sábado, 16 de novembro de 2019

Esperas que valem a pena - boas facas e diploma

O pessoal da secretaria de pós-graduação da PUC-RS já devia estar meio de saco cheio de minhas perguntas sobre a chegada do diploma da pós em Gastronomia e Cozinha Autoral. Eu entreguei meu TCC em abril, e só agora recebi o diploma, todo bonitinho, pelo correio. Mas me deu o maior orgulho tê-lo em mãos - e agora já estou no meio de outra pós!
Também celebrei ontem o fim da espera por uma faca decente de chef - na verdade, um jogo inteiro. Tinha ido comprar uma faca de pão e me espantei com o preço (quase 100 reais, da Tramontina ou da alemã Zwilling). Perguntei ao vendedor quanto custava então uma faca de chef (eu tinha uma noção, porque ela já estava na minha lista de desejos - seria algo a partir de 200 ou 300 reais). Ele então me mostrou um jogo com cepo da BSF (inclusive com a faca de pão), que é da Zwilling, praticamente pelo preço de uma faca de chef. E é sério: nunca cortei algo com tanta facilidade quanto com essa faca. Aproveitei para juntar para doação, em uma caixa, um monte de facas que não uso ou nunca usei. A gaveta também agradece. 

Por que que a gente é assim? O (ainda) presente feminino

Não deixo de me horrorizar com os absurdos que naturalizamos (eu inclusive) durante tanto tempo com relação a mulheres, negros, população LGBT, nordestinos, pobres. Como não enxergávamos o terror por trás de brincadeiras racistas e sexistas? Como podíamos achar normal que só houvesse bonecas louras e de olhos azuis para meninas de toda cor, aceitando um padrão de beleza imposto? Como nos deixávamos beijar e tocar contra nossa vontade, só porque isso mostrava que éramos "desejadas" (mesmo que não desejássemos)? Como, ainda hoje, as mulheres se esfalfam (eu inclusive) com jornadas duplas e até triplas de trabalho, sendo que apenas uma dessas jornadas é reconhecida e remunerada, e ainda assim mal e porcamente?
Porque sou testemunha do meu tempo, porque me deixo afetar pelas mudanças, é que as conversas apropriadas ao entendimento dessas mudanças vêm ao meu encontro. Seja por meio da pós-graduação em História da Alimentação e Patrimônio Cultural da UNISC, que tem como um dos temas o papel da mulher na gastronomia, seja pelas conversas presenciais e virtuais com amigas e colegas, chegam escritos como os de Angela Davis, Silvia Federici e o já conhecido livro de Michel de Certeau (agora com novo foco de interesse) para me fazer compreender melhor o que me incomoda na naturalização do papel feminino no mundo ainda hoje - o de quem serve, e nem sempre recebe algo por isso. 
Se à mulher foi "dado" o papel de cuidar da família e da casa, além de trabalhar fora, à mulher negra cabe tudo isso com maior desprestígio. As mulheres brancas e mais abastadas ainda conseguem ter maior acesso a empregos melhores, mesmo ganhando menos que homens na mesma função. O que todas têm em comum, porém, é o fato de que contribuíram, como observa Federici, para o fortalecimento do capitalismo sem querer e sem receber os devidos louros/lucros por isso. Como suas tarefas cotidianas eram "naturais", não era preciso que recebessem por isso no novo sistema econômico, e até hoje há esse entendimento, de que numa divisão de tarefas as mulheres, mesmo as que têm ocupações externas, cuidam de cozinhar, lavar, passar, arrumar, organizar as compras, cuidar da família, enquanto os homens "trabalham" e, com alguma sorte da companheira, "ajudam" em casa.
Para dar conta do trabalho remunerado e outras tarefas externas à casa, as mulheres que têm melhores condições fazem uso de eletrodomésticos e serviços de outrem, ou melhor, de outras mulheres. Assim, mulheres que trabalham na casa de outras mulheres ainda precisam encontrar tempo para cuidar de sua própria casa e família, quando não ocorre a trágica escolha de cuidar da família alheia mas não de sua própria. Ou seja, no sistema capitalista, as mulheres são sempre os seres mais explorados.
Para que não houvesse a exploração feminina em nenhuma instância - de homens sobre mulheres ou de mulheres sobre mulheres -, seria preciso mudar os comportamentos em geral para uma postura colaborativa e igualitária, algo difícil em um contexto cultural tão arraigado. O casamento, aparentemente uma união colaborativa de duas pessoas por meio do afeto, é uma das formas de validar essa desigualdade de tarefas. Talvez por isso cada vez mais mulheres estejam se desinteressando do casamento, de homens, das tarefas herdadas que as afastam de seus interesses genuínos.
Ao mesmo tempo que ainda me horrorizo com a longue durée de muitos eventos culturais, me maravilha assistir à transformação feminina, ainda lenta mas efetiva, na busca de sua verdadeira liberdade. 

