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quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Organizar livros para organizar a vida

Provavelmente foi na minha primeira viagem a Recife que, visitando a irmã de minha avó, tia Edna, e sua família, ganhei um livro que teria pertencido a meu pai. Tio Luís, meu tio-avô, veio, todo misterioso e cheio de pompa, dizer que ia me presentear com o livro de um grande homem - no caso, meu pai. O próprio.
Era uma coletânea de contos russos. Já era um exemplar velho quando recebi de tio Luís, letras pequenas, papel amarelado - não estimulava muito a leitura. Mas guardei, como uma espécie de relíquia, uma herança indireta - e a única - de meu pai. 
Na última semana, resolvi limpar e reorganizar meus livros - desde a mudança, estavam dispostos em uma ordem ínfima, dificultando encontrar o que eu queria, mesmo sendo uma estante de literatura e outra de assuntos diversos. A limpeza também não estava lá essa beleza toda, então me dispus a pegar um a um para limpar. A umidade da Bahia não deu trégua a alguns, como eu imaginava.
Mas qual não foi minha surpresa ao ver cair um pozinho escuro justamente do livro de contos russos? Dentro dele, os cupins já haviam aberto caminho. Aparentemente, só ele recebeu a visita, ainda bem. Achei sintomático. De todo jeito, ficou uma herança melhor e mais efetiva, o apreço pelos livros, cada um com sua maneira de se relacionar com eles. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Dentro-fora, fora-dentro

Faz só dois meses e meio que estou em Salvador, mas parece que faz anos! Para além da intensidade dos últimos tempos, com separação, viagem, mudança (pra não falar de cuidados de saúde com pets e família), tem acontecido esse reencontro com tantas preciosidades: artes plásticas, música, cinema, teatro, lugares, pessoas, aprendizados, organizações diárias. 
Conheci a feira de mulheres batalhadoras BazaRozê, que aconteceu na Biblioteca Central dos Barris, e trouxe algumas coisas lindas e gostosas pra casa, até Zenzito ganhou um peixe pra chamar de seu. No meio do agito da Flipelô, fui ver a exposição "Brasil do Futuro", organizado por Lilian Schwarcz no Solar do Ferrão e fiquei muito emocionada de voltar a pisar no solo tão querido e conhecido das artes plásticas. Rolou show de Paulo Carrilho em tributo a Ney Matogrosso na companhia de Jô e Edu, na Saladearte. E ainda teve volta ao teatro, o do Sesc Casa do Comércio, com a ótima Alma imoral, baseada no livro do rabino Nilton Bonder e interpretada pela incrível Clarice Niskier (até encontrei minha vizinha lá!). 
Teve confecção própria de calça e almofadas, com base no aprendido no curso de costura, teve volta de plantas na varanda, ter conseguido instalar uma cortina na sala. Teve enfim a organização de marmitas no domingo, inspirada no curso que não vou fazer da Marina Linberger (inviável nas atuais circunstâncias, mas também porque achei que poderia criar meus próprios cardápios) - consigo deixar pelo menos 14 porções de comida prontas na geladeira ou congelador (até aqui, rolou moussaka, nhoque de abóbora, nhoque de batata doce, chilli beans, curry de frango, karê, escondidinho de frango, dal de lentilha, salada de grão de bico e cenoura com especiarias, legumes confitados, arroz marroquino, quibe de abóbora e ricota, torta de atum low carb, massa de pizza, iogurte natural). E teve até criação de um novo sorvete, inspirado na Almaléa, sorveteria no Rio Vermelho que ainda não conheci mas cujo delicado sorvete de canela com suspiro já pedi no Ifood - o que criei foi inspirado num de ricota com geleia e praliné; o meu tem ricota, iogurte, stevia, geleia de frutas vermelhas (comprada) e praliné de castanha de caju com cardamomo, canela, café e gergelim da Rita Lobo, uma coisa de outro mundo (só trocaria a stevia por açúcar mesmo, porque desconfio que ela deixa os preparados meio arenosos). 
Tudo isso, alegrias e aprendizados, rola numa mente a mil por hora. São o meu bálsamo no meio da vertigem. Mais que nunca, necessários para me manter sã e garantir minha integridade, dentro e fora.

