Mostrando postagens com marcador machismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador machismo. Mostrar todas as postagens

domingo, 20 de julho de 2025

Descasar também é coisa de cinema

Assisti outro dia a um filme indicado por Dani, Mon roi, da diretora francesa Maïwenn. Poderia dizer que é um filme de terror - Georgio, personagem de Vincent Cassel, é um restaurateur charmoso e abusivo que se relaciona com a advogada Tony, vivida por Emmanuelle Bercot. Ele decide tudo no relacionamento: ter um filho, o nome da criança, deixar a namorada/mulher no apartamento enquanto vai morar em outro onde recebe a ex. Georgio é claramente tóxico, mas sedutor, se faz de vítima, um puer aeternus típico, e Tony não consegue se desvencilhar, e até o fim ficamos presas ao filme, sem fôlego, à espera de que ela consiga ir embora. Terrível! Há quem diga que Maïwenn se inspirou na sua história com Luc Besson. 
Isso me fez pensar em outros filmes sobre términos difíceis de casamento após relacionamentos tóxicos. História de um casamento, de Noah Baumbach, traz o casal Nicole e Charlie, vividos pelos charmosos Scarlett Johansson e Adam Driver, vivendo o fim do casamento de forma progressivamente dolorosa. Nicole também abre mão de seus interesses em prol da relação - ela, uma atriz em ascensão, deixa tudo para cuidar da família com o marido diretor, que não abandona nem um milímetro de sua carreira. A advogada Nora, interpretada pela ótima Laura Dern, ajuda Nicole a enxergar a realidade. 
A esposa, filme de Björn Runge, traz Glenn Close no papel de Joan, mulher de Joe, premiado escritor que acabou de ser premiado com o Nobel de Literatura. É exatamente a ocasião em que Joan revê seu casamento, sua dedicação irrestrita que a levou a suplantar seu próprio talento e tornar o marido um escritor reconhecido. E decide abandonar o marido, no meio da cerimônia de premiação. Descobrimos, então, que era ela quem escrevia os livros de Joe, que também tem um ego gigante, como os companheiros das outras películas. 
Acabei hoje revendo A lula e a baleia, também de Noah Baumbach. Impressionante como esse filme de 2005, vinte anos portanto, é totalmente atual. Não há nada nele que possamos chamar de "datado", o que, no fundo, é triste: o machismo, a cultura patriarcal, o marido que manipula, que coloca para baixo para não se sentir inferior e que não suporta a ascensão da mulher - de novo, um casal de escritores. A personagem de Jeff Bridges, o marido, ainda procura alienar os filhos - o mais velho, que busca aprovação paterna, cede, mas o pequeno saca melhor a dinâmica familiar. Walt, o mais velho, tem o pai como exemplo e, ao ser desmascarado por usar uma música do Pink Floyd como sua, diz que sentia que poderia ter escrito a música - algo que seu pai provavelmente diria, no alto de sua arrogância. As mulheres são rotuladas por Walt e seu pai, homens que não amam mulheres. Mas Walt pode ter sua redenção, depois de se lembrar de ocasiões em que teve momentos especiais com a mãe e o pai nunca estava presente. E a mãe, Joan (outra Joan), vivida por Laura Linney, também já deu seu passo rumo a uma vida autônoma. 
A questão nesses filmes não é o dano do casamento em si. Todos eles tratam, na verdade, de homens narcisistas, que colocam as parceiras como apêndices, apoios de seu sucesso, e só. São incapazes de partilha, de se alegrar com as conquistas alheias. Cada vez mais temos visto a realidade de exaustão feminina nas telas - mas, diferentemente de Kramer vs Kramer, em que a mulher é retratada como a vilã que abandona o filho e o pai que, afinal, tem que fazer o básico e é visto como herói. 
Mesmo com tanto ultraconservadorismo hoje, seguimos dando um passo a cada dia, sem interromper a caminhada. Não importa quando, sempre é tempo de fazer o melhor. 

