Mostrando postagens com marcador mudança. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mudança. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Mi casa

Quando a casa começa a ficar com nossa cara? 
Quando cheguei aqui, tudo estava tão branquinho, tão recém-pintado, que me deu uma preguicinha de pendurar quadros nas paredes. Também mudou minha percepção do que "mostrar". Preciso colocar todas minhas referências, lembranças à vista de todo mundo, mesmo que esse todo mundo seja uma parcela de pessoas que frequentem minha casa? Vou um pouco na contramão desses tempos de ultraexposição. Preguiça? Talvez? Ah, Macunaíma!
Mas também ando fotofóbica, como já disse em outro momento. Então as paredes branquíssimas e a luz reinante que aumenta meu melasma e só me deixa trabalhar num horário restrito acabam exigindo alguma cobertura, seja de cortinas menos transparentes, seja sim de coloridos nas paredes. E isso me faz comprar furadeira nova, voltar a ter ferramentas apropriadas e próprias. 
No meu caso, porém, a casa começou a ficar com minha cara pela cozinha. Não me importa que a sala pareça vazia, porque larga. Mas a cozinha, bicho. Com poucos armários, logo pediu uma bancada com prateleiras para colocar meus equipamentos culinários - planetária, sorveteira, extrator de suco, multiprocessador, liquidificador, quase uma padaria. E uma muretinha logo virou lugar das essenciais ervas de temperos, que agora volto a ter ao alcance da mão. E as paredes também vão ganhar seus enfeites, escolhidos a dedo (tomando cuidado para não provocar mais fissuras, porque aqui a coisa é delicada, como já mostrou a parede do escritório, cuja pequena fissura existente virou uma pequena placa tectônica depois da colocação da rede de proteção na janela - essas eventualidades das mudanças). 

