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domingo, 5 de julho de 2026

Shakespeare com sotaque nordestino conclama à revolução

Julho começou com mais teatro, graças à deusa. Que bom que, quando bati os olhos na programação do CCBB ainda não inaugurado em Salvador (ele tem ocupado outros espaços culturais enquanto não abre as próprias portas), vi que Cão estava em cartaz e fui logo instigada pelo nome e pela resenha no Instagram. Ainda por cima, duas companhias teatrais nordestinas juntas conceberam a dramaturgia, assinada por Giordano Castro, da recifense Magiluth, e Paulo Yamamoto, da natalense Clowns de Shakespeare. 
O resultado foram duas horas de risos, participação do público, torcida diante de uma encenação dinâmica, clownesca, política, inteligente, situadíssima e pautas trabalhistas, de classe e de gênero (desigualdade social, escala 6x1, jornada múltipla feminina, pajubá). Até Milei e seu cão-guru tiveram seu momento. Teve homenagem a outras obras, as mais evidentes como a perna cabeluda que muita gente conheceu em O agente secreto, as peças Coriolano e Auto da Compadecida (que provocou clamor) e as menos óbvias, como Ataque dos cães (não sei se proposital ou não). 
A plateia do ótimo Cineteatro 2 de Julho estava repleta de jovens, estimulados por professores, presentes ou não. As perguntas mais interessantes, no bate-papo após o espetáculo, vieram deles. Contudo, a fala mais emocionante foi a de uma mulher que disse ter retomado aos 61 anos o sonho de fazer teatro e agora via o filho se formando em teatro na UFBA. 
Os sonhos de uma noite de verão trouxeram uma manhã de ares revolucionários. O resto, meu caro bardo, é música.

E se Beckett encontrasse Freire?

Fui ver, no final de junho (que já acabou, diosa!), Fim de partida, com Marco Nanini e Guilherme Weber. Os ingressos esgotaram rapidamente, mas consegui para o domingo. Para o espaço da Caixa, reduziram bastante o palco (como mostra a imagem da montagem com Lineu Dias, dos anos 1990). 
Não sou especialista em Beckett, mas amo os três textos que conheço do autor. Vi duas montagens de Esperando Godot e duas de Fim de jogo (ou de partida), uma delas sendo essa com Nanini e Weber. Nunca vi montagem de Dias felizes, somente li a peça. As três me levam a esse lugar onde a esperança luta desesperadamente para não sucumbir no vazio, que só não se instalou completamente porque ainda há vida, simbolizada nos duplos de cada texto. Tantas vezes na vida, a esperança-espera parece não ter razão de ser, como quem aguarda Godot sem se perguntar por quê - mas seguimos esperançando, para usar o verbo de mestre Paulo Freire.
Embora as falas de Fim de partida/jogo produzam ainda mais desconforto que as de Godot em uma relação de abuso e dependência, e Winnie pareça se negar a ver o que está diante de si e só enxergue/lembre os "belos dias", fico pensando se Beckett era realmente um desesperançado, se queria mostrar o ridículo da esperança, como mais uma "tradição inventada", um cacoete humano, o total absurdo, ou se, no fundo, lá no fundo, não quisesse nos deixar ver que a humanidade é justamente feita dessa matéria teimosamente à deriva que é a esperança. 
Gostaria de vê-lo se encontrando com Freire, talvez cochichando com o pernambucano que "somente assim veriam a verdade", pois é preciso, parafraseando outro mestre, um gaúcho, mostrar-lhes "tudo de novo".  E esses dois, dessa vez, sorririam um pro outro. 

