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domingo, 1 de março de 2026

O pessoal, o público e a arte são políticos

Acompanhei nos últimos dias um debate intenso sobre identitarismo e decolonialidade nas redes. Claro que já tem rolado há algum tempo, sobretudo em ataques às identidades feitos pela extrema-direita. A novidade, porém, são as críticas virulentas vindas de intelectuais ligados à esquerda. 
Vladimir Safatle publicou um texto na Piauí fazendo uma crítica às teorias decoloniais, segundo ele muito ligadas aos teóricos dos países colonizadores. Pessoalmente, não vi como isso poderia desqualificar as teorias - não é possível se apropriar das anteriores e fazer a própria releitura, antropofagicamente, como sugeriria Oswald de Andrade? 
Na esteira de Safatle, Douglas Barros, que inicialmente me pareceu interessante por falar de identidades com Rita von Hunty - e que depois descobri ser um crítico do chamado identitarismo (termo usado pelos ultraconservadores), a respeito do qual ele lançou um livro -, saiu em ataque contra Nego Bispo e os originários em geral, que não têm, segundo ele, arcabouço teórico para discutir a realidade e propor soluções, ao contrário do marxismo. Gente!
Para lá e para cá pipocaram ataques e defesas de antidecoloniais e decoloniais, sobre quem consegue ou não fazer a crítica ao capitalismo, propor um novo estado de coisas. Interessante como esses autores, ao falarem de decolonialidade, nem citaram as lutas feministas, que buscam justamente unir a questão de luta de classes com gênero e raça, como fizeram as ativistas negras. Enquanto isso, a extrema-direita se regozija com as lutas internas dos progressistas, alguns deles tomados pelo desejo de reconhecimento e brilho, não há dúvida. O capitalismo faz muito bem seu trabalho (explorando o trabalho dos outros) há séculos. 
Daí assisti, por fim, a aula magna do Leandro Colling na USP Leste. Leandro é muito combativo, mas não incoerente. Ele se organiza para os debates; não é avesso à crítica em si, mas à violência que pode advir de uma crítica irresponsável. Ao final, sempre me pergunto, eu que nem tenho esse arcabouço teórico todo, por que é tão difícil se unir pela causa comum, que deveria ser a luta pela justiça social em uma sociedade tão diversa. E não quem tem mais seguidores, vende mais livros, vence o debate. 
É curioso como é mais simples que um artista consiga unir as pessoas em prol de uma causa, pelo menos na superfície. Bad Bunny, o trapper porto-riquenho que ganhou vários Grammys, tem botado a boca no trombone para criticar Trump e sua política anti-imigração. No evento mais visto dos Estados Unidos, o Super Bowl, ele apresentou em 13 minutos um videoclipe ao vivo, em plano-sequência, cantando em espanhol, com várias referências latino-americanas tão conhecidas nossas, e ainda chamou de América todos os países do continente, para desgosto dos estadunidenses conservadores. Genial!
Ele conseguiu fazer milhões no mundo se orgulharem de suas raízes latinas. Partiu da sua casita porto-riquenha e atingiu o universal, pelo menos latino-americano. A arte tornou público o pessoal. Uma fagulha, no mínimo, para incendiar os debates. No caso de Bad Bunny, sua especificidade não foi criticada; antes, atraiu milhões que cantaram com ele - em São Paulo, milhares lotaram o Alliance Park. 
No caso de Nego Bispo, das feministas e dos ativistas LGBT, porém, o embate é certo. Porque, nestes exemplos, o pessoal não é só público, como apregoava Carol Hanisch, como também, necessariamente, o que é público é político e o que é político é (ou deveria ser) público. Quando se rejeitam as identidades, as especificidades de grupos, perde-se o entendimento do que é coletivo, o que acontece também quando se põe o foco tão somente no que é específico, ora vejam! Todos perdemos na luta contra a desigualdade quando os aliados se afastam e se enfrentam. Quem ganha são sempre os mesmos donos do poder. 
Nesse sentido, a lição de Bad Bunny está além da bandeira da América Latina e da América de todos: ela mostra a potência da arte como água que invade espaços, dissolve barreiras e, quando menos se espera, está em toda parte. Pelo jeito, é por meio dela que se pode avançar mais na construção de direitos. Como a água, muitas vezes parece inofensiva, mas sua essência é sempre abrangente, desarmante e poderosamente transformadora. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Carimbó

Desde a primeira vez que vi alguém dançando carimbó, essa mistura de ritmos indígenas, africanos, caribenhos e tão brasileira, fiquei apaixonada. Senti que era a pura representação do direito de todo mundo à alegria, à dança, à festa. É claro que há os melhores dançarinos, como em toda dança, mas o carimbó convida primeiro a se alegrar, a experimentar, para depois saber como se faz. Como crianças, somos chamadas e chamados para a roda, para sentir a pulsação, para ver a energia subindo pelos pés e percorrendo todo o corpo até fazer o sorriso desabrochar.
Foi exatamente assim na oficina de lundu e carimbó na Escola de Dança da UFBA. Beatriz e Maya, jovens que vieram de Belém para o congresso de antropologia, não só trouxeram a dança, mas também o legado dos mestres e mestras paraenses. Que lindo vê-las, e mais algumas paraenses presentes, dançando com todo prazer e orgulho! Lembrei de Chico César dançando com uma violoncelista do Quinteto de Cordas da Paraíba, uma leveza, uma alegria contagiante.
E foi essa alegria que também contagiou o grupo na sala de dança na última sexta. Sem a preocupação de saber dançar, e sim dançar para saber. Não se intimidar pelo medo da imperfeição, nunca, nunca. 

segunda-feira, 31 de março de 2025

NEOJIBA no aniversário de Salvador

No dia 29 de março, Salvador completou 476 anos. Ela é ariana. Isso explica muita coisa. É muita efervescência, muito "bora ali" para que fosse diferente. Não quer dizer que seja fácil. Mas, mesmo com os poréns que toda cidade tem, e Salvador tem índices sociais difíceis, mesmo assim, eu me adaptei muito bem, e até recebi o que para mim foi um elogio de um motorista de aplicativo: "a senhora já é baiana". Como soa diferente do "jeito baiano de ser" de uma certa ex-chefe minha!
Calhou de, exatamente no aniversário da cidade, eu ir, com Liu, assistir pela primeira vez à apresentação do NEOJIBA, o núcleo de orquestras jovens e infantis criado pelo maestro Ricardo Castro em parceria com a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos da Bahia. Não tenho nem palavras para descrever. 
Com certeza é emocionante ver a OSBA em ação, mas assistir àqueles jovens tão compenetrados e, ao mesmo tempo, divertindo-se enquanto tocam, como os contrabaixistas em coreografias e sorrisos, é de levar às lágrimas. Pensar em quantos jovens são retirados das ruas e na oportunidade de fazer valer a justiça social, isso não tem preço. Por isso, a apresentação, que começa com Carlos Gomes, passa pelo soturno Sibelius, depois a alegria Broadway de Bernstein, tinha mesmo que terminar com a apoteose de Martín Fierro de Ginestera. Pura beleza, pura beleza. 
E Salvador é assim também - som de mar e pássaros, fortes contrastes, muita intensidade, muita música e multidão, festa, luta, identidade. Só tenho a agradecer por ela me receber tão bem.

