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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Miscelâneas

Estamos em um período muito louco, faz tempo, mas bastante piorado neste ano de eleições. A extrema-direita conta com ajuda do homem laranja para disseminar mentiras, para bagunçar o coreto, com denúncias e suspeitas minuciosamente selecionadas. Enquanto todos acompanhavam a sessão do STF, milhares se esqueciam do escândalo do Master diretamente ligado a Tariflávio e seus capangas. Precisamos urgentemente sair das redes sociais e ocupar mais as ruas, especialmente mulheres, pessoas negras e LGBT. E mesmo que tenhamos um resultado favorável à democracia, teremos de manter a atenção em tudo, nas cobranças por pautas coletivas e na defesa do Estado democrático de direito. Tempos loucos, louquíssimos, violentos, e somente a arte e a solidariedade para nos salvar. 
Sinto não só a urgência diante dos cataclismos sortidos como também que vou me desintegrando, e não só envelhecendo, a cada dia - sim, sinto na pele, quando acordo a cada manhã, e não apenas nas questões de saúde. Mas a alma segue jovial, apesar do sentido de desastre externo (do corpo e do mundo). E daí, após entregar uma proposta de projeto, vou dançar e cantar a plenos pulmões com uma multidão, na companhia de Liu, sucessos dos anos 80. Um texto enviado por Marise tratava disso, da nossa percepção de impermanência cada vez mais aguçada, que nos faz viver mais intensamente a partir deste ponto em que nos encontramos. 
Como disse, aqui e outras vezes, a arte nos salva do horror. Decalquei e desenhei camisetas das Operárias para as Thelmas, para nossa práxis político-artística nas eleições e além, e isso me alimenta. A práxis, sim, nos salva cotidianamente, e por isso comemoro dois artigos meus terem sido publicados na Revista Feminismos da UFBA, outro desafio de Vanessa que aceitei prontamente.  
Nessa mesma linha, da importância da ação e reflexão, especialmente nos dias de hoje, me inscrevi em um grupo de pesquisa de diálogos feministas, com a professora Patrícia Valim, também da UFBA, mulher porreta e engajada, historiadora como eu. Um grupo formado principalmente por jovens mulheres, já tão interessadas em mudar realidades, evoé, axé, amém.  
Me desintegro, mas a alma ainda canta.  

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Mulheridades

Fui assistir a uma apresentação de flamenco no Goethe, da impressionante cantaora Anna Colom, um escape depois de vários dias ainda me reorganizando após o fim de um PNLD caótico. Uma voz limpa, forte, bonita, acompanhada somente de guitarra flamenca, algo puro e emocionante. Ainda por cima, encontrei mis maestros Andrés, João Paulo e mi maestra Rita, ótimo para atualizar algumas notícias. 
Soube no mesmo dia que Lu Salgado estava em Salvador, em evento da universidade, e pedi a ela para nos encontrarmos, já que em SP é sempre uma epopeia. E não é que deu certo? Almoçamos pertinho e conversamos muito em quase 3 horas, a profundidade de sempre, como se o tempo não tivesse passado (fenômeno que ocorre sempre com gente querida). Tomamos o mesmo Uber e eu fiquei no Rio Vermelho enquanto ela seguia para o aeroporto. 
Na Escola Baiana de Arte e Moda, participei de uma oficina de bordado para iniciantes, coordenada por Sophia Buaiz. A ideia era ficar quatro horas sem celular. Para mim, que não participava de uma oficina desde 2017, foi fácil. Como é bom praticar! Minha Aracne ficou bem tosquinha, mas era o que dava para fazer com o tempo e o material disponíveis. O bom é reacender a vontade de fazer, de criar, e em grupo é muito estimulante - a força do coletivo.  

quinta-feira, 23 de abril de 2026

E, contudo, se movem!