domingo, 15 de dezembro de 2024

"Disclaimer" e a crítica de Chico Bosco x podcast da Fernanda Lima

Faz umas semanas que assisti à série Disclaimer, com a diva Cate Blanchett, dirigida por Alfredo Cuarón. Achei legal, mas nada que me impressionasse muito. Uma mulher linda, loura e bem-sucedida, documentarista, casada com um cara rico, que preside uma ONG, tem sua vida subitamente devassada pela revelação de um caso tórrido que teria tido com um rapaz em férias na Itália. O rapaz morreu na viagem, afogado, tentando salvar o filho da mulher, Catherine, vivida por Blanchett - a mãe do moço, que nunca se conformou com a morte, havia escrito um relato semificcional, com direito a fotos de nus de Catherine feitas pelo falecido. O pai do moço, vivido por um amargo Kevin Kline, encontra o manuscrito, anos depois da morte da mulher, e resolve se vingar de Catherine e sua família quase feliz - o filho de Catherine, que não se afogou pela intervenção do amante eventual, não fala com a mãe. Depois que a vida da loura se esfacela com a publicação do livro - o marido não quer nem ouvir a mulher, o filho se perde em heroína -, afinal descobrimos que o jovem morto na verdade estuprou a mulher, com direito a testemunho da criança de 4 anos. No final, o marido quer "perdoar" Catherine, já que ela "só foi" estuprada, não o traiu. Ou seja, não foi um ato produzido pelo desejo dela. Ah, o desejo feminino, sempre afrontoso!
Eu achei boa a série, mas não me tocou tão diretamente, porque eram pessoas ricas, brancas, poderosas em cena, embora, claro, a questão do estupro nos diga respeito a todas. Qual não foi minha surpresa, porém, ao ler um texto relativamente longo e pomposo do Chico Bosco, filho de João Bosco, que eu acreditava ser psicanalista até saber que ele tem formação em filosofia e literatura, a respeito da série. Ele fez uma crítica contundente ao desserviço gerado pela série ao público masculino, sobretudo os mais jovens, que estão em busca de aceitação e só têm encontrado ataques das mulheres. Gente! Eu até tinha ouvido algumas coisas que ele tinha dito no programa do GNT e achava que ele era um "fado" sensato, mas no final das contas creio que ele pesou a mão. Ele acusa a série de limitar os homens aos tipos vingativo, depressivo, bobalhão e estuprador. Uai, por que uma série não pode escolher os exemplares de masculinidade com que quer trabalhar? Teria de haver um desfile de tipos masculinos? Achei infantil, sobretudo porque ele tenta com isso desmerecer o argumento de que a vítima tem sempre razão em casos de violência sexual - isso sim, um desserviço imenso, ainda mais vindo de um cara público. O foco da série não é a luta de versões, mas o fato de o estupro ser menos chocante para o homem do que a traição. Ignorar isso aumenta a força da extrema direita, dos red pills e companhia, municiando esses agentes do horror, com pequenos ajustes/distorções. Há uma crítica até ao slogan simpático "o futuro é feminino". Nossa.
Em outra ponta, temos a ótima e linda Fernanda Lima com seu podcast Zen Vergonha - cheguei até ele por conta da temporada 1, sobre menopausa, ótimo. Na temporada 2, Fernanda entrevista homens famosos - atores, psicanalistas, filósofos, cantores - para falar sobre as descobertas das masculinidades, justamente como eles têm se reinventado em uma época em que as mulheres não estão aceitando qualquer coisa nos relacionamentos. Não veem como uma declaração de guerra aos homens, mas como uma mudança dos tempos. Pelo jeito, é bom Fernanda chamar Bosco para uma entrevista.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

"I may destroy you" quebra tudo

Resolvi cancelar minha assinatura da HBO porque quase não vinha assistindo nada no streaming e estou fazendo uma limpa nas despesas, mas aproveitei, já que tinha alguns dias de lambuja, para assistir à série I may destroy you, escrita, dirigida e protagonizada por Michaela Coel e premiada no Emmy há alguns anos. Michaela é uma sobrevivente de abuso sexual e escreveu sobre a experiência mais aterrorizante que uma mulher pode ter. 
Mas a série não é "apenas" sobre um episódio de abuso sexual. Embora o fio condutor e ápice seja o estupro de que a personagem Arabella se lembra somente por flashes, a história acompanha a protagonista e seus amigos Terry e Kwame em aventuras por Londres, em busca de trabalho, diversão e amor. A questão do consentimento nas relações sexuais está presente na história dos três, e vemos que não é somente Arabella que é vítima de abuso. Aqui e ali vemos o racismo, a lgbtfobia, a luta de jovens em busca de sucesso, inclusive sendo bombardeados pelo poder das redes sociais - caso de Arabella, que, alçada a escritora pelo TikTok, torna-se influencer instantânea contra abusadores e logo sofre com o assédio de haters. Poucas vezes assisti a uma série ou filme tão bem inserido no contexto contemporâneo, com tantas questões fundamentais colocadas sem artificialismos. É claro que também tenho uma queda por produções britânicas, normalmente mais cruamente humanas (Fleabag, Rain dogs, River, Slow horses, filmes do Ken Loach etc.) que as estadunidenses. Mas I may destroy you rompe as fronteiras, mergulha no espaço das redes e traz personagens colapsadas - e Michaela Coel é simplesmente brilhante em cada expressão, na construção da dinâmica fraturada de Arabella, que se equilibra em um fio enquanto segura um espelho diante de nós.

sábado, 6 de julho de 2024

A delicadeza afrontada em "Close"