terça-feira, 30 de julho de 2024

"Macacos", de Clayton Nascimento

Foram três horas de porrada. Inclemente, incansável, ininterrupta. Necessária.
Clayton Nascimento tem apresentado seu monólogo Macacos desde 2016. Eu descobri Clayton numa novela global ao mesmo tempo que soube de sua peça - imediatamente, pensei que precisava vê-lo no palco. Achava que ele já tivesse vindo a Salvador, quando eu não havia ainda chegado aqui, e torcia para que "voltasse". 
Como acredito demais nos milagres cotidianos, estava com a cabeça a mil, angustiada com questões práticas, quando a arte veio em meu socorro: o superagitador Aldri Anunciação lançou sua sexta edição do Festival Melanina Acentuada e trouxe, entre outras maravilhas, a peça Macacos a Salvador. Quando entrei no site para a compra, os ingressos já estavam esgotados. Alguns dias depois, vi novo anúncio da peça e resolvi tentar de novo. E consegui! E era a primeira vez da peça na Bahia, em Salvador, o que Clayton enfatizou várias vezes.
O espetáculo aconteceu no Goethe, mesmo lugar do Pequeno manual antirracista, adaptado por Aldri e interpretado por Luana Xavier. Igualmente impactante, com a mesma questão terrível e persistente do racismo, também monólogo. Mas a arte é esse deslumbramento sempre, com cada artista derramando sua alma e força diante do público de forma única. Clayton fala, dança, gesticula, grita, incorpora, anda, corre por três horas. Em nenhum momento se repete (só quando é necessário "fechar" um assunto). A peça é desabafo, aula, biografia e denúncia, tudo ao mesmo tempo. Houve um momento em que achei que ela ia desandar, mas não, ele amarra tudo com a coerência de quem vive tudo na pele. Ao final, a emocionante presença de Terezinha, mãe de Eduardo, 9 anos, assassinado pela PM do Rio em 2015, que inspirou Clayton a criar o monólogo.
Eles foram aplaudidos de pé por intermináveis e merecidos minutos. A gente se sente miserável de viver num país, num mundo em que tantos Eduardos morrem diariamente pela cor de sua pele. Mas a gente se fortalece por estar ali, junto com Clayton, Terezinha, Aldri, acolhendo a dor, dando as mãos, se energizando para gritar também por justiça.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Dentro-fora, fora-dentro

Faz só dois meses e meio que estou em Salvador, mas parece que faz anos! Para além da intensidade dos últimos tempos, com separação, viagem, mudança (pra não falar de cuidados de saúde com pets e família), tem acontecido esse reencontro com tantas preciosidades: artes plásticas, música, cinema, teatro, lugares, pessoas, aprendizados, organizações diárias. 
Conheci a feira de mulheres batalhadoras BazaRozê, que aconteceu na Biblioteca Central dos Barris, e trouxe algumas coisas lindas e gostosas pra casa, até Zenzito ganhou um peixe pra chamar de seu. No meio do agito da Flipelô, fui ver a exposição "Brasil do Futuro", organizado por Lilian Schwarcz no Solar do Ferrão e fiquei muito emocionada de voltar a pisar no solo tão querido e conhecido das artes plásticas. Rolou show de Paulo Carrilho em tributo a Ney Matogrosso na companhia de Jô e Edu, na Saladearte. E ainda teve volta ao teatro, o do Sesc Casa do Comércio, com a ótima Alma imoral, baseada no livro do rabino Nilton Bonder e interpretada pela incrível Clarice Niskier (até encontrei minha vizinha lá!). 
Teve confecção própria de calça e almofadas, com base no aprendido no curso de costura, teve volta de plantas na varanda, ter conseguido instalar uma cortina na sala. Teve enfim a organização de marmitas no domingo, inspirada no curso que não vou fazer da Marina Linberger (inviável nas atuais circunstâncias, mas também porque achei que poderia criar meus próprios cardápios) - consigo deixar pelo menos 14 porções de comida prontas na geladeira ou congelador (até aqui, rolou moussaka, nhoque de abóbora, nhoque de batata doce, chilli beans, curry de frango, karê, escondidinho de frango, dal de lentilha, salada de grão de bico e cenoura com especiarias, legumes confitados, arroz marroquino, quibe de abóbora e ricota, torta de atum low carb, massa de pizza, iogurte natural). E teve até criação de um novo sorvete, inspirado na Almaléa, sorveteria no Rio Vermelho que ainda não conheci mas cujo delicado sorvete de canela com suspiro já pedi no Ifood - o que criei foi inspirado num de ricota com geleia e praliné; o meu tem ricota, iogurte, stevia, geleia de frutas vermelhas (comprada) e praliné de castanha de caju com cardamomo, canela, café e gergelim da Rita Lobo, uma coisa de outro mundo (só trocaria a stevia por açúcar mesmo, porque desconfio que ela deixa os preparados meio arenosos). 
Tudo isso, alegrias e aprendizados, rola numa mente a mil por hora. São o meu bálsamo no meio da vertigem. Mais que nunca, necessários para me manter sã e garantir minha integridade, dentro e fora.

