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quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Reencontro com amigos depois de quase dois anos

Desde que começou a pandemia, deixamos de ver os amigos mais próximos (os distantes, então, nem se fala). Todo mundo quarentenado, e nós, pelo jeito, mais que todos. 
Com o pilates on-line, pelo menos, consegui ver virtualmente esses queridos a quem chamo de A Diretoria. A maioria, estrangeira como eu, mas todos eles, sem exceção, responsáveis por eu me sentir muito à vontade por aqui. Conversas divertidas, inteligentes, éticas, sérias sempre regadas a comidinhas gostosas em encontros organizados por anfitriãs perfeitas como Suely e Cris (e eu de vez em quando). 
Pois então - foram quase dois anos sem nos encontrarmos pessoalmente (só uma ou outra vez en passant e de longe no supermercado, ou no consultório de Jô, rapidamente, para vacinar Chica ou Kong ou Zen). E resolvemos nos ver, todos já vacinados, a maioria já com a dose de reforço. Só ficamos mais juntinhos pra foto, nessa aglomeração de sete.  
Puxa, que bom que foi! Que amadas são essas pessoas, e como é sempre bom lembrar disso.

Quem tem medo do novo?

Nunca fui de ter medo do novo. Aliás, pelo contrário, o novo sempre foi a base sobre a qual me movi. Talvez porque eu sempre estivesse mesmo em movimento, tudo era novo, todas as paisagens eram novas. Sempre fui mezzo heraclitiana, mezzo aristotélica. Por isso me faz tão mal a estagnação. 
Apesar das mudanças constantes, sempre havia alguma segurança, o mínimo de controle de riscos. O problema hoje é que tudo é tão inseguro, tão imprevisível e instável que, no lugar da esperança, vem a ansiedade. Até o novo é outro, soa mais a má notícia que a novidade. Não sou eu que me movo, é o chão que se move sob meus pés. 
Eu me lembro de uma época de carestia, na minha juventude, em que a cada dia os produtos no supermercado tinham um preço diferente. Isso voltou a acontecer agora, com dimensões agigantadas, lançando muito, mas muito mais pessoas à penúria alimentar. Hoje não consigo só lamentar como está tudo tão caro para nós - sendo repetitiva, não é humano ignorar a fome de milhões. Isso me deprime enormemente. 
As surpresas más de que falo são desse teor de desumanidade - qual a notícia ruim do dia, sempre me pergunto - mas também englobam o crescimento de aproveitadores da miséria. 
No final das contas, não há como evitar o novo, e há quem tente tão somente ignorá-lo, o que não quer dizer que não está ali. E por que o ignoraríamos, em vez de aprender a dançar com ele, às vezes duelar com ele? Tudo muda o tempo todo, no mundo. Já dizia Heráclito, sempre nos lembra Lulu.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Dia 218

Parecia que a chuva tinha ido embora, mas não. Chove desde sábado à la Guantanamera, o filme. 
Tudo indica que estou com intertrigo candidisíaco, uma micose nas axilas que deixa placas vermelhas na pele - foi Drauzio quem me contou. E tome Vodol por 2 a 3 semanas, na esperança de que sare, ou terei de descobrir um dermatologista por aqui. Ou tentar um fluconazol básico antes, persistindo na automedicação pra não contrair um vírus por aí. 
Cabelos seguem entre Juma Marruá sem coiffure e Janis pós-Arembepe, e agora deram pra formar nós na nuca. Os produtos caríssimos da L'Oréal que comprei - talvez eu não saiba usar - ainda não fizeram seus milagres. 
Além dos cabelos desgrenhados e da coceira infinita nas axilas, a escrita do TCC continua empacada - mas não as ideias sobre feminismo, racismo, justiça social. Ao menos isso vai contribuindo para aclarar as sombras da alma, ajudando inclusive na terapia retomada. 
Sigo nos trabalhos produtivo e reprodutivo enquanto for necessário, tentando retomar meu pragmatismo de fazer do momento um terreno minimamente estável para mudanças, quando estas forem possíveis. Tento ser budista ao cozinhar e lavar louça.
Entre as notícias ruins no mundo e especialmente no Brasil, vem uma luzinha de esperança com a eleição boliviana. Nem é aqui, mas que alívio dá ver que nem todo o mundo está perdido. 