Desde que soube da existência de outro filme de Lucas Dhont, o mesmo diretor de Girl, fiquei de olho em que streaming ele apareceria. Demorou, mas em maio Close estreou no Netflix. Embora os dois filmes sejam bem diferentes, há em ambos a dor de quem quer ser apenas quem é mas encontra a intolerância e o preconceito pela frente, nos dois casos, chocantemente, em outros jovens que estão apenas começando a viver. 
Close mostra a amizade entre dois garotos de 13 anos numa cidade bucólica da Bélgica. A questão não é saber se se trata de uma relação amorosa; o que se vê é uma inocência patente na maneira como os amigos se tratam um ao outro. Até poderia se tornar uma história de amor, mas não saberemos jamais, tudo porque a violência da intolerância nascente vai abreviar essa história. A possibilidade de vida e amor é minada pelo ódio herdado de uma cultura machista. O título se refere, de antemão, a um comentário que uma colega faz acerca da relação de Leo e Remi, de que eles estavam sempre "perto", sempre juntos, se isso queria dizer que eles tinham um "relacionamento". Leo fica incomodado, pela primeira vez - nunca havia pensado nisso. Remi, uma alma de artista, nem parece se aperceber do comentário maldoso, mas sofre horrivelmente com o afastamento do amigo. 
Mais uma vez, Lucas Dhont dirige de forma magistral seus atores, a ponto de nos partir o coração. Mais uma vez, a suavidade das personagens é engolfada pela tragédia. Mas isso não é motivo para não assistirmos ao filme, pelo contrário - é a oportunidade que a arte nos dá de enxergarmos o outro, de lhe emprestarmos a nossa pele e nos deixarmos afetar, sinal indiscutível de que estamos vivos.
https://uploads.jovemnerd.com.br/wp-content/uploads/2023/03/close_capa__abt30cjp.jpg?ims=1210x544/filters:quality(75)

sábado, 27 de abril de 2024

As novas minas no cinema

No final do maravilhoso curso do Paulo Henrique Fernandes Silveira na FEUSP, escrevi sobre a imagem das mulheres no cinema, passando de enfeites e coadjuvantes, durante muito tempo, a protagonistas das narrativas nos últimos anos. Parece que agora demos mais um passo nas películas, no sentido de as protagonistas soltarem o verbo contra o machismo. 
Só para ficar no exemplo dos filmes oscarizados deste ano, trago Barbie, Pobres criaturas e (eu acrescento) Anatomia de uma queda. Não fui a única a perceber essa relação, claro, especialmente entre os dois primeiros, puro deboche antimachista, e houve quem relacionasse o terceiro ao ótimo História de um casamento, como se a esposa do filme francês, vivida por Sandra Hüller, tivesse tido a coragem de dar as respostas que a personagem de Scarlett Johansson não conseguiu ao vomitório de insatisfações do marido. Eu colocaria os três indicados deste ano na mesma chave de leitura, com protagonistas que vivem sua vida sem se render à cartilha do patriarcado e, com isso, provocam espasmos e histeria dos machos de plantão - Mark Ruffalo chega mesmo a rolar no chão diante da liberdade plena da Bella Baxter de Emma Stone. 
Em outra postagem, comentei sobre Barbie em relação a outros filmes que traziam símbolos da infância, Indiana Jones e Asterix. Não tinha, contudo, enfatizado o discurso feminista, o ótimo texto, a fala exemplar da personagem de América Ferrera sobre tudo o que é exigido de uma mulher, nada menos que a perfeição e mais, se possível for. 
Com humor ou com tragédia, os três filmes trazem as mulheres questionando o patriarcado, arregaçando as mangas contra ele e provocando reações masculinas contrárias, dentro e fora dos filmes. Mas o que mais me agrada é que nenhuma das protagonistas se culpa por fazê-lo, algo que muitas de nós ainda precisam aprender. 