sábado, 22 de maio de 2021

Férias na pandemia

Fazia muito tempo que eu não tirava férias. A última vez - também a última em que viajei - foi há um ano e meio ou mais. No começo do ano, fui obrigada a tirar, porque o prazo estava vencendo. Mas não tirei de fato - foi justamente o período em que estava chegando um primeiro lote de materiais para edição. A partir dali, ao longo do primeiro semestre, permanecemos num vórtice louco de trabalho, duplicado pela nova realidade digital, além da impressa. Suspeito que estava à beira do burnout, que se não tivesse comunicado à galera que íamos tirar, eu e Gustavo, duas semanas de férias, ia mesmo entrar em colapso. 
Montei logo uma lista de coisas a fazer em duas semanas, sem muita preocupação em realizar tudo. Fundamental era descansar e pintar e reorganizar o escritório, o resto era lucro. Porque limpar e organizar livros à medida que se finaliza uma parede - sim, não tirei nada de dentro do escritório, fui movendo as coisas de lugar, pintando, limpando, realocando - não é bolinho, ainda mais sozinhazinha. No final do dia de pintura (o dia anterior foi só para aplicar massa e lixar), parecia que eu tinha sido atropelada por um trator, ida e volta. Só tomando um Tandrilax para conseguir dormir sem dor. 
De repente, já na arrumação, parecia que eu tinha mais livros do que antes. Aparentemente, a estante de metal me daria mais espaço que a já empenada de madeira, mas não. Também a redistribuição de quadros na parede pede mais reflexão. Chica ainda não se encontrou debaixo da minha mesa, agora em outro lugar. Mas herdei um armário-escaninho de Guga, que deve comportar vários objetinhos expatriados. 
Já entrei no lucro porque, além de conseguir pintar e arrumar o escritório sozinhazinha, ainda lavo roupas, louça, cozinho, tenho assistido a uma oficina do Matizes Dumont e uma do Olivier Anquier. A ver se consigo dar uma geral nas plantas, assassinadas no período mais louco de trabalho, além de colocar em dia leituras da pós, bordar, escrever a sério - pelo menos, dar o primeiro passo em várias coisas, essas sim, que desejo rotineiras. Além de entregar a declaração de IRPF, enfim. Em outras férias, em outro contexto, estaria pensando em fazer uma viagem, mesmo curta, para a qual precisaria convencer o marido. Com a total impossibilidade de isso acontecer - viagem e convencimento -, resta aproveitar as férias tornando melhor meu espaço, exercitando habilidades, recriando a rotina. Maratonando a CPI da Covid, imagine - o retrato mais fiel da época em que vivemos. 

domingo, 1 de março de 2020

Romeu e Julieta e Contact: o passado revisitado

Outro dia, me deu uma vontade enorme de comer sagu, uma verdadeira comfort food da infância. Ainda não fiz, mas já separei uma receitinha para o próximo final de semana. 
Em compensação, neste final de semana voltaram dois outros clássicos do passado: Romeu e Julieta (queijo e goiabada) e papel Contact. 
Eu amo sobremesas com caramelo e baunilha, mas queijo e goiabada têm seu lugar em meu coração saudosista. Topei, em algum site, com uma receita de sorvete Romeu e Julieta, utilizando cream cheese, mas o que eu tinha em casa era iogurte grego que tinha ficado um pouquinho mais salgado/azedo que o normal (deixei dois dias na geladeira coando), e que logo associei ao gosto do queijo - então peguei um pouco de goiabada com a sogra e improvisei um sorvete. Ficou ótimo - imagino que com cream cheese fique perfeito.
Já o Contact tinha um quê de desafio na infância: como passar o adesivo sem deixar bolhas? Acho que desenvolvi bem essa habilidade, e voltei a usá-la hoje, colando nos potes de tempero etiquetas pretas escritas com tinta branca (de caneta Sakura, outra referência de infância/adolescência). As etiquetinhas com letra cursiva lembram quadro-negro e giz. Claro que aproveitei para dar aquela geral nos temperos, limpar todos os potes etc. 
A mistura de criação e organização ajuda a tornar um final de semana perfeito dentro das atuais possibilidades. 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