domingo, 21 de setembro de 2025

Ensinando a transgredir no teatro

Quando soube que havia uma peça baseada no primeiro livro que li de bell hooks, Ensinando a transgredir, fiquei toda animada. Logo fui comprar ingresso - achei um pouco caro, mas tudo bem, valeria a pena. Ainda por cima, era relativamente perto, no teatro da Aliança Francesa. 
Lá fui eu numa sexta-feira para a ladeira da Barra. Talvez a perimenopausa me deixe hipersensível ao ruído, então a algazarra ao redor - o público parecia formado por familiares entusiasmados dos atores - me irritou um pouco. Quando entramos na sala, achei tudo desconfortável, precisando de uma reforma urgente (ainda mais depois de ter estado no Cineteatro 2 de julho, lindo, com atrações gratuitas para jovens estudantes de escolas públicas). Havia um rapaz, trepado num nicho, tocando os mesmos dois acordes de guitarra interminavelmente. 
A peça já começa com os jovens atores entrando correndo, contando que invadiram uma sala, bateram nos professores, deram um tiro. Fiquei espantada: o que isso tinha a ver com o livro de bell hooks, que fala da educação como ferramenta de transformação social e da transgressão no sentido de propor visões mais amplas da realidade? Na verdade, a participação de bell hooks se limitava a três leituras de trechos do livro, por uma atriz que fazia as vezes da autora. Como descobri mais tarde, a peça é, na verdade, a encenação ipsis literis (com exceção dessas cortinas com texto de bell hooks) de uma peça, Coro dos maus alunos, de um autor português, Tiago Rodrigues. A peça de Rodrigues, anterior a Merlí, da Netflix, tem a mesma premissa da série: um professor de filosofia transforma a vida de seus alunos, levando-os a questionar as formas tradicionais de pensamento. No caso da peça, isso leva à idolatria do professor e à violência extrema dos alunos ao defenderem o mestre de uma demissão injustiça. 
É difícil eu não gostar de uma peça de teatro. Mesmo abstraindo o amadorismo do grupo, fiquei o tempo todo pensando em como aquela peça poderia levar as pessoas que não conhecem a obra de bell hooks, quase uma pupila de Paulo Freire, a concluírem que o que ela defende é um quebra-quebra quando discordamos de alguém. Nada mais distante dos aprendizados deixados pela autora de Tudo sobre o amor.  

domingo, 25 de maio de 2025

Não se entregue nunca

Desde que vi o anúncio do monólogo de Othon Bastos quis assisti-lo, ainda sem saber se viria para Salvador. Veio, e consegui ingresso para o ensaio aberto (não gratuito, mas 1/5 do valor do ingresso do Teatro do SESC - não há, penso, SESC como o de São Paulo, com valores tão acessíveis, e Salvador, com poucas casas de espetáculo, tem cobrado muito caro do público). 
Mesmo de um lugar muito distante do palco, na penúltima fileira do foyer, com joelhos encostando na cadeira da frente, valeu a pena ver esse ícone do cinema, da TV e do teatro aos 92 anos desfiando, por 2 horas, episódios de sua vida com a ajuda da Memória, interpretada por Juliana Medella, sabiamente escalada para dividir o palco mas também compartilhar deixas com o veterano. 
Houve momentos em que tive medo de que ele caísse ou se cansasse ou se esquecesse, de fato, mas ele foi aguerrido até o fim. Com sua voz potente, emocionou a todos, falando de suas primeiras experiências no teatro, como figurante mudo, de como o acaso o levou a grandes papéis, como Corisco em Deus e o Diabo na Terra do Sol, e como algumas vezes foi um "coadjuvante de luxo", caso de sua participação em Central do Brasil. Homenageou amigos, declamou trechos de peças, agradeceu à sua Bahia natal. Foi ovacionado por muitos minutos, merecidamente, plantando na gente a semente da não desistência, a sorrir em cada novo dia. Não tem sido fácil, Othon, mas sorrimos com o seu exemplo e seguimos. 

