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segunda-feira, 9 de março de 2026

Somos rios, somos mar

Marchamos no 8M, por todo o Brasil, pelo mundo. Cada vez mais é necessário tomar as ruas diante das barbaridades crescentes contra meninas e mulheres. Às vezes - muitas vezes - bate um desânimo enorme diante de tudo o que temos visto acontecendo no mundo, contra mulheres, contra os minorizados politicamente, contra a paz, em favor de uma violência absurda. E ainda assim ganhamos flores aqui e ali e até presentes inúteis e baratos, peloamor, quando o que queremos não tem preço, não se pode tocar e é para sempre.
Ainda bem que, quando marchamos, vemos as águas se encontrando, formando um caudal, um mar imenso. E contra as águas, meu bem, repito aqui, não há obstáculo que lhes resista, como tudo aquilo que desejamos, que devemos tomar. Que sejamos, então, sempre água em movimento, fresca, abundante, destemida, vitalizadora. 

domingo, 20 de julho de 2025

Juliana e o direito de ir e vir a salvo

Fiquei tão consternada com a história de Juliana Marins, que morreu depois de cair em uma cratera na Indonésia que demorei a comentar qualquer coisa. Há muitas camadas nessa história - insegurança causada por turismo predatório (não da parte de Juliana, claro), insegurança das mulheres ao viajar, o encaminhamento dado ao resgate em se tratando de uma mulher latina e negra. A segunda autópsia, feita no Brasil a pedido da família de Juliana, mostra que ela morreu cerca de 32 horas depois da queda, na verdade, em uma segunda queda, escorregando pela cratera. Ela ficou mais de quatro dias ali. Morta havia mais de dois dias. Poderia estar viva se as medidas tomadas fossem as corretas. Claro que há muitos senões a ponderar. Mas o final da história de uma moça tão jovem, que sonhava em viajar o mundo com autonomia e segurança, foi terrível. 
Gostaria de ainda ver um mundo em que todas as Julianas possam ir aonde quiserem, sem medo de não voltarem para casa.  

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

O pódio de Rebeca e de todas dura quanto tempo?

Talvez a imagem mais reproduzida das Olimpíadas de Paris 2024 até agora tenha sido a de Rebeca Andrade, ouro na ginástica na apresentação de solo, sendo reverenciada pela estratosférica Simone Biles e por Jordan Chiles, as estadunidenses que levaram prata e bronze. Apesar da beleza no reconhecimento de Rebeca como uma "rainha" na modalidade, sobretudo em um pódio formado por mulheres negras, a imagem de que mais gostei foi gerada segundos depois, quando as três se dão as mãos. Ali vi companheirismo, admiração e fortalecimento mútuo, tudo ao mesmo tempo. 
Muita gente vibrou com a vitória das mulheres, sobretudo negras, no "Time Brasil". Mas também muita gente tem assinalado que, apesar das dificuldades, tais e tais atletas superaram tudo por esforço próprio, a praga da meritocracia. Houve quem se atrevesse mais, a pedir que não olhássemos para o fato de serem mulheres negras e pobres mas sobretudo boas atletas. Haja estômago!
Tem também repórter que força a entrevista até a entrevistada chorar, aquele gosto pelo sofrimento alheio, que nada tem a ver com empatia. Seu pai morreu, como você se sente? 
O que mais me chama a atenção na forma como é encarada a performance dessas mulheres que tiveram de se colocar acima da iniquidade social é que ali em Paris a dificuldade é passado, a pobreza e a injustiça social no Brasil nem existem mais. Poucos pensam em como será depois, como se uma medalha no peito de uma Rebeca fosse suficiente para calar a boca das reclamonas - "viu como a situação das mulheres é boa? viu como nem há racismo no Brasil?". A dificuldade que houver é porque a "Bolsa Atleta paga mal", não porque vivemos num país essencialmente desigual, escravista e colonialista. Não porque falta educação de qualidade, saneamento básico, alimentação saudável, trabalho digno. Não porque os índices de estupro e feminicídio não param de subir. 
Embora feliz por Rebeca, por sua graça vitoriosa, sambando na cara dos preconceituosos, lamento o peso que ela carrega para além das medalhas, atribuído por quem não quer encarar as desigualdades brasileiras. Injusto com ela, injusto com todas que atravessam os dias procurando manter a cabeça acima das dificuldades de toda ordem. O país só se tornará melhor quando a maioria se aperceber da realidade e der as mãos no enfrentamento da injustiça contra mulheres, e também contra pessoas negras, pessoas LGBTQIA+, a população empobrecida.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Como demorei tanto a assistir "Eu, Daniel Blake"?

