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domingo, 5 de julho de 2026

Shakespeare com sotaque nordestino conclama à revolução

Julho começou com mais teatro, graças à deusa. Que bom que, quando bati os olhos na programação do CCBB ainda não inaugurado em Salvador (ele tem ocupado outros espaços culturais enquanto não abre as próprias portas), vi que Cão estava em cartaz e fui logo instigada pelo nome e pela resenha no Instagram. Ainda por cima, duas companhias teatrais nordestinas juntas conceberam a dramaturgia, assinada por Giordano Castro, da recifense Magiluth, e Paulo Yamamoto, da natalense Clowns de Shakespeare. 
O resultado foram duas horas de risos, participação do público, torcida diante de uma encenação dinâmica, clownesca, política, inteligente, situadíssima e pautas trabalhistas, de classe e de gênero (desigualdade social, escala 6x1, jornada múltipla feminina, pajubá). Até Milei e seu cão-guru tiveram seu momento. Teve homenagem a outras obras, as mais evidentes como a perna cabeluda que muita gente conheceu em O agente secreto, as peças Coriolano e Auto da Compadecida (que provocou clamor) e as menos óbvias, como Ataque dos cães (não sei se proposital ou não). 
A plateia do ótimo Cineteatro 2 de Julho estava repleta de jovens, estimulados por professores, presentes ou não. As perguntas mais interessantes, no bate-papo após o espetáculo, vieram deles. Contudo, a fala mais emocionante foi a de uma mulher que disse ter retomado aos 61 anos o sonho de fazer teatro e agora via o filho se formando em teatro na UFBA. 
Os sonhos de uma noite de verão trouxeram uma manhã de ares revolucionários. O resto, meu caro bardo, é música.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Como demorei tanto a assistir "Eu, Daniel Blake"?

Eu, Daniel Blake, filme de Ken Loach de 2016, já estava na minha lista de "assistíveis" na Netflix desde que entrou no catálogo do streaming, há uns dois anos. Sempre que Guga me perguntava sobre o que eu queria assistir, eu sugeria o título, mas acabava não emplacando diante do desinteresse do marido. Pessoalmente, eu achava que o filme era bastante dramático e sério, e também fui deixando-o para o final da lista, para quando eu estivesse no mood equivalente para assisti-lo.
E então, agora no início de janeiro, Guga topou assistir ao filme. Aproveitei a deixa, antes que ele librianamente mudasse de ideia, e vimos.
Cara, como diz o título do post, como pude demorar tanto a assistir a esse filme? Já entrou para o meu top 20, ao lado de O segredo dos seus olhos, O labirinto do fauno, Julie & Julia, O Grande Hotel Budapeste, Um conto chinês, Interestelar, Central do Brasil, Quem quer ser um milionário?, Minhas tardes com Margueritte, Oldboy, O carteiro e o poeta. Embora a trama seja muito menos mirabolante do que a dos filmes citados, ficamos sem fôlego ao acompanhar a luta de Dan Blake para vencer a burocracia estatal e conquistar um direito que é seu, algo tão entranhado na cultura brasileira que nem nos damos conta do quão absurdo e abusivo é. 
Mas Blake não se dobra nunca, o que é o grande tempero do filme. É firme sem querer parecer invencível, e não apela para a autopiedade mesmo prestes a isso. Não é artificialmente heroico, como poderia ser em algum longa norte-americano, mas sim justo e solidário. Que poder tem a solidariedade! De novo, uma solidariedade pura, sem vistas a recompensas e elogios. Assim é que o protagonista não pode ignorar as angústias alheias mesmo tendo as suas próprias. Pode parecer que beira o orgulho, mas acredito que tenha mais a ver com ser forte para o outro, estar ali pelo outro. 
Ken Loach conduz brilhantemente esses atores com todo jeito de gente comum, com problemas comuns e aflitivos, de modo que quase podemos transpor a tela e caminhar junto com eles pelas ruas inglesas. E há o humor, esse remédio tão eficaz, que nos faz esquecer um pouco as mazelas e acreditar que, sim, Dan Blake e seus amigos vão conseguir, juntos, vencer a injustiça. 
Mas a vida real está toda ali, e não vemos o final que gostaríamos que Dan tivesse. Sentimos o golpe lispectoriano no estômago, aplicado com soco inglês. Após a mágica cinematográfica, somos devolvidos à nossa pequenez humana - porém, envolvidos numa esperança misteriosa e muda de que o porvir se faz junto com outros pequenos. 

quarta-feira, 20 de maio de 2020

E Bacurau, afinal?

Por fim, assistimos a Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, diretor dos ótimos O som ao redor e Aquarius
Houve um furor na época do lançamento, e vi muitos amigos divididos entre achá-lo incrível e nada de mais. Eu sabia, de orelhada, que um tal Lunga fazia justiça contra os opressores e lavava a alma dos espectadores. 
Bom, pelo jeito, sou da turma do nada de mais. Embora o filme tenha sido lançado em agosto de 2019, quando o horror bolsonarista já estava instalado no país, e a película tenha lá seu quinhão crítico, ninguém estava preparado para a distopia que cresceria cada vez mais, incrementada por uma pandemia que só gera incertezas quanto ao futuro. Talvez isso tenha me dessensibilizado para a violência presente no filme - são tantas mortes, tanta violência, tanto descalabro no cotidiano nacional que a sanguinolência de algumas cenas de Bacurau não me impressionou. Também não há preocupações estéticas, mas isso é do cinema de Mendonça - uma pena, porque a região sertaneja, no Rio Grande do Norte, onde o filme foi feito daria uma fotografia incrível nas mãos, por exemplo, de um Walter Carvalho ou Affonso Henrique Beato. A crítica, no final das contas, me parece limitada ao que os gringos/ricos/brancos fazem contra os brasileiros/pobres/mestiços. E a matança promovida por Lunga, ao melhor estilo "vingança dos cangaceiros", é tão pá-pum que nem prepara a gente para aquela torcida, como acontece por exemplo em blockbusters como John Wick, quando tudo o que a gente quer é que o protagonista vivido por Keanu Reeves detone quem matou seu cachorrinho, só para começar. Marighella, dirigido por Wagner Moura, talvez fosse bem mais importante, mas, embora lançado em 2017, até hoje não foi distribuído por aqui, por puro boicote bolsonarista - também há os liberais incomodados com a figura de Marighella, talvez um pouco real demais, aumentando assim a simpatia de esquerda pelo violento mas fictício Lunga.
Um pouco antes de vermos Bacurau, assistimos à animação stop motion Ilha dos cachorros, de Wes Anderson, já um dos meus diretores favoritos há algum tempo. Além da lindeza da produção, da trilha sonora, do roteiro impecável, a crítica social ali é tão patente e atual, sem que seja preciso perder o estado de encantamento que o cinema proporciona, que fiquei muito grata ao diretor pela experiência. Fiquei muito mais impactada do que com o filme de Mendonça Filho.
Enfim, acontece. Mas sugiro que assistam aos dois. Certamente, Bacurau, mesmo não integrando minha lista de favoritos, entrará para a história do cinema nacional como um dos filmes que incomodaram, o que já é bastante no atual contexto. 

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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