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domingo, 19 de julho de 2026

Começo, meio, começo

Fazia mais de vinte anos que eu não participava de um congresso, menos ainda de uma mesa. Pois, mesmo não fazendo (ainda) parte de um programa de pós-graduação, fui convidada a estar com mulheres admiráveis, com quem tenho convivido desde o ano passado. 
Esse caminho de volta à universidade não tem sido fácil, meu eu do ano passado que o diga!  Mas o acolhimento feminino tem sido fundamental no processo. Ter reiniciado a terapia também foi essencial para poder perceber a espiral de tempo, memórias e experiências, tomando de empréstimo a filosofia de Nego Bispo do começo-meio-começo. O livro infantil sobre Aracne, o amor pela arte na infância, o encantamento com o Chile de Neruda e Violeta, o mestrado em arte, a ida à foz do São Francisco e conhecer Pontos e Contos de Penedo, saber da luta do bispo Cappio, um dia acordar e começar a bordar, as oficinas com as irmãs Dumont, a mudança para a Bahia, o contato com as mulheres do semiárido baiano na especialização em história da alimentação, a mudança para Salvador ao lado da UFBA, ter bordado um vestido com o Opará e poder falar dele na apresentação, descobrir em meu caminho a Opará de águas agitadas, ter chegado ao PPGNEIM como aluna especial, redescobrir a arte como potência, ouvir mulheres falando de política e fazendo política no cotidiano, não se limitando ao que lhes é imposto. Como faz sentido a ilustra que fiz na pandemia, quando assistia a Lovecraft Country!
Essas sincronicidades não teriam qualquer sentido, porém, se eu não tivesse tido um tempo de silêncio em mim mesma, que me permitiu não só me ouvir e conhecer minhas limitações, mas ouvir às mulheres ao meu redor e crescer com elas. Ouvir e ressoar suas alegrias e dores, sentir o que nos une e nos distingue, pensar em como engrossar esse caudal revolucionário. Até mesmo o que não deu "certo" parece o mais acertado hoje. E eu agradeço e ressoo esse movimento em minhas águas. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Carimbó

Desde a primeira vez que vi alguém dançando carimbó, essa mistura de ritmos indígenas, africanos, caribenhos e tão brasileira, fiquei apaixonada. Senti que era a pura representação do direito de todo mundo à alegria, à dança, à festa. É claro que há os melhores dançarinos, como em toda dança, mas o carimbó convida primeiro a se alegrar, a experimentar, para depois saber como se faz. Como crianças, somos chamadas e chamados para a roda, para sentir a pulsação, para ver a energia subindo pelos pés e percorrendo todo o corpo até fazer o sorriso desabrochar.
Foi exatamente assim na oficina de lundu e carimbó na Escola de Dança da UFBA. Beatriz e Maya, jovens que vieram de Belém para o congresso de antropologia, não só trouxeram a dança, mas também o legado dos mestres e mestras paraenses. Que lindo vê-las, e mais algumas paraenses presentes, dançando com todo prazer e orgulho! Lembrei de Chico César dançando com uma violoncelista do Quinteto de Cordas da Paraíba, uma leveza, uma alegria contagiante.
E foi essa alegria que também contagiou o grupo na sala de dança na última sexta. Sem a preocupação de saber dançar, e sim dançar para saber. Não se intimidar pelo medo da imperfeição, nunca, nunca. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Dançar a ancestralidade

Pois dezembro começou muito bem, com espetáculo lindo de dança na Concha Acústica. Fui prestigiar os colegas da Funceb, na Mostra Odún, que reuniu todos os grupos ligados à fundação. Eu imaginei que seria bom, mas não que seria tão lindo! Que bom ter vencido a preguiça dominical e ter pedido um ingresso no grupo (compromisso que, como sempre, garantiu o ter vencido a preguiça). 
Não consegui falar com Lu, claro, que estava na concentração. Mas o bilheteiro gentil me concedeu um ingresso e lá fui, me juntar a uma multidão que lotou a Concha, uma lindeza. Logo comecei a bater papo com minhas vizinhas de arquibancada, que tinham ido ver um dos dançarinos de dança afro - filho/afilhado/neto. 
A organização foi perfeita, houve uma história que alinhavava o espetáculo, puro Sankofa. E nisso residia a beleza maior, honrar as ancestralidades. Como disse, fui surpreendida com a qualidade das apresentações (embora minha ex-turma tenha apresentado outra coreografia), especialmente a partir da segunda metade do espetáculo.
Foi a partir da segunda metade que o espetáculo pegou fogo. Já havia o elemento de negritude em algumas coreografias anteriores e no próprio texto dramático, mas dali a pouco havia também ventania e raios e pequenas poderosas oyás, havia animal totem embalando o burlesco ao som de Gal, floresta ancestral e yabás, dança afro pulsante e enérgica (e lá estava o afilhado/filho/neto brilhando), a mais nova espada e seu corte do orixá da luta e da justiça, vencedor das demandas Ogum. Ali a dança abraçou todo o seu sentido, o de falar com passado e futuro pelo corpo, torná-lo ancestral no momento presente. Se isso não é magia, então não sei o que é.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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