Para onde quer que eu olhe, vejo mulheres se movimentando em busca de mudanças - de si, do entorno, do país, do sistema, do mundo. Mudanças que dizem respeito não somente a elas/nós, mas a toda a sociedade, para melhor, para avançar na direção de direitos universais, e não apenas identitários, como sugerem alguns. 
Estamos pesquisando, fazendo leituras coletivas, propondo novas realidades, prestigiando e promovendo a arte, fazendo novas amizades, fortalecendo laços, tecendo teias e manhãs. E também cuidando, alimentando, festejando, experimentando, aprendendo, criando e sobrevivendo. 
Não há nada mais belo e honesto, sobretudo hoje, do que ser mulher. Apesar dos esforços de nos apagarem, seguimos nos movendo, brilhando e nos fortalecendo. Não há mais hipótese de abjurarmos esse poder. 

Pão, arte, liberdade

De novo, fui assistir à apresentação do Neojiba, abertura da temporada antes da turnê chinesa. Como sempre, lotado, ingressos esgotados, graças à deusa. Mendelssohn, Beethoven, Gershwin, impecáveis execuções, inclusive sem regência, impressionante. Houve participação do coro juvenil, afinadíssimo, mas com uma peça que me impactou pouco, em homenagem à visita do papa João Paulo II. E houve a presença mágica do virtuose francês David Grimal, que tocou um Stradivarius e regeu aquelas moças e rapazes tão talentosos da orquestra. A minha cara estupefacta ao final não me deixa mentir. 
Umas semanas antes, eu tinha assistido em sequência Pão e rosas, de Ken Loach, e Pão, rosas e liberdade, documentário produzido por Malala Yousafzai e Jennifer Lawrence. Na verdade, os dois filmes têm o mesmo título original, Bread and roses, que evoca o lema das sufragistas nos Estados Unidos do início do século XX. Muito adequado o acréscimo de "liberdade" ao título do documentário, porque ele trata da realidade de cerceamento da liberdade das mulheres afegãs com a volta do Talibã após a retirada das tropas estadunidenses. Tanto em um quanto em outro filme são as mulheres que lideram a resistência - trabalhadoras de serviços de limpeza no primeiro, mulheres de todas as classes no segundo. Não são histórias com final feliz, o que muito se explica pela opressão patriarcal sobre todas as mulheres ainda hoje. 
E o que, afinal, Neojiba tem a ver com esses filmes sobre resistências femininas e até mesmo com patriarcado e seus derivados? Ocorreu que, além de eu perceber muito claramente nessa apresentação primorosa que a maioria da orquestra ainda é composta por rapazes, calhou de uma colega da pós comentar que parou de tocar porque teve de fazer a escolha entre trabalhar e tocar, entre fazer pós e tocar, entre demandas familiares e tocar. Claro que quando estamos falando de jovens periféricos o corre é para todos - mas para as garotas é sempre um corre a mais. Até mesmo em um ambiente supostamente mais saudável os efeitos de um machismo sistêmico se fazem sentir. 
A arte, claro, nos permite sonhar e soar. Seguimos todas, porém, querendo meios de viver livres e com dignidade em todas as esferas. 

domingo, 29 de junho de 2025

Jam no MAM, geleia à beira-mar

Por fim, fui. Ganhei uma cortesia de Samuel, colega da pós, e achei que era a hora. Realmente, é mágico estar à beira-mar, em pleno Solar do Unhão, ouvindo a passagem de som, vendo gente de todo tipo se ajeitando para assistir à miscelânea organizada, regida pelo ótimo Ivan Huol, criador do Microtrio e da Jam no MAM. Ainda por cima, teve um tom junino (e não choveu, presente de são Pedro), com direito a sanfona, que eu adoro. Teve Ângela Velloso, sampleando com a guitarra baiana, vixe, essa moça pode tudo! Bom demais. 
Carinho na alma com gosto de geleia, pois formiga estou.  

