domingo, 25 de dezembro de 2022

Um balanço

Se eu tiver de escolher a melhor coisa que aconteceu este ano, não há dúvida: foi termos tirado o Bozo do poder, interrompendo por ora o completo desmantelamento das conquistas sociais no país. Por ora, porque os seguidores do Bozo subsistem sem ele, a extrema direita está à solta em toda parte, e a luta, que nunca foi fácil, agora é incessante. Mas mesmo com esse grande porém o alívio foi enorme. 
De resto, só tenho a agradecer não ter tido problemas sérios de saúde, porque foi a vez de o marido ter diversos eventos na área. Nem gosto de lembrar, mas se há alguma vantagem em lembrar é pensar como é importante cuidarmos da saúde, da alimentação, e que faz diferença consumir suco de uva e própolis!
Tive saúde suficiente para sobreviver e seguir num trabalho maluco e incessante, no pior estilo do dia da marmota, para não enfartar com uma possível vitória do Bozo no sanatório geral que virou o país, para cuidar da saúde dos outros. No que diz respeito a mim, perguntei a mim mesma o que me importa nessa vida, e confirmei que não há hipótese de continuar como estou, sem movimento nem criatividade nos meus dias. 

Dezembro em imagens

Dezembro. Teste de covid, graviola gigante, pets, carne de sol delícia, infalível pesto de castanha de caju, pizza de burrata copiada da 7 Pizzas, chocolates Monjolo, cinnamon rolls de Natal.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Cropped

A primeira vez que li essa expressão "bota uma cropped e vai" (podia ser "vai malhar", "vai ser feliz", "vai ganhar o mundo", qualquer coisa positiva), não me identifiquei com a ideia. Até pouco tempo, ainda estava (embora cada vez menos) presa à ideia de uma vestimenta adequada a uma idade, mesmo achando (cada vez mais) que cada um tem direito de usar o que quiser. Ou seja, achava que uma blusa cropped não era para mim - aliás, nunca foi, nunca fui de mostrar a barriga ou mais pele do que braços e pernas, a menos que estivesse de biquíni. 
Porém, graças a tantas e tantas mulheres, influenciadoras ou não, que têm se mostrado do jeito que querem, com o corpo que têm, com a idade que têm, os ares da liberdade de ser estão em toda parte, e quero crer que seja um processo irreversível, mesmo com toda intolerância que grita contra. Ao mesