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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Pão, arte, liberdade

De novo, fui assistir à apresentação do Neojiba, abertura da temporada antes da turnê chinesa. Como sempre, lotado, ingressos esgotados, graças à deusa. Mendelssohn, Beethoven, Gershwin, impecáveis execuções, inclusive sem regência, impressionante. Houve participação do coro juvenil, afinadíssimo, mas com uma peça que me impactou pouco, em homenagem à visita do papa João Paulo II. E houve a presença mágica do virtuose francês David Grimal, que tocou um Stradivarius e regeu aquelas moças e rapazes tão talentosos da orquestra. A minha cara estupefacta ao final não me deixa mentir. 
Umas semanas antes, eu tinha assistido em sequência Pão e rosas, de Ken Loach, e Pão, rosas e liberdade, documentário produzido por Malala Yousafzai e Jennifer Lawrence. Na verdade, os dois filmes têm o mesmo título original, Bread and roses, que evoca o lema das sufragistas nos Estados Unidos do início do século XX. Muito adequado o acréscimo de "liberdade" ao título do documentário, porque ele trata da realidade de cerceamento da liberdade das mulheres afegãs com a volta do Talibã após a retirada das tropas estadunidenses. Tanto em um quanto em outro filme são as mulheres que lideram a resistência - trabalhadoras de serviços de limpeza no primeiro, mulheres de todas as classes no segundo. Não são histórias com final feliz, o que muito se explica pela opressão patriarcal sobre todas as mulheres ainda hoje. 
E o que, afinal, Neojiba tem a ver com esses filmes sobre resistências femininas e até mesmo com patriarcado e seus derivados? Ocorreu que, além de eu perceber muito claramente nessa apresentação primorosa que a maioria da orquestra ainda é composta por rapazes, calhou de uma colega da pós comentar que parou de tocar porque teve de fazer a escolha entre trabalhar e tocar, entre fazer pós e tocar, entre demandas familiares e tocar. Claro que quando estamos falando de jovens periféricos o corre é para todos - mas para as garotas é sempre um corre a mais. Até mesmo em um ambiente supostamente mais saudável os efeitos de um machismo sistêmico se fazem sentir. 
A arte, claro, nos permite sonhar e soar. Seguimos todas, porém, querendo meios de viver livres e com dignidade em todas as esferas. 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Bugonia, misoginia, câmara de eco e Chico Tosco derrapando bonito

Fui com Guga assistir ao último filme de Yorgos Lantimos, Bugonia, com Emma Stone e Jesse Plemons, brilhantes, e o surpreendente Aidan Delbis, um jovem ator autista que rouba a cena muitas vezes. O roteiro reúne teoria da conspiração, câmara de eco, misoginia, fascismo, extrema violência em uma parábola de nosso tempo. Não escapa a ninguém minimamente atento que a treta com a personagem de Emma Stone só acontece por ela ser mulher, e uma mulher com poder. 
Calhou de pouco antes de assistirmos ao filme Chico Tosco ter atacado de novo, primeiro em uma entrevista infeliz na infeliz Veja, depois atacando a atriz Alice Carvalho por ter comentado que ele "só falou bosta". Tosco disse que Alice é sempre "agressiva" e então, como argumento de sua tosquice misógina, desfilou alguns títulos que ele publicou. Dessa vez, a galera caiu sobre ele, e o pobre teve de se retirar das redes, mas deixou acólitos e defensores em seu lugar. 
Ao mesmo tempo que me desanima repetir as mesmas explicações, que não existe esse negócio de que toda "opinião" é válida, porque isso é flertar com o fascismo e a "liberdade de expressão" apropriada exatamente pelos fascistas, sinto um ventinho de esperança quando vejo mais pessoas, mulheres e alguns homens, que bom, clamando que a herança do patriarcado é inadmissível e que não somos nós, mulheres, que temos de fazer a lição dos homens que se dizem injustiçados por uma nova realidade - justamente, a de luta contra a opressão, seja ela qual for. 

https://f.i.uol.com.br/fotografia/2025/11/26/17642026026927986ae3c77_1764202602_3x2_md.jpg

domingo, 20 de julho de 2025

Descasar também é coisa de cinema

Assisti outro dia a um filme indicado por Dani, Mon roi, da diretora francesa Maïwenn. Poderia dizer que é um filme de terror - Georgio, personagem de Vincent Cassel, é um restaurateur charmoso e abusivo que se relaciona com a advogada Tony, vivida por Emmanuelle Bercot. Ele decide tudo no relacionamento: ter um filho, o nome da criança, deixar a namorada/mulher no apartamento enquanto vai morar em outro onde recebe a ex. Georgio é claramente tóxico, mas sedutor, se faz de vítima, um puer aeternus típico, e Tony não consegue se desvencilhar, e até o fim ficamos presas ao filme, sem fôlego, à espera de que ela consiga ir embora. Terrível! Há quem diga que Maïwenn se inspirou na sua história com Luc Besson. 
Isso me fez pensar em outros filmes sobre términos difíceis de casamento após relacionamentos tóxicos. História de um casamento, de Noah Baumbach, traz o casal Nicole e Charlie, vividos pelos charmosos Scarlett Johansson e Adam Driver, vivendo o fim do casamento de forma progressivamente dolorosa. Nicole também abre mão de seus interesses em prol da relação - ela, uma atriz em ascensão, deixa tudo para cuidar da família com o marido diretor, que não abandona nem um milímetro de sua carreira. A advogada Nora, interpretada pela ótima Laura Dern, ajuda Nicole a enxergar a realidade. 
A esposa, filme de Björn Runge, traz Glenn Close no papel de Joan, mulher de Joe, premiado escritor que acabou de ser premiado com o Nobel de Literatura. É exatamente a ocasião em que Joan revê seu casamento, sua dedicação irrestrita que a levou a suplantar seu próprio talento e tornar o marido um escritor reconhecido. E decide abandonar o marido, no meio da cerimônia de premiação. Descobrimos, então, que era ela quem escrevia os livros de Joe, que também tem um ego gigante, como os companheiros das outras películas. 
Acabei hoje revendo A lula e a baleia, também de Noah Baumbach. Impressionante como esse filme de 2005, vinte anos portanto, é totalmente atual. Não há nada nele que possamos chamar de "datado", o que, no fundo, é triste: o machismo, a cultura patriarcal, o marido que manipula, que coloca para baixo para não se sentir inferior e que não suporta a ascensão da mulher - de novo, um casal de escritores. A personagem de Jeff Bridges, o marido, ainda procura alienar os filhos - o mais velho, que busca aprovação paterna, cede, mas o pequeno saca melhor a dinâmica familiar. Walt, o mais velho, tem o pai como exemplo e, ao ser desmascarado por usar uma música do Pink Floyd como sua, diz que sentia que poderia ter escrito a música - algo que seu pai provavelmente diria, no alto de sua arrogância. As mulheres são rotuladas por Walt e seu pai, homens que não amam mulheres. Mas Walt pode ter sua redenção, depois de se lembrar de ocasiões em que teve momentos especiais com a mãe e o pai nunca estava presente. E a mãe, Joan (outra Joan), vivida por Laura Linney, também já deu seu passo rumo a uma vida autônoma. 
A questão nesses filmes não é o dano do casamento em si. Todos eles tratam, na verdade, de homens narcisistas, que colocam as parceiras como apêndices, apoios de seu sucesso, e só. São incapazes de partilha, de se alegrar com as conquistas alheias. Cada vez mais temos visto a realidade de exaustão feminina nas telas - mas, diferentemente de Kramer vs Kramer, em que a mulher é retratada como a vilã que abandona o filho e o pai que, afinal, tem que fazer o básico e é visto como herói. 
Mesmo com tanto ultraconservadorismo hoje, seguimos dando um passo a cada dia, sem interromper a caminhada. Não importa quando, sempre é tempo de fazer o melhor. 

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Questões de classe(s)

Há alguns dias, fui assistir ao novo filme de Juliette Binoche, Entre dois mundos, do diretor francês Emmanuel Carrère. De cara, me lembrei de Dias perfeitos de Wim Wenders, por Carrère mostrar a rotina de trabalhadoras na limpeza de banheiros e cabines de navio. Claro, são duas propostas muito diferentes, o longa de Wim Wenders se assemelha a um haikai, tamanha sua capacidade de captar a poesia do cotidiano. O filme de Carrère pouco tem de poético, leva-nos num moto-contínuo de trabalho exaustivo junto com as mulheres contratadas por agências para limpar a sujeira alheia enquanto lidam com seus próprios dramas, a maioria deles produzido pela falta de recursos materiais e emocionais. Embora a gente torça para um real envolvimento da personagem de Binoche com suas colegas, a realidade fala mais alto, e ela não sobe novamente na balsa com elas depois de ter conseguido lançar seu livro, um sucesso, aliás, justamente a respeito daquelas trabalhadoras. A classe continua a determinar as distâncias, apesar do interesse "antropológico" da protagonista. 
Como se trata de um filme sobre as classes operárias, poderíamos lembrar também de Ken Loach, quase um E. P. Thompson das telas, outro britânico que traz os desvalidos para o centro da cena, nunca de forma redentora, mas dolorosamente solidária e sem atravessadores de ocasião. Mas, mesmo com a dureza da vida proletária traduzida pelos seus não atores, Loach mostra, como Carrère, que existem mesmo dois mundos separados, não mais proletários e patrões, mas explorados e exploradores. E ainda há quem queira reduzir tudo a questões de "identitarismo", quando o que temos é uma minoria interessada na manutenção da miséria para não abrir mão de seus privilégios. 
Que a arte, seja a de Carrère ou a de Loach, nunca nos deixe esquecer do que se trata.  

https://rollingstone.com.br/media/_versions/2025/05/binoche-conduz-reflexao-sobre-etica-e-invisibilidade-no-drama-entre-dois-mundos_widelg.jpg

domingo, 4 de maio de 2025

Olha a veia que salta, olha a gota que falta

Fui assistir no feriado do trabalhador à montagem de Gota d'água da Companhia Baiana de Teatro Brasileiro, no Teatro Martim Gonçalves. Outro dia, houve a Medeia negra no campus de Ondina da UFBA, mas não consegui me programar para assistir. O fato é que, para sorte dos que amam o teatro, a heroína trágica de Eurípides não perde nunca sua importância. 
Embora já tivesse assistido a Medeia, com Juliana Galdino em 2005, no SESC Belenzinho, e no filme de Pasolini, com Maria Callas, eu ainda não tinha visto, mesmo conhecendo o texto de Paulo Pontes e Chico Buarque, nenhuma montagem de Gota d'água. A atuação de Evana Jeyssen é visceral, como se espera de Joana-Medeia, mas é quase desesperada, no limite, sem perder, contudo, o controle corporal impressionante, como bem pontuou Liu. Evana e Augusto Nascimento dividem o palco, alternando os papéis de Joana e Jasão com o Coro de vizinhos e Creonte, num cenário enxuto, um círculo de areia, que é praia, rua, casa, tempo que escorre dos baldes-ampulhetas espalhados pelo urdimento, mas principalmente arena (feliz escolha etimológica) onde se dão os confrontos desamorosos. 
Fiquei tão mexida que fui rever Callas no filme de Pasolini e acabei encontrando uma versão japonesa, do diretor Yukio Ninagawa, encenada no Epidauro, imagine, na pura tradição do kabuki, portanto apenas com atores do sexo masculino. 
A trama da mulher que sofre por ser abandonada em um país estrangeiro depois de ter dado tudo ao amante tem muitas camadas, como dizemos hoje: ela é estrangeira duas vezes - depois de deixar Cólquida, a terra natal, para ficar com Jasão em Iolco e, então, quando fogem para Corinto depois de serem perseguidos pelos súditos de Pélias, rei de Iolco e tio de Jasão. Medeia é hostilizada por ser forasteira e por suas práticas de magia, que teriam ajudado Jasão a conseguir o Velocino de Ouro e a matar Pélias, que disputava com o sobrinho o trono de Iolco. Jasão, embora ele também estrangeiro, arranja casamento com a filha do rei de Corinto, Creonte, e abandona Medeia com seus dois filhos. Creonte exige que ela vá embora, ou seja, que siga sem lugar no mundo, desterrada. O final, nós conhecemos, e sempre há o desconforto, justificado, diante da decisão de Medeia, que tira de Jasão a única coisa que ela lhe dera que ainda o interessava - os filhos, a dinastia.
É um fato raro que mães matem os filhos - embora aqui e ali haja uma notícia assim, nada que se compare à quantidade assustadora de homens que matam ex-mulher e filhos -, e Medeia não trata apenas disso, embora seja o que nos choque à primeira vista. Para muitos, talvez essa trama ainda seja apenas uma reação extrema da mulher traída. Hoje, mais que nunca, o que vejo nela é a opressão feminina em pleno "século do ouro" ateniense. Impossível ouvir Chico Buarque, já que o mencionei, cantando "Mulheres de Atenas" e não ter um ranço dos atenienses machistas, que dominavam as mulheres como também os estrangeiros e os escravos, nenhum deles visto como "cidadão". Impossível assistir a Medeia e não pensar em como, até hoje, mulheres, por mais poderosas que sejam, dependem de que os poderosos de fato ditem os rumos de sua vida, limitando o exercício de sua cidadania. Na verdade, uma gota da raiva de Medeia/Joana, sem sequer derivar para a violência, é o suficiente, vem a calhar para mudar a realidade das mulheres. A gota que falta.

https://aefestival.gr/wp-content/uploads/2018/05/medeaea.jpg 

https://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/03/medeia.antunes.jpg

sábado, 6 de julho de 2024

A delicadeza afrontada em "Close"

Desde que soube da existência de outro filme de Lucas Dhont, o mesmo diretor de Girl, fiquei de olho em que streaming ele apareceria. Demorou, mas em maio Close estreou no Netflix. Embora os dois filmes sejam bem diferentes, há em ambos a dor de quem quer ser apenas quem é mas encontra a intolerância e o preconceito pela frente, nos dois casos, chocantemente, em outros jovens que estão apenas começando a viver. 
Close mostra a amizade entre dois garotos de 13 anos numa cidade bucólica da Bélgica. A questão não é saber se se trata de uma relação amorosa; o que se vê é uma inocência patente na maneira como os amigos se tratam um ao outro. Até poderia se tornar uma história de amor, mas não saberemos jamais, tudo porque a violência da intolerância nascente vai abreviar essa história. A possibilidade de vida e amor é minada pelo ódio herdado de uma cultura machista. O título se refere, de antemão, a um comentário que uma colega faz acerca da relação de Leo e Remi, de que eles estavam sempre "perto", sempre juntos, se isso queria dizer que eles tinham um "relacionamento". Leo fica incomodado, pela primeira vez - nunca havia pensado nisso. Remi, uma alma de artista, nem parece se aperceber do comentário maldoso, mas sofre horrivelmente com o afastamento do amigo. 
Mais uma vez, Lucas Dhont dirige de forma magistral seus atores, a ponto de nos partir o coração. Mais uma vez, a suavidade das personagens é engolfada pela tragédia. Mas isso não é motivo para não assistirmos ao filme, pelo contrário - é a oportunidade que a arte nos dá de enxergarmos o outro, de lhe emprestarmos a nossa pele e nos deixarmos afetar, sinal indiscutível de que estamos vivos.
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sábado, 27 de abril de 2024

As novas minas no cinema

No final do maravilhoso curso do Paulo Henrique Fernandes Silveira na FEUSP, escrevi sobre a imagem das mulheres no cinema, passando de enfeites e coadjuvantes, durante muito tempo, a protagonistas das narrativas nos últimos anos. Parece que agora demos mais um passo nas películas, no sentido de as protagonistas soltarem o verbo contra o machismo. 
Só para ficar no exemplo dos filmes oscarizados deste ano, trago Barbie, Pobres criaturas e (eu acrescento) Anatomia de uma queda. Não fui a única a perceber essa relação, claro, especialmente entre os dois primeiros, puro deboche antimachista, e houve quem relacionasse o terceiro ao ótimo História de um casamento, como se a esposa do filme francês, vivida por Sandra Hüller, tivesse tido a coragem de dar as respostas que a personagem de Scarlett Johansson não conseguiu ao vomitório de insatisfações do marido. Eu colocaria os três indicados deste ano na mesma chave de leitura, com protagonistas que vivem sua vida sem se render à cartilha do patriarcado e, com isso, provocam espasmos e histeria dos machos de plantão - Mark Ruffalo chega mesmo a rolar no chão diante da liberdade plena da Bella Baxter de Emma Stone. 
Em outra postagem, comentei sobre Barbie em relação a outros filmes que traziam símbolos da infância, Indiana Jones e Asterix. Não tinha, contudo, enfatizado o discurso feminista, o ótimo texto, a fala exemplar da personagem de América Ferrera sobre tudo o que é exigido de uma mulher, nada menos que a perfeição e mais, se possível for. 
Com humor ou com tragédia, os três filmes trazem as mulheres questionando o patriarcado, arregaçando as mangas contra ele e provocando reações masculinas contrárias, dentro e fora dos filmes. Mas o que mais me agrada é que nenhuma das protagonistas se culpa por fazê-lo, algo que muitas de nós ainda precisam aprender. 

A perfeição e a poesia de "Dias perfeitos"

Fazia muito tempo que eu não via um filme de Wim Wenders, até porque ele realmente deu uma sumida do cinema ficcional. Estava mais na vibe dos documentários, como o ótimo Sal da terra, sobre a obra de Sebastião Salgado, e mais uma meia dúzia sobre diversos temas ligados a cultura. Mas em mim ficou para sempre a impressão deixada por Asas do desejo e Tão longe, tão perto
Então, de repente, me aparece esse Dias perfeitos, feito no Japão, em Tóquio, para ser mais exata. Em alguns momentos, me lembrou Murakami, mas é Wim Wenders mesmo, pura poesia na luz, nos silêncios e na trilha sonora em fitas cassete. O protagonista, o Sr. Hirayama, trabalha limpando banheiros públicos em Tóquio. Há uma repetição da rotina do personagem ao longo do filme, mas as pequenas variações, encontros, modos de olhar, são profundas mesmo sem provocar grandes efeitos dramáticos na narrativa. Hirayama, vivido pelo excelente Koji Yakusho, quase não fala, ou fala somente o necessário, mas ele observa tudo, experimenta a vida por meio da sua observação silenciosa.  
Claro que é um encantamento à parte conhecer, junto com ele, a vida cotidiana em Tóquio, e como a tecnologia nipônica está nos banheiros públicos, muitos deles enriquecidos com elementos de design. Mas há uma beleza igualmente nipônica na maneira como Hirayama realiza suas tarefas, nos lembrando que não há trabalho mais importante que outro e que limpar um banheiro é tão fundamental quanto o trabalho de um banqueiro. Aliás, logo percebemos que limpar banheiros é uma opção de Hirayama, mas por que ele optou por isso? Há uma sugestão de qual seja a razão quando aparecem na história a sobrinha e a irmã do protagonista. 
Outro dia, li um comentário do Ivan Martins sobre o filme, alertando para a aparente perfeição da vida de Hirayama que esconde o medo da vida em si. É muito provável, é algo que muitos de nós fazemos, tentar ter controle do cotidiano para não vermos o trem descarrilar, provavelmente porque já o vimos antes. Até onde conseguimos ir nesse controle? Hirayama, que enxerga o sublime no ordinário, vê sua paz ameaçada com a irmã, a sobrinha, o colega folgado, o suposto pretendente de seu interesse amoroso, a dona do restaurante (que interpreta lindamente, em japonês, "House of the rising sun", da banda The Animals). E tudo sucede no filme como sucede conosco, uma sequência de acontecimentos diários que são tirados do eixo pelo outro, que é inferno e paraíso, paraíso e inferno. A única certeza é que não conseguimos nunca ser os mesmos, depois do descarrilamento, dessas "falhas na Matrix", para mencionar outra película, ainda que os dias pareçam perfeitamente iguais.   