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Alegria e tristeza de Chico

Na semana passada, fui assistir à maravilhosa Angela Velloso, acompanhada do papis Duarte Velloso, no Cinesom, cantando Chico Buarque. Angela aplicou sua verve jazzística às músicas de Chico e ficou tudo lindo. Chico, o geminiano tímido com ares traquinas, ficaria feliz da vida. Certamente não gostaria de saber, contudo, que, quando Duarte Velloso puxou um "sem anistia", não recebeu de volta o coro comme il faut, como seria de se esperar de uma plateia que sabia todas as músicas de Chico Buarque, sendo a maioria delas de cunho político. Eu fiquei escandalizada, imagine o poeta - passaria de um estado de euforia para enorme tristeza em segundos. 
Mas tudo bem, Angela, Duarte e Chico - nós, que rejeitamos a anistia para golpista, ainda estamos aqui.


domingo, 6 de abril de 2025

A dona da voz

No ano passado, quando estive com Carlos, entre tantos assuntos da nossa conversa nunca longa o bastante, falamos sobre voz. Acho que o assunto começou porque ele comentou sobre minha capacidade de manter múltiplos interesses distintos do trabalho, como cantar. Daí passamos à questão da impostação da voz, da importância que isso sempre teve para nós, por motivações diferentes, mas com o mesmo fim: sermos ouvidos. 
Pequena ainda, devo ter percebido o efeito de falar alto e claramente nas primeiras declamações em público, depois na peça escolar. Mas, no decorrer da vida, ao mesmo tempo que ouvia que deveria trabalhar com a voz, havia quem dissesse que eu falava muito alto, que eu precisava me conter. Se, para Carlos, era importante impostar a voz para se colocar no mundo, no meu mundo feminino era preciso o contrário, não demonstrar força. Por bastante tempo, acabei reservando a potência somente para as situações em sala de aula.  
O canto, contudo, sempre esteve ali. Sem pretensões de brilho, mas por uma necessidade da alma. E quando cheguei a Salvador foi uma das coisas que me ocorreram retomar. A pesquisa Google me indicou os cursos de extensão da UFBA; entrei em contato, havia perdido a inscrição. Fui fazer outras coisas, mas este ano priorizei me inscrever na EMUS, a escola de música da universidade. Depois de preencher o formulário, achei que não iriam me chamar para o teste, pois a tudo respondi com não - sabe cantar, sabe tocar, sabe ler partitura?
Contudo, recebi um email falando dos dias e horários dos testes. Quando chegou a data, pensei em não ir. Mas, arianamente, fui. Na minha vez, fui tomada pelo nervosismo, que só aumentou quando vi a banca de três jovens professores e eles me perguntaram "o que eu ia cantar pra eles". Eu não tinha preparado nada, imagine o disparate. Daí cantei o que me ocorreu, Lenine por Virgínia Rosa - que eles, aliás, não conheciam. 
Para resumir a história, depois de eu ter descido a Centenário meio chorando, meio cantando, fui aprovada para uma turma, que, depois descobri, só tem mulheres mais velhas. Pelo que disse a jovem professora, egressa da Paraíba, ela esperava fazer uma espécie de coral conosco, pois era parte da sua experiência anterior, um coral da terceira idade. Contudo, ela logo viu que não seria possível, pois cada uma das cinco maduras tinha uma expectativa, menos a de ser cantora de coral. Essas aulas têm tudo para serem interessantíssimas, portanto. 
Além do mais, o prédio da EMUS me lembra os puxadinhos do Anglo. A decadência é compensada pelo trânsito de jovens, velhos e crianças em busca de algo mais belo que o cotidiano. Cada um em busca de sua voz, de seu som, de seu timbre único, belo e incomparável. 
(P.S.: compartilhando essas experiências com Carlos, soube que ele também começou a cantar, uma lindeza!)