terça-feira, 20 de junho de 2023

Mente quieta, espinha ereta e core ativado no vórtice

As últimas seis semanas foram uma loucura de acontecimentos e sensações. Depois da decisão de nos separarmos, com fechamento de trabalho, dia das mães, buscar um apartamento, fechar contrato, empacotar tudo (quase 30 caixas só de livros), viagem-relâmpago de trabalho, finalmente a mudança. Que deu direito a duas viagens do caminhãozinho contratado em Itacimirim (na última mudança, foram duas viagens de caminhão-baú mais várias de carro com meu irmão Ian), estantes retorcidas (que me devolveram em pé, mas levemente amassadas), mais uma viagem de carro com coisas que tinham ficado por lá, e cada dia da semana reservado para entrega de alguma coisa ou instalação da internet. Embora tenha me matriculado na academia local logo no início da semana, a alimentação ficou bem ruim por esses dias, com expectativa de chegada da geladeira e acertos na instalação do fogão. 
Mas não vou reclamar de nada (só dos preços pela hora da morte em toda parte). Quando começamos a nos movimentar, tudo flui junto com a gente. Apesar do aperto todo - viagem e mudança -, consegui manter o foco e a calma, apesar do cansaço. Ainda havia a questão da hospedagem de Kong, porque não quisemos arriscar deixá-lo com os pais de Guga, que teriam de não só alimentar mas dar um monte de remédios para o rabugento - conseguimos, por indicação de Joelma, uma hospedagem com um adestrador em Barra do Pojuca, por coincidência (ou não) irmão do nosso mecânico de bike. Deu tudo certo com Konguito. 
Deu tudo certo na viagem também, com reuniões sobre o futuro da empresa mas também um encontro fraterno com toda a equipe das unidades, almoço com amigos queridos, café com mainha e irmã, passeinho no Centro e almoço no melhor restaurante árabe da vida, o já visado por mim Syria, de um refugiado que antes teve o Vovô Ali, segundo meu amigo Renato a melhor esfiha de todas - e com a surpreendente massa folhada de pistache, um acontecimento. Ainda consegui cortar cabelos com meu cabeleireiro há 25 anos, e devo dizer que, quando as madeixas recebem um bom corte, elas ficam lindas mesmo em desordem. Também consegui comer pão na chapa em padoca tradicional, a Marajá, perto do hotel, nas proximidades da Famiglia Mancini, onde ficamos um dia antes de ir pro apart de Li. 
Desta vez, percebi muito policiamento no Centro, mas com certeza isso se deveu à Parada do Orgulho, que ia acontecer no final de semana. A paisagem continua tristemente desigual, com hipsters ocupando Copan e imediações enquanto moradores de rua vagam pela feira - um efeito da gentrificação é a carestia geral na região, como no velho Café Floresta, onde paguei 40 reais por dois cafezinhos e três broinhas. O canelé do Temumami, que há tempos queria provar, custa 10 reais e nem é tudo que eu pensava. 
Assim que voltamos de SP fui pagar contas e comprar geladeira e lavadora de roupas, e ainda terminar de empacotar coisas. Minha sogra veio me trazer no domingo, o carro tomado de coisas. Zenzito, que já havia ficado preso no banheiro em Monte Gordo, ficou no banheiro do apê até que a galera fosse embora. Deu uma surtada quando percebeu que não poderia sair, e a primeira noite foi horrível, com ele me acordando às 2h, miando e correndo, e só parando quando o prendi na mala de transporte às 4h. No decorrer dos dias, foi me acordando cada vez mais tarde, até que chegamos ao horário de 5h30, bem mais razoável. Agora ele criou a rotina de dormir dentro do guarda-roupa toda tarde. 
Na primeira segunda, fui me matricular na academia vizinha, uma espécie de Bioritmo, mas com treino menos personalizado - a vantagem são as aulas coletivas. Consegui treinar duas vezes na primeira semana, porque logo estava envolvida com entregas - de mudança, de Magalu, de estantes restauradas, instalação da Vivo, visita de faz-tudo que não fez tudo mas contou a vida inteira. Mas, mesmo sem poder sair pra me exercitar, um amigo de Marise que pedala aqui entrou em contato comigo, me inscreveu no grupo e lá fui eu pedalar 35 km com uma galera muito mais experiente. Quase morri, mas fui. Claro que eu era muito lenta para os padrões deles, e logo me indicaram um grupo feminino, "mais lento". Muito melhor que ter uma pessoa bem-intencionada mas rabugenta atrás de mim dizendo pra eu ir mais rápido, aconselhando a trocar a suspensão, a coroa, a subir a ladeira mais íngreme porque "se eu queria pedalar, tinha que treinar". Afe! Mas tenho que dizer que eles garantiram minha segurança o tempo todo, e em nenhum momento tive receio de pedalar ao lado dos carros. E foi assim que finalmente conheci a Ponta de Humaitá e pude tomar um sorvete na Ribeira, ainda passando pelo meio das casas (não sei se é muito legal pros moradores, mas enfim).
Para acompanhar todos esses eventos, tive que respirar fundo muitas vezes, aprumar o corpo e literalmente ativar o core, inclusive para carregar coisas e subir escadas e ladeiras sem parar. E funcionou. E deve continuar funcionando, que vem mais pela frente, até que o vórtice vire fluxo. 

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou

Ganhei o primeiro presente para usar na nova casa - uns panos de prato lindos, de minha sogra, que ficou tristíssima com a separação. Afinal, foram muitos anos de convívio, e, mais do que sogra, ela foi minha maior amiga por aqui. Por isso mesmo, inexiste a possibilidade de distanciamento. Aliás, embora minha rede de apoio na Bahia seja pequena, ela é muito preciosa. 
Hoje assinei o contrato de aluguel do apartamento novo. As coisas têm vindo como um rio tranquilo mas de velocidade constante. Tive de visitar só quatro apartamentos para achar o que estava buscando (na última mudança, meio no desespero, mas com muita ajuda inesperada, visitei 12). O novo apê vai me deixar perto de alguns amigos, num bairro bacana, com facilidades para pedestres como eu (e já vi bikes no estacionamento). Com uma planta das antigas, muito bem conservado, num preço que hoje posso pagar. O locatário me fez lembrar muito do dono do meu apê na São João, dessas pessoas que valorizam a palavra empenhada. O corretor também é ótimo. 
Hoje até fez sol, um dia lindo, depois de muita chuva. Recebo com alegria essa luz no meu caminho. 

domingo, 3 de janeiro de 2016

Pelos cantos













A cada dia, ela recebe um toque especial. Nosso refúgio, local de sonho e trabalho.
Parecia que minhas coisas não caberiam aqui, mas, por um passe de mágica, elas foram naturalmente se encaixando.
O que ficou de fora, é porque não cabia.
Assim é a vida, assim é uma casa, assim é uma alma.