domingo, 10 de março de 2024

Os macho pira, e a gente caminha

No último 8M, saí para cortar as madeixas. Já tinha visto várias mensagens lindas sobre o Dia Internacional das Mulheres, especialmente de mulheres, obviamente - dos homens, normalmente, aquele "vocês são fortes mas delicadas, embelezam o mundo, tome uma flor" blábláblá. Daí, o motorista de Uber, que vinha bem na conversa, falando dos malês, da Maria Quitéria, do Dois de Julho, de racismo, de como a educação para mais pessoas possibilitou que os jovens negros ocupem mais espaços etc., me solta essa quando já tínhamos chegado ao shopping: "Feliz dia da mulher! Mas esse empoderamento feminino, na verdade, está acabando com os relacionamentos". Deve ter sido o meu choque que me fez demorar uns segundos a mais no banco do carro ou foi porque o homem se transformou numa metralhadora e acabei perdendo mais de cinco minutos com o discurso de macho ferido, casado há 29 anos, que não entende por que a esposa ainda está insatisfeita se ele, tão disposto a ajudar, assumiu o "papel" que era dela e ficou em casa para ela trabalhar. Só sei que nesse bololô entraram Anitta e Beyoncé, que pregam empoderamento mas "não se dão o respeito", e golpes em aplicativos de relacionamento contra os pobres machos fragilizados por nosso empoderamento. Apesar do choque, fui abrindo a porta do carro e, pezinho já para fora, disse a ele que essa conversa era longuíssima, que ele e esposa deviam fazer terapia, rever combinados porque não existe essa de "papéis" de cada um mas sim papéis que são dos dois, mas que ele devia saber, na verdade, que "as mulheres estão exaustas". Ainda desejei sorte, embora imagine que a esposa está mais para futura ex que qualquer outra coisa - e espero que ele aceite isso sem violência, e que isso o faça refletir sobre a própria postura e entendimento da vida e do mundo.
Impressionante como os homens ainda tentam nos culpar pelo fracasso do modelo patriarcal! É porque não queremos mais esse modelo que eles estão infelizes - ou seja, se alguém tem que ficar infeliz, que sejamos nós, mulheres. Só quem sentiu a infelicidade bloqueando qualquer possibilidade de existir, de respirar pode se colocar contra esse tipo de situação. 
Comentei com minha cabeleireira, assim que cheguei ao salão, sobre o episódio. E ela disse que, mesmo sem conhecer a esposa do motorista, não poderia jamais lhe dar razão, só poderia ficar ao lado dela. Achei de uma beleza reconfortante essa fala. A luta é de todas nós, sempre, todo dia, inclusive contra o machismo de mulheres. E então revi, entre as postagens do 8M, a imagem histórica de Rose Zehner organizando as operárias na fábrica da Citroën, na França, em 1938, registrada por Willy Ronis e só publicada nos anos 1980. E me vieram ao coração tantas mulheres que engrossaram as fileiras nas últimas décadas que o desenho saiu fácil, representando latinas, negras, palestinas, indígenas, orientais, trans, mulheres de todo tipo e de todo canto. Todas no mesmo caminho contra a opressão, porque a nossa natureza é a liberdade, e só podemos ser livres de fato se todas forem. 

terça-feira, 19 de abril de 2022

Etarismos

Minha amiga Lu compartilhou outro dia um vídeo de um médico comentando como as mulheres costumam se cuidar mais, física e mentalmente, do que os homens, chegando assim à idade mais avançada muito mais saudáveis. Ele usou como exemplo o Alain Delon, que declarou que ia praticar o suicídio assistido, permitido na Suíça, porque não suporta o peso da velhice. Comparava, enfim, o comportamento de homens e mulheres após os 50 anos.
Parecia uma fala simpática, mas tinha uma nota de indisfarçada condescendência. Embora concorde com ele sobre as mulheres se cuidarem melhor depois dos 50 anos, me incomodou que ele não adentrasse as razões por que isso acontece. Se as mulheres buscam o suporte de outras mulheres, se elas viajam mais, se se cuidam mais física e mentalmente após os 50, provavelmente é porque chegaram a uma fase na vida de maior liberdade, de menos compromissos familiares. Provavelmente, não têm maridos, ou porque enviuvaram, ou porque se separaram, ou porque não querem mesmo. Se têm filhos, já estão criados. Se podem viajar, ou estão aposentadas, ou então têm uma reserva de dinheiro advinda de poupança ou de trabalho remunerado. Se não forem brancas, provavelmente terão menos mobilidade, devido à desigualdade social e financeira, mas a mesma - ou ainda mais - solidariedade com outras mulheres. 
Foi tudo isso que o médico esqueceu de levar em conta. Que as mulheres têm uma sobrecarga de afazeres muito maior que a dos homens, e só se libertam dela na maturidade da vida, quando o conseguem. Sua experiência com cuidar, ainda que quase sempre imposta culturalmente, acaba se revertendo em favor delas. Já os homens, acostumados ao cuidado feminino, muitas vezes se veem sem saber o que fazer quando não o tem mais, e alguns se amarram a relacionamentos para garantir esse cuidado. 
Por sorte, os debates antipatriarcais têm possibilitado que novas gerações de mulheres se deem conta da sobrecarga injusta e absurda cada vez mais cedo, o que pode ocasionar maior liberdade feminina. As mulheres mais velhas, por seu lado, estão justamente lutando para serem vistas em sua potência, não apenas como mães, avós, viúvas, mas como mulheres que continuam a viver plenamente. O tal médico não toca nesse tema em nenhum momento do vídeo - ou seja, não está sequer a par desse debate tão importante que temos vivido, contra o etarismo, outro elemento que atrasa a conquista da liberdade e da equidade social, principalmente para as mulheres. O etarismo que acomete os homens é de outra natureza, normalmente mais tardio, quando então se ajunta ao capacitismo enfrentado pelos velhos. No caso das mulheres, a questão da idade se relaciona sobretudo com o apagamento social desde os 40 anos - não devemos usar tal corte de cabelo ou tais roupas, não devemos nos comportar de tal forma; só nos resta nos recolhermos a um canto, enquanto cuidamos de alguém ou a morte não chega. 
Em coisas simples é que vemos a mudança de visão feminina sobre a idade: assumir os cabelos brancos, algo que foi potencializado na pandemia, é um símbolo de tomar a vida nas mãos sem se preocupar com a opinião alheia. Na esteira, vem a liberdade de não se igualar a modelos macérrimas, a não se ocupar demais em disfarçar os sinais próprios da idade, como manchas na pele ou curvas a mais. Claro que não é só sobre a aparência, mas a aparência, no caso das mulheres, tem sido há tanto tempo um norteador de comportamento que nada mais justo que nós, mulheres, possamos dizer como queremos que ela seja: a de cada uma, diversa, exclusiva, marcada por existências próprias. 