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Broas em direção aos céus

Nunca pensei que broas fossem fazer tanto sucesso!
Quando disse a Guga que faria broas, ele desacreditou. Para ele, broa era um troço seco e sem graça que tinha em toda padaria local. Mudou totalmente de ideia quando provou minhas broas caxambu. Elas são, com certeza, o maior hit da Gosto de Sol. 
Outro dia, fiz 3 kg só de broas, seguidas de quase 2,5 kg de pão australiano e mais um tanto de ciabattas. Tanto é verdade que a prática leva à perfeição que todos eles têm ficado cada vez mais bonitos, tem sido cada vez mais fácil acertar - os fãs que o digam!

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Lindo chocolate Ruby e novas receitas de panetone e mousse

Já tinha visto aqui e ali doces e bolos feitos com o lindo chocolate Ruby, todo cor-de-rosa, sobretudo no Instagram do Cesar Yukio. Calhou de haver uma promoção na Loja Santo Antonio, que eu adoro, e daí resolvi testar com os chocotones, junto com uma receita de panetone do Shimura. Eu vinha fazendo uma com levain, mas não estava muito satisfeita com o resultado - a massa ficava mais mole do que eu queria e acabava desabando um pouco internamente, sem aguentar o peso do chocolate.
Meu único erro quanto à receita nova foi tentar misturar as gotas na batedeira - elas acabaram se misturando à massa. Mas, em termos de sabor e textura, gostei bastante de ambos, chocolate e receita. Guga achou que tem pouco gosto de chocolate e mais de fruta. De fato, o chocolate Ruby, feito do cacau homônimo, tem um toque cítrico que o distingue do simples chocolate ao leite. Às vezes, lembra um pouco gosto de uva, talvez por sua quantidade maior de flavonoides, responsáveis por sua cor rosada, à qual não é adicionado nenhum tipo de corante.
Aproveitei para fazer hoje uma mousse para acompanhar o risoto de queijo Canastra que meu sogro trouxe de São Paulo. Duplo sucesso, o do risoto e o da mousse, feita apenas com chocolate, água e claras - receita da Rita Lobo já alçada à categoria "Favoritas". 

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Granola enquanto pão e a importância do treino

Um dos pães mais gostosos que aprendi a fazer com o chef Pedro Calvo foi o de granola. Macio, com casca firme mas não grossa, e as surpresas trazidas pela granola a cada mordida. Muito bom! Na primeira vez em que fui reproduzi-lo em casa, ele ficou essa maravilha, pestanudo e dourado. Outro dia, rolou até rabanada feita com ele - eu, que nunca tinha feito uma boa rabanada, dessa vez tive o maior sucesso. 
Tudo isso só para comentar como é importante praticar para se chegar a bom termo em qualquer coisa. Meus pães têm me surpreendido a cada vez, desde o mais tosco quando eu não tinha muita noção até os atuais, com bem mais conhecimento de causa. A cada vez, me torno mais observadora dos processos, me torno mais presente no que faço, e normalmente tenho bons resultados - tanto nos pães quanto na cozinha em geral. 
Nada é mais gratificante do que ter a consciência de que fazemos algo bem.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Doçura para seguir vivendo

Soube esta semana que seu Ney, pai de Karen, faleceu. Senti uma grande tristeza; conhecia-o desde os 14 anos, conversávamos muito, ele era muito brincalhão, mas muitas vezes sério e conselheiro, e sempre tratou-me como filha. Conversei com Kaká, que me pareceu serena, preparada para essa perda, já que ele, com 86 anos tão bem vividos, andava muito frágil e cansado. Ao fim da conversa, ela me pediu para fazer um doce bem bonito e gostoso e comer em nome dela e da mãe, dona Enide, que estava perdida com a falta do companheiro de meio século de vida. Fiz. Um bolo invertido de banana bem gostoso, preparado com toda energia de amor que gostaria de enviar a elas.
Hoje soube que dona Enide teve um AVC. De novo fico triste, porém tomo emprestada a serenidade de Karen diante da enormidade da vida, torcendo para que sua mãe saia dessa mas também que a doçura seja o que fique, seja lá o que tiver de ser. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Shakshuka ou huevos rancheros

Já tinha passado algumas vezes por essa receita da shakshuka ou huevos rancheros da Rita Lobo. Desta vez, resolvi fazer, porque apareceu uma versão à la norma, com berinjela, ricota e manjericão. Não poderia ficar ruim, né?
E não ficou. Com o pão italiano que fiz ontem, desapareceu em poucos minutos. Ou seja, rendeu um jantar leve, nutritivo e muito gostoso.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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