sábado, 14 de novembro de 2015

Adaptação

Ouvi muita gente falar da lenta adaptação dos gatos às mudanças. Que seria preciso deixar Chico e Zen um bom tempo dentro de casa antes de soltá-los pelo sítio. Que demoraria para eles aceitarem a nova casa.
De fato, foi traumático para eles saírem do banheiro após o furacão da mudança (eram oito homens para lá e para cá, empacotando coisas, arrastando caixas, entoando suas vozes estrangeiras) e perceberem que a casa onde moravam há um ano e meio havia sumido. Depois, foram levados para outra casa, onde ficaram em um quarto com banheiro (muito confortável, mas desconhecido) por dois dias. Então foram levados de carro, cada um em sua bolsa de transporte, para um lugar barulhento, repleto de pessoas e vozes estranhas. Na hora de passar pelo raio x do aeroporto, cada um num colo, nem se mexeram.
Duas horas e meia dentro de um avião, mais 40 minutos de carro e chegaram a uma terceira casa. Posso imaginar o choque, a sensação de pesadelo do qual não se desperta: o que será que vem agora?, devia passar por suas cabecinhas felinas. Então os cachorros já instalados vieram exacerbar o contato com outra realidade, outras vidas.
Mas eis que se deu a mágica da natureza: depois de serem soltos aos poucos pela casa e pelo terreno, Chico e Zen começaram sua exploração de terra, mato, sítio do vizinho. Já nos deram sustos, como Chico, que ficou horas sob uma touceira no terreno vizinho sem conseguir voltar, depois de ter sumido de casa por toda a manhã. A cada dia, porém, chegam os dois cheios de novidades, novos aprendizados. Nos ensinando como a vida deve ser: cada dia, um novo dia.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Dos despojos - who are you?

Pois tenho estado dividindo o tempo entre trabalho e arrumações. Não tenho nem tido vontade de cozinhar, para se ver como a coisa é séria.
Então, chega a hora mais difícil, a de descartar lembranças. Cerquei a tarefa, calculei, posterguei, até que não deu mais: ia ter que abrir caixas, cadernos, pastas para decidir o que ia, o que ficava.
Até me espantei com ainda ter conservado coisas que já acreditava "idas" na última mudança. Houve uma tarde que me deliciei lendo cartas trocadas com uma amiga (que revi no último sábado) quando tínhamos entre 15 e 17 anos. Ri da nossa inocência, dos "grandes problemas" que nos assolavam - trabalhos de escolha e por qual menino nos decidir, afinal. Li um cartão de uma amiga, na época recente, mas hoje entre os antigos, que me perguntava como mantinha meu bom humor - na verdade, nem lembrava que era tão bem-humorada assim.
Já um amigo recém-conhecido no colégio dizia que eu não devia estar sempre "preocupada", que, se tinha, como ele adivinhava, ideias "revoltosas", deveria expô-las.
Encontrei ainda cartas trocadas com colegas do restauro - nem me lembrava das tais cartas, mas foi uma delícia relembrar, pela resposta das meninas, o que tínhamos vivido naquele espaço em comum.
Havia diversas cartas e cartões de um amigo que nunca mais vi, vizinho de meus primos no Rio (cujo contato também perdi). Algumas correspondências de uma tia que eu queria como madrinha de crisma - desisti de me crismar, mas essa tia ficou como uma pessoa querida.
Encontrei também textos meus e tive um arrepio: realmente, o que escrevemos mostra o que somos, em cada momento. No caso, com 15, 16 anos, uma alma meio "emo". Nem me reconheço, embora não possa negar que era eu. Também. (Acabo de receber de um amigo uma carta que Graciliano Ramos escreveu para sua irmã, que ensaiava os primeiros passos na literatura - a bronca do irmão famoso dizia respeito a escrever apenas sobre o que conhecemos. E se nada ou pouco conhecemos? Bom.)
O pior foi ter descoberto que eu havia guardado tantas agendas. Deu um trabalhão descartá-las.
E fiquei especialmente surpresa por perceber como a memória apaga tanta coisa. Bilhetinhos de pessoas que nem imagino quem sejam se contrapõem ao fato de eu me lembrar da roupa que vestia em determinada ocasião. Sim, é o caso da importância que damos aos fatos, da tal memória seletiva. Mas é assustador perceber como os eventos vividos simplesmente... somem. Como tudo acontece ao mesmo tempo, não percebemos as nossas próprias transformações. Somente quando precisamos parar e olhar com distanciamento para os fatos é que nos damos conta disso tudo, como se observássemos os fotogramas de um filme, um a um.
Não, não temos controle de nada. E muitas vezes nem conseguimos apreender os acontecimentos, que passam por nós como as águas de um rio. Mais um motivo para me preocupar menos com os vaivéns da vida. Não só as coisas mudam o tempo todo, como também elas simplesmente podem desaparecer. Simplesmente.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Outras paisagens