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Continue a nadar

Eu ia postar somente sobre o filme Nyad, com as maravilhosas Jodie Foster e Annette Bening, mas calhou de ontem de eu ter ido ver Ritchie na Concha Acústica e acho que as duas coisas se complementam perfeitamente. E também ter assistido, num outro dia, ao ótimo Quantos dias, quantas noites, documentário de Cacau Rhoden sobre finitude e velhice. 
Nyad é a história da nadadora Diana Nyad, que, depois de amargar na juventude o insucesso da travessia marítima de Cuba à Flórida, resolve, com mais de 60 anos, realizar o feito. Annette Bening nos arrebata no papel da nadadora obcecada e algo intratável, sobretudo por se mostrar na idade que tem - ela, que foi uma diva do cinema e se mostra ainda melhor sem o disfarce da beleza juvenil. Ela é escudada pela talentosíssima Jodie Foster, que vive sua amiga e treinadora - e vemos que o filme tem como pano de fundo uma competição consigo mesma, mas é muito mais que isso, é sobre amizade, solidariedade, afeto, confiança, envelhecimento. 
O documentário Quantos dias, quantas noites trata também do envelhecimento, tanto no seu aspecto de longevidade, uma realidade a que cada vez mais se assiste no mundo todo (apesar da fome, crises humanitárias, guerras), quanto no de aceitação da finitude - sim, estamos indo longe, mas uma hora o caminho acaba. E o que fazemos com essa verdade inviolável? Há vários momentos tocantes no documentário, mas eu destacaria dois, o da jovem ativista de cuidados paliativos AnaMi, que aceita sua finitude na luta contra o câncer, se despedindo sem desesperos da vida (ela morreu poucos dias depois de assistir ao doc pronto), e o de Mona Rikumbi, bailarina cadeirante de cerca de 50 anos que celebra a vida de maneira contagiante. Ambas mostram, para além da relação com longevidade e finitude, como se relacionam com o que a vida lhes trouxe. A lição parece simples, mas é preciso que se repita sempre: se tiver que descascar cebolas, descasque cebolas. Ou, uma vez no mar, continue a nadar - já nos ensinou a peixinha Dory. 
Quando vi aquelas milhares de pessoas, a maioria entre 50 e 70 anos, lotando a Concha Acústica para ver Ritchie, vi que estavam não só em busca da nostalgia das canções de 40 anos atrás, mas presentes numa experiência de grande alegria, cantando, dançando, recordando o bom do amor. Lá estava Ritchie, do alto dos seus 71 anos, ainda fazendo o que sabe fazer tão bem, embalando nossas histórias, mas com novas camadas, como a homenagem feita a várias mulheres, entre elas Zilda Arns, Angela Davis, Maria da Penha, Marielle Franco e Rita Lee. E quando a gente vai atrás dessa experiência de alegria percebe que também continua a nadar, mesmo achando que não sabe. 

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

"Girl" ou o quanto desconhecemos a dor do outro

Poucas vezes vi um filme tão contidamente doloroso como Girl, do jovem diretor belga Lukas Dhont.  Apesar das críticas ao fato de o ator protagonista não ser uma menina trans, mas um garoto cisgênero, a performance desse jovem, Victor Polster, é irretocável, no sentido de nos levar junto na sua travessia de luta por ser quem é, sofrendo silenciosamente violências grandes e pequenas numa sociedade aparentemente progressista como a belga. Polster é bailarino, então suas cenas de dança são vertiginosas na busca da perfeição e de um lugar naquele mundo. Tem um quê de Cisne negro nessa vertigem do movimento e também na busca pela transformação - no caso de Girl, a transformação da protagonista em si mesma, naquilo que nasceu para ser, uma mulher, e uma mulher que dança.
Neste momento preciso, no Brasil, a comunidade LGBTQIA+ sofreu um baque na garantia de seus direitos. Justamente os direitos de existirem, de constituírem família, de simplesmente serem. Apesar da vitória de Lula, sabíamos que a luta não findaria, e a ultradireita continua seus ataques obscenos contra os direitos humanos. Apesar da insipiência argumentativa, eles detêm o capital financeiro que direciona as leis. E o mundo parece cada vez mais do avesso quando vemos parte da humanidade zelosa em promover a infelicidade alheia. 
Isso tudo, os ataques reais e os ataques que a personagem de Girl sofre (mesmo com todo o apoio familiar, as jovens bailarinas exigindo que ela mostre seu membro, e toda a pressão para que não se misture às outras meninas, chegando ao fim trágico da mutilação), me fazem lembrar da fala de Rubem Alves no documentário Eu maior, sobre a tragédia grega e a compreensão de Nietzsche acerca dela, de que os gregos não se entregavam à inevitável tragédia da vida porque cultivavam a beleza. Hoje está mais difícil pensar na beleza em meio ao horror cotidiano, até porque a arte e a natureza, portadoras dessa beleza, também têm sido violentadas. 
Talvez por isso tudo a dor silenciosa em Girl soe como a mais perfeita tradução para esse sofrimento que muitas e muitos de nós não conhecemos, mas que justamente por isso não devemos ignorar. Nisso é que residem a empatia e a verdadeira compaixão, e são elas que nos fazem verdadeiramente humanos.
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terça-feira, 3 de maio de 2022

