito de trabalhar ali. E lá se vão 26 anos. 
Claro que, com a pandemia, meu romi ófici foi invadido por outras atribuições/atribulações domésticas além das que eu já tinha, como cozinhar, lavar e guardar louça e roupa, arrumar cama, fazer listas infinitas de supermercado e outras compras para casa (a recém-descoberta carga mental feminina). Somou-se a essa lista considerável lavar banheiro, limpar móveis, limpar e encerar chão, atividades que me renderam a crise no piriforme. Isso tudo me tem feito repensar a continuidade dessa forma de trabalho, que me foi tão conveniente por todos esses anos.
Antes, porém, de decidir se abandono essa modalidade de trabalho em prol de voltar a ter contato com mais pessoas, talvez atuando mais diretamente com educação, quando a famigerada pandemia permitir, faço algumas considerações sobre o que tenho percebido de mudanças no meu romi ófici pandêmico. 
Enquanto boa parte da galera que estreou no romi ófici com o início da pandemia adotou o modo comfy de estar em casa, sobretudo os mais privilegiados, resolvi me vestir como se estivesse fora de casa. Porque, afinal de contas, nem sei quando volto a sair para qualquer lugar, e já nem saía muito. E tenho usado roupas novas para ficar por aqui mesmo. Aliás, tem dia que até uso um pouco de maquiagem, como se fosse sair pra trabalhar - aprendi isso de um autor parceiro de trabalho, que me contou que sua esposa, doutoranda em história, se arrumava completamente para fazer sua pesquisa no escritório de casa - e trancava a porta, só saindo dali para almoçar (eles compravam refeições congeladas caseiras, outra coisa que andei aventando) e ao final do "expediente". Achei o máximo, mas só agora emprego parte desse ensinamento. 
Enquanto muita gente tem tentado aproveitar ao máximo esse tempo em casa fazendo várias coisas ao mesmo tempo - ou pelo menos no início foi assim, agora todo mundo deve estar exaurido -, eu logo vi que não dava pra fazer mais ainda do que já fazia. Porque romi ófici não é pra principiantes não. Trabalhar em casa é trabalho duplo, e no caso das mulheres, triplo, quando não quádruplo. Então aos poucos fui fazendo uma coisa de cada vez, como no fundo é melhor que seja - só assim para estar presente, mesmo no meio de uma pandemia. 

domingo, 13 de setembro de 2020

Meditação, mindfulness e mente a mil

Comecei há uns dias a fazer meditação on-line com amigos. Gostei muito; para mim, funciona bem fazer coisas em comprometimento com os outros. Se depender só de mim, sempre é bem mais difícil. 
Na verdade, já estava ensaiando praticar um pouco de mindfulness para melhorar a atenção nas atividades diárias. Tinha lido algumas coisas, e resumiria no fato de o mindfulness ser utilizado para melhorar em 100% a realização de tarefas diversas, do trabalho ao ato de se alimentar, tendo sempre como foco a atenção plena. 
O mindfulness deriva da meditação tradicional. Foi adaptado aos ambientes corporativos e é usado inclusive na performance de atletas. A atenção plena ajudaria a obter os melhores resultados na empresa, no esporte, na alimentação, nos estudos. Atenção plena o tempo todo, aproveitamento total do cérebro. Mas será que o cérebro não pode se distrair? Será que não é positivo se perder em pensamentos diversos? Não será nos devaneios que estão muitas ideias criativas? Isso me incomoda, essa impossibilidade de desvios. 
Acho ótimo que a atenção seja cultivada no momento de finalizar um trabalho, fazer uma reunião, praticar um esporte - isso evita erros, mal-entendidos e machucados. Também é útil na comunicação, sobretudo não violenta, para que não digamos o que não queremos num momento de estresse. Não acho, porém, que estar alerta todo o tempo traga o melhor aporte criativo, normalmente presente justamente no ócio, inclusive mental. 
Nesse sentido, me parece que a meditação tradicional é mais flexível, cabe em todos os contextos. Ver uma ideia, deixá-la passar em vez de se fixar nela, por exemplo, é um exercício de meditação tão profundo que até ajuda a afastar dores às quais nos apegamos. 
Na nossa meditação semanal, por exemplo, quando entro no fluxo, fico tão relaxada que me aproximo de um estado de vigília, quase de sonho. Os pensamentos passam na tela mental até restar um silêncio onde só me encontro eu. Porque não basta o silêncio externo para termos paz. 