domingo, 4 de maio de 2025

Olha a veia que salta, olha a gota que falta

Fui assistir no feriado do trabalhador à montagem de Gota d'água da Companhia Baiana de Teatro Brasileiro, no Teatro Martim Gonçalves. Outro dia, houve a Medeia negra no campus de Ondina da UFBA, mas não consegui me programar para assistir. O fato é que, para sorte dos que amam o teatro, a heroína trágica de Eurípides não perde nunca sua importância. 
Embora já tivesse assistido a Medeia, com Juliana Galdino em 2005, no SESC Belenzinho, e no filme de Pasolini, com Maria Callas, eu ainda não tinha visto, mesmo conhecendo o texto de Paulo Pontes e Chico Buarque, nenhuma montagem de Gota d'água. A atuação de Evana Jeyssen é visceral, como se espera de Joana-Medeia, mas é quase desesperada, no limite, sem perder, contudo, o controle corporal impressionante, como bem pontuou Liu. Evana e Augusto Nascimento dividem o palco, alternando os papéis de Joana e Jasão com o Coro de vizinhos e Creonte, num cenário enxuto, um círculo de areia, que é praia, rua, casa, tempo que escorre dos baldes-ampulhetas espalhados pelo urdimento, mas principalmente arena (feliz escolha etimológica) onde se dão os confrontos desamorosos. 
Fiquei tão mexida que fui rever Callas no filme de Pasolini e acabei encontrando uma versão japonesa, do diretor Yukio Ninagawa, encenada no Epidauro, imagine, na pura tradição do kabuki, portanto apenas com atores do sexo masculino. 
A trama da mulher que sofre por ser abandonada em um país estrangeiro depois de ter dado tudo ao amante tem muitas camadas, como dizemos hoje: ela é estrangeira duas vezes - depois de deixar Cólquida, a terra natal, para ficar com Jasão em Iolco e, então, quando fogem para Corinto depois de serem perseguidos pelos súditos de Pélias, rei de Iolco e tio de Jasão. Medeia é hostilizada por ser forasteira e por suas práticas de magia, que teriam ajudado Jasão a conseguir o Velocino de Ouro e a matar Pélias, que disputava com o sobrinho o trono de Iolco. Jasão, embora ele também estrangeiro, arranja casamento com a filha do rei de Corinto, Creonte, e abandona Medeia com seus dois filhos. Creonte exige que ela vá embora, ou seja, que siga sem lugar no mundo, desterrada. O final, nós conhecemos, e sempre há o desconforto, justificado, diante da decisão de Medeia, que tira de Jasão a única coisa que ela lhe dera que ainda o interessava - os filhos, a dinastia.
É um fato raro que mães matem os filhos - embora aqui e ali haja uma notícia assim, nada que se compare à quantidade assustadora de homens que matam ex-mulher e filhos -, e Medeia não trata apenas disso, embora seja o que nos choque à primeira vista. Para muitos, talvez essa trama ainda seja apenas uma reação extrema da mulher traída. Hoje, mais que nunca, o que vejo nela é a opressão feminina em pleno "século do ouro" ateniense. Impossível ouvir Chico Buarque, já que o mencionei, cantando "Mulheres de Atenas" e não ter um ranço dos atenienses machistas, que dominavam as mulheres como também os estrangeiros e os escravos, nenhum deles visto como "cidadão". Impossível assistir a Medeia e não pensar em como, até hoje, mulheres, por mais poderosas que sejam, dependem de que os poderosos de fato ditem os rumos de sua vida, limitando o exercício de sua cidadania. Na verdade, uma gota da raiva de Medeia/Joana, sem sequer derivar para a violência, é o suficiente, vem a calhar para mudar a realidade das mulheres. A gota que falta.

https://aefestival.gr/wp-content/uploads/2018/05/medeaea.jpg 

https://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/03/medeia.antunes.jpg

domingo, 1 de dezembro de 2024

Novembro vulcânico

Novembro deve ter sido o mês que passou mais rápido este ano. Finalização intensa de trabalho, eutanásia do iMac, tentativa de usarem meu cartão de crédito pela segunda vez este ano, ida a veterinário com Zenzito, mais experimentação de pão sem sova, café no Latitude ao lado de um mini Bazar Rozê. Teve o necessário Ainda estou aqui, de nosso Win Wenders Walter Salles, que nunca decepciona - e pela primeira vez em Salvador vi o cinema em completo silêncio. Teve tributo a Elis com as surpreendentes e afinadíssimas Catharina Gonzaga e Angela Velloso, o melhor Cinesom de todos. Teve a maravilhosa Ana Carbatti no terceiro espetáculo antirracista que vi este ano, Ninguém sabe meu nome - tomara que um dia este não precise mais ser um tema especialmente pedagógico. Teve espetáculo de Portella Açúcar e Veko Araújo na rua Chile, na festa Hidden. 
E óculos novos para poder ver tudo isso em detalhes.

domingo, 22 de setembro de 2024

Quando entrou setembro

Nem deu pra cantarolar "Sol de primavera", e setembro está quase acabando depois de um intenso agosto. 
Mesmo mais low profile, afinal é um mês mezzo virginiano, mezzo libriano, setembro veio cheio de pequenas realizações, estreias e até recomeços.
Teve teatro, com o Dom Quixote de Leonardo Brício e Kadu Garcia, sob direção de Fernando Philbert (aliás, lá do perfil dele a linda foto), coincidência ou não o mesmo maestro de Todas as coisas maravilhosas. No espaço aconchegante da Caixa Cultural, sessão lotada, claro. Tudo de bom!
Por fim, fui com Liu e Igor conhecer a Cidade da Música, ao lado do Mercado Modelo, um espaço incrível, lindo, com equipe ótima. Tivemos muita sorte, porque as atividades interativas tinham voltado na hora que chegamos, ainda por cima fomos no dia gratuito. Rolou karaokê, oficina de percussão e até amostras de mixagem. Muita história da música da Bahia e de Salvador. Só não conseguimos participar do quizz, porque o espaço já estava bem cheio. De lá, fomos almoçar no Pelô, por fim provei o malassado, delícia, no Cantinho Gourmet do Centro (CGC). Tomamos um sorvete incrível no Tropicália Gelato e Caffé - pedi os sabores capim-limão e gengibre. Gente!
Rolou filme sobre período da ditadura, , de Rafael Conde, proposta interessante, ator principal fraco, pena, ainda mais para um assunto tão importante.
Depois de eu ter levado o Mac para revisão e ter colocado mais memória e SSD, o mouse, novíssimo, parou de funcionar, provável problema com a placa-mãe. Com jobs pintando na área, arianamente comprei outro computador, voltando ao Windows mais de uma década depois. Tive de reaprender tudo, inclusive a trabalhar com InDesign, que assinei temporariamente. 
E mais delicinhas: almoço no Ceasinha, cookies da prestes a estrear Breiq Confeitaria do Rio Vermelho (o de castanhas de caju e do Brasil e licuri, benzadeus, o melhor da vida), minha experimentação de waffle de queijo, perfeito. 
Cada vez mais, reconheço esse caminho. Uma nova canção, o mesmo sol.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