sábado, 15 de agosto de 2015

Kabuki e o pertencimento

Apesar da minha parcial japonesidad, nunca tinha assistido a uma apresentação de teatro japonês típico, Nô ou Kabuki. Minhas referências eram fotográficas ou musicais (Caetano falando de "kabuki, máscara" ou Gil citando o "teatro Nô, japonês").
Entonces, saindo da aula de fotografia, vi um cartaz com a programação de uma companhia japonesa de kabuki. E alguns dias depois lá estava eu, conferindo ao vivo o que os ancestrais fazem há quatro séculos.
No início, tive medo de que o público fosse desrespeitoso com uma cultura tão diversa como a japonesa, por mais que ela esteja popularizada na comida, nos animes, no karaokê. Algumas pessoas cochichavam, outras tossiam e uma meia dúzia saiu do teatro ainda na primeira parte da apresentação.
Quando anunciaram o intervalo, senti alívio, pois imaginei que era a oportunidade dos descontentes de saírem dali. Mas, para minha surpresa, a esmagadora maioria do público ali ficou, sem nem se levantar para o intervalo.
Havia, sim, trechos falados/cantados em japonês, que lembravam um pouco aquelas novelas japonesas transmitidas por algum canal nacional. Mas os gestos e a dança, valorizados pela luz e alguns efeitos simples e incríveis (como a teia de aranha feita de mil fios lançada pelo vilão), eram delicados, precisos, lindos. Fujima Kanjuro, despido de máscara e roupas extravagantes, envergando apenas kimono, elegantes calças hakama e meias, transformava a realidade ao redor com movimentos que pareciam mínimos, mas eram plenos de gestos e significados. Houve um momento em que me lembrei do flamenco, pelo girar das mãos, pela batida (muito mais contida, é verdade) dos pés no chão. Creio que, principalmente, pela intencionalidade.
De novo, de algum modo e emocionada, entendi tudo. Algo lá dentro dizia que aquilo pertencia a mim, que eu pertencia também àquela beleza.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Meninos, eu vi - Bom Retiro 958 metros

Eu tiraria só uns 15 minutos de texto do último espetáculo do Teatro da Vertigem, em sua segunda temporada. Mas só - Bom Retiro 958 metros é praticamente irretocável.
Renascido de uma crise que ameaçou acabar com o grupo, o Vertigem impressiona com sua produção impecável, com atuações envolventes, com a capacidade de nos fazer parte silenciosa do espetáculo - mas nunca meros espectadores.
Andamos pelas ruas desertas (ou quase - bolivianos e coreanos dão as caras volta e meia, numa figuração involuntária) do Bom Retiro em pleno feriado prolongado de Carnaval, ora como multidão de consumidores, ora como zumbis. Invadimos um shopping fechado e sentimos ali o coração que jamais para de bater, junto com o da compradora que se transforma em seu objeto de desejo. Seguindo um Caronte feminino (ou um Diógenes, que leva um tablet em vez de uma lanterna?), assistimos ao próprio Apocalipse se desdobrando ao nosso redor. O Hamlet cracômano (maravilhoso Ícaro Rodrigues) se equilibra no alto de um muro muito alto, e conversa com sua pedra, cada vez maior. A faxineira filosofa (a incrível Mawusi Tulani), a rádio Infinita hipnotiza os insones, a noiva-Ismália tenta chamar à razão. Estamos cercados - só nos resta caminhar em meio aos escombros de manequins desnudos ou em chamas, roupas rasgadas, lixo, mais cracômanos, pessoas socialmente invisíveis. E buscamos um refúgio inútil na sinagoga abandonada.
Como os atores conseguem estar em toda parte ao mesmo tempo? Como o grupo conseguiu convencer a CIDADE a atuar? Como o mergulho no Letes desperta a memória aos gritos? Como ficamos divididos entre a urgência do fim e a estupefação quando tudo acaba? Como ao final o público bate palmas longamente (minutos e mais minutos) sem emitir um som? Parece fruto de encantamento, mas, claro, é só vertigem.
Por isso recomendo: não deixem de assistir até o final de março ao verdadeiro fim do mundo.