Para assistir de lencinho na mão

Os filmes Medida provisória, de Lázaro Ramos, e Lunana: A yak in the classroom, do butanês Pawo Choyning Dorji, e a série Julia, da HBO, aparentemente não têm nada em comum. 
Mas têm. Lázaro e Pawo, por exemplo, estreiam como diretores de longas com esses títulos. O filme do butanês gira em torno de um professor, enquanto o de Lázaro se inicia com uma professora da vida real, dona Diva Guimarães, que o ator e diretor conheceu na Flip e que o emocionou até as lágrimas com seu depoimento de superação de mulher negra que escolheu o conhecimento para lutar contra o preconceito e abrir caminho para outras gerações (no filme, ela seria a primeira brasileira negra a receber uma compensação financeira pela escravização de seus antepassados). Tanto os dois filmes quanto a série sobre a famosa apresentadora de TV que levou a culinária francesa aos lares norte-americanos nos lembram como é importante ter uma rede de apoio, seja para realizar um sonho, ensinar-aprender ou fazer a revolução. E todos os três - filmes e série - exigem que tenhamos um lencinho a postos porque, sim, vão nos fazer chorar em algum momento.
No caso de Lunana, o protagonista, professor à força, já que na verdade quer ser cantor, é escalado, por castigo, para a mais remota vila do Butão, onde encontrará as crianças mais fofas da Terra, sobretudo a pequena capitã do grupo, Pem Zam, que eu, se pudesse, escolheria como filha. Todas as personagens - o prefeito, o guia, a cantora, as crianças, o protagonista ranzinza, sua avozinha - são adoráveis. A figura do iaque não é nada gratuita, uma vez que esse boi selvagem é de extrema importância para aldeias como aquela, e a lenda local do pastor que canta para seu iaque perdido se encontra com o jovem professor, um iaque na sala de aula. Impossível conter as lágrimas diante de tanta beleza singela.
Medida provisória é um filme que nos faz rir e chorar ao mesmo tempo. As situações cômicas se mesclam às absurdas e revoltantes, e a sensação de estupefação por sabermos que tanto, tanto daquela distopia é real nos toma o tempo todo que dura o filme. Tive vontade de sair gritando em alguns momentos, o peito chegando a doer de aflição, mesmo o filme não se pretendendo triste. Não tem redenção, ainda bem, porque nem cabe ali, mas tem esperança, tem força, tem união. E a gente precisa tanto!
Por fim, a série sobre Julia Child. Depois que se assiste a Meryl Streep no papel da apresentadora, parece ser impossível que alguém a supere. Nem se trata de superar, mas de trazer uma interpretação mais doce e sexy de Julia Child: é o que a inglesa Sarah Lancashire faz lindamente. Não sei se era sua intenção, mas ela nos seduz. Ela e Paul (David Hyde Pierce) nos seduzem, como um casal afiadíssimo, cúmplices até o fim, algo que Meryl Streep e Stanley Tucci haviam entregue no filme de 2009, mas com um pouco menos de desejo. A gente chega ao fim de cada episódio querendo um amor como aquele, amor-sexo-amizade na medida. E tem sedução extra no episódio sobre pães: só quem faz pão sabe a emoção que é tirar do forno um pão bonito. Muito, muito maior que a de fazer um prato difícil que fica delicioso - o pão já nos diz a que veio na saída do forno, se abriu pestana, se caramelizou, se faz toc-toc ao bater no fundo. Mas antes também, quando depois de medir com exatidão ingredientes, misturar e sovar, pomos a massa a fermentar. E depois, se, ao cortar, sentimos a crocância da casca e imediatamente, em seguida, a maciez do miolo, o cheiro de nozes, os alvéolos abertos. E ainda a manteiga derretendo, e todo o sabor explodindo na boca, extasiando as papilas. O pão que dá certo é amor-sexo-amizade na medida, um milagre. Um milagre. 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

A urgência de Almodóvar e Campion nos dias de hoje

Uma das poucas certezas que tenho na vida é que amo Pedro Almodóvar. Pode até haver um filme dele que acho mediano, mas, de modo geral, no cômputo final, amo seu trabalho. Sempre me surpreendo, feliz, com as camadas que vou desvendando a cada película. Adoro as nuances hitchcockianas mais coloridas de seus closes e recortes, suas trilhas dramáticas ou tropicalmente alegres, mas principalmente suas personagens tão humanas e suas tramas profundas por mais corriqueiras que pareçam. Achei que não era possível amar mais, mas acabo de ver Madres paralelas, com Penélope Cruz. O feminismo, sempre presente na obra de Almodóvar, aparece devidamente repaginado, com questões LGBT urgentes, maternidade, estupro, identidade e a luta principalmente das mulheres para que a memória da violência não se perca - caso do reconhecimento dos corpos enterrados em uma cova de um povoado, nos primeiros dias da Guerra Civil (para mim, desde sempre, um período histórico de grande interesse). Absolutamente necessária hoje a fala de Janis, personagem de Penélope, para a jovem Ana (Milena Smit), de que ela deveria saber de que lado estava sua família durante a guerra e que esta não cessaria enquanto os corpos dos mais de 100 mil desaparecidos ao longo do regime franquista não pudessem ser enterrados por seus familiares. Aquele calor no coração que o chamado por justiça provoca, ai. Mas tenho certeza de que muita gente hoje em dia vai detestar esse chamado por justiça e liberdade de Almodóvar, como detestará também o filme de Jane Campion com 12 indicações ao Oscar, o maravilhoso Ataque dos cães
No caso de Campion, cria-se uma expectativa acerca da temática de seu filme, aparentemente um faroeste, porque o filme é ambientado em Montana, na verdade Nova Zelândia. Tudo parece ser, mas não é. O título em português irritou os não entendedores - o original é The power of the dog, homônimo do romance de Thomas Savage. Embora sim, o nome em inglês se relacione com a passagem bíblica apontada por Peter, personagem do excelente Kodi Smit-McPhee, não se perde em nada a metáfora do cão-demônio que ameaça a paz do casal Rose e George, vividos lindamente pelo casal na vida real Kirsten Dunst e Jesse Plemons (um dos meus atores favoritos no momento) - aliás, que cena mais delicada do mundo a de Rose e George tomando chá e dançando na planície! Não preciso nem comentar o trabalho do querido Benedict Cumberbatch, que tem a mesma habilidade de seu conterrâneo Ralph Fiennes para expressar um sofrimento arduamente contido. Se em Madres paralelas vemos as mulheres prontas para tudo - para lutar, para amar, para pedir ajuda, para enfrentar as consequências da verdade, seja qual for -, em Ataque dos cães, assistimos ao mundo machista engolindo a si mesmo por não aguentar a claridade ofuscante da verdade. 
Como dois filmes tão diferentes podem ter coisas em comum? Mais ainda: por que ambos podem ser tão importantes nos dias de hoje? A escrita do desejo proibido de Campion encontra a liberdade de ser de Almodóvar, e os dois caminham na busca da verdade, esse bem tão vilipendiado hoje, deformado a serviço de impostores, intolerantes, covardes. Porém, é importante que se diga que, embora Campion e Almodóvar lancem luzes sobre o obscuro, cabe somente a nós vermos. 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Marighella, bordado e a necessidade de mais cor e poesia para a luta

