quinta-feira, 20 de julho de 2023

Gracias a la vida

Os 51 chegaram, e chegaram no melhor estilo, num momento muito bom, de mudanças significativas (que pude fazer graças a um mínimo de planejamento, que cada vez mais na vida valorizo, mas sem perder de vista o privilégio que tive).
Em um mês de vida em Salvador, quanta coisa já aconteceu! Reposto as imagens com as queridas chicas gauchas do espanhol no Cuco Bistrô e flanando pelo Pelô, e adiciono as do tributo a Rita Lee na Saladearte, o encontro com Liu e Igor e Ed Ribeiro no Raso da Catarina, o bolo de aniversário coletivo em Guarajuba, por fim o encontro com Dani e amigas para experimentar o menu do Origem, uma perfeição, benzadeus. Haja privilégio. 
Embora sempre de olho no que fazer para combater a injustiça social, sigo dando graças à vida, que me faz encontrar pessoas maravilhosas no caminho, gente que coloca em pauta e em prática essas questões que me incomodam. Para que mais gente possa justamente dar graças, sentar-se a uma mesa com amigos, ter uma refeição, gozar da própria dignidade de ser. 

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Cena de las chicas

Voltei a estudar espanhol no ano passado, on-line, com Raquel, uma gaúcha que mora em Salvador há muitos anos. Começamos no básico mesmo e agora estamos no avançado, praticando conversação (embora eu saiba que preciso estudar muito mais, de forma mais organizada, jizuis). 
Com o arrefecimento da pandemia e minha mudança pra Salvador, finalmente pudemos nos encontrar. A ocasião foi a chegada de uma das colegas, Caissana, que veio do Sul para cá a trabalho. Encontramos também Deise, outra colega, no ótimo Cuco Bistrô, no coração do Pelourinho. 
Tudo lindo, com atendimento ótimo, comida impecável. O preço não é exorbitante e ainda temos o entorno perfeito, o Pelô, que eu não visitava há anos. Ainda por cima demos um rolezinho por ali com assessoria de Raquel, que trabalha num escritório de turismo. Noche perfecta con las chicas!

quarta-feira, 12 de julho de 2023

Reinstrumentalização

Na minha primeira mudança solo, comprei ferramentas básicas e uma furadeira. Os homens sempre se espantavam por eu ter uma caixa de ferramentas e furadeira em casa (ainda se espantam quando digo que não preciso de ajuda com instalação do fogão ou porque, se necessário, vou tirar os rodízios do sofá-cama para que ele passe pela porta). Depois, a caixa e a furadeira acabaram ficando com Guga, porque ele é quem costumava fazer a maior parte dos reparos - e eu nunca mais pus as mãos na furadeira.
Agora, na nova casa, resolvi comprar tudo de novo. Além de montar as mangueiras do fogão, a sapateira, o criado-mudo e a estante de metal, ainda preciso pendurar uns quadrinhos. Achei uma furadeira-parafusadeira, porque parafusadeira é a melhor coisa que há no mundo das ferramentas, né? Conheci quando Ju foi instalar armários pra mim na Aclimação. E eu amo ter ferramentas apropriadas para tudo, ainda mais se for para economizar tempo e energia (a bancada da cozinha, que parece uma minipadaria, que o diga).
Um dos maiores exemplos da importância de se ter ferramentas que nos auxiliem é a máquina de costura. Enfim, comprei uma este ano, menor que as domésticas comuns - aliás, da Philco também, como minha parafusadeira nova -, porque cansei de tanto fazer consertos de costura na mão, usando ponto de bordado. Não é difícil, a maior parte das vezes, mas demora demais - como a barra improvisada das cortinas que ganhei, e que agora vou trocar. E também me inscrevi num curso de costura, que queria fazer há tempos, ainda por cima no centro, que eu adoro. 