segunda-feira, 31 de março de 2025

NEOJIBA no aniversário de Salvador

No dia 29 de março, Salvador completou 476 anos. Ela é ariana. Isso explica muita coisa. É muita efervescência, muito "bora ali" para que fosse diferente. Não quer dizer que seja fácil. Mas, mesmo com os poréns que toda cidade tem, e Salvador tem índices sociais difíceis, mesmo assim, eu me adaptei muito bem, e até recebi o que para mim foi um elogio de um motorista de aplicativo: "a senhora já é baiana". Como soa diferente do "jeito baiano de ser" de uma certa ex-chefe minha!
Calhou de, exatamente no aniversário da cidade, eu ir, com Liu, assistir pela primeira vez à apresentação do NEOJIBA, o núcleo de orquestras jovens e infantis criado pelo maestro Ricardo Castro em parceria com a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos da Bahia. Não tenho nem palavras para descrever. 
Com certeza é emocionante ver a OSBA em ação, mas assistir àqueles jovens tão compenetrados e, ao mesmo tempo, divertindo-se enquanto tocam, como os contrabaixistas em coreografias e sorrisos, é de levar às lágrimas. Pensar em quantos jovens são retirados das ruas e na oportunidade de fazer valer a justiça social, isso não tem preço. Por isso, a apresentação, que começa com Carlos Gomes, passa pelo soturno Sibelius, depois a alegria Broadway de Bernstein, tinha mesmo que terminar com a apoteose de Martín Fierro de Ginestera. Pura beleza, pura beleza. 
E Salvador é assim também - som de mar e pássaros, fortes contrastes, muita intensidade, muita música e multidão, festa, luta, identidade. Só tenho a agradecer por ela me receber tão bem.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Bailaora es su nombre

Beleza em todos os detalhes. 
Não estava podendo não. Mas disse sim. Enquanto tempo quiser. 
Não há nome mais apropriado, não há versos mais perfeitos que os gravados por Alejo na lateral desse instrumento pequeno e tão nobre. João Cabral amaria se saber, ainda uma vez, eternizado nesse objeto que faz renascer Sevilla a cada toque e mesmo em seu silêncio.
Estudos para uma bailadora andaluza
I
Dir-se-ia, quando aparece
dançando por siguiriyas,
que com a imagem do fogo
inteira se identifica.
Todos os gestos do fogo
que então possui dir-se-ia:
gestos das folhas do fogo,
de seu cabelo, sua língua;
gestos do corpo do fogo,
de sua carne em agonia,
carne de fogo, só nervos,
carne toda em carne viva.
Então, o caráter do fogo
nela também se adivinha:
mesmo gosto dos extremos,
de natureza faminta,
gosto de chegar ao fim
do que dele se aproxima,
gosto de chegar-se ao fim,
de atingir a própria cinza.
Porém a imagem do fogo
é num ponto desmentida:
que o fogo não é capaz
como ela é, nas siguiriyas,
de arrancar-se de si mesmo
numa primeira faísca,
nessa que, quando ela quer,
vem e acende-a fibra a fibra,
que somente ela é capaz
de acender-se estando fria,
de incendiar-se com nada,
de incendiar-se sozinha.
II
Subida ao dorso da dança
(vai carregada ou a carrega?)
é impossível se dizer
se é a cavaleira ou a égua.
Ela tem na sua dança
toda a energia retesa
e todo o nervo de quando
algum cavalo se encrespa.
Isto é: tanto a tensão
de quem vai montado em sela,
de quem monta um animal
e só a custo o debela,
como a tensão do animal
dominado sob a rédea,
que ressente ser mandado
e obedecendo protesta.
Então, como declarar
se ela é égua ou cavaleira:
há uma tal conformidade
entre o que é animal e é ela,
entre a parte que domina
e a parte que se rebela,
entre o que nela cavalga
e o que é cavalgado nela,
que o melhor será dizer
de ambas, cavaleira e égua,
que são de uma mesma coisa
e que um só nervo as inerva,
e que é impossível traçar
nenhuma linha fronteira
entre ela e a montaria:
ela é a égua e a cavaleira.
III
Quando está taconeando
a cabeça, atenta, inclina,
como se buscasse ouvir
alguma voz indistinta.
Há nessa atenção curvada
muito de telegrafista,
atento para não perder
a mensagem transmitida.
Mas o que faz duvidar
possa ser telegrafia
aquelas respostas que
suas pernas pronunciam
é que a mensagem de quem
lá do outro lado da linha
ela responde tão séria
nos passa despercebida.
Mas depois já não há dúvida:
é mesmo telegrafia:
mesmo que não se perceba
a mensagem recebida,
se vem de um ponto no fundo
do tablado ou de sua vida,
se a linguagem do diálogo
é em código ou ostensiva,
já não cabe duvidar:
deve ser telegrafia:
basta escutar a dicção
tão morse e tão desflorida,
linear, numa só corda,
em ponto e traço, concisa,
a dicção em preto e branco
de sua perna polida.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Horinhas de descuido