Eu, Daniel Blake, filme de Ken Loach de 2016, já estava na minha lista de "assistíveis" na Netflix desde que entrou no catálogo do streaming, há uns dois anos. Sempre que Guga me perguntava sobre o que eu queria assistir, eu sugeria o título, mas acabava não emplacando diante do desinteresse do marido. Pessoalmente, eu achava que o filme era bastante dramático e sério, e também fui deixando-o para o final da lista, para quando eu estivesse no mood equivalente para assisti-lo.
E então, agora no início de janeiro, Guga topou assistir ao filme. Aproveitei a deixa, antes que ele librianamente mudasse de ideia, e vimos.
Cara, como diz o título do post, como pude demorar tanto a assistir a esse filme? Já entrou para o meu top 20, ao lado de O segredo dos seus olhos, O labirinto do fauno, Julie & Julia, O Grande Hotel Budapeste, Um conto chinês, Interestelar, Central do Brasil, Quem quer ser um milionário?, Minhas tardes com Margueritte, Oldboy, O carteiro e o poeta. Embora a trama seja muito menos mirabolante do que a dos filmes citados, ficamos sem fôlego ao acompanhar a luta de Dan Blake para vencer a burocracia estatal e conquistar um direito que é seu, algo tão entranhado na cultura brasileira que nem nos damos conta do quão absurdo e abusivo é. 
Mas Blake não se dobra nunca, o que é o grande tempero do filme. É firme sem querer parecer invencível, e não apela para a autopiedade mesmo prestes a isso. Não é artificialmente heroico, como poderia ser em algum longa norte-americano, mas sim justo e solidário. Que poder tem a solidariedade! De novo, uma solidariedade pura, sem vistas a recompensas e elogios. Assim é que o protagonista não pode ignorar as angústias alheias mesmo tendo as suas próprias. Pode parecer que beira o orgulho, mas acredito que tenha mais a ver com ser forte para o outro, estar ali pelo outro. 
Ken Loach conduz brilhantemente esses atores com todo jeito de gente comum, com problemas comuns e aflitivos, de modo que quase podemos transpor a tela e caminhar junto com eles pelas ruas inglesas. E há o humor, esse remédio tão eficaz, que nos faz esquecer um pouco as mazelas e acreditar que, sim, Dan Blake e seus amigos vão conseguir, juntos, vencer a injustiça. 
Mas a vida real está toda ali, e não vemos o final que gostaríamos que Dan tivesse. Sentimos o golpe lispectoriano no estômago, aplicado com soco inglês. Após a mágica cinematográfica, somos devolvidos à nossa pequenez humana - porém, envolvidos numa esperança misteriosa e muda de que o porvir se faz junto com outros pequenos. 

sábado, 26 de dezembro de 2020

Barulhinho bom

Outro dia, assistimos a uma comédia britânica fofa, Questão de tempo, do querido Richard Curtis (Simplesmente amor, Quatro casamentos e um funeral, Notting Hill, Yesterday etc.) com o Bill Nighy e a Rachel McAdams. O protagonista, vivido pelo ator irlandês Domhnall Gleeson, poderia ser filho do Benedict Cumberbatch com o Martin Freeman, só que ruivo. Tudo adorável.
De repente, já ao final, meu marido me sai com essa: "Não tinha um ator negro nesse filme". Realmente não tem - todo mundo é branco, ou louro ou ruivo (só a Rachel McAdams tem cabelos escuros, e ela se refere a eles, num acesso de insegurança, como "too much brown", e também um rapaz que é meio mau-caráter e o chefe indiano meio escroto), ninguém tem problemas com grana, aliás, a família do protagonista tem uma casa maravilhosa na Cornualha, onde costuma tomar chá no jardim. Não há espaço para personagens negras. 
Na verdade, o que mais chamou minha atenção foi meu marido ter indicado isso, até antes de mim. Significa que o barulho que os movimentos anti-racistas estão fazendo surte efeito, é capaz de mudar nossa percepção. Em 2013, ano em que o filme foi lançado, muito provavelmente não acharíamos - me incluo completamente nisso - tão estranha a falta de diversidade do elenco. Hoje é algo inconcebível, como também é bizarro que alguém não ache isso estranho. 
Esse barulho necessário vale para todas as frentes que pregam igualdade e justiça social. Como os galos tecendo a manhã de João Cabral, uma tessitura linda e uma algazarra tão impossível de ignorar que só pode mesmo provocar mudanças, revolucionar uma época, refrescar olhares. 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O mundo está ao contrário e ninguém reparou?