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Mi casa

Quando a casa começa a ficar com nossa cara? 
Quando cheguei aqui, tudo estava tão branquinho, tão recém-pintado, que me deu uma preguicinha de pendurar quadros nas paredes. Também mudou minha percepção do que "mostrar". Preciso colocar todas minhas referências, lembranças à vista de todo mundo, mesmo que esse todo mundo seja uma parcela de pessoas que frequentem minha casa? Vou um pouco na contramão desses tempos de ultraexposição. Preguiça? Talvez? Ah, Macunaíma!
Mas também ando fotofóbica, como já disse em outro momento. Então as paredes branquíssimas e a luz reinante que aumenta meu melasma e só me deixa trabalhar num horário restrito acabam exigindo alguma cobertura, seja de cortinas menos transparentes, seja sim de coloridos nas paredes. E isso me faz comprar furadeira nova, voltar a ter ferramentas apropriadas e próprias. 
No meu caso, porém, a casa começou a ficar com minha cara pela cozinha. Não me importa que a sala pareça vazia, porque larga. Mas a cozinha, bicho. Com poucos armários, logo pediu uma bancada com prateleiras para colocar meus equipamentos culinários - planetária, sorveteira, extrator de suco, multiprocessador, liquidificador, quase uma padaria. E uma muretinha logo virou lugar das essenciais ervas de temperos, que agora volto a ter ao alcance da mão. E as paredes também vão ganhar seus enfeites, escolhidos a dedo (tomando cuidado para não provocar mais fissuras, porque aqui a coisa é delicada, como já mostrou a parede do escritório, cuja pequena fissura existente virou uma pequena placa tectônica depois da colocação da rede de proteção na janela - essas eventualidades das mudanças). 

segunda-feira, 3 de julho de 2023

O melhor bolo de chocolate sem farinha do mundo

Hoje fiz o bolo de chocolate sem farinha do Panelinha. Pensei logo, quando vi a receita, que deveria ser a ideia daquele O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo, mas provavelmente melhor, já que tinha dedo de dona Rita Lobo. Isso porque aquele que se dizia o melhor tinha um quê de suspiro, casquinha e tudo, e o de Rita Lobo também vai nessa direção de textura. Mas é muito melhor, como eu imaginava. Nada seco, muito saboroso, uma versão delicada mas marcante de brownie. Amei.
Dessa vez, não reduzi a receita à metade, mas a um terço, porque só comprei uma barra de 85 gramas. Ficou perfeitinho. E ainda tinha sorvete de leite pra acompanhar, mais que perfeitinho ficou.

Vida que segue

Ando com uma fotofobia gigante. O apartamento é tão claro, e o sol incide sobre a parede externa do prédio, que reflete sobre a tela do computador, meus óculos e tudo. Deve ter a ver com idade, pode ser astigmatismo aumentado, enxaqueca por compressão da cervical, saída de um espaço menos claro, e preciso mesmo ir ao oftalmologista, mas me parece também metáfora da vida - uma claridade renovada, reconquistada, diante da vida. 
Saio por aí e olho tudo com atenção redobrada, mesmo de óculos escuros. Vou ganhando a cidade do jeito que sei fazer - palmilhando, fruindo, conversando com os locais, colhendo informações, histórias e gentilezas. Já há quem me trate como local, mesmo me sabendo estrangeira. E também ganho companhia na rua, como o doguinho caramelo cotó que foi me acompanhando até o ponto de ônibus.
Zenzito, que pirou na primeira semana, já conquistou também os novos espaços - menores que os anteriores, mas os gatos nos ensinam sempre a arte da adaptação, da flexibilidade, da não invasão. Ele ainda tem a linda vizinha Ayla, que vem sempre contemplá-lo algumas vezes por dia. Talvez promovamos, eu e a dona de Ayla, o encontro dos bichanos qualquer dia. 
A rosa do deserto já mostra que gostou do novo espaço, exibindo novos botões a cada dia. Logo outros vasinhos devem lhe fazer companhia. 

