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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Entre comemorar e lutar

Eita, que agosto acabou, já entrou setembro e daqui a pouco é Natal! Por aqui, foi um mês intenso, muito inspirador e criativo (ia dizer produtivo, mas não quero reduzir a riqueza do vivido a "produção"). 
Falo em criação porque recriei hábitos mais saudáveis, tirando do cardápio há quase um mês o café, o açúcar e o trigo, por conta de pré-diabetes e possível esofagite. O amado suco de laranja foi no mesmo bojo, e reduzi os lácteos, por conta da acidez mais que pela lactose. Nessa recriação, retomei a atividade física de fato, aumentando cargas, fazendo tudo direitinho. Exercitei meu senso de limites, descansando quando necessário, dizendo não sempre que foi preciso. Voltei a ir ver o mar. 
Também comemorei vitória de Nara, colega do PPGNEIM, defendendo sua dissertação ao lado de sua mainha, os 70 anos de Degas em linda festa organizada por Dani, cantei à beça fazendo faxina sob o olhar espantado de Zenzito, consegui finalizar um PNLD que teve muitas idas e vindas e atrasos e tocar outro trabalho, me inscrevi em processos de seleção e criei minha camiseta para as eleições, uma releitura feminista de Tarsila. 
Mais que o que acontece entre o nascer e o morrer, sinto, pelo menos hoje, que viver é o caminho feito entre o comemorar e o lutar. Vivamos, porque isso é bom. 


sexta-feira, 7 de outubro de 2022

O Brasil não conhece o Brasil

Tive uns 3 dias de completa ressaca moral após o primeiro turno das eleições. O que mais me estarreceu no resultado do genocida foi constatar que há muitos brasileiros que preferem ignorar todas as ações contra a vida e os direitos humanos realizadas pelo belzebu em exercício. Ou talvez até as louvem. Ou seja, somos piores do que pensávamos, e não me saía da cabeça a música de Aldir Blanc, "Querelas do Brasil", a obra de um compositor vítima justamente do projeto de morte da atual presidência. Aldir, que morreu com insuficiência cardiorrespiratória provocada pela Covid, por falta de vacina, por abandono, por completa indiferença do genocida, que, claro, nem sequer lamentou a morte do artista genial, como faria qualquer chefe de Estado. 
Continuamos, portanto, até dia 30 de outubro, sem saber o que será da vida neste país. Tudo é tão tênue, tão frágil, tão inseguro, e isso se reflete em todas as instâncias da vida para além da política - no trabalho com parceiros escorregadios, na suspensão de projetos e esperanças, na possibilidade de perder Kong a qualquer momento (a veterinária disse que ele tem uma expectativa de vida de 2 anos). 
Olho para dentro da vida, e vejo a indefinição, a realidade gasosa/líquida de Marx/Berman e Bauman ditando nossos dias. Olho para fora e vejo, com horror, a violência, o ódio ao diferente, a indiferença diante da iniquidade, a normose como regra. Tenho cada vez mais dúvidas se conheci o país que habito, que me parece cada vez menos meu. 

domingo, 7 de outubro de 2018

Eleições em época de horror

Hoje teremos o primeiro turno de um dos pleitos mais assustadores dos últimos tempos, porque um dos favoritos é epítome do horror, do retrocesso, da intolerância, e estamos à beira do precipício até o último momento - e espero que não caiamos nele. Do outro lado, o partido que não consegue fazer uma avaliação crítica de si, se eleito, corre o risco de não conseguir governar, e as trevas também se avizinham por ali, embora talvez não de forma tão dramática quanto no primeiro caso.
Ao longo da campanha política, tenho visto de tudo - amigos sendo ameaçados publicamente por serem de esquerda, amigos mais distantes destilando sua amargura contra a esquerda, gente tentando justificar o injustificável: votar em um homem bizarro, que mal consegue articular as palavras e ideias, e logo começa a gritar como plataforma eleitoral, bradando contra mulheres, homossexuais, índios e negros. Quem, em sã consciência, pode considerar que essa pessoa seja a melhor opção para o governo de um país? Certamente, quem está tomado pelo mesmo ódio contra o restante da humanidade, que inclui mulheres, homossexuais, índios e negros. Aliás, como pode uma mulher votar nele? Somente aquelas que não conseguiram ainda se despir da imagem retrógrada de mulher construída por uma sociedade machista, as que dão graças por terem um trabalho, mesmo ganhando menos que os homens, por terem um homem, mesmo que as diminua de alguma forma, por terem uma família, mesmo infeliz. Incompreensível, todavia. Injustificável. Daí se tem ideia do tamanho do abismo social em que vivemos.
Hoje tenho medo, vontade de chorar. Tempos sombrios se avizinham. Já temos experimentado a intolerância e a loucura nos discursos, que sejamos livrados de um mal maior. Hoje tudo me faz lembrar Drummond. Que tenhamos ainda direito à beleza, à arte, à educação, à fraternidade.

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista pela janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicidas,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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