É tanta notícia ruim neste país nos últimos dias que a mente demora muito a serenar para que a gente possa se tornar minimamente produtiva ao longo do dia. Não bastassem as notícias da violenta expulsão das famílias de Campo do Meio, MG, que ocupavam há mais de 20 anos terras da usina falida onde haviam trabalhado, e lá produziam agricultura orgânica e o melhor café da região, do avanço da Covid-19 no país e no mundo, do desmonte incessante da cultura e da educação, da morte de centenas de indígenas por assassinato ou por Covid-19, há essa história horrível da menina capixaba de 10 anos, estuprada pelo tio desde os 6, grávida, que não conseguia abortar porque os médicos se recusaram e depois enfrentou uma turba de fanáticos religiosos, diante do hospital que aceitou fazer o aborto, que chamavam a criança de "assassina". Fiquei tão perturbada desde que soube dessa história, e dos seus desdobramentos que indicam todo nosso retrocesso e fracasso social, que hoje nem consegui trabalhar. Só pensava na criança, assustada, roubada de sua vida, aviltada por alguém da família e por estranhos. Que país, que mundo, que tempo são estes?
Depois de tudo o que temos visto sob a luz atordoante dessa pandemia, vamos seguir sendo os mesmos, sabendo-mas-ignorando as situações gritantes de desigualdade do nosso país? Ou vamos agir de forma efetiva e contundente para evitar que as trevas cubram tudo até não sabermos mais onde estamos nem quem somos?

domingo, 9 de agosto de 2020

Bey, representatividade e skin tones

Daí que um dos grandes assuntos nos últimos dias foi a fala infeliz de Lilia Schwarcz sobre o álbum visual de Beyoncé. Eu nem conheço muito o som de Beyoncé, só estou ciente da sua importância para a representatividade negra ao redor do mundo, do seu papel de diva pop que há tempos substituiu Madonna, do seu trabalho sempre esmerado em canções, clipes e shows. Mesmo assim, quando li a crítica de Schwarcz, achei-a descuidada e arrogante, ao sugerir que a forma como Beyoncé queria representar sua ancestralidade africana estava errada, que ela devia "deixar a sala de estar". 
Ninguém deve negar a importância de Lilia Schwarcz para os estudos sobre escravidão e diáspora africana no Brasil e no mundo. É uma das mais importantes historiadoras contemporâneas sobre o assunto, inconteste. Mas daí percebemos no seu escrito o ranço branco e acadêmico de dizer ao "outro" como ele deve se comportar, como deve se sentir sobre seu lugar no mundo. Como estamos todos acostumados com os papéis dados a negros, mulheres, pobres, gays, causa espanto a reação às falas de quem sempre pôde falar com autoridade, diante do silêncio dos humilhados. Uma reação dos humilhados e também de muita gente que não quer mais coadunar com a injustiça - talvez uma coisa positiva da pandemia? E aí ocorre uma contrarreação, de brancos acadêmicos que se revoltam com os revoltosos - então os brancos não podem falar mais nada? Como assim, crucificar Lilia Schwarcz? Que atrevimento! E não é mesmo muito ruim esse "clipe" da Beyoncé, credo? E essa estampa de oncinha?
Então, depois de ler uma avalanche de críticas de todo lado, fui ver o álbum visual completo (não é só um "clipe", como muitos acadêmicos disseram), no link enviado por meu amigo Marcelo. E fiquei de cara. Quanta beleza, quanto glamour, quanto trabalho realizado com perfeição! Uma narrativa coesa, bem construída, elenco empoderadíssimo, um look mais lindo que o outro, Beyoncé oxunzando geral, conectada à natureza tão diversa da África, arrasando nas coreografias ou simplesmente reinando em seu trono pop. Fiquei apaixonada, querendo saber mais, de África e da obra de Beyoncé. Claro, a África não é só glamour, não é só consumo, não é só tribo. Mas é tão importante que haja uma mudança de paradigma trazida pela arte, que os negros construam sua visão de si, com todas suas nuances culturais, e não mais carreguem o peso de uma visão alienígena, cheia de preconceito.
Interessante pensar que somente por meio da indústria cultural, nesse episódio Bey x Lilia, o debate sobre o racismo sistêmico tenha alcançado a todas as esferas. Porque no Brasil ele acontece todo dia, toda hora. Na última semana, dois rapazes chamados Matheus foram vítimas de racismo: um deles motoboy, agredido por um sujeito também Mateus, num condomínio no interior de SP, o outro, covardemente encurralado por dois homens num shopping no Rio, quando havia ido trocar um relógio que comprara para o pai. Embora revoltantes, os episódios não chamaram tanto a atenção quanto a querela pop, e são tratados como fatos isolados no racista Brasil (mesmo com o ar de parábola que adquirem, com tantos Mateus reunidos).
O termo representatividade já tem sido contestado por alguns intelectuais, como algo que nega a individualidade. Talvez o mesmo que aconteça quando falamos em "nação", agrupando os desiguais e afastando assim o considerado outro povo. De qualquer modo, ainda acho que é o melhor termo para dar voz e rosto a um grupo, reconhecendo justamente sua especificidade e sua importância. Serve para que negros, mulheres, gays tenham voz e direitos e diferenças reconhecidos. Não para os pobres, que necessitam de uma revolução social que os tire justamente dessa condição, que não é identitária  nem atávica como os poderosos querem fazer crer. 
Somente depois de começar a pensar mais profundamente no racismo contra pessoas negras é que refleti sobre o preconceito sofrido por orientais. Nem ouso comparar, porque são graus muito diferentes. No entanto, cresci vendo o padrão branco como correto. Não havia bonecas japonesas - somente aquelas vendidas como souvenir na Liberdade ou trazidas do Japão por velhos parentes -, nada que se assemelhasse a nós. Durante minha infância, fomos poucos na escola. Somente no ensino médio descobri uma multidão de colegas iguais - e que discriminavam os outros, por sua vez. Até em termos de maquiagem, não havia nada muito específico para as peles amarelas. Quando fiz o curso de maquiagem com uma amiga da Bienal, ela descreveu minha pele como "esverdeada", que eu devia evitar usar verde, azul, vermelho. Fui descobrindo que tons assentavam melhor. Outro dia, li uma matéria sobre maquiagem para peles negras, como isso era importante para a representatividade das mulheres negras que não tinham um nude pra chamar de seu - e que uma marca nacional, Dailus, criou uma linha bem ampla de batons e esmaltes veganos cor de pele. Skin tones. Para todas. Me emocionei, também nunca tive.
Bom, fui atrás da Dailus. Comprei alguns batons, ainda não recebi. Mas achei um esmalte da marca na farmácia outro dia. Já amei. Já me sinto representada. Agora estou atrás de lápis de cor com diferentes tons da pele, para redesenhar o mundo enquanto a revolução não vem.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Coração de pai