A saga dos suspiros

Suspiro é uma coisa dificílima de fazer. Quero dizer, tem uma ciência que ainda não domino. A primeira vez que fiz, não me lembro que receita usei, e tive a maior sorte de principiante - os suspiros ficaram lindos, em formato de conchas, e deliciosos. 
Depois não acertei mais. Normalmente, parece ter ficado bom, mas depois os suspiros amolecem. Já tentei deixar esfriando fora do forno, dentro do forno, e acontece a mutação. Cheguei a fazer uma versão por esses dias de um suspiro de chocolate da Dani Noce, bem bom - ficaram ótimos, mas depois amoleceram, ficaram parecendo bala puxa-puxa, daquela que arranca obturação dentária. 
Então fui pedir ajuda técnica à sogra, já que tinha um monte de claras congeladas. Fizemos juntas, e assamos uma parte no forno dela. Os suspiros de minha sogra costumam ser perfeitos, branquinhos, secos na medida. Mas daí aconteceu de pela primeira vez a receita dar errado - pé frio meu, com certeza. 
Nossos fornos podem estar desregulados também. Eu trouxe o restante para assar em casa, fiquei de olho no termômetro. Até teria deixado mais tempo parte dos suspiros, mas tinha que assar uma lasanha pro jantar. Os suspiros maiores, em formato de pavlova, assados no forno de cima, que é menor, ficaram ótimos, bem sequinhos. Ainda deixei uma fornada que ficou bem seca esfriando no forno até hoje de manhã - ontem estava perfeita, hoje tinha amolecido! Portanto, somente os maiores resistiram. 
Cheguei a montar uma parte da sobremesa com os suspirinhos borrachudos, na esperança de que amaciassem com o chantili que fiz drenando o creme de leite de saquinho e adicionando gelatina sem sabor. De fato, os suspiros praticamente se dissolveram - perderam a crocância e a borrachudez, mas deram um sabor bom, de caramelo, aos morangos e ao chantili. 
Já as pavlovas improvisadas, com morango, chantili pronto da Président e um creme de confeiteiro de chocolate e leite de coco (receita da Dani Noce) ficaram ótimas, além de bonitas quando montadas.
Ou seja, a saga ainda não terminou. Ainda precisarei fazer algumas vezes até acertar a ponto de poder dizer o que funciona ou não.

sábado, 5 de setembro de 2020

Já sei desenhar, agora só me falta pintar

Tô tentando dedicar umas horinhas no final de semana a pintar ou desenhar - bordar ainda não. Como disse, demorei um pouco a definir um projeto pro curso de aquarela, e acabei criando quatro personagens femininas. Depois veio a questão da paleta de cada uma. Amaterasu foi a mais difícil; precisei pensar primeiro num desenho para o quimono para daí definir as cores do entorno. Com essa ideia de criar uma estampa - outra coisa que amo -, pensei que talvez fosse melhor usar a aquarela em bisnaga, que parece ter um pigmento mais concentrado, não sei direito, lembrando até um pouco a tinta acrílica. 
E daí veio a realidade crua dar na minha cara: não sei pintar! Vou ter que treinar muito as pinceladas em planos maiores para enfim executar o projeto! Deve ser por isso que gosto tanto dos fundos brancos quando crio ilustras com colagem ou bordo, para evitar preencher o fundo com cor, algo que precisa de paciência (que não tenho em grande quantidade) e muita habilidade (que eu tenho pouca). 