sexta-feira, 25 de março de 2022

Longa jornada noite adentro contra o machismo e outras intolerâncias

Quando pensei em escrever este post, estava impactada pela notícia de um estupro coletivo que aconteceu no Carnaval deste ano, em Buenos Aires, em pleno bairro boêmio de Palermo. Uma jovem deixou uma boate local na companhia de rapazes que viajavam de carro pela Argentina e foi estuprada por eles no interior do veículo, diante de uma padaria do bairro. Não sabemos se ela estaria viva pra contar a história se os donos da padaria, que estavam ali para abrir o estabelecimento pela manhã, não tivessem visto a estranha movimentação no interior do veículo e constatado, aterrados, que ali acontecia um estupro. Munidos de vassouras e aos gritos, marido e mulher avançaram contra os criminosos, que tentaram fugir, mas foram impedidos por outras pessoas da vizinhança. A moça estava tão dopada que disse não saber como tinha ido parar ali, mas percebeu, entre flashes de consciência, que estava sendo estuprada. Nem sei nomear o que sinto com uma notícia dessas.
Pouco tempo depois, um deputado bolsonarista-morista, que supostamente teria ido à fronteira da Ucrânia com a Polônia como integrante de um grupo de ajuda humanitária, declarou que as mulheres ucranianas eram "fáceis" porque eram pobres. Mesmo tendo sido punido pelo partido e pela opinião pública, é desolador que essa ainda seja uma visão de boa parte dos homens - no Brasil, inclusive, estimulada pela onda ultraconservadora que cobriu o país. Dói ouvir que há puta em toda parte, que esta seja a resposta automática diante do absurdo expresso pelo político. 
Como o machismo não dá trégua, sobrou até pra Pedrito Almodóvar, a quem declarei de novo meu amor outro dia. Li um artigo pouco depois que chamava a atenção para a visão feminista torta em Madres paralelas, e acho que há uma certa razão quando se critica a construção da personagem de Penélope Cruz (que "usa" a jovem apaixonada por ela e ainda volta para o homem que duvidou da sua paternidade), mas mais ainda para a presença do estupro em alguns filmes do espanhol - Atame, Kika, Fale com ela, Volver, A pele que habito. No caso de Madres paralelas, até podemos pensar nas contradições vividas pelas mulheres até hoje, de se relacionarem erraticamente com boys lixo ao mesmo tempo que lutam por sua liberdade, afinal, ninguém é perfeito mesmo. Mas no caso dos outros filmes, e só falo dos casos de que me lembro, vê-se o olhar machista que persiste até mesmo em quem certamente foi vítima desse machismo. 
Só para exemplificar a extensão da jornada-luta contra o machismo, indico o magistral documentário da Netflix baseado nos diários de Andy Warhol, editados por sua secretária Pat Hackett e lançados pouco depois da morte do artista. As imagens de época e os textos dos diários lidos por um artista que teve a voz modificada por inteligência artificial para se assemelhar à de Warhol são emocionantes e nos aproximam de uma época efervescente - também varrida pela onda conservadora - e de um homem solitário e provocador, revolucionário e contido, um nome fundamental para a completa transformação da arte contemporânea e da cultura de massas em todo o mundo. É tristíssimo que Andy não possa ter vivido o amor de forma plena, sufocado pelo preconceito de sua criação e da sociedade ao redor, que ele, que resistiu a uma saraivada de tiros, tenha assistido à morte de tantos amores e amigos, vitimados pela Aids, esse tsunami de horror dos anos 1980. Até mesmo Andy Warhol, homem branco, genial, bem inserido no circuito cultural novaiorquino, sofreu os revezes do machismo, muitas vezes de si contra si. 
O machismo mata sempre. Quem for a favor da vida, do amor, da liberdade, do futuro, não pode ser a favor do machismo.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