Nós, mulheres, andamos mais exigentes. Ou melhor, naturalmente exigentes - exigimos o que nos é de direito, sobretudo mais justiça na óbvia diferença entre gêneros. Parece que acordamos de um longo sono, e a maioria de nós já não aceita abusos vindos de todo lado, de chefes, companheiros, familiares, desconhecidos. Claro que isso se reflete também num dos papéis sociais mais tradicionais e santificados/sacrificados, o de mãe, e em sua versão soft, o de pai.
Na minha singela opinião, ser pai deveria ser o correspondente masculino a ser mãe, com todas as responsabilidades que o "cargo" traz. A mãe já sai com bonus track de ter carregado o rebento por nove meses, vai amamentar, ficar exausta, entonces o pai deveria se esforçar por equivaler. Mas nossa sociedade machista já considera que ele equivale, mesmo que pouco faça, que nada faça, ou que faça mal. O pai, muitas e muitas vezes, quando muito, se contenta em fazer um tímido backing vocal.
Por isso admiro os homens que saem da zona de conforto, que abandonam a ideia de que "ajudam em casa", que assumem que são companheiros de fato, pro que der e vier. Já é alguma coisa que se preocupem, mas que se ocupem, ah, isso é realmente revolucionário.
Quando penso em pai, penso, como já disse aqui, em meu avô Antonio, meu avôhai. Como já disse, não precisou ser perfeito para ser pai, só precisou ser, assumir, sentir-se.
Quando vejo a relação de meu marido com seu filho, e como ele cuida dos filhotes da casa (ainda que ser pai e mãe de pet seja infinitamente mais fácil), creio que ele esteja no caminho certo da revolução. Pode ser que caia aqui e ali, coberto pelo bombardeio de contradições do mundo machista em que foi criado, mas ele prossegue.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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