domingo, 9 de agosto de 2020

Bey, representatividade e skin tones

Daí que um dos grandes assuntos nos últimos dias foi a fala infeliz de Lilia Schwarcz sobre o álbum visual de Beyoncé. Eu nem conheço muito o som de Beyoncé, só estou ciente da sua importância para a representatividade negra ao redor do mundo, do seu papel de diva pop que há tempos substituiu Madonna, do seu trabalho sempre esmerado em canções, clipes e shows. Mesmo assim, quando li a crítica de Schwarcz, achei-a descuidada e arrogante, ao sugerir que a forma como Beyoncé queria representar sua ancestralidade africana estava errada, que ela devia "deixar a sala de estar". 
Ninguém deve negar a importância de Lilia Schwarcz para os estudos sobre escravidão e diáspora africana no Brasil e no mundo. É uma das mais importantes historiadoras contemporâneas sobre o assunto, inconteste. Mas daí percebemos no seu escrito o ranço branco e acadêmico de dizer ao "outro" como ele deve se comportar, como deve se sentir sobre seu lugar no mundo. Como estamos todos acostumados com os papéis dados a negros, mulheres, pobres, gays, causa espanto a reação às falas de quem sempre pôde falar com autoridade, diante do silêncio dos humilhados. Uma reação dos humilhados e também de muita gente que não quer mais coadunar com a injustiça - talvez uma coisa positiva da pandemia? E aí ocorre uma contrarreação, de brancos acadêmicos que se revoltam com os revoltosos - então os brancos não podem falar mais nada? Como assim, crucificar Lilia Schwarcz? Que atrevimento! E não é mesmo muito ruim esse "clipe" da Beyoncé, credo? E essa estampa de oncinha?
Então, depois de ler uma avalanche de críticas de todo lado, fui ver o álbum visual completo (não é só um "clipe", como muitos acadêmicos disseram), no link enviado por meu amigo Marcelo. E fiquei de cara. Quanta beleza, quanto glamour, quanto trabalho realizado com perfeição! Uma narrativa coesa, bem construída, elenco empoderadíssimo, um look mais lindo que o outro, Beyoncé oxunzando geral, conectada à natureza tão diversa da África, arrasando nas coreografias ou simplesmente reinando em seu trono pop. Fiquei apaixonada, querendo saber mais, de África e da obra de Beyoncé. Claro, a África não é só glamour, não é só consumo, não é só tribo. Mas é tão importante que haja uma mudança de paradigma trazida pela arte, que os negros construam sua visão de si, com todas suas nuances culturais, e não mais carreguem o peso de uma visão alienígena, cheia de preconceito.
Interessante pensar que somente por meio da indústria cultural, nesse episódio Bey x Lilia, o debate sobre o racismo sistêmico tenha alcançado a todas as esferas. Porque no Brasil ele acontece todo dia, toda hora. Na última semana, dois rapazes chamados Matheus foram vítimas de racismo: um deles motoboy, agredido por um sujeito também Mateus, num condomínio no interior de SP, o outro, covardemente encurralado por dois homens num shopping no Rio, quando havia ido trocar um relógio que comprara para o pai. Embora revoltantes, os episódios não chamaram tanto a atenção quanto a querela pop, e são tratados como fatos isolados no racista Brasil (mesmo com o ar de parábola que adquirem, com tantos Mateus reunidos).
O termo representatividade já tem sido contestado por alguns intelectuais, como algo que nega a individualidade. Talvez o mesmo que aconteça quando falamos em "nação", agrupando os desiguais e afastando assim o considerado outro povo. De qualquer modo, ainda acho que é o melhor termo para dar voz e rosto a um grupo, reconhecendo justamente sua especificidade e sua importância. Serve para que negros, mulheres, gays tenham voz e direitos e diferenças reconhecidos. Não para os pobres, que necessitam de uma revolução social que os tire justamente dessa condição, que não é identitária  nem atávica como os poderosos querem fazer crer. 
Somente depois de começar a pensar mais profundamente no racismo contra pessoas negras é que refleti sobre o preconceito sofrido por orientais. Nem ouso comparar, porque são graus muito diferentes. No entanto, cresci vendo o padrão branco como correto. Não havia bonecas japonesas - somente aquelas vendidas como souvenir na Liberdade ou trazidas do Japão por velhos parentes -, nada que se assemelhasse a nós. Durante minha infância, fomos poucos na escola. Somente no ensino médio descobri uma multidão de colegas iguais - e que discriminavam os outros, por sua vez. Até em termos de maquiagem, não havia nada muito específico para as peles amarelas. Quando fiz o curso de maquiagem com uma amiga da Bienal, ela descreveu minha pele como "esverdeada", que eu devia evitar usar verde, azul, vermelho. Fui descobrindo que tons assentavam melhor. Outro dia, li uma matéria sobre maquiagem para peles negras, como isso era importante para a representatividade das mulheres negras que não tinham um nude pra chamar de seu - e que uma marca nacional, Dailus, criou uma linha bem ampla de batons e esmaltes veganos cor de pele. Skin tones. Para todas. Me emocionei, também nunca tive.
Bom, fui atrás da Dailus. Comprei alguns batons, ainda não recebi. Mas achei um esmalte da marca na farmácia outro dia. Já amei. Já me sinto representada. Agora estou atrás de lápis de cor com diferentes tons da pele, para redesenhar o mundo enquanto a revolução não vem.