A urgência de Almodóvar e Campion nos dias de hoje

Uma das poucas certezas que tenho na vida é que amo Pedro Almodóvar. Pode até haver um filme dele que acho mediano, mas, de modo geral, no cômputo final, amo seu trabalho. Sempre me surpreendo, feliz, com as camadas que vou desvendando a cada película. Adoro as nuances hitchcockianas mais coloridas de seus closes e recortes, suas trilhas dramáticas ou tropicalmente alegres, mas principalmente suas personagens tão humanas e suas tramas profundas por mais corriqueiras que pareçam. Achei que não era possível amar mais, mas acabo de ver Madres paralelas, com Penélope Cruz. O feminismo, sempre presente na obra de Almodóvar, aparece devidamente repaginado, com questões LGBT urgentes, maternidade, estupro, identidade e a luta principalmente das mulheres para que a memória da violência não se perca - caso do reconhecimento dos corpos enterrados em uma cova de um povoado, nos primeiros dias da Guerra Civil (para mim, desde sempre, um período histórico de grande interesse). Absolutamente necessária hoje a fala de Janis, personagem de Penélope, para a jovem Ana (Milena Smit), de que ela deveria saber de que lado estava sua família durante a guerra e que esta não cessaria enquanto os corpos dos mais de 100 mil desaparecidos ao longo do regime franquista não pudessem ser enterrados por seus familiares. Aquele calor no coração que o chamado por justiça provoca, ai. Mas tenho certeza de que muita gente hoje em dia vai detestar esse chamado por justiça e liberdade de Almodóvar, como detestará também o filme de Jane Campion com 12 indicações ao Oscar, o maravilhoso Ataque dos cães
No caso de Campion, cria-se uma expectativa acerca da temática de seu filme, aparentemente um faroeste, porque o filme é ambientado em Montana, na verdade Nova Zelândia. Tudo parece ser, mas não é. O título em português irritou os não entendedores - o original é The power of the dog, homônimo do romance de Thomas Savage. Embora sim, o nome em inglês se relacione com a passagem bíblica apontada por Peter, personagem do excelente Kodi Smit-McPhee, não se perde em nada a metáfora do cão-demônio que ameaça a paz do casal Rose e George, vividos lindamente pelo casal na vida real Kirsten Dunst e Jesse Plemons (um dos meus atores favoritos no momento) - aliás, que cena mais delicada do mundo a de Rose e George tomando chá e dançando na planície! Não preciso nem comentar o trabalho do querido Benedict Cumberbatch, que tem a mesma habilidade de seu conterrâneo Ralph Fiennes para expressar um sofrimento arduamente contido. Se em Madres paralelas vemos as mulheres prontas para tudo - para lutar, para amar, para pedir ajuda, para enfrentar as consequências da verdade, seja qual for -, em Ataque dos cães, assistimos ao mundo machista engolindo a si mesmo por não aguentar a claridade ofuscante da verdade. 
Como dois filmes tão diferentes podem ter coisas em comum? Mais ainda: por que ambos podem ser tão importantes nos dias de hoje? A escrita do desejo proibido de Campion encontra a liberdade de ser de Almodóvar, e os dois caminham na busca da verdade, esse bem tão vilipendiado hoje, deformado a serviço de impostores, intolerantes, covardes. Porém, é importante que se diga que, embora Campion e Almodóvar lancem luzes sobre o obscuro, cabe somente a nós vermos. 

sábado, 28 de novembro de 2020

Uma imagem toda minha

Eu ia me apropriar do título do álbum e da música de Chico César, "Respeitem meus cabelos, brancos", mas depois pensei que este post não era só sobre isso, sobre padrões, intolerância, cabelos. Tinha mais a ver com a construção da imagem feminina ao longo do tempo, com as autorizações e proibições que recebemos em relação a nossa imagem. Mulheres mais velhas não podem ter cabelos longos, mulheres não podem ter cabelos brancos, mulheres não podem usar roupas curtas, mulheres não podem não se depilar nem exibir suas estrias ou barriga na praia. Mas meninas têm sido estimuladas a imitar princesas, a usar maquiagem mirim, a fazer biquinho e pose de adultas nas fotos. 
Daí me lembrei do ensaio Um teto todo seu, da Virginia Woolf, uma das primeiras escritoras a debater claramente o papel da mulher no mundo, sobretudo esse papel inventado para ela, e como isso influenciou diretamente a carreira de tantas mulheres para além da vida doméstica. Soube desse livro (eu só li dois de Virgina Woolf, Orlando e Entre os atos) por minha cunhada, hoje a principal tradutora dos diários da inglesa para o português. Pensei logo que além do teto todo meu, também quero ter direito a uma imagem toda minha, livre dos padrões impostos a nós mulheres, e ainda mais depois dos 40 anos, quando quase deixamos de existir para a sociedade. 
Outro dia, percebi que meus cabelos não estão só cada vez mais brancos como também mais ondulados. A tal da perda de queratina para a qual Emerson sempre me alertava. Não sei quanto tempo demora para que os brancos tomem a cabeleira toda, eles estão ainda semiescondidos - adoraria que ficasse algo uniforme, como os da Glória Pires, cabeluda como eu e que tem sofrido críticas por "assumir os brancos", como se não tivesse direito a essa escolha. 
Só sei que quando ergo os cabelos, vejo fitoplânctons brilhando, a prata surgindo de um rio avermelhado. Se a prata tomar conta, vou deixar, mas imagino já as críticas e narizes torcidos, de perto e de longe.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O mundo está ao contrário e ninguém reparou?

