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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O mundo está ao contrário e ninguém reparou?

É tanta notícia ruim neste país nos últimos dias que a mente demora muito a serenar para que a gente possa se tornar minimamente produtiva ao longo do dia. Não bastassem as notícias da violenta expulsão das famílias de Campo do Meio, MG, que ocupavam há mais de 20 anos terras da usina falida onde haviam trabalhado, e lá produziam agricultura orgânica e o melhor café da região, do avanço da Covid-19 no país e no mundo, do desmonte incessante da cultura e da educação, da morte de centenas de indígenas por assassinato ou por Covid-19, há essa história horrível da menina capixaba de 10 anos, estuprada pelo tio desde os 6, grávida, que não conseguia abortar porque os médicos se recusaram e depois enfrentou uma turba de fanáticos religiosos, diante do hospital que aceitou fazer o aborto, que chamavam a criança de "assassina". Fiquei tão perturbada desde que soube dessa história, e dos seus desdobramentos que indicam todo nosso retrocesso e fracasso social, que hoje nem consegui trabalhar. Só pensava na criança, assustada, roubada de sua vida, aviltada por alguém da família e por estranhos. Que país, que mundo, que tempo são estes?
Depois de tudo o que temos visto sob a luz atordoante dessa pandemia, vamos seguir sendo os mesmos, sabendo-mas-ignorando as situações gritantes de desigualdade do nosso país? Ou vamos agir de forma efetiva e contundente para evitar que as trevas cubram tudo até não sabermos mais onde estamos nem quem somos?

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Por que reler "As brumas de Avalon"

Daí que chove canivete nesta Bahia de meu Deus. Não com a fúria das tempestades do ano passado, mas com uma constância muito maior, praticamente uma Guantanamera. 
Junte-se ao dilúvio a dor do piriforme/ciático, e o bode que dela advém, e aí me peguei com vontade de reler As brumas de Avalon, a saga de Marion Zimmer Bradley que li aos 12 ou 13 anos, na coleção de banca de jornal de meu pai. 
Guga conseguiu o volume único no formato Epub, e devorei-o em uns quatro dias, deitada de lado, para minimizar a dor muscular, com o Kindle colado na mão. 
Fiquei pensando na razão de ter querido relembrar as aventuras e desventuras de Morgana e companhia, e acho que há várias. Para começar, mesmo sendo uma obra dos anos 1980, é feminista - e continua atual na sua abordagem. Tem uma protagonista que nada tem de mocinha tradicional - não é reconhecida pela beleza padrão, mas por seus poderes, personalidade e atitude -, e sempre me identifiquei com isso. Por fim, fala de um mundo prestes a desaparecer nas brumas - um pouco como o que temos visto acontecer.
Sejam quais forem as motivações, gosto sempre dessa história contada femininamente. Que espada presa na bigorna que nada! Foi uma mulher que deu ao rei o poder na forma da Excalibur. E mesmo empoderadas as mulheres de Avalon são tratadas com machismo.
Aqui, Morgana não carrega a espada para entregá-la. Ela a empunha para lutar, porque a luta é diária, a luta é sempre.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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