Li há alguns dias um texto ótimo da sempre ótima Ana Paula Xongani sobre o filme Marighella, dirigido por Wagner Moura e por fim disponível nos cinemas brasileiros após dois anos de boicote descarado do genocida governo atual. 
Não bastasse o interesse na figura de Marighella, ainda havia a questão de honra de assistir ao filme boicotado pelo Bozo e de formar parte da resistência ao desgoverno e ao desmonte das políticas sociais no país. Eu gostei muito da atuação de Seu Jorge como o destemido líder revolucionário baiano, que eu conheci dos célebres livros de Jacob Gorender e frei Betto, dos relatos de meu primo Takao e da poesia do próprio Marighella. A visão que eu tinha do líder da ALN era de um cara mais incisivo em tudo, um Ogunzão à frente da batalha (mas daí descobri que ele é de Oxóssi, um orixá caçador, mas mais low profile, estratégico, menos atirado). 
Xongani chama a atenção, contudo, para o fato de não se falar tanto do lado poético de Marighella, de todos os camaradas brancos serem heroificados e de tudo descambar para muita violência no filme - sim, acaba sendo um filme de ação e violento, embora não de uma violência gratuita, mas a que temos em mente quando falamos da ditadura brasileira dos anos 1960-70. Imagino que isso se deva a uma escolha do Wagner Moura, de enfatizar uma história que corre o risco de cair no esquecimento. Mas concordo com ela de como essas escolhas acabam por associar não só à galera de esquerda a violência da guerrilha urbana, mas também reiteram a violência associada às pessoas negras - e não era ele o líder da galera que assalta bancos e aterroriza os cidadãos de bem? As demais personagens negras, mulheres, por sua vez, pouco destaque têm na história. OK, há uma licença poética de transformar os freis Ivo e Fernando, da Livraria Duas Cidades, no pastor Henrique Vieira, que aproveita uma deixa para falar do Jesus histórico, provavelmente de pele escura. 
Depois de ler o texto dela, me ocorreu que uma figura importante como Takao não tenha sido mencionado. Sempre me chamou a atenção um revolucionário oriental no Brasil. E ele, que estava à frente do GTA, não está no filme nem mesmo com outro nome, como acontece com Joaquim Câmara ou com Sérgio Paranhos Fleury. Ainda não terminei de ler a biografia que deu origem ao roteiro para saber se Takao aparece na história, mas fiquei pensando se isso não tinha a ver com questões de pele também. Sei lá, me ocorreu.
Calhou que, em meio ao bordado, estava também montando minha paleta de cores de pele para representar esse Brasil tão pouco branco, tão mais mestiço. Como fazem falta, em todo tempo, a cor e a poesia para fortalecer as lutas diárias por igualdade, respeito e justiça.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Como demorei tanto a assistir "Eu, Daniel Blake"?

Eu, Daniel Blake, filme de Ken Loach de 2016, já estava na minha lista de "assistíveis" na Netflix desde que entrou no catálogo do streaming, há uns dois anos. Sempre que Guga me perguntava sobre o que eu queria assistir, eu sugeria o título, mas acabava não emplacando diante do desinteresse do marido. Pessoalmente, eu achava que o filme era bastante dramático e sério, e também fui deixando-o para o final da lista, para quando eu estivesse no mood equivalente para assisti-lo.
E então, agora no início de janeiro, Guga topou assistir ao filme. Aproveitei a deixa, antes que ele librianamente mudasse de ideia, e vimos.
Cara, como diz o título do post, como pude demorar tanto a assistir a esse filme? Já entrou para o meu top 20, ao lado de O segredo dos seus olhos, O labirinto do fauno, Julie & Julia, O Grande Hotel Budapeste, Um conto chinês, Interestelar, Central do Brasil, Quem quer ser um milionário?, Minhas tardes com Margueritte, Oldboy, O carteiro e o poeta. Embora a trama seja muito menos mirabolante do que a dos filmes citados, ficamos sem fôlego ao acompanhar a luta de Dan Blake para vencer a burocracia estatal e conquistar um direito que é seu, algo tão entranhado na cultura brasileira que nem nos damos conta do quão absurdo e abusivo é. 
Mas Blake não se dobra nunca, o que é o grande tempero do filme. É firme sem querer parecer invencível, e não apela para a autopiedade mesmo prestes a isso. Não é artificialmente heroico, como poderia ser em algum longa norte-americano, mas sim justo e solidário. Que poder tem a solidariedade! De novo, uma solidariedade pura, sem vistas a recompensas e elogios. Assim é que o protagonista não pode ignorar as angústias alheias mesmo tendo as suas próprias. Pode parecer que beira o orgulho, mas acredito que tenha mais a ver com ser forte para o outro, estar ali pelo outro. 
Ken Loach conduz brilhantemente esses atores com todo jeito de gente comum, com problemas comuns e aflitivos, de modo que quase podemos transpor a tela e caminhar junto com eles pelas ruas inglesas. E há o humor, esse remédio tão eficaz, que nos faz esquecer um pouco as mazelas e acreditar que, sim, Dan Blake e seus amigos vão conseguir, juntos, vencer a injustiça. 
Mas a vida real está toda ali, e não vemos o final que gostaríamos que Dan tivesse. Sentimos o golpe lispectoriano no estômago, aplicado com soco inglês. Após a mágica cinematográfica, somos devolvidos à nossa pequenez humana - porém, envolvidos numa esperança misteriosa e muda de que o porvir se faz junto com outros pequenos. 