O elogio da criatividade desorganizada contra a ordem nipônica de Marie Kondo

Tenho lido muitos textos atuais que tratam da desorganização como uma das características das pessoas criativas. Normalmente, eles defendem ser desorganizado como algo romântico, sem, portanto, embasamento científico, e até o associam a uma inteligência superior (já vi textos que afirmam que pessoas que reclamam muito e são bagunceiras são ainda mais inteligentes e criativas). 
Bom, até aí... que sorte a dessas pessoas! Eu, particularmente, não me incomodo com esse tipo de diferença desde que não precise aguentar reclamação o dia inteiro e bagunça sistêmica o tempo todo. Cada um é como é, e tudo bem, se isso não atrapalhar o convívio e a própria vida da pessoa bagunceira. Quando bagunça é algo incapacitante, impedindo alguém de conviver, trabalhar, ser saudável, sim, é um problema a considerar. 
Não sou a pessoa mais arrumadinha do mundo. Deixo muita coisa em cima da mesa, à espera de decisões. Quando arrumo, porém, estabeleço uma organização coerente, que me permite saber sempre onde está cada coisa. Não costumo esconder a bagunça em gavetas. Gosto de ter as coisas à vista, para não me esquecer de usá-las. Se me esqueço ou não uso, é porque não preciso delas. Desapego fácil de muita coisa - exceção maior feita aos livros e utensílios de cozinha e arte, claro. 
Na verdade, gosto de organizar. Como faço muita coisa ao mesmo tempo, gosto de saber que economizo tempo com a organização, sem precisar quebrar a cabeça procurando cada coisa. Uma das etapas que mais gosto quando cozinho é montar o mise-en-place, por exemplo. Por esse apreço pela organização é que me interessei pelo programa da Marie Kondo no Netflix.
Tinha já visto algo no Pinterest, algum esquema de arrumação doméstica criado por ela. Assisti Ordem na casa ao mesmo tempo que milhares de pessoas pelo mundo, ao que indicam os muitos artigos falando a respeito do programa, alguns bem, outros muito mal. Os que o criticavam falavam em nome da liberdade de ser bagunceiro-criativo, mas logo se percebia sob a crítica o repúdio a uma figura feminina, ainda por cima oriental (de outro mundo!), que vinha ensinar aos machos cis ocidentais a organizar suas vidas. Chamavam Kondo de arrogante pra baixo, "quem ela pensa que é" etc. etc. Eu fiquei bastante espantada - por que não ignorar simplesmente as lições dela e continuar abraçadinho com sua bagunça? Por que a preocupação com a crítica dos outros? Tinha caroço nesse angu, ou alguma sujeira debaixo do tapete. 
Tamanho foi o impacto das diatribes que logo surgiram os defensores do método KonMari. Li um texto ótimo no El País, falando sobre essas críticas, e também sobre as questões culturais por trás delas e do próprio método. O fato de Marie Kondo agradecer aos objetos antes de descartá-los,  reconhecer o que traz alegria, acordar os livros ou apresentar-se às casas que visita indica uma matriz xintoísta clara, um forte traço da cultura nipônica. Até mesmo a forma de rir e cumprimentar, que meu marido acha engraçada, me parece muito típica dos japoneses - não me causa nenhum estranhamento, porque sempre convivi com isso, na família ou no colégio. Essa cultura é o que muitos críticos têm combatido, e não o método lançado pela japonesa. 
Espanto deixado de lado, fui fazer meu 5S (método japonês também, gomenasai) com as dicas de Marie Kondo. Fica parecendo tudo óbvio quando se começa, mas quase tudo na vida é assim mesmo - é preciso que alguém abra o caminho para descobrirmos que aquilo sempre esteve ali. Algumas caixas, organizadores, o jeito certo de dobrar, arrumar deixando tudo à vista (lembram? do jeito que eu gosto), descartes necessários, e voilà, o espaço duplica, as roupas e objetos respiram, o ambiente todo respira. Todos respiramos. 

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Organizar armários (e outras tantas coisas) é organizar a si

Ação terapêutica e útil. Quase como ir à academia, porque depois fica a pergunta: "como não fiz isso antes?"

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Organização interna, minha e do bullet journal


Depois de dar uma geral no site de Bullet Journal do seu criador, Ryder Carroll, comecei a desenhar o meu. Ainda bem simples, mas, como uma ideia puxa outra, hoje já adicionei uma cinta (que depois me lembrou da faixa de judô) e um envelope para guardá-la. 
As seções, por ora, se referem ao panorama de cada mês, a filmes e livros a conhecer e a um cantinho de gratidão, além de um rez-de-chaussée em cada semana para comentários gerais. Talvez role uma seção O quereres, a ver. 
Também começam as brincadeiras com colagem e ilustração, como o troféu no dia da prova de bike que Guga e Wendel venceram. 

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Como é bom arrumar gavetas!

É muito difícil não procrastinar tarefas chatas - isso é normal, humano. Eu é que vinha procrastinando muita coisa, do tipo atualizar o sistema do computador, separar roupas para doação... A atualização do Mac veio à força, porque já não estava conseguindo utilizar vários programas. Com as outras coisas a enfrentar, estou tendo de reprogramar a mente mesmo. Aquela história de contar só até 2 para começar a fazer algo.
Passei o final de semana arrumando coisinhas diversas - um gancho necessário aqui, etiquetar cabos ali, aproveitando para limpar a sapateira onde ficam guardados. Isso me fez lembrar do gaveteiro do banheiro, agora limpo e reorganizado - e assim vão para o lixo produtos vencidos e objetos quebrados. Diante da re-reclamação do marido da sua falta de espaço no cabide de roupas, arrumo outro lugar para as bolsas (e não ouço um piu a respeito). Por fim, separo mais roupas para doação, inclusive algumas que, por alguma razão obscura, acreditava que ainda usaria.
Arrumo mais gavetas, caixas, colares (que voltei a usar). Entre uma coisa e outra, coloco roupa e louça pra lavar, replanto as mudas de nim que ganhamos (e que agora já não sei se é uma boa ter, por talvez ameaçarem as árvores frutíferas vizinhas), e ainda faço dois pães rústicos diferentes.
O bom disso tudo é que, ao final, pensamos: por que demorei tanto a fazer isso? Afora a questão do bem-estar inegável após uma boa arrumação/reorganização, a pergunta irradia para todas as outras coisas procrastinadas. Hoje, por exemplo, a preguiça de editar o material de um autor difícil. Cerquei o texto, compartilhei os poréns com o chefe e mandei bala. Com certeza, encorajada pelas gavetas arrumadas no final de semana.
Como a lista de a-fazeres não tem fim, o melhor é adotar uma ação orgânica, fluida, constante. Assim evita-se a sensação de soterramento e de não saber por onde começar.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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