A vida que segue brotando

Já tinha dado por moribunda a árvore da felicidade que ganhei de minha sogra. Na verdade, continuam caindo galhos - ainda não sei cuidar direito. Mas daí Guga me chamou a atenção outro dia para o brotinho renitente que apareceu. 
Achei tão simbólico do período que atravessamos, de tanta morte pelo caminho, mas com uma vida que teima em continuar a brotar, quase indiferente à nossa desesperança. 

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Ler mulheres, a aventura de redescoberta

De uns tempos pra cá, comecei a ler mais mulheres - outro dia, comentei que tenho também lido mais mulheres negras.
Tenho a impressão de que o número de mulheres escrevendo aumentou - como também o de ótimos filmes, como já disse aqui, baseados em livros de autoras.
As mulheres me parecem mais capazes de falar da crueldade e do abuso. A crueldade narrada por uma mulher é muito mais crua, o abuso é desnudado. Não estou falando de violência. Acho que os homens são mais dados a ela. A narrativa de crueldade das mulheres é diferente, é predominantemente de quem observou ou sentiu, não de quem praticou. 
Além de ler mais autoras, também andei relendo coisas que estavam engavetadas, e nem me reconheço. Os escritos de ficção têm uma tentativa de emular a escrita tradicional, ou seja, masculina; uma necessidade de escrever muito certinho. Parece tudo muito artificial, com exceção daquilo que se relaciona com algo vivido. Deu até um rancinho.
Quando leio mulheres, vejo um texto que sangra pela página, que sempre traz um algo além do escrito, como aquilo que só os gatos veem. Quero isso para mim, posso isso também, já que sangro também. 

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Viola, Chimamanda e o racismo nosso de cada dia