terça-feira, 20 de junho de 2023

Mente quieta, espinha ereta e core ativado no vórtice

As últimas seis semanas foram uma loucura de acontecimentos e sensações. Depois da decisão de nos separarmos, com fechamento de trabalho, dia das mães, buscar um apartamento, fechar contrato, empacotar tudo (quase 30 caixas só de livros), viagem-relâmpago de trabalho, finalmente a mudança. Que deu direito a duas viagens do caminhãozinho contratado em Itacimirim (na última mudança, foram duas viagens de caminhão-baú mais várias de carro com meu irmão Ian), estantes retorcidas (que me devolveram em pé, mas levemente amassadas), mais uma viagem de carro com coisas que tinham ficado por lá, e cada dia da semana reservado para entrega de alguma coisa ou instalação da internet. Embora tenha me matriculado na academia local logo no início da semana, a alimentação ficou bem ruim por esses dias, com expectativa de chegada da geladeira e acertos na instalação do fogão. 
Mas não vou reclamar de nada (só dos preços pela hora da morte em toda parte). Quando começamos a nos movimentar, tudo flui junto com a gente. Apesar do aperto todo - viagem e mudança -, consegui manter o foco e a calma, apesar do cansaço. Ainda havia a questão da hospedagem de Kong, porque não quisemos arriscar deixá-lo com os pais de Guga, que teriam de não só alimentar mas dar um monte de remédios para o rabugento - conseguimos, por indicação de Joelma, uma hospedagem com um adestrador em Barra do Pojuca, por coincidência (ou não) irmão do nosso mecânico de bike. Deu tudo certo com Konguito. 
Deu tudo certo na viagem também, com reuniões sobre o futuro da empresa mas também um encontro fraterno com toda a equipe das unidades, almoço com amigos queridos, café com mainha e irmã, passeinho no Centro e almoço no melhor restaurante árabe da vida, o já visado por mim Syria, de um refugiado que antes teve o Vovô Ali, segundo meu amigo Renato a melhor esfiha de todas - e com a surpreendente massa folhada de pistache, um acontecimento. Ainda consegui cortar cabelos com meu cabeleireiro há 25 anos, e devo dizer que, quando as madeixas recebem um bom corte, elas ficam lindas mesmo em desordem. Também consegui comer pão na chapa em padoca tradicional, a Marajá, perto do hotel, nas proximidades da Famiglia Mancini, onde ficamos um dia antes de ir pro apart de Li. 
Desta vez, percebi muito policiamento no Centro, mas com certeza isso se deveu à Parada do Orgulho, que ia acontecer no final de semana. A paisagem continua tristemente desigual, com hipsters ocupando Copan e imediações enquanto moradores de rua vagam pela feira - um efeito da gentrificação é a carestia geral na região, como no velho Café Floresta, onde paguei 40 reais por dois cafezinhos e três broinhas. O canelé do Temumami, que há tempos queria provar, custa 10 reais e nem é tudo que eu pensava. 
Assim que voltamos de SP fui pagar contas e comprar geladeira e lavadora de roupas, e ainda terminar de empacotar coisas. Minha sogra veio me trazer no domingo, o carro tomado de coisas. Zenzito, que já havia ficado preso no banheiro em Monte Gordo, ficou no banheiro do apê até que a galera fosse embora. Deu uma surtada quando percebeu que não poderia sair, e a primeira noite foi horrível, com ele me acordando às 2h, miando e correndo, e só parando quando o prendi na mala de transporte às 4h. No decorrer dos dias, foi me acordando cada vez mais tarde, até que chegamos ao horário de 5h30, bem mais razoável. Agora ele criou a rotina de dormir dentro do guarda-roupa toda tarde. 
Na primeira segunda, fui me matricular na academia vizinha, uma espécie de Bioritmo, mas com treino menos personalizado - a vantagem são as aulas coletivas. Consegui treinar duas vezes na primeira semana, porque logo estava envolvida com entregas - de mudança, de Magalu, de estantes restauradas, instalação da Vivo, visita de faz-tudo que não fez tudo mas contou a vida inteira. Mas, mesmo sem poder sair pra me exercitar, um amigo de Marise que pedala aqui entrou em contato comigo, me inscreveu no grupo e lá fui eu pedalar 35 km com uma galera muito mais experiente. Quase morri, mas fui. Claro que eu era muito lenta para os padrões deles, e logo me indicaram um grupo feminino, "mais lento". Muito melhor que ter uma pessoa bem-intencionada mas rabugenta atrás de mim dizendo pra eu ir mais rápido, aconselhando a trocar a suspensão, a coroa, a subir a ladeira mais íngreme porque "se eu queria pedalar, tinha que treinar". Afe! Mas tenho que dizer que eles garantiram minha segurança o tempo todo, e em nenhum momento tive receio de pedalar ao lado dos carros. E foi assim que finalmente conheci a Ponta de Humaitá e pude tomar um sorvete na Ribeira, ainda passando pelo meio das casas (não sei se é muito legal pros moradores, mas enfim).
Para acompanhar todos esses eventos, tive que respirar fundo muitas vezes, aprumar o corpo e literalmente ativar o core, inclusive para carregar coisas e subir escadas e ladeiras sem parar. E funcionou. E deve continuar funcionando, que vem mais pela frente, até que o vórtice vire fluxo. 

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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