Ordem no terreiro

Quando vi, já tinha passado uma semana! Nem deu muito tempo de pensar na mudança, que foi mais extensa do que eu imaginava (três viagens no caminhãozinho! subestimei o meu acúmulo, a minha bagagem). Somou-se a isso o trabalho na editora, que, se não rendeu, me absorveu na tentativa de compreender o processo que apanhei no calcanhar.
Bem, as caixas vão bem aos poucos saindo do caminho. Poucas perdas na mudança - uma lasca numa moldura, um pôster e dois armários arranhados... O que foi embalado, por sua vez, chegou intacto. Ter identificado o que era frágil com certeza ajudou. O apoio irrestrito do meu irmão Ian foi fundamental - durante 12 horas ele esteve comigo sem uma única reclamação, carregando e embalando coisas, indo pra cima e pra baixo comigo no seu carro, compartilhando histórias e afeto (e nós não nos víamos há muuuuuuitos anos). Em outros dias, minhas queridas Luciane e Claudia também me deram muita força, oferecendo sua companhia, carro e braços para trazer coisas. Isso para não falar dos diversos oferecimentos de ajuda, e de quem veio em meu socorro imediatamente quando precisei de alguém para instalar os armários e algumas luminárias, como a Ju e a Alê. Eu me senti realmente querida! E vi como é bom pedir ajuda quando se precisa, como sempre haverá alguém disposto a ajudar.
Achei que talvez fosse estranhar a primeira noite no novo apê. Mas não, já me sinto totalmente adaptada, ainda que tropeçando nas caixas restantes. Quanto ao bairro, já conhecido, mesmo superficialmente, da minha época de Anglo, aos poucos ele vai se descortinando. A parte de serviços segue na direção da Liberdade, o transporte é menos abundante e todo som que vem da rua eu posso ouvir - mas não há barulho de obra, nem calor sufocante. O prédio onde moro é extremamente silencioso (tirando uma vizinha que resolveu cantar enquanto ouvia música e tomava sol!).
Quanto ao clima circunstante, uma vizinha veio me trazer uma jarra de suco no dia da mudança, para amenizar o calor. Uma senhora coreana me cumprimentou na rua. Há um certo ar de interior misturado com centro - pela rua passa o caminhão de gás e ouvi até um carro vendendo pamonha! Claro que também já identifiquei alguns trechos problemáticos próprios de região central, mas é muito bom sair no domingo e ver muitas pessoas fazendo sua caminhada matinal (que não precisa se restringir ao final de semana, já que o parque da Aclimação é bem ali).

De todo jeito, mesmo valendo muito a pena trocar um lugar por outro, acho que a próxima mudança trabalhosa assim só poderá ser pra um lugar meuzinho. O que não impede de me mudar para muitos outros lugares, desde que não precise carregar a mudança!