Por estes dias, li uma declaração de Viola Davis sobre sua infeliz participação no filme Histórias cruzadas. Já escrevi sobre este filme aqui - eu gostei muito da ideia de solidariedade, da união que faz a força,  da compaixão, mas não dá para ignorar o argumento do branco (no caso, branca) salvador. Somente a personagem de Emma Stone para dar voz às pobres e exploradas empregadas negras - e só porque ela é também uma desajustada, que nem esperava fazer "tanto assim" pelas outras mulheres. 
Viola tem toda razão de dizer que se arrepende desse papel, apesar do sucesso do filme. Porque é como se participasse de uma farsa, a de dizer que está tudo bem entre brancos e negros, que o racismo não existe, mal existiu algum dia. Hoje, que tenho lido e aprendido muito mais sobre racismo sistêmico, por exemplo, ouvindo o excepcional professor e advogado Sílvio Almeida, só posso apoiar sua postura e até gostar um pouco menos do filme, ainda que as atuações  de Viola e de Octavia Spencer sejam magistrais. 
Além de estar atenta ao que dizem meus (poucos) amigos negros, sempre procurando rever minhas falas e atitudes para não replicar mais racismo e, pelo contrário, combater as atitudes racistas, tenho lido autoras negras. Quer dizer, vinha lendo mais MULHERES, e agora mulheres NEGRAS. Além dos socos no estômago de Toni Morrison - que já conhecia de Jazz e, recentemente, do terrível The bluest eye -, só tenho a me encantar com a jovem e prolífica Chimamanda Ngozi, de quem já li Hibisco roxo, Sejamos todos feministas e, agora, Americanah. 
Se em Hibisco roxo a protagonista fala de uma realidade quase tribal eivada de fé e violência, quase como se contasse uma história oculta atrás de um véu, em Americanah a personagem principal escancara tudo que há no mundo global - subdesenvolvimento, corrupção, racismo, machismo, academicismo, subemprego. A sensação que tenho de passar a conhecer a realidade de racismo frequente por que passam as pessoas negras se mescla com a já conhecida de, como mulher, ter vivido e observado algumas coisas bem semelhantes acerca de relacionamentos, autoestima, conhecimento, trabalho, adequação, estar no mundo. No entanto, a experiência de uma mulher negra sempre pode ser mais complicada em vários aspectos. 
Parece estranho que a gente possa aprender tanto com nossas iguais, mulheres, sejam brancas ou negras. Mas é que temos nos dado conta de que o mundo foi todo esse tempo sendo escrito e significado por homens, homens brancos. E o mundo feminino é tão criativo, fértil, profundo e coerente e ecoa tão tremendamente dentro de nós que é impossível não querer conhecer mais de tudo o que está sendo feito para saber mais de nossas irmãs e, portanto, de nós mesmas. Um caminho sem volta, como todo conhecimento de fato precioso. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Après le bal: a vida após os 40

Li hoje um texto do Carpinejar sobre a chegada aos 40, o quão libertadora ela é, quais são os sinais de que alguém chegou lá e que tais. Achei bem bonito, como tudo o que ele escreve. Me reconheço, e também a muitos amigos, na história de preferir receber pessoas em casa a sair para a balada, a se especializar em cerveja artesanal ou pães, a preferir a própria companhia, entre outras coisas bacanas que o texto elenca.
Lembro-me de ter falado aqui sobre a próxima chegada dos 40. Eu me sentia muito vivaz, forte, pronta pra tudo. Depois dos 40 - e agora já estou bem perto dos 50 -, muita coisa mudou. Ficou mais fácil engordar, comecei a ter que me preocupar e a gastar mais com saúde, resolvi compartilhar a vida com outra pessoa (há quase 10 anos), um dia descobri rugas no pescoço, por questões econômicas não saí simplesmente de um trabalho que já não me satisfazia. Em tese, tudo ficou menos "leve".
Por outro lado, tudo aquilo que o Carpinejar descreve de bom tem a ver, lá no fundo, com o foda-se. Eu já não me importava muito com o que os outros achavam, agora me importo zero por cento - a idade refina essa capacidade. Por isso, prefiro um grupo menor de amigos (ajudada pelo fato de que aqui são poucos mesmo), prefiro fazer minha própria comida, ser ecológica apesar da inutilidade das ações no nível micro e muito mais por ética, escolho roupas e utensílios pela qualidade e longevidade. Apesar do peso das novas responsabilidades, sinto que as escolhas são completamente minhas, que sou capaz de tantas coisas hoje, que cheguei tão longe, com ajuda de muitas pessoas e pela minha recusa em ficar parada. Aprendi a bordar, pedalo sozinha na estrada, sou hoje uma versão mais segura e muito melhor de mim mesma, realmente adoro minha companhia.
Parece que vou envelhecer bem.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Granola enquanto pão e a importância do treino