É o velho Rosa quem me faz lembrar da felicidade em horinhas de descuido. 
Não ando muito feliz nem otimista nos últimos dias, tempos, apesar do meu impulso "descuidado" de continuar fazendo as coisas, mesmo quando não é muito sensato, indicado etc. Outro dia me manquei de que herdei isso de minha mãe, esticar o braço além da conta. E o contexto ao redor, realmente, não ajuda em nada. 
Bueno, ainda assim e por isso mesmo fui fazer mais aulas de cajón. Voltei ao flamenco este mês, pelo menos. Palmilhando o Rio Vermelho, achei um restaurante de comida natural bem bom, Manjericão, e logo abaixo o Café Floresta, que tinha bolo de cupuaçu. Preços salgados, mas tudo de ótima qualidade. 
E tive mais um gostinho, além do bolo de cupuaçu, de felicidade descuidada: fui ver Caetano e Bethânia na Fonte Nova, a convite da queridíssima Cris. Carinho da amiga e também do invisível para tomar fôlego.


sábado, 25 de janeiro de 2025

Cajón

E lá fui eu me arriscar.
Tenho um amor incomensurável pela música, mas nunca estudei nada - teoria musical, instrumentos, canto. Só cantei em coral, e sempre foi algo arrebatador.
Ao lado do amor, o temor de algo verdadeiramente novo. Quando falo em me arriscar em coisas que envolvam habilidades manuais, no fundo há um certo conforto, pelo menos maior do que em coisas que envolvam sons e ritmos. 
O professor, João Paulo, a paciência encarnada. Eu, para variar, a única que não manjava nada de música (todo mundo já tinha feito ou faz aulas de alguma coisa - piano, percussão, bateria, pandeiro). Houve momentos que dei uma "dublada"; em outros, fechei os olhos para ouvir melhor. Às vezes, parecia que meu cérebro ia entrar em curto. 
Pode ser só a idade, mas pode ser também porque pela primeira vez estou fazendo algo que me tira realmente da zona de conforto. E por que saímos da zona de conforto? No meu caso, acho que é porque quero manter meu cérebro ativo, não só com coisas diversas no dia a dia, mas com coisas de fato novas, para as quais ele precisa ampliar as redes neurais.  
O fato é que me sinto caminhando em direção ao desconhecido, como quem se apaixona pela primeira vez. Pode dar ruim, mas pode ser sublime - quem me garante que não?

terça-feira, 23 de julho de 2024

Salvador é pura música

Salvador tem de tudo. Tem rock, tem música afro em todas as suas nuances (axé, samba, ponto de orixá, maracatu), tem sinfônica, tem jazz, tem banquinho e violão. Tem até Cidade da Música (que ainda vou visitar)! Aqui Orfeu estaria sempre no Paraíso.