É tanta notícia ruim neste país nos últimos dias que a mente demora muito a serenar para que a gente possa se tornar minimamente produtiva ao longo do dia. Não bastassem as notícias da violenta expulsão das famílias de Campo do Meio, MG, que ocupavam há mais de 20 anos terras da usina falida onde haviam trabalhado, e lá produziam agricultura orgânica e o melhor café da região, do avanço da Covid-19 no país e no mundo, do desmonte incessante da cultura e da educação, da morte de centenas de indígenas por assassinato ou por Covid-19, há essa história horrível da menina capixaba de 10 anos, estuprada pelo tio desde os 6, grávida, que não conseguia abortar porque os médicos se recusaram e depois enfrentou uma turba de fanáticos religiosos, diante do hospital que aceitou fazer o aborto, que chamavam a criança de "assassina". Fiquei tão perturbada desde que soube dessa história, e dos seus desdobramentos que indicam todo nosso retrocesso e fracasso social, que hoje nem consegui trabalhar. Só pensava na criança, assustada, roubada de sua vida, aviltada por alguém da família e por estranhos. Que país, que mundo, que tempo são estes?
Depois de tudo o que temos visto sob a luz atordoante dessa pandemia, vamos seguir sendo os mesmos, sabendo-mas-ignorando as situações gritantes de desigualdade do nosso país? Ou vamos agir de forma efetiva e contundente para evitar que as trevas cubram tudo até não sabermos mais onde estamos nem quem somos?

sexta-feira, 13 de março de 2020

Para que serve o feminismo

"Isso é falta de homem" é uma frase que ouvi mais de uma vez na vida. Uma das vezes, foi dita por um cobrador de ônibus com quem discuti porque apoiei os pés na estrutura de ferro sob seu banco. Uma outra, foi meu ex-cunhado, que avançou sobre mim para "defender" minha irmã em uma discussão corriqueira entre nós duas - o mesmo cunhado que, após avançar também sobre meu irmão, agrediria minha irmã e que manteria contato com uma ex enquanto era casado. Seriam ele e o cobrador exemplos do homem que me faltava?
Outro dia foi dia da mulher, e eu repostei uma imagem que lembrava duas turistas brasileiras que foram assassinadas durante uma viagem. A mensagem dizia respeito ao direito das mulheres de viajarem sozinhas (= sem homens) em paz. Logo veio um amigo questionar o feminismo "de hoje", que prega o ódio das mulheres aos homens, afe. 
Se eu achasse que vale a pena, teria dito a ele uma ou duas palavras sobre o feminismo. Mas ele, no fundo, não quer saber. Invadiu uma postagem que fala de outra coisa - feminicídio - para dizer o que ELE, ómi conservador, acha do feminismo. Ainda teve a audácia de dizer como deveria ser o post, que "o certo seria". Gente! 
Como ele, muita gente não quer mesmo saber que o feminismo prega a igualdade de direitos entre homens e mulheres, e não a prevalência de umas sobre os outros. Direito de ir e vir em segurança, direito a equiparação de salários, direito a fazer o que quiser do próprio corpo, direito a fazer outra coisa da vida que não seja ser mãe e dona de casa. 
Há mulheres que querem botar fogo no parquinho? Há. Há mulheres que não querem mais saber de homem? Ô se há! Mas o fato é que mulheres normalmente não estão interessadas em guerra, violência gratuita, competição desenfreada. Não querem violentar outras pessoas para mostrar seu poder. 
"Ah, e se fossem elas que estivessem no poder? Não fariam as mesmas coisas?" Pois é - vou repetir: feminismo não é querer tomar o poder. É dividir o poder. É poder fazer junto para fazer melhor. O que não quer dizer que nós, mulheres, vamos ficar esperando os ómi aceitarem a ideia e mudarem por conta própria. É preciso ação, é preciso fazer barulho sim. Nisso, nas ações, é que está a radicalidade  (e não radicalismo) do movimento. 
Ai, será que ficou mais claro? Posso fazer mais desenhos.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Coração de pai

Nós, mulheres, andamos mais exigentes. Ou melhor, naturalmente exigentes - exigimos o que nos é de direito, sobretudo mais justiça na óbvia diferença entre gêneros. Parece que acordamos de um longo sono, e a maioria de nós já não aceita abusos vindos de todo lado, de chefes, companheiros, familiares, desconhecidos. Claro que isso se reflete também num dos papéis sociais mais tradicionais e santificados/sacrificados, o de mãe, e em sua versão soft, o de pai.
Na minha singela opinião, ser pai deveria ser o correspondente masculino a ser mãe, com todas as responsabilidades que o "cargo" traz. A mãe já sai com bonus track de ter carregado o rebento por nove meses, vai amamentar, ficar exausta, entonces o pai deveria se esforçar por equivaler. Mas nossa sociedade machista já considera que ele equivale, mesmo que pouco faça, que nada faça, ou que faça mal. O pai, muitas e muitas vezes, quando muito, se contenta em fazer um tímido backing vocal.
Por isso admiro os homens que saem da zona de conforto, que abandonam a ideia de que "ajudam em casa", que assumem que são companheiros de fato, pro que der e vier. Já é alguma coisa que se preocupem, mas que se ocupem, ah, isso é realmente revolucionário.
Quando penso em pai, penso, como já disse aqui, em meu avô Antonio, meu avôhai. Como já disse, não precisou ser perfeito para ser pai, só precisou ser, assumir, sentir-se.
Quando vejo a relação de meu marido com seu filho, e como ele cuida dos filhotes da casa (ainda que ser pai e mãe de pet seja infinitamente mais fácil), creio que ele esteja no caminho certo da revolução. Pode ser que caia aqui e ali, coberto pelo bombardeio de contradições do mundo machista em que foi criado, mas ele prossegue.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Mais acessórios de bike e questões de gênero