Um dos pães mais gostosos que aprendi a fazer com o chef Pedro Calvo foi o de granola. Macio, com casca firme mas não grossa, e as surpresas trazidas pela granola a cada mordida. Muito bom! Na primeira vez em que fui reproduzi-lo em casa, ele ficou essa maravilha, pestanudo e dourado. Outro dia, rolou até rabanada feita com ele - eu, que nunca tinha feito uma boa rabanada, dessa vez tive o maior sucesso. 
Tudo isso só para comentar como é importante praticar para se chegar a bom termo em qualquer coisa. Meus pães têm me surpreendido a cada vez, desde o mais tosco quando eu não tinha muita noção até os atuais, com bem mais conhecimento de causa. A cada vez, me torno mais observadora dos processos, me torno mais presente no que faço, e normalmente tenho bons resultados - tanto nos pães quanto na cozinha em geral. 
Nada é mais gratificante do que ter a consciência de que fazemos algo bem.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

O que aprendemos com Big Little Lies

Adorei a primeira temporada de Big Little Lies, com Reese Whiterspoon e Nicole Kidman. Assisti na HBO de um só fôlego. Pedi ao marido para ver comigo um ou dois episódios. Ele logo se cansou e disse que eram apenas "tretas de mulheres". Tretas. De. Mulheres. Foi como ele resumiu a série para mim e para quem quisesse ouvir.
Acho que não podemos exigir ou esperar que um homem entenda de assuntos de mulheres. O contrário também não. Eu nunca tive a pretensão de compreender uma série como Californication, que meu marido adorava. Não perguntei a ele se se sentia realmente representado pela série que me parecia, vista de longe, algo misógino e machista. Ele, porém, me perguntou se eu realmente me sentia representada por uma série que mostrava mulheres ricas norte-americanas e suas tretas e fofocas (algo, aliás, típico do universo feminino). Tive de explicar a ele que não era esse o ponto, e sim que mulheres têm problemas e dilemas semelhantes ao redor do mundo, como terem de ser bem-sucedidas e socialmente aceitáveis em tudo - como empregadas ou chefes, esposas, amantes, mães. As diferenças sociais é que tornam esses problemas e dilemas maiores e piores - quanto mais pobres e mais escuras as mulheres, bom, já sabemos o que acontece. 
Sinto o desconforto de meu marido diante do meu interesse por temas que envolvem as antigas minorias. Ele ainda acredita que é só porque é politicamente correto que eu me interesso, que eu gosto até mesmo de filmes ruins só porque tratam do empoderamento de mulheres (mas isso vale também para direitos humanos em geral). Ele crê que eu sou apenas levada pela onda, pela moda. Ele está como muitos homens, que assistem, desconfortáveis, a mudanças em um comportamento feminino até outro dia sob controle, e que muitos têm tentado combater com mais violência do que jamais houve. Ele nem se apercebe disso, acha que a mídia é que tem enfatizado aquilo que sempre aconteceu. 
Sempre aconteceu, o que não quer dizer que deva continuar acontecendo. Sinto, e Big Little Lies só vem reforçar essa minha impressão, que não se pode mais conter o vento da mudança. As tradições, já dizia Hobsbawm, são inventadas. A cultura é algo poderoso, mas não é exclusiva de um grupo - ela serve a todas e todos, transforma-se todo o tempo. 
E me parece que não há poder mais ruidoso e transformador do que o de mulheres que resolvem "tretar" juntas, e não mais umas contra as outras, não mais competindo por homens, mas combatendo o machismo sistêmico. 