domingo, 23 de agosto de 2020

Sem tempo, irmão

Outro dia li uma crítica à atual produtividade em momentos de lazer, um fenômeno próprio da quarentena. Tipo ver série na Netflix ao mesmo tempo que faz bolo e participa de videoconferência no Zoom. 
Bom, não tecerei críticas a isso, porque fiz isso desde sempre, três ou quatro coisas simultaneamente, fosse para ganhar tempo porque morava longe e/ou porque demorei a ter acesso a várias dessas coisas (inglês/francês/judô/trabalho/faculdade/licenciatura na mesma época, por exemplo), fosse por alguma posição astral favorável dada no meu nascimento e sempre salientada por meu querido amigo Marcelo. Na verdade, agora, com a pandemia, tendo a seguir na direção contrária, de tentar focar em uma coisa de cada vez para não pirar. 
A nossa relação com o tempo sempre dá pano pra manga. Hoje, com a pandemia, o tempo parece ter saído dos trilhos, já que a rotina foi desmantelada, e é ela que nos coloca na conta do relógio, no final das contas. Não é de estranhar o sucesso de uma série como Dark, já que falei em Netflix, especialmente durante a quarentena. Os paradoxos do tempo e da existência vêm dar um nó definitivo na cabeça, apertar a mente geral. Some-se a esse tempo desmantelado a cultura das novas tecnologias portáteis e das redes sociais, e pronto, a salada está feita. Acho até que para as novas gerações isso é normalíssimo, não é nenhum fenômeno pandêmico - meu enteado consegue conversar conosco, fazer pesquisas na internet e responder a mensagens no WhatsApp, além de dar umas espiadas no filme a que estamos assistindo, sem perder a postura low profile.
Na pandemia, tudo urge, mesmo em meio ao ócio. Uma contradição digna de Dark. Todos que podem tentam fazer o tudo ao mesmo tempo dos millennials mas nem todos o fazem com a mesma naturalidade, e disso advêm estresse e frustração, porque a realidade é que, apesar da confusão temporal trazida pela Covid-19, as responsabilidades do mundo capitalista continuam a chegar, e têm sido incrementadas pelas necessidades sociais e econômicas e sanitárias de milhões de desconhecidos. Não só a sensação de poder gerir o próprio tempo foi tomada, como também invadida pelos problemas alheios, que agora são de todos. Como, então, curtir ao máximo na quarentena em casa se lá fora o panorama é dos piores? Não dá só para maratonar séries, fazer cursos, assistir a lives, bater papo no Zoom enquanto o mundo acaba e também quando ainda é preciso trabalhar, limpar a casa, comprar e fazer comida - e que bom que isso ainda é possível para muita gente!
No começo da quarentena, como já disse, fiquei meio desnorteada, e até embarquei nessa de fazer mais zilhões de coisas. Fiquei exaurida em pouco tempo, porque ainda tinha que trabalhar, limpar casa, cozinhar etc. Não, não dei conta. E vi que nem precisava, que não estou aqui para isso. Aliás, a única coisa que me devolve a sensação de ter uma rotina é justamente criar uma, fazendo uma coisa de cada vez, finalizando tarefas - e a qualidade de ser multitarefas num momento tão atípico como este acaba se esgarçando, e parece que as tarefas não têm fim (OK, algumas não têm mesmo, como limpar a casa). Teve dia que escolhi finalizar dois cursos de hortas no lugar de lavar banheiro. E tudo bem. Lavei no outro dia, e ninguém morreu. Tenho me cobrado menos, embora mantenha no horizonte minhas responsabilidades, que também ando revendo.
Talvez - essa é uma grande esperança - seja sinal de maturidade o fazer o que é possível no momento, um dia de cada vez. Ou talvez - o paradoxo dá nova volta no parafuso - não haja tempo para ser de outro modo.

domingo, 9 de agosto de 2020

A vida que segue brotando

Já tinha dado por moribunda a árvore da felicidade que ganhei de minha sogra. Na verdade, continuam caindo galhos - ainda não sei cuidar direito. Mas daí Guga me chamou a atenção outro dia para o brotinho renitente que apareceu. 
Achei tão simbólico do período que atravessamos, de tanta morte pelo caminho, mas com uma vida que teima em continuar a brotar, quase indiferente à nossa desesperança. 

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Cem dias depois, o que fica?

Na verdade, faz quase 120 dias que estamos em quarentena. E o que isso nos trouxe até agora? Para além da redução de atividade física e contato social e do aumento do cansaço, das comilanças e das incertezas quanto ao futuro: muitas reflexões. Sobre o que é ser pobre, preto, mulher, gay, índio, nordestino no Brasil. Sobre de que lado é possível estar nesta pandemia e depois dela, se dos que desejam que muitos possam mais ou dos que querem continuar fazendo parte dos poucos. Sobre o fato de o Brasil ter problemas de identidade desde sempre - já que aqui a alienação, de si e do outro, é a regra - e que por isso os brasileiros não se enxergam como povo, mas sempre como indivíduos com mundo particulares que mimetizam o estrangeiro, e por isso é tão difícil implantar a democracia, se não há quem se veja como parte de um todo maior e próximo a si, nem quem deseje lutar por seus iguais, partes também desse grande todo. 
Manuel Bandeira já dizia que o que fazíamos era macaquear a sintaxe lusíada. É só transpor essa ideia para a imitação brasileira da cultura gringa nas camadas média e alta da população. O mais é o povo, que está se lascando na pandemia, mas também sobrevivendo graças à sua própria solidariedade. Faz tempo que os pobres sabem que não podem contar com o governo para nada. Ao menos a pandemia fez cair as escamas dos olhos de uma parcela da população, do grupo dos que se importam. 
Claro que sabíamos da desigualdade - eu me incluo neste grupo, pois, mesmo tendo tido uma longa vivência periférica, nunca me faltou um prato básico de comida nem um teto nem escola -, mas havia um véu entre nós e ela. Mais adivinhávamos do que víamos. Pois o véu foi arrancado, e o horror não nos deixa outra alternativa senão tomar posição. Contra a iniquidade, a indiferença, as violências de todo tipo. 
Ainda bate um desânimo grande, porque a distopia governamental não tem fim, o vírus está lá fora, a iniquidade cobra seu preço, e mesmo assim não sabemos o que terá sobrado do mundo quando deixarmos o bunker. 

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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