sexta-feira, 19 de julho de 2024

OSBA na Concha

Fui assistir ao ensaio aberto da OSBA, a sinfônica da Bahia, regida por Carlos Prazeres. Hoje, a regência foi do maestro convidado Éder Paolozi. As peças ensaiadas foram de Dmitri Shostakovich e J. Sibelius. 
Os ensaios abertos são divulgados com antecedência e quem quer assistir preenche um formulário e aguarda a resposta em alguns dias. Nos espetáculos mais concorridos é mais difícil conseguir. Hoje não havia meia dúzia de pessoas na Concha Acústica, mas foi igualmente lindo ouvir a OSBA tocar. Fiquei emocionada de estar ali, com o privilégio de ouvir aquela música, aquele caos organizado nas afinações, de ver aquele céu esplendorosamente azul.
O único senão foi um sujeito que estava assistindo a algum vídeo, em volume altíssimo, na arquibancada. Alguns músicos viraram para olhar, mas não podiam fazer nada. Fui até ele e disse que estava atrapalhando. Qual não foi minha surpresa ao depois vê-lo integrar a linha dos metais! Um tocador de trompete completamente sem noção, viciado em redes sociais na hora do ensaio? Temos.

domingo, 5 de maio de 2024

La mala leche para los puretas

E ela veio, e arrasou, aos 65 anos, sobre as areias de Copacabana, mostrando por que é a Rainha do Pop. Para além do talento, das músicas, dos figurinos, das coreografias, Madonna muda costumes com sua arte e sua atitude perante o mundo e a vida. E consegue ir além, resgatando a camisa verde e amarela e entregando-a à parte do povo brasileiro que sofre com as intolerâncias e violências de todo tipo, sobretudo nos últimos tristes anos neste país. 
Como outro leonino célebre, ela nos dá la buena leche, e reserva la mala leche para los puretas. A real queen. 

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Afropunk, uma festa de futuros

No ano passado, tive muita vontade de ir ao festival Afropunk em Salvador, que teria, entre diversas atrações, Racionais e Liniker. Mas temia ir sozinha, ainda mais num lugar fora de mão como o Parque de Exposições, em Itapuã (no final das contas, nem é tão fora de mão, tem estação de metrô na frente). Então, este ano, Cris me chamou pra ir, topei na hora. Além da companhia ótima e da experiência inédita, ainda poderia ver Alcione e a bateria da Mangueira - e, com fôlego, Olodum e Baiana System, além de pequenas atrações intermediárias (pequenas mas com alcance próprio, porque todo mundo ali parecia conhecer de tudo).
Chegamos perto do horário anunciado para início, 16h e alguma coisa, mas houve um atraso de quase uma hora. Estava quente, mas o Parque de Exposições é enorme e super ventilado, graças aos céus, e assim não estivemos nem perto da tragédia que aconteceu no Rio de Janeiro, no show de Taylor Swift, em que a sensação térmica dentro do estádio chegou a 60 graus, milhares de pessoas se queimaram nas estruturas de metal e uma fã morreu no meio do show. 
O Afropunk estava bem longe da tragédia. Apesar das agruras da população negra, diariamente, alvo certeiro de tiros por todo o Brasil, e a Bahia tem liderado o extermínio de jovens negros pela polícia, aquele era dia da festa dessa juventude. Num primeiro olhar, eu diria que 95% do público era negro e 60% era LGBT. Minhas fotos não fazem jus ao desfile belo e orgulhoso que vimos à nossa frente, com centenas de tranças, cachos, quimonos, batas, abadás, turbantes, estampas, brilhos, conchas e búzios. Quanta gente linda naquele desfile da diversidade!
Minha maior surpresa foi a quantidade de gente se espremendo no momento do show de Alcione, maravilhosa, potente, sempre simpática. Achei que o ápice seriam o Olodum e o Baiana System, que não vimos porque era muito tarde, e tínhamos, eu, Cris e Julito, compromissos logo cedo. Mas até ali o ápice foi a Marrom, que deixou pequena até a bateria da Mangueira (e a galera não estava ali pelo samba-enredo, estava ali pela sofrência embalada pelo trumpete que a maranhense tanto gosta). 
Foi demais participar dessa festa, tão alegre, bem organizada e democrática. Bom demais ver essa juventude normalmente violentada tendo seu espaço, sua expressão respeitados, e dessa forma se empoderando e podendo vislumbrar o futuro. 

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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