terça-feira, 16 de abril de 2019

O mimimi é o pretexto dos intolerantes e covardes

Mimimi é uma coisa meio sem dono. Se alguém começa a reclamar demais, logo se fala em mimimi, servindo para designar chatos de direita e de esquerda. Ultimamente, o pessoal da ultradireita se apropriou do termo para se referir aos defensores do politicamente correto.
De todo modo, até mesmo quem não se define nem de direita nem de esquerda, por osmose, tem falado em mimimi para se referir a questões fundamentais, seriíssimas, como as que envolvem violências contra mulheres, negros, pobres, nordestinos e público LGBTS. Debaixo do meu nariz mesmo ouvi outro dia uma série de falas impensadas:
"- Quer dizer que não pode mais falar que a coisa tá preta?"
"- Ah, eu acho muita neurose isso. Quer dizer que não pode falar mais nada? Esse povo exagera! Ficou tudo muito chato com esse politicamente correto!"
Dali se passou à esperada associação com o bullying de outros tempos: "Na minha época, era normal falar essas coisas, ninguém se ofendia". Ainda tentei argumentar que nunca uma pessoa branca poderá saber o que é se colocar no lugar de uma pessoa negra que sofre todo tipo de violência, então o que lhe resta é apenas respeitar a maneira como o outro se sente. Mas para ouvidos moucos não há muito o que fazer. Está tudo entranhado, e é preciso muita consciência (algo que "reprodutores" de pensamento naturalmente não têm) e vontade de mudança para arrancar as raízes do preconceito.
Eu mesma reproduzi esse discurso por algum tempo (a chatice do politicamente correto), mas logo caí em mim de que o politicamente correto era uma forma, talvez a única na contemporaneidade, de compensar o desprezo pela ética em si, um paliativo, como as cotas na universidade. Não são o ideal, mas já são alguma coisa. Hoje, graças ao politicamente correto, o ruído é maior, os brados contra a intolerância e a covardia são mais altos, que coisa maravilhosa!
Tenho aprendido muito realizando a pura escuta. Também lendo nas redes sociais o que pensam amigos diversos - mulheres, negros, LGBTS. Sei que o exercício da alteridade é limitado - jamais sofrerei o mesmo que negros e LGBTS -, mas é essencial. E porque tenho tantos queridos lutando contra intolerâncias é que me solidarizo e cerro fileiras com eles. Por isso, ouvir que suas lutas são "mimimi" me incomoda muito e me faz ver com outros olhos as ditas pessoas "normais", e me faz preferir outras companhias no caminho.

domingo, 13 de janeiro de 2019

O tempo na pele e na alma

Uma das coisas que herdei dos ancestrais japoneses foram as mãos - pequenas, lisas, delicadas. Até outro dia, sem manchas. A primeira vez em que reparei em manchas nas mãos foi nas de minha mãe. Manchas senis, castanhas. A idade e o sol trabalhando juntos para nos marcar de forma indelével. 
Eu uso protetor solar de forma quase religiosa desde os 20 anos (antes não, fiz os estragos necessários nas temporadas praianas), mas quase sempre esqueço as mãos. Aqui, então, em que nem o protetor consegue defender a pele dos melasmas, as mãos, lavadas muitas vezes, ficam ainda mais expostas. 
Os 50 cada vez mais próximos, portanto, já estão nas mãos, nos olhos que pedem novos óculos, em cansaços e alergias aqui e ali. 
De repente me surpreendi com até onde cheguei - e, a essas alturas, ainda querendo iniciar coisas novas. Bate a dúvida se é melhor não operar mudanças. Mas o corpo, a pele me lembram que as mudanças vêm, queira eu ou não. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Oficina de férias

Mais uma oficina de colagem, desta vez só com papéis. A ideia era que o papel fosse usado para desenhar no lugar do lápis, mas rolou um mix, e tudo bem.
Lulu chegou e pôde participar com a prima. Desta vez, até titio Guga fez sua colagem, já que tinha prometido às meninas.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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