domingo, 27 de julho de 2014

Tudo novo de novo, Paulinho Moska


Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Dois livros esquisitos e fase África

Não tenho lido tanto quanto gostaria, em função de muito trabalho sim, mas sobretudo por uma mente povoada de ideias que ainda não tomaram forma. Com tamanha ocupação mental, quase não sobra espaço para as ideias alheias fazerem eco em mim.
Mas então algum livro cai-me nas mãos e o encantamento vem como um raio. Ou então me deixo enganar por uma sinopse qualquer, por uma capa, e acabo me decepcionando.
Exemplo de decepções recentes são os esquisitíssimos Reprodução, de Bernardo Carvalho e Diga a Satã que o recado foi recebido, de Daniel Pellizzari. O primeiro me chamou a atenção pelo fato de o narrador ser um blogueiro, mas a tentativa de imprimir um fluxo de consciência à narrativa deu com os burros n'água. Chato! Já o de Daniel Pellizzari foi indicado por um vendedor da Livraria da Vila, que agregou valor ao livro mencionando o fato de o autor ter um compadrio literário com Daniel Galera, de quem só li um livro mas já acho um dos grandes autores jovens do país. Pois o do xará não funciona - mil focos narrativos, um tom indefinido de piada e underground, uma confusão que só cheira a confusão. Chato 2!
De outro lado, há as paixões fulminantes. Como o livro que um colega editor me emprestou porque falei sobre minha curiosidade acerca de Valter Hugo Mãe, cujo nome acho tão poético. Ele não só elogiou o angolano criado em Portugal, como tinha um dos livros à mão. Comecei a ler na mesma noite A máquina de fazer espanhóis, nada óbvio, lírico, irônico, intrigante e universal, como deve ser um bom livro.
Mas este é só um dos livros da minha fase África - de autores lusófonos, ou nascidos na África, ou que escolhem a África como cenário de seus romances (caso de Equador, do português Miguel Sousa Tavares, que também assina No teu deserto - pode nome mais lírico?). As mulheres do meu pai tem um atrativo autobiográfico, além da brejeirice do charmoso angolano José Eduardo Agualusa. Ao Mia Couto que ganhei ainda não dei início, mas já sei que vou gostar, como gosto de tudo desse moçambicano. E já estou de olho no timorense Luis Cardoso e sua temática navegadora.
Eu iniciei a fase África de fato, embora já tivesse lido Mia Couto, com autores não lusófonos, Coetzee e Le Clézio (este joguei fora antes de terminar de ler, não pelo texto, mas por ter sido presente de uma pessoa nefasta - fora da minha casa, energia ruim!). O diário de um ano ruim me aguarda a um canto, ainda não iniciado.
As estrelas da vez, porém, são os escritores de língua portuguesa, do português de Portugal, com seu lirismo, imagens tão reconhecíveis do lado de cá apesar de umas tantas diferenças. E nesses livros, em especial, quanto sol há! Quanto sol!

Encantamento com autores lusófonos e decepção com dois brasileiros contemporâneos
"com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante. caí sobre a cama e julguei que fui caindo por horas, rostos e mais rostos colocando-se diante de mim, e eu por ali abaixo, caindo, sem saber de nada. quando, por fim, me levantei, estava a anos-luz do homem que reconheceria, e aprender a sobreviver aos dias foi como aceitar morrer devagar, violentamente devagar, à revelia de tudo quanto me pareceria menos cruel."
Valter Hugo Mãe - A máquina de fazer espanhóis

domingo, 22 de junho de 2014

Lindeza popular

Amo a arte popular. Adoro essa inocência que reveste a sabedoria do povo mais povo de todos, os talentos escondidos que avultam em obras-primas que pouca gente conhece. E me sinto pertencendo a esse POVO maior, quase uma entidade que paira sobre nós e de cujas maravilhas só os mais atentos conseguem desfrutar.
Esse espanto epifânico também me toma quando vejo alguma exposição de povos antigos, dos nossos ancestrais. Aquela história do pertencimento, de novo e sempre.
E aí me lembro de Guimarães Rosa, de Riobaldo e Diadorim. De Manuelzão e Miguilim. Do sertão que conheço mais de filmes, livros e fotos, mas que mora em mim. Do agreste e dos interiores brasileiros. Do mar e dos rios. Dos mares de morros, tão amados. Das areias e pedras, dos azuis e verdes. Do barro, da madeira, dos fios. Um trem das cores brasileiro.
Dos Geraes a descobrir, do Jequitinhonha sonhado, do Opara São Francisco que me espera. Do encontro entre o Negro e o Solimões. E o meu barco de imagens, histórias e sonhos segue baloiçando pra lá e pra cá... Singrando pelas águas do meu inconsciente tão consciente de si.
E nessa viagem me deparo com o bordado lindo do boi de João Câncio e com o boi vermelho todo natureza de Manuel Eudócio. Com os mamulengos ancestrais. Com as profissões representadas pelos figureiros - a rendeira de todas as culturas e épocas, o fotógrafo, a engenheira. E Lampião up-to-date diante do computador. A fila no supermercado. A senhorinha posando para retrato.
São Francisco do Cangaço, uma boa combinação. O santo teria se arretado contra o que é feito do rio epônimo e da flora e fauna que dele dependem; talvez saísse mesmo no trabuco contra a exploração da natureza e as injustiças sociais. Talvez venham daí os olhos tristes.
E se Lampião fosse uma sereia? Manuel Galdino botou em prática o pensamento atrevido - provavelmente, ele deixaria a brabeza de lado se morasse ao lado do mar. Talvez...
O sinaleiro dos ventos, de 3 metros de altura, de Francisco Rosa dos Santos, do Paraná.
A linda e assustadora carranca do Mestre Guarany, para se precaver de todo mal, para levar a salvo quem navega.
Lampião e sua Maria Bonita, ícones sertanejos (mas até quando? até quando resistirá a memória sertaneja ainda propagada pelos cordelistas em tempos de comunicação virtual?).