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Viola, Chimamanda e o racismo nosso de cada dia

Por estes dias, li uma declaração de Viola Davis sobre sua infeliz participação no filme Histórias cruzadas. Já escrevi sobre este filme aqui - eu gostei muito da ideia de solidariedade, da união que faz a força,  da compaixão, mas não dá para ignorar o argumento do branco (no caso, branca) salvador. Somente a personagem de Emma Stone para dar voz às pobres e exploradas empregadas negras - e só porque ela é também uma desajustada, que nem esperava fazer "tanto assim" pelas outras mulheres. 
Viola tem toda razão de dizer que se arrepende desse papel, apesar do sucesso do filme. Porque é como se participasse de uma farsa, a de dizer que está tudo bem entre brancos e negros, que o racismo não existe, mal existiu algum dia. Hoje, que tenho lido e aprendido muito mais sobre racismo sistêmico, por exemplo, ouvindo o excepcional professor e advogado Sílvio Almeida, só posso apoiar sua postura e até gostar um pouco menos do filme, ainda que as atuações  de Viola e de Octavia Spencer sejam magistrais. 
Além de estar atenta ao que dizem meus (poucos) amigos negros, sempre procurando rever minhas falas e atitudes para não replicar mais racismo e, pelo contrário, combater as atitudes racistas, tenho lido autoras negras. Quer dizer, vinha lendo mais MULHERES, e agora mulheres NEGRAS. Além dos socos no estômago de Toni Morrison - que já conhecia de Jazz e, recentemente, do terrível The bluest eye -, só tenho a me encantar com a jovem e prolífica Chimamanda Ngozi, de quem já li Hibisco roxo, Sejamos todos feministas e, agora, Americanah. 
Se em Hibisco roxo a protagonista fala de uma realidade quase tribal eivada de fé e violência, quase como se contasse uma história oculta atrás de um véu, em Americanah a personagem principal escancara tudo que há no mundo global - subdesenvolvimento, corrupção, racismo, machismo, academicismo, subemprego. A sensação que tenho de passar a conhecer a realidade de racismo frequente por que passam as pessoas negras se mescla com a já conhecida de, como mulher, ter vivido e observado algumas coisas bem semelhantes acerca de relacionamentos, autoestima, conhecimento, trabalho, adequação, estar no mundo. No entanto, a experiência de uma mulher negra sempre pode ser mais complicada em vários aspectos. 
Parece estranho que a gente possa aprender tanto com nossas iguais, mulheres, sejam brancas ou negras. Mas é que temos nos dado conta de que o mundo foi todo esse tempo sendo escrito e significado por homens, homens brancos. E o mundo feminino é tão criativo, fértil, profundo e coerente e ecoa tão tremendamente dentro de nós que é impossível não querer conhecer mais de tudo o que está sendo feito para saber mais de nossas irmãs e, portanto, de nós mesmas. Um caminho sem volta, como todo conhecimento de fato precioso. 

quarta-feira, 20 de maio de 2020

E Bacurau, afinal?

Por fim, assistimos a Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, diretor dos ótimos O som ao redor e Aquarius
Houve um furor na época do lançamento, e vi muitos amigos divididos entre achá-lo incrível e nada de mais. Eu sabia, de orelhada, que um tal Lunga fazia justiça contra os opressores e lavava a alma dos espectadores. 
Bom, pelo jeito, sou da turma do nada de mais. Embora o filme tenha sido lançado em agosto de 2019, quando o horror bolsonarista já estava instalado no país, e a película tenha lá seu quinhão crítico, ninguém estava preparado para a distopia que cresceria cada vez mais, incrementada por uma pandemia que só gera incertezas quanto ao futuro. Talvez isso tenha me dessensibilizado para a violência presente no filme - são tantas mortes, tanta violência, tanto descalabro no cotidiano nacional que a sanguinolência de algumas cenas de Bacurau não me impressionou. Também não há preocupações estéticas, mas isso é do cinema de Mendonça - uma pena, porque a região sertaneja, no Rio Grande do Norte, onde o filme foi feito daria uma fotografia incrível nas mãos, por exemplo, de um Walter Carvalho ou Affonso Henrique Beato. A crítica, no final das contas, me parece limitada ao que os gringos/ricos/brancos fazem contra os brasileiros/pobres/mestiços. E a matança promovida por Lunga, ao melhor estilo "vingança dos cangaceiros", é tão pá-pum que nem prepara a gente para aquela torcida, como acontece por exemplo em blockbusters como John Wick, quando tudo o que a gente quer é que o protagonista vivido por Keanu Reeves detone quem matou seu cachorrinho, só para começar. Marighella, dirigido por Wagner Moura, talvez fosse bem mais importante, mas, embora lançado em 2017, até hoje não foi distribuído por aqui, por puro boicote bolsonarista - também há os liberais incomodados com a figura de Marighella, talvez um pouco real demais, aumentando assim a simpatia de esquerda pelo violento mas fictício Lunga.
Um pouco antes de vermos Bacurau, assistimos à animação stop motion Ilha dos cachorros, de Wes Anderson, já um dos meus diretores favoritos há algum tempo. Além da lindeza da produção, da trilha sonora, do roteiro impecável, a crítica social ali é tão patente e atual, sem que seja preciso perder o estado de encantamento que o cinema proporciona, que fiquei muito grata ao diretor pela experiência. Fiquei muito mais impactada do que com o filme de Mendonça Filho.
Enfim, acontece. Mas sugiro que assistam aos dois. Certamente, Bacurau, mesmo não integrando minha lista de favoritos, entrará para a história do cinema nacional como um dos filmes que incomodaram, o que já é bastante no atual contexto. 

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Alegoria e ironia para fazer ver - Corra! e Jojo Rabbit

Acabo de assistir a Jojo Rabbit, filme do neozelandês Taika Waititi (que, aliás, merecia o Oscar de melhor maquiagem por sua transmutação de bronzeado maori para o desbotado Adolf Hitler), baseado no romance Caging Skies, da também neozelandesa Christine Leunens (mais uma obra feminina adaptada ao cinema). Ri e chorei com a saga do pequeno membro da juventude nazista que se apaixona pela jovem judia escondida em sua casa e tem um amigo imaginário chamado Adolf e nenhuma destreza para a guerra. Um pouco de fábula e ironia pode ser mais eficiente que um chamado à razão para se enxergar o mundo louco e retrógrado em que temos vivido há tanto tempo, e que volta e meia se repete a si mesmo. Sobretudo se tiver uma paleta à la Wes Anderson nos ambientes internos para realçar a narrativa.
Sinto o mesmo que senti, guardadas as devidas proporções, quando assisti a Corra!, de Jordan Peele. O escancaramento do racismo de forma tão absurda parece ser a única maneira de mostrar a existência dele a quem se nega a enxergá-lo no dia a dia. É preciso beirar o ridículo, a alegoria, para que todos enxerguem.
Não se enganem, porém: o entretenimento é só um verniz desses filmes. A crítica histórica e social é muito mais pungente em histórias aparentemente despretensiosas ou com toques de fantasia, como vemos em outras obras cinematográficas - o expressionismo alemão, por exemplo - e também em obras literárias e teatrais - logo me vêm à mente Murilo Rubião, Kafka e García Márquez e as peças de Ionesco e Beckett. Isso para não falar das artes plásticas em diversos momentos.
Bendita arte, que nos salva diariamente de uma cegueira iminente.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