domingo, 9 de setembro de 2012

Meninos, eu não vi - Teatro Cego

Ou melhor, vi. Ou melhor, senti. E por isso vi, de outro jeito, de olhos fechados.
As questões relativas à visão sempre me interessaram bem de perto. Provavelmente por conta da miopia, descoberta aos 11 anos pela professora de Estudos Sociais (sim, tive aula disso!). Depois, pela visão diminuta da minha mãe, perdida pouco a pouco para o diabetes. Sempre pensei que não ver seria pior que não falar (é sério; para a mudez sempre haveria o antídoto da escrita). Por isso as histórias de perda de visão, cegueira etc. me tocam tanto. Li o Ensaio sobre a cegueira aos prantos (o contexto ajudou, claro), fiquei hipnotizada por Janela da alma, de João Jardim e Walter Carvalho. Ganhei um premiozinho de melhores crônicas (mais um conto, na verdade) escrevendo sobre Paulinho (na época nem pensei na história do apóstolo homônimo, perseguidor de cristãos que fica cego e de cujos olhos caem escamas), uma criança míope como eu fui e que de repente precisa usar óculos (um acessório que lhe parece inútil quando ele tem à mão todo o colorido do universo literário). Uma amiga, quando soube dessa croniqueta, me apresentou o doce Miguilim (cuja história também li entre lágrimas). E, por fim, escrevi um pouco sobre essas questões de ver no blog vizinho:

http://seroquesoa.blogspot.com.br/2010/02/os-olhos-de-saramago.html
http://seroquesoa.blogspot.com.br/2009/12/amplidao.html

Mas a experiência do último sábado foi inédita. Quando convidei o namorido para assistir a uma peça feita por atores cegos, ele não botou muita fé. Perguntou: "Mas por que mesmo você quer assistir a essa peça?" Eu disse que seria uma experiência sensorial diferente, porque a peça se passava toda no escuro (algo já experimentado com sucesso na Argentina). "Ah", ele respondeu, menos animado ainda.
Só para aumentar a emoção, quase perdemos a hora da peça, porque confundi o horário com o de outro evento. Já estava conformada em comprar ingresso para outro dia, mas o motorista de táxi se solidarizou comigo e voou para o teatro.
Na verdade, a peça acontece em uma sala na Vila Madalena, a Sala Crisantempo. Infelizmente, só ficará até o final do mês em cartaz (eu soube dela na semana passada, folheando o Guia de Teatro). Então, quem puder, vá ver. Ou não ver, como já disse, porque tudo se passa realmente no mais puro breu. Entramos na sala em fila, tocando no ombro da pessoa à frente. Um "lanterninha" nos conduziu ao nosso lugar. Todo mundo acomodado, a escuridão completa se instalou.
E tiveram início cheiros, sons, gemidos do viúvo rodrigueano. Eu assisti de olhos fechados. E vi tudo o que aconteceu. Ao final, quando as luzes se acenderam, a surpresa com os donos das vozes. Só para não esquecermos como as aparências muitas vezes enganam. Claro que não posso dar detalhes da peça, para não estragar a surpresa.
O namorido? Também adorou, e engrossa comigo o coro de recomendações.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Me gusta Buenos Aires