"Todas as coisas maravilhosas", com Kiko Mascarenhas

Não me lembro de já ter dito o quanto eu amo o teatro. Meninota, fui protagonista de um texto escrito pela professora de Português da 5a série - eu era um caipira contador de histórias, Bastião, que evocava personagens do folclore brasileiro que iam surgindo diante do público, formado pelos alunos de todos os horários de nossa escola de periferia. Muito antes disso, eu amava recitar poemas nas datas comemorativas, desde a 1a série, e o teatro consolidaria esse desejo de unir gesto e palavra. Meu encantamento diante do presente que se desenrola diante de nossos olhos é completo e começou nessas pequenas histórias. Sempre que pude, fui ao teatro me deslumbrar com essa mágica que só acontece na nossa presença, que depende dela para ser completa. Fiquei muito tempo, nos últimos anos, sem assistir a uma peça, mas depois que me mudei para Salvador comecei a compensar essa falta.
Foi uma amiga de faculdade, Valéria, que contou em seu perfil que havia visto a peça com Kiko Mascarenhas, Todas as coisas maravilhosas. Eu comentei que gostava muito do ator, que conheço de papéis secundários na TV, mas sempre com uma atuação divertida e próxima. Daí pensei que, quando fosse a SP, se a peça estivesse em cartaz, eu iria vê-lo em cena. 
No dia mais frio da minha viagem, rumei para o Tuca saindo da Liberdade, achando que talvez não chegasse em tempo, mas o motorista operou um milagrezinho, e cheguei às 16h58 ao teatro, quando Kiko estava no palco cumprimentando e abraçando pessoas, dando instruções para que o público chegasse mais perto. 
E em seguida a magia se fez. Fomos chamados a participar daquela história, cada vez mais acreditando que tudo era verdade. Estávamos dentro, inclusive porque a luz nos iluminava igualmente, sem maiores efeitos cênicos. Que maneira delicada de falar de temas difíceis, como depressão e suicídio! Em tudo, víamos esperança, a possibilidade de vida e riso apesar de.
Ao final, pudemos pisar no palco, ver as relíquias da personagem, inclusive a lista de coisas maravilhosas. E Kiko ficou ali para oferecer um abraço a quem quisesse. Eu fui, eu quis dizer a ele do milagre, do encantamento que ele tinha acabado de proporcionar, pura obra da graça. Que abraço bom, como se fôssemos amigos de longa data! Fora do palco, ele continuava me dizendo, naquele abraço, que as coisas vão melhorar. Obrigada, obrigada!