"Parasita" e "Assunto de família" - cinema à margem

Merecidamente, Parasita, do diretor sul-coreano Bong Joon-ho, levou este ano o Oscar de melhor filme, além de ter vencido em outras categorias. A família que mora em um porão na periferia da grande cidade e faz planos mirabolantes para tirar vantagem da súbita proximidade de uma família rica nos conquista de cara e logo estamos torcendo por ela, para que ela consiga minimizar um pouco a desigualdade que a mantém nos porões da sociedade. Aliás, uma história como essa ganhar um Oscar é talvez mais incrível que um filme oriental levar a estatueta - é quase como se tivéssemos vencido com Central do Brasil, a injustiça histórica, ou Cidade de Deus.
Seguindo uma temática parecida, temos o menos dinâmico mas igualmente provocador Assunto de família, do japonês Hirokazu Koreeda, produzido pela Netflix. Uma outra família à margem da sociedade ultraconsumista sobrevive com pequenos golpes e furtos. Para mim, a novidade foi mostrar não um Japão de tradição milenar e com milhares de pessoas a caminho do trabalho na megalópole ultraeficiente e brilhante, e sim um país que não dá conta, ele também, de suas contradições capitalistas. Nada de pessoas cometendo seppuku/harakiri porque foram malsucedidas ou desonradas no trabalho ou no vestibular: o fracasso é naturalizado nas moradias tão parecidas com as favelas dos países subdesenvolvidos. Apesar de tudo, a família Shibata tem rompantes de solidariedade e até acolhe uma menininha que sofre abuso dos pais (como acontece muito nos países subdesenvolvidos). Como na vida, porém, nada é um conto de fadas para ter final feliz, e logo segredos vêm à tona para tirar à família a ilusão da estabilidade. Ótimo, ótimo filme.
Aliás, não é de hoje que há produções a respeito do tema, só não se olha muito para elas. O documentário À margem da imagem, de Evaldo Mocarzel, de 2003, já escancarava essa realidade para quem quisesse de fato ver. Moradores de rua de São Paulo contam suas histórias, e trazem à tona família, religião, desilusão de quem não é enxergado na megalópole, nem considerado pelos governantes em nenhuma esfera. Mas é um documentário, coisa de intelectual comunista, gente chata que gosta de pobre, então não fez tanto sucesso. 
O fato de produções com muito dinheiro tratarem do tema mostra a que ponto chegamos em termos de desigualdade social. Isso é mérito da arte: mostrar as realidades recriando-as. Só não vale, no atual contexto de arte=entretenimento, achar que a miséria é pura estética, só um mote para fazer um ótimo e até divertido filme, caso de Parasita. Nesse sentido, a produção nipônica se aproxima mais da ideia de arte como instrumento de despertar, de produzir empatia, essa capacidade humana cada vez mais esquecida. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

O abuso sob novas lentes: três filmes contemporâneos

O que Susanna Jones, Paula Hawkins e Gillian Flynn têm em comum? São escritoras de língua inglesa (duas britânicas e uma americana), na faixa dos 45-50 anos, que tiveram livros adaptados ao cinema com grande sucesso. Suas respectivas obras, The Earthquake Bird, The Girl on The Train e Gone Girl, se tornaram filmes de suspense - sim, o gênero também é o mesmo - capitaneadas por atrizes de sucesso (sim, são protagonistas femininas) e dois deles até concorreram a categorias do Oscar.
Mais que tudo isso, porém, são autoras cujas obras tratam de relacionamentos abusivos (Flynn é também autora do excelente Sharp Objects, que virou série na HBO com a maravilhosa Amy Adams). As protagonistas não são heroínas no sentido clássico; são figuras trágicas, vulneráveis, submetidas de algum modo a um homem e conhecedoras na prática de termos como mansplaining, gaslighting, bropriating. Estou falando desse abuso psicológico tão cotidiano que todas nós já vivenciamos em algum momento, e não do abuso mais óbvio e fisicamente violento, como, aliás, podemos ver em outros filmes e séries baseados em livros de mulheres - A cor púrpura, na obra da americana ganhadora do Pullitzer Alice Walker, O quarto de Jack, na da irlandesa Emma Donaghue, e Big Little Lies, no livro da australiana Liane Moriarty, só para ficar em três exemplos célebres.
O fato é que o abuso psicológico parece servir melhor ao thriller. Vejo ecos de Patricia Highsmith em cada um desses filmes - embora ela se caracterize mais pela amoralidade, frieza e até crueldade de seus personagens, lá está o abuso, sem maiores explicações ao leitor, desenhando as relações de poder entre classes e gêneros.
Talvez hoje as relações abusivas me chamem mais a atenção do que em outros tempos. Ou melhor, hoje me permito me sentir claramente incomodada com elas. Mas também acho que elas têm ganhado mais destaque, mais tintas, nas mãos dessas autoras - a mulher não é mais apenas um joguete, uma boneca, uma vítima nos filmes de suspense. Mesmo nos filmes de Hitchcock, que eu adoro, a mulher é um mistério, não alguém com dilemas existenciais, quando não apenas uma cópia de outra (vide Vertigo). O que Jones, Hawkins e Flynn trazem de novo é uma mulher al borde de un ataque de nervios, porém sem risos - uma vítima em vias de reagir, de cair com os punhos sobre seu opressor. Se ela vai conseguir? É preciso ler, assistir a essas obras, e a todas que vierem, para saber e se inspirar.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Só Yesterday para salvar o today

Cinema a qualquer hora para nós é coisa do passado. Afora o fato de dar um trabalhão ir a Salvador para assistir qualquer coisa, os filmes saem de cartaz em poucos dias - os que nos interessam, quando entram em cartaz, ficam em cinemas mais distantes, pequenos e com poucos horários. Desse modo, ver um filme tornou-se uma epopeia.
Mas queríamos muito assistir a Yesterday, uma fantasia divertida de Danny Boyle, diretor do maravilhoso Quem quer ser um milionário, e de Richard Curtis, roteirista de Love actually, que eu amo. Na realidade distópica que temos vivido, mais vale imaginar por alguns momentos como seria o mundo sem os Beatles.
Ainda por cima, a única sala em que era exibido o filme no shopping mais próximo era uma sala VIP, com direito a serviço de bordo e poltronas reclináveis com controle eletrônico. Nada mal para nos desligar por duas horas do caos político e social em que temos vivido, para nos salvar da total desesperança.
E ainda há quem pergunte para que serve a arte.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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