domingo, 5 de abril de 2015

Moqueca de peixe e farofa de banana e dendê

Outro jeito de fazer moqueca que não seja o de montar uma cama de cebola e tomate sobre a qual depositar o peixe. Receita do Dedo de Moça, com ínfimas adaptações (não usei camarão, pois está pela hora da morte, e coloquei mais leite de coco).
Para o pirão, é só pegar parte do caldo da moqueca e acrescentar farinha de mandioca até formar uma pasta bem mole. Para a farofa, misturei azeite de oliva e azeite de dendê para refogar meia cebola, adicionei uma banana-prata picada e um tiquinho de sal.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Eles cresceram!

Fazia mais de um ano que não via meus sobrinhos.
Hoje foi aniversário da Gabi, comemorado com um almoço de Sexta-feira Santa. E então, ao reencontrá-los, soube que aquelas crianças se foram. Gabi e Rodrigo, mesmo sendo os mesmos, já são outros, são adolescentes.
Levei um livro da série Vaga-Lume, da Ática, porque me lembrei da importância dessa coleção para mim, quando eu tinha meus 12 anos. Gabi recebeu o livro de olhos quase espantados. Foi monossilábica. Disse que não sabia bem o que dizer. Quando a abracei, ficou frouxa nos meus braços, essa menina que já é mais alta que eu.
Rodrigo ficou no quarto, jogando pelo computador. Só saiu com a chegada do primo mais velho, que lhe deu dicas sobre jogos com a autoridade de quem joga há muito mais tempo.
Foi-se o tempo em que criei uma personagem para os dois, o pernilongo Alceu. Longe vai o tempo em que minha sobrinha decorava as histórias que me ouvia contar para contá-las de volta para mim.
Comemorar esse seu segundo abandonar da casca (o primeiro foi deixar o ventre materno) me fez pensar que a vida da gente é mesmo esse rio que segue sempre em frente, para nunca olhar para trás. Nós é que superestimamos o passado, por nosso medo de desaparecer - pela nossa certeza, lá no fundo, de que nós também passamos, uma só vez. O papel da memória deve ser o de nos lançar no futuro com mais esperança, como uma luz para iluminar o caminho à nossa frente. E só.

Feriado?

Nunca tive uma relação muito próxima com feriados.
Como na infância não costumávamos viajar nessas datas, o feriado para mim era tão somente o momento em que eu ficava longe da escola, um dos meus espaços preferenciais de socialização. Na época do ginásio, como muitas famílias vizinhas também não viajavam, ainda era possível se divertir um pouco com as outras crianças.
Já na época do colégio, feriado significava descanso, mas não viagem.
Quando passei a ter dinheiro para viajar, fazia isso nas minhas férias. E comecei a perceber que não gostava da muvuca dos feriados nos destinos de viagem. Confusão, falta d'água, serviços ruins, mau humor, filas para tudo. E tudo isso por quê? Porque era feriado.
Desde então, tenho evitado os feriados nas minhas viagens. Prefiro viajar fora de temporada, o que, além de mais tranquilo, sai mais barato.
Mas a verdade é que os feriados, mesmo quando não me valho deles para viajar ou descansar, acabam se fazendo presentes, algumas vezes de forma irritante. Por exemplo, muito antes da véspera dos feriados algumas pessoas com quem trabalhamos desaparecem. Muitas só reaparecem uma semana depois de findo o feriado. O problema é meu, claro, porque optei por trabalhar por conta própria.
O ideal, do meu modesto ponto de vista, seria que as pessoas pudessem parar para descansar quando fosse necessário, independentemente de feriados. Que inclusive não precisassem trabalhar tanto (no caso, óbvio, dos que se esfalfam para ganhar pouco). Mas, se assim fosse, como ficariam a burocracia, as homenagens desses dias festivos que angariam pontos para políticos, as agências de viagens que sublocam passagens aéreas? Seria o fim das desculpas para não entregar um trabalho, da instituição da muvuca, dessa versão pseudodemocrática do pão e circo, dessa pseudoliberdade que tantos acreditam ter, porque podem aproveitar para descansar ficando parados nas rodovias e tirando selfies para mostrar como tudo foi incrível...
Então só me resta não estressar com os ausentes e curtir a minha liberdade de não integrar a muvuca estressante dos adeptos dos feriados. Questão de equilíbrio.