Depois que a gente começa a comprar acessórios para pedalar, é difícil parar. Já estou pensando agora em outra bike, mais maciça que LaBelle, com aro maior e tal. Mas, por enquanto, parei na sapatilha - que resolvi comprar depois de ter o cadarço do tênis enrolado no pedivela enquanto voltava da Praia do Forte, um perigo!
Comprei o par de sapatilhas da Spiuk, que veste como uma luva. No começo, a lingueta incomodou um pouco, mas o ajuste no pedivela (ainda sem clip), mesmo com menor área de contato que um tênis, foi rápido.
No mesmo dia da aquisição da sapatilha, toda animada com os insumos ciclísticos, resolvi comprar uma revista Bicicleta, edição do "mês das mulheres" e tive a maior decepção. Uma chamada na capa, "O lado rosa da força" (que, por si, eu sei, já é questionável), levava a uma matéria ridícula, lamentável, escrita pelo editor da revista, sobre as namoradas dos ciclistas que "lavam suas roupas embarradas", aguentam seu mau humor, correm atrás deles com garrafinhas de água ou carboidratos, sempre no papel secundário de torcedoras. Essas mulheres conformadas e subalternas ainda viam sua vida "mudar completamente", imagino que milagrosamente, depois que tinham conhecido seus respectivos senhores, digo, namorados.
A outra matéria da revista supostamente voltada para o público feminino falava do coletivo La Frida, de Salvador. Quer dizer, não esclarece quase nada sobre o papel das meninas, louvando o misterioso projeto (porque, a depender da matéria, ele permanece um mistério) numa linguagem pseudopoética - nem fornece endereço ou telefone de contato ou site, nada que permita saber mais sobre seu trabalho. Uma lástima, mesmo tendo sido escrita por uma mulher.
Em suma, essa revista, que não voltarei a comprar (até a matéria sobre cicloturismo é tosca, um mero relato também pseudoliterário de um fulano que pedalou pelos Andes, sem nenhuma dica útil), perdeu uma ótima oportunidade de se colocar positivamente em um debate contemporâneo urgente, e, no lugar de mostrar as barreiras que as mulheres têm vencido inclusive no mundo dos esportes, mais lembrou uma daquelas revistas femininas da década de 1950 que ensinavam boas maneiras às moças "de bem", certamente belas, recatadas e do lar. Triste, triste. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Manguitos e questões de gênero

Hoje descobri um item incrível para ciclistas: os manguitos, mangas de tecido UV para proteger os braços durante o pedal. Também existem os pernitos, mas o custo-benefício não é tão interessante - enquanto os manguitos custam 40 reais, os pernitos custam 110 reais. Melhor comprar uma calça - e foi o que fiz, conseguindo um desconto considerável na loja de bike.
Poderia ter comprado no Mercado Livre por um valor beeeem mais baixo, mas, como comecei a pedalar aos sábados uma distância maior, quis logo ter novas vestes à mão.
Também por essas distâncias cada vez maiores (18 km, depois 26, 5, depois 30) estou pensando em aprender a trocar pneu/câmara de bicicleta, e por isso comprei um kit de reparo na mesma loja. Comentei sobre essa vontade que tenho na primeira loja onde entrei, acompanhando o marido. O vendedor/dono da loja fez uma cara de incredulidade e nem respondeu, logo voltando a dar atenção a Guga, como se eu não tivesse dito nada que valesse um pio. Aliás, as poucas vezes em que comentei isso sempre tive como resposta a dúvida masculina acerca da capacidade feminina de trocar um pneu; mais ainda, de cuidar de si mesma.
Até mesmo quando saí para pedalar com minha professora de pilates, percebi uma superproteção incômoda - ainda soube depois que isso se devia à minha suposta "insegurança" em pedalar na estrada. Isso porque eu já havia ido sozinha à Praia do Forte.
O ciclismo ainda é uma atividade dominada por homens. Ainda bem que tem crescido o número de grupos de pedal só de mulheres, no Brasil e no mundo. Porque embora eu goste de pedalar sozinha (também não tive muita opção), sentindo o vento no rosto, me superando a cada saída, juntas somos mais fortes, sempre, em todas as circunstâncias.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

Arquivo do blog