domingo, 29 de dezembro de 2013

Mudar não é bolinho

Eu gosto de mudança, não só a essencial, da alma, pessoal, mas também a física, geográfica. Não sei como fiquei tanto tempo num lugar que nem é meu. Na verdade, sei: me acomodei, e fui ficando, mesmo quando não me sentia mais feliz aqui. Embora gostando tanto da cidade, e do centro, já estava há uns anos meio sufocada pelo concreto. Foi preciso começarem uma obra nos fundos (e mais umas tantas coisas) para eu me mexer de verdade. Esse, na verdade, é o erro: não seguir o que diz a alma, ir arrumando um jeitinho de não ter que se mexer.
Porque mudar - em ambos os sentidos - dá muito trabalho. Agora mesmo, em meio a um calor infernal, dia sem vento nenhum, parecendo a louca das caixas (algo na linha loira do banheiro ou homem do saco) pedindo em toda parte, percebendo com quase desespero o quanto acumulei de coisas nesses anos (mesmo coisas ótimas, como livros - eles parecem não ter fim, não há caixa que dê conta de tantos!), vejo minha ansiedade pelo novo ceder um pouco de espaço para o cansaço antecipado das providências a tomar. Pra incrementar o quadro, tem o feriado prolongado, e alguns lugares aonde eu precisava ir não abriram. (Acho que não gosto muito dos feriados - nunca tinha pensado nisso, sei que são ótimos em algumas situações, principalmente quando se trabalha em uma empresa, cumprindo horário fechado todo dia, mas pelo menos nos últimos tempos eles mais me atrapalham que ajudam. Eu prefiro, aliás, viajar fora de feriados, até para evitar as multidões, os maus serviços e os preços altos. Enfim...)
Desanima também ir tirar as medidas do apê novo e ver que nem começaram a pintura. Porque a semana encurtada pelo feriado vai exigir que eu equilibre pratos, pra variar, entre mudança e trabalho, e todas as providências imediatas que dependem de uma e interferem no outro.
Bom, no meio desse lacrimório, fiz algo que há anos não fazia, desde o colégio: desenhei a planta do apê. Toscamente, claro, mas lembrei, usando o velho e detonado escalímetro e o esquadro de 60 graus e a pranchetinha com régua paralela que comprei para fazer revisão de texto (algo premonitório!), da minha vida de estudante de Edificações. Algo que não tem mais nada a ver comigo, e ao mesmo tempo fala tanto sobre mim. Eu, que sempre gostei do assunto casa - planejar, proteger, aconchegar, receber -, vejo como ele nunca me abandonou. Hoje, acrescido do sentido de autoconhecimento que a metáfora da casa traz consigo.
Por isso mudar (a casa-alma ou de residência) é tão difícil - pressupõe desapegos, expurgos. Perceber o peso do acúmulo, e então ter que fazer escolhas, para caminhar com mais leveza. O próprio preço da liberdade.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O grande encontro

Encontrar-me comigo mesma. Um encontro dessa importância só podia ser num lugar muito especial, no meio das montanhas da serra da Mantiqueira. Graças à indicação de diferentes (e igualmente queridos) amigos, conheci o hotel Ponto de Luz, em Joanópolis.
Imagine chegar a um lugar onde nos esperam com sopa de abóbora à mesa e perguntam se queremos uma bolsa de água quente para aquecer um pouco mais a cama... Dormir ao som da cachoeira e acordar com pássaros cantando (e não terríveis pombas arrulhantes). Receber a cada dia ervas frescas para um banho purificador e também um suco desintoxicante (três vezes ao dia). Sentir cheiros deliciosos estrategicamente espalhados em cada canto, mas também curtir os odores mais campestres ao redor - não só o maravilhoso de mato molhado, mas até o do que as vacas obraram... Receber cuidados de fato, em um ambiente com tantos detalhes preciosos. Ver a névoa concentrada na mata subindo até se desfazer no céu azul. Poder caminhar em meio ao verde, fazer meditação conduzida por terapeutas competentes e delicados. Não é assim uma hospedagem econômica, mas uma viagem para o interior de si mesmo certamente não tem preço.
Cheguei machucada, carregando uma pesada bagagem de medos. Não digo que voltei novinha em folha, mas voltei inteira, íntegra, presente, com um alumbramento de quem sou eu. De que sempre tive coragem, mesmo que mal dirigida. De que meus sonhos eu é que devo seguir, de que aos meus caminhos eu é que devo dar curso. Voltei a respirar, vou aprendendo a usar toda a força dos meus pulmões. Joguei mágoas fora junto com as ervas do banho. Conversei aqui e ali com os dois outros únicos hóspedes, cada um com suas feridas, a gente se ajudando nos eventuais encontros, um sorriso (mesmo ainda não tão alegre, mas cada vez mais animado), um olhar de compreensão, uma história assemelhada. Bom o compartilhar em meio aos encontros e embates consigo.
E o contato com a natureza me faz lembrar como são sábios os outros animais, que dançam ao ritmo dela em vez de lhe fazer oposição, tão diferentemente de nós, que acreditamos controlar tudo, a natureza, a vida, os outros. Ao menos, estou procurando internalizar a ideia de que tudo pode ser bem mais simples, menos sofrido, mais natural, a própria nova vida que quero ter.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

Arquivo do blog