Avenidas amplas e arborizadas, prédios oitocentistas bem conservados, gradis art-nouveau, cafés e livrarias impressionantes em toda parte, muitos brasileiros aqui e ali. Estávamos em Paris?
Quase: os fileteados nas portas das livrarias e na traseira dos ônibus, as lojas de alfajor, medialunas acompanhando o café, as casas de tango e tantas cositas más não podiam deixar dúvida - enfim tínhamos chegado a Buenos Aires. A chegada foi tão mais triunfal pela tensão que a antecedeu: pelo vulcão chileno, que podia despertar a qualquer momento e que tinha já nos levado a remarcar a viagem, e pelo atendimento ruim das Aerolíneas Argentinas (o voo não constava no site do aeroporto e nem no da própria empresa; até o último momento pairava sobre nós a ameaça do cancelamento). Chegamos a ouvir de uma atendente que não poderia colocar uma etiqueta de "Frágil" na bagagem porque as Aerolíneas não se reponsabilizam pelo que possa acontecer durante o voo (!!!).
Tudo isso, claro, foi compensado pelo nosso primeiro contato com a cidade, logo ao amanhecer, desde a vista aérea - que confirma localmente a teoria de que as cidades da América espanhola são construídas como uma malha quadriculada; não por acaso, tudo em Buenos Aires ficava "a cuatro cuadras" - até a caminhada em busca de um café, antes do check-in no hotel, pela Avenida de Mayo, ainda vazia, toda nossa.
Depois do primeiro café (que não é lá grande coisa) com medialunas (que são ótimas) fomos ao Teatro Colón, onde já nos integramos à visita guiada pelo portentoso prédio do século XIX, que pode abrigar até 3.000 pessoas em um único espetáculo. Outra coisa impressionante é como os guias locais são bem preparados - não só conhecem a história da cidade como ainda são politicamente articulados. Aliás, os portenhos se mostram muito politizados o tempo todo, e até as eventuais pichações nos muros da cidade têm conteúdos políticos (nada de "Sicraninho Z/S" ou "Fulaninho esteve aqui").
O atendimento nos restaurantes é, de modo geral, muito bom. Os garçons (mozos) no melhor estilo Velha Guarda são simpáticos, dão dicas, tiram fotos, como os do Palácio de las papas fritas (na Calle Florida), do Café Tortoni e do La parolaccia (em Puerto Madero). Ninguém tem pretensão de falar português, mas todos se esforçam em entender - o único problema era quando, de tão simpáticos, desatavam a falar e não entendíamos nada. Com sua inclinação à comunicação fácil, teve portenho que até cantou pra nós - um motorista de táxi nos mostrou seu CD de música brasileira, cuja letra não entende mas canta perfeitamente. Tivemos que desiludi-lo quanto a uma canção que achava "muy linda" (= romântica) e que na verdade falava de um tal Ricardão... 
Quanto aos mitos sobre Buenos Aires, lá não é o tal paraíso das compras de que se fala. É bom para comprar algumas coisas - artigos de couro (um casaco masculino custa cerca de 850 pesos, o que hoje custa quase 350 reais, ótimo negócio), malhas de cashmere (é preciso procurar - os preços variam de 150 a 370 pesos). Alpaca de verdade é raríssima; a maioria dos artigos de alpaca é feita de material misto. O doce de leite mais barato é o das lojas da rede Havanna, mas o melhor que provei é o Salamandra. Comprar em La Boca é caríssimo, e não dá para andar no Caminito, vejam que contradição, tanta gente há por lá, especialmente nossos compatriotas, atuais queridinhos dos vendedores, que já entendem que "cartón", e não tarjeta, é cartão de crédito (contribuições ao castelhano) e aceitam pagamento em real. (Aliás, por que será que já ouvi de tanta gente elogios ao Caminito, como se fosse a melhor coisa de Buenos Aires? Por onde - e como - esse povo andou?)
Já beber vinho vale muitíssimo a pena - sai mais barato (uma garrafa custa 21 pesos no supermercado) que tomar café ou água (ambos a 12 pesos nos restaurantes). Também come-se bem com 100 pesos por pessoa, incluindo cubiertos (couvert), uma taça de vinho, prato principal e sobremesa. Andar de táxi é outra coisa que compensa - praticamente atravessamos a cidade por 25 pesos.
Claro que a maioria dos turistas que vimos estava comprando a valer, invadindo lojas, formando fila para conhecer o Café Tortoni (que é lindo, mas perde feio para a Confeitaria Colombo, no Rio), enlouquecendo nas fábricas de couros de Boedo (um Brás local mais arrumadinho) e até em alguns outlets micados em San Telmo.
Fizemos algumas opções comuns, como ir à La Bombonera (que abriga o Museu de la Pasión Boquense, hermano do Museu do Futebol), à belíssima Catedral Metropolitana, passar em frente à Casa Rosada, jantar em Puerto Madero (um dos visuais mais incríveis da cidade). Mas em vez do show de tango para inglês ver fomos visitar as exposições do Malba (um Georges Pompidou contemporâneo) e batemos perna pela cidade, desbravando lugares menos turísticos, como a Manzana de las Luces, um edifício do século XVIII onde se reuniam os "iluministas" locais e que oferece passeios pelos subterrâneos da cidade, e as livrarias mais antigas, como El Ateneo e Libreria d'Ávila. E penso que, assim, mergulhando na cidade, conhecemos sua verdadeira alma, simbolizada pela enorme fila de pessoas se inscrevendo para o Festival de Tango, por pessoas tomando sol sentadas na grama, pela multidão curtindo o feriado de libertação da Argentina por San Martín. Vimos que o glamour portenho convive com os sinais visíveis da crise, como faixas de protesto, gente morando nas ruas, automóveis velhos e muitas, mas muitas mesmo, placas de "vendese" e "alquiler". 
Mas, por isso tudo, Buenos Aires, como seu flan con dulce de leche, deixa um gostinho de quero mais.