terça-feira, 31 de março de 2015

Vida real III

As alergias já dão as caras, mal tem início o outono. Narinas secas, tosse, muita coceira nos olhos, Polaramine, colírio, água, sono. Coceira nas pernas - será que agora vou pegar dengue?
Tenho a impressão de estar falando baleês. Alguns autores que não respondem, se fingem de mortos. Uma autora com dengue, de fato. Eu no meio do vórtice de leituras críticas, pautas, preparações. Cronograma que já foi pro saco. Mas há autores que cumprem seus prazos - nem tudo está perdido.
Faxina, dieta do bom humor, limpar banheiro de gatos. Preguiça de cozinhar. Muito, muito sono após o antialérgico. Só 400g eliminados depois de uma semana sem comer doces. Poderia ser melhor, mas poderia ser pior. E o purê de batata-doce com canela faz a balança pender para o melhor.
Faço a mim mesma promessas que não consigo cumprir e compro livros. Também faço uma lista de todos os livros que devo ler antes de comprar qualquer outro - se a seguir de fato, a leitura demorará meses, o que significa cumprir minha promessa de não comprar um livro tão cedo.
Assisto a um documentário perturbador, Finding Vivian Maier (de novo as sombras da alma), termino de ler Vargas Llosa. Isso me dá a sensação de dias produtivos, mesmo quando autores não respondem e meu trabalho fica parado.
Com a caneca de leite quente e cacau nas mãos, penso que, mesmo não sendo tão fácil, este ano já é, sem dúvida, melhor que o que passou. Penso também que consegui aumentar uma volta na caminhada pelo parque. E assim vou dormir mais feliz.

segunda-feira, 30 de março de 2015

"O Grande Hotel Budapeste" e Ralph Fiennes

Calhou de este ano o Oscar ter várias indicações interessantes de filmes. Um deles é O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson, o diretor de Expresso para Darjeeling. Além do elenco estelar (Ralph Fiennes, Jude Law, Willem Dafoe, Jeff Goldblum, Tilda Swinton, Léa Seydoux, Edward Norton, Bill Murray, Adrien Brody, Owen Wilson, Jason Schwartzman - esses quatro últimos atuaram também em Expresso), o filme é bem-humorado, com uma estética colorida e marcante, tomadas ágeis e ótima direção. De quebra, traz Ralph Fiennes em um papel quase cômico, em contraste com suas personagens dramáticas de filmes anteriores (A lista de Schindler, O paciente inglês, O jardineiro fiel, para só citar meus favoritos). Ele é o concierge de um hotel de luxo, exemplar de uma época dourada em extinção, quando eficiência e gentileza eram fundamentais.
Depois de assistir ao filme de Anderson, quis rever O paciente inglês, de Anthony Minghella. Que filme realmente lindo! Não só pela paisagem do deserto, em vistas aéreas esplêndidas, como pela atuação de Fiennes, então jovem e belo, vivendo mais uma personagem atormentada. E então percebi por que sou fã de Ralph Fiennes: pela sua capacidade inata de transmitir ao público as sombras que perpassam a alma (talvez o melhor exemplo disso seja o oficial nazista do filme de Spielberg). Mas, diferentemente de um Ricardo Darín, outro dos meus atores preferidos, Fiennes parece mesmo saído de outra época, quiçá de um drama shakespeariano. Para nossa sorte, porém, ele paira entre nós.

domingo, 15 de março de 2015

Um arco-íris para Cely

Ainda tenho um longo aprendizado sobre a arte do desprendimento. Especialmente no que se refere à partida de pessoas queridas.
Minha querida Cely nos deixou ontem. Nos últimos anos, a saúde mais frágil foi retirando-a do nosso convívio. Nas últimas semanas, quando chegou a notícia de mais uma internação, lá no fundo algo me disse que era a última. E mesmo me preparando para uma possível despedida, meu coração doeu ao saber da notícia.
Encontrei esta foto no Facebook, da página da Iza, que conhecia muito bem a Cely, de muitos anos de Anglo. E me apropriei da imagem. Cely entre livros, sorridente. Acho um flagrante extremamente feliz, que traduz muito dessa pessoa generosa, bem-humorada, brava quando convinha, maternal sempre. Boa parte do que sei, devo a ela. E mesmo não tendo convivido com ela de forma mais íntima, era uma pessoa a quem eu sempre quis um bem imenso, e cuja presença, mesmo esporádica, sempre me alegrava.
Falei sobre ela com amigos um dia antes de sabermos da internação. E hoje, embora lamente sua falta e o não termos conseguido marcar uma última visita (ela havia ficado de me avisar quando estivesse com mais tempo), quero ficar com essa imagem. E com a do arco-íris esplendoroso que me surpreendeu na volta da despedida, me lembrando da alegria de ter convivido com Cely. Ou como um sinal de que os anjos estão em festa com a paz que ela conquistou.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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