As sabenças dos artistas. Dona Isabel, que não teme a vida nem se assusta com o regime de secas e enxurradas do Jequitinhonha porque sabe que as águas "soltas na terra só fazem o que querem". É ela também que diz que "a liberdade é perigosa" - como viver, não é assim, Riobaldo?
O alumbramento dos pequenos diante da Sapucaí animada por 1 minuto que abre as portas da eternidade.
Vitalino e seus vaqueiros, e os filhos de Vitalino perpetuando essa tradição de simplicidade no tudo dizer.
E até o meu selfie involuntário traz Vitalino, junto com o barco que abre as águas do São Francisco. O rio-mar corre invisível e silencioso pela exposição, lavando a alma de todos os presentes, de todos os brasileiros.
Exposição no Sesc Belenzinho, O Brasil na Arte Popular -
Acervo Museu Casa do Pontal

Meu caro karê

Já publiquei muitos comentários gastronômicos sem receita, mas nunca me senti culpada porque este não é um blog de culinária, nem mesmo de utilidade pública. Só é, por ora, o meu blog.
Mas devo admitir que fico bem irritada quando pesquiso receitas em blogs autodenominados gastronômicos, gourmet etc., e a coisa é completamente capenga. Ou seja, faltam passos na receita, a ordem de "entrada" dos ingredientes.
Assim foi com o karê. Minha ideia era fazer pastéis de carne, por isso saí para comprar a carne e a massa. Quando cheguei em casa, me lembrei do karê que comprei outro dia (na verdade, faz meses) na Liberdade, o Golden Curry. No mesmo dia, eu tinha almoçado com uma amiga numa casa de karê, e a dona tinha me dado a dica de acrescentar chocolate amargo ao ensopado.
E outro dia, quando fiz o boeuf bourguignon do Troisgros, a receita também falava do chocolate - realmente, fica divino.
Bueno, os pastéis se transformaram em karê. Tinha batata, cenoura e cebola, entonces era só seguir alguma receita. E foi aí que esbarrei nas receitas incompletas que se dizem "o verdadeiro karê". As proporções estavam corretas, mas neca de passo a passo. Por minha conta, acrescentei maçã picada e o chocolate, no final. Ficou muito, muito bom.

Ingredientes (serve bem 2 pessoas):
- 200g de carne ou frango cortado em cubos (a carne pode ser alcatra ou patinho)
- 1 cebola grande picada
- 2 cenouras médias cortadas em cubos
- 2 batatas médias descascadas e cortadas em cubos
- 1 maçã grande, descascada e cortada em cubos
- 2 partes da bandejinha de karê Golden Curry (a minha tinha 5)
- 1 litro de água fervente
- 20g de chocolate amargo (usei aquele Special Dark da Hershey's)
- azeite (cerca de 2 colheres) para refogar
- sal a gosto

Preparo:
Refogue a cebola no azeite. Junte a carne, e em seguida a batata e a cenoura. Deixe refogar algum tempo e então acrescente a água fervente. Tampe a panela e deixe cozinhar por cerca de 20 minutos ou até que os legumes estejam quase macios. Acrescente os tabletes de Golden Curry e misture bem. Junte a maçã e deixe cozinhar por mais uns 5 minutos. Quando a carne e os legumes estiverem macios, incorpore o chocolate, mexendo até que ele derreta. Acerte o sal e então desligue.
Sirva com arroz branco.

sábado, 21 de junho de 2014

quinta-feira, 19 de junho de 2014

São João sem canjica não pode!