Desde o alto: interior da Libreria d'Ávila; flan con dulce de leche, nova paixão; interior do Teatro Colón; Puerto Madero; Café Tortoni; hace frío en San Telmo; cena familiar no Malba; placas de aluga-se no alto dos prédios da Calle Córdoba.

domingo, 5 de junho de 2011

Mais cinema argentino - "O homem ao lado"

Quem não viu, por favor, vá ver. O homem ao lado, de Mariano Cohn e Gastón Duprat, é uma excelente película argentina. Já disse aqui que gosto de cinema argentino? Pois então, este filme de 2009 é um daqueles felizes casos de obras que nos fazem pensar em outras, não no sentido da imitação ou simples releitura, mas no caminho do diálogo enriquecedor.
Não foi por acaso que Daniel Araóz como vizinho intrometido me fez pensar por um momento em Paulo Miklos-titã-invasor (no filme de Beto Brant), ainda que o primeiro assome mais humano e bonachão. Também pensei, desde a resenha de duas linhas, que nos esperava uma espécie de pesadelo kafkiano - um dia, um vizinho resolve construir uma janela que dá para dentro da casa do outro etc. etc.
Mas, por mais absurda que pareça a situação apresentada, a coisa é mais real do que se poderia crer à primeira vista. Mesquinhez, intolerância, idiossincrasias são desnudadas por uma câmera que valoriza um zoom narrativo e tomadas plásticas, sendo a janela apenas uma metáfora daquilo que somos convidados/obrigados a ver - a ferida aberta de uma sociedade frívola e desigual. Que já estava lá, o tempo todo, às claras, na casa de vidro modernista, para quem quisesse (eu disse "quisesse") ver. Mas foi preciso o incômodo, o estranho, o estorvo para que houvesse a revelação. A crise.
Como bônus, o silêncio completo da plateia consternada, ao final do filme. Teremos todos visto a mesma coisa?

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Pra viver é melhor sempre rir

Não a ponto de parecermos meio lesados, mas é fato que de vez em quando precisamos mesmo desopilar o fígado. E o que seria mais indicado que um espetáculo circense?
Imagine se o show de circo for acrescido de improvisos inteligentes, com palhaços-atletas em um campo de futebol. Esta é a fórmula do espetáculo Jogando no quintal, da Cia. do Quintal, que acaba de comemorar oito anos de carreira, em uma série de apresentações no Sesc Pompeia.
Eu já conhecia de ouvir falar, mas nunca tinha visto um espetáculo do grupo. E indico: dá para quase (quase é o ideal!) morrer de rir.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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