terça-feira, 30 de julho de 2024

"Macacos", de Clayton Nascimento

Foram três horas de porrada. Inclemente, incansável, ininterrupta. Necessária.
Clayton Nascimento tem apresentado seu monólogo Macacos desde 2016. Eu descobri Clayton numa novela global ao mesmo tempo que soube de sua peça - imediatamente, pensei que precisava vê-lo no palco. Achava que ele já tivesse vindo a Salvador, quando eu não havia ainda chegado aqui, e torcia para que "voltasse". 
Como acredito demais nos milagres cotidianos, estava com a cabeça a mil, angustiada com questões práticas, quando a arte veio em meu socorro: o superagitador Aldri Anunciação lançou sua sexta edição do Festival Melanina Acentuada e trouxe, entre outras maravilhas, a peça Macacos a Salvador. Quando entrei no site para a compra, os ingressos já estavam esgotados. Alguns dias depois, vi novo anúncio da peça e resolvi tentar de novo. E consegui! E era a primeira vez da peça na Bahia, em Salvador, o que Clayton enfatizou várias vezes.
O espetáculo aconteceu no Goethe, mesmo lugar do Pequeno manual antirracista, adaptado por Aldri e interpretado por Luana Xavier. Igualmente impactante, com a mesma questão terrível e persistente do racismo, também monólogo. Mas a arte é esse deslumbramento sempre, com cada artista derramando sua alma e força diante do público de forma única. Clayton fala, dança, gesticula, grita, incorpora, anda, corre por três horas. Em nenhum momento se repete (só quando é necessário "fechar" um assunto). A peça é desabafo, aula, biografia e denúncia, tudo ao mesmo tempo. Houve um momento em que achei que ela ia desandar, mas não, ele amarra tudo com a coerência de quem vive tudo na pele. Ao final, a emocionante presença de Terezinha, mãe de Eduardo, 9 anos, assassinado pela PM do Rio em 2015, que inspirou Clayton a criar o monólogo.
Eles foram aplaudidos de pé por intermináveis e merecidos minutos. A gente se sente miserável de viver num país, num mundo em que tantos Eduardos morrem diariamente pela cor de sua pele. Mas a gente se fortalece por estar ali, junto com Clayton, Terezinha, Aldri, acolhendo a dor, dando as mãos, se energizando para gritar também por justiça.

domingo, 14 de abril de 2024

E la nave va

Os últimos trinta dias trouxeram um abalo mais forte, como o tremor que sacode de leve o prédio com a demolição de três casas da rua, uma triste promessa que enfim se cumpriu. Embora o barulho não seja enorme, eu e os vizinhos temos sentido a vibração da escavadeira enchendo de entulho os dez caminhões perfilados na nossa rua, antes tão sossegada. 
O segundo abalo foi o do já esperado mas sempre surpreendente aviso da minha demissão. Foram dez anos de parceria, mas todo fim é melancólico, não é mesmo? Meu segundo melancólico fim em menos de um ano, haja resiliência. E esse fim com mais impactos econômicos que o primeiro também me leva a logo me despedir deste apê que ora treme. 
Mas quase tudo foi bom nos últimos trinta dias. Comecei a tão desejada dança contemporânea na tradicional Escola de Dança da Funceb, que tem até gato residente, além de ficar no amado Pelô. Por fim, conheci o novo MAC, casarão lindo na Graça com acervo contemporâneo de arte e que estava recebendo o BazaRozê no dia. Já de olho em planos para futuro próximo, fui fazer um curso de projetos culturais no MUNCAB, com o ótimo Aléxis Góis. Almocei com Vivi no Boteco do Piri, que serve comida deliciosa e sofisticada em sua simplicidade - coxinha de polvo e feijoada de frutos do mar foram nossas pedidas mais do que acertadas, com direito a abraço do Piri no final. No mesmo dia, fomos ver a maravilhosa Luana Xavier arrancar lágrimas e risos com a adaptação feita por Aldri Anunciação para o teatro do Pequeno manual antirracista, uma emoção-aprendizado que ainda vibra (por falar em abalos) dentro de mim.
Achei uma máquina de waffle no precinho, quase realizando meu sonho de morar numa padaria. Fui ao show de Arismar do Espírito Santo, Robertinho Silva e Carlos Malta na Caixa Cultural, e experimentei uma emoção que há tempos não vivia, num show de música instrumental, de estar no lugar certo na hora certa, vendo aqueles monstros da música se divertindo como meninos. 
Em função da minha demissão próxima, ganhei de meu irmão Hideki um livro para iluminar as ideias, o de meu amigo Natale em parceria com Cristiane Olivieri, Guia Brasileiro de Produção Cultural. Voltei a fazer pão casca dura, sem sova, que ficou ótimo, o que já me deixa feliz da vida. Enfim fui experimentar o arroz de hauçá, no restaurante Axego, saindo da aula de dança, em companhia de Liu, Igor e Sueli - que delícia de prato! Depois de um cafezinho no Marrom Marfim, ainda demos uma espiada na batalha de dança no Largo Tereza Batista, testemunhando o arraso dos dançarinos de vogue. 
Recebi Vivi em casa até que ela consiga outro apê, depois de problemas com a proprietária do que ela havia alugado. Penso que é uma oportunidade de eu devolver ao Universo toda a ajuda que já recebi por aí, e continuo recebendo. 
E senti minha ancestralidade aflorar mais um pouquinho assistindo à maravilhosa série Xógum, no Star+. Agora quero aprender japonês, entre tantas ideias que tenho alimentado e que mantêm minha nau em curso.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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