Quando eu era pequena, adorava ir a festas juninas, daquelas com quadrilha, barracas diversas, fogueira, vinho quente, pipoca, canjica. De preferência, ao ar livre, para a gente apreciar as estrelas, mais vívidas nas noites frias de inverno.
Isso se apagou um pouco em São Paulo, e agora parece que as festas juninas se limitam a festas de escola, em quadras cobertas. Tenho a impressão de que até a festa do Sesc Pompeia deixou de acontecer (talvez por conta da superlotação), embora faltasse a ela a saudosa quadrilha da minha infância.
Nesse espírito saudosista, resolvi fazer canjica. Minha amiga Kelly comentou que a mãe dela adoça a canjica com açúcar queimado - pirei na ideia! Praticamente uma canjica praliné (porque ela usa amendoim também).
Como ela não soubesse a receita, resolvi tentar por conta própria. Já concluí algumas coisas:
- melhor cozinhar a canjica em água na panela de pressão; o leite seca rápido e a panela perde pressão - também desconfio de que ele entope a válvula; acabei cozinhando o tempo restante sem pressão, e demorei muito mais
- é preciso confiar no poder edulcorante do caramelo/açúcar queimado - espere misturar bem para então decidir se vai colocar mais um tiquinho de açúcar (eu não esperei e adocei um pouco além)
- a ideia de triturar o amendoim colocando-o em um saco plástico e passando sobre ele o rolo de macarrão é fantástica - uma solução rápida, que deixa os grãos uniformemente triturados

Ingredientes:
- 250g de canjica de milho branco
- 1 xícara chá de amendoim torrado, descascado e triturado
- 1 litro de leite integral
- 1 xícara de açúcar para caramelizar
- 2 hastes médias de canela em pau
- água para o cozimento

Preparo:
Deixe a canjica de molho por 12 horas ou mais. Retire a água, coloque-a na panela de pressão, cubra-a com água (pelo menos dois dedos acima) e tampe a panela. Quando iniciar a pressão, conte 25 minutos para o cozimento. Tire a pressão da panela (ou esperando que ela acabe normalmente, ou colocando-a sob água corrente), abra-a e adicione o leite. Leve a cozinhar com a canela, até a mistura engrossar um pouco e até que os grãos da canjica fiquem macios. Acrescente o amendoim picado e mexa mais um pouco. Quando estiver quase no ponto, derreta o açúcar em uma panela, só até ficar dourado. Misture imediatamente com a canjica. Sirva levemente aquecida ou fria; se quiser, polvilhe sobre ela um pouco de canela em pó.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Carne louca é coisa nossa

Nunca tinha feito carne louca. Acho que porque adoro, porque existem milhares de receitas a testar, porque achava que ela tinha algum segredo inconfessável etc.
Mas ultimamente tenho cismado com as coisas de pronto. E resolvi fazer carne louca daquela de sanduíche de boteco, de festa de aniversário, bem suculenta. Só que tinha que levar páprica - minha clássica cisma com determinado ingrediente, ainda mais depois de eu ter comprado um vidro grande de páprica defumada.
Bom, pesquisando aqui e ali, acho que cheguei à minha receita definitiva. Serve 8 sanduíches fartos (de preferência com pão francês quentinho e crocante):

Ingredientes:
- 500 g de coxão duro (o meu estava já em pedaços, por isso cozinhou mais rápido)
- 1/2 xícara de chá de azeite para marinar
- 1/2 pimentão amarelo picado sem sementes
- 1/2 pimentão verde picado sem sementes
- 1/2 xícara de azeitonas verdes picadas
- 1 cenoura descascada cortada em palitos
- 3 dentes de alho descascados e amassados
- 1 cebola picada
- 2 folhas de louro
- 3 ramos de tomilho fresco
- 1/2 lata de tomate pelatti
- 500mL de água quente
- 1 colher chá de páprica defumada
- sal e pimenta do reino a gosto
- azeite para refogar

Preparo:
Marine a carne por 2 ou 3 horas com azeite, alho, páprica, pimenta do reino e sal, esfregando os temperos na carne e colocando também as folhas de louro e o tomilho e cobrindo tudo com os pimentões e a cenoura. Ao fim da marinação, refogue a cebola em azeite na panela de pressão; quando começar a dourar, junte a carne, selando-a dos dois lados. Acrescente então o restante da marinada, inclusive os pimentões e a cenoura. Misture bem e deixe cozinhar por uns 5 minutos. Acrescente o tomate pelatti com o molho e deixe cozinhar mais um pouco. Despeje a água quente, misture e quando abrir fervura tampe a panela. Assim que tiver início a pressão, conte mais 40 minutos de cozimento em fogo médio.
Desligue e espere acabar a pressão. Abra então a panela, leve novamente ao fogo, agora acrescentando as azeitonas. Prove e acerte o sal. Sirva como recheio de pão francês ou com purê de batata ou mandioquinha. E como combina com um refrigerante retrô!


Os gatinhos é que sofreram com o preparo: tiveram que ficar fora da cozinha, ainda mais depois da ação suicida do Chico de subir no fogão enquanto eu preparava nhoque e havia uma panela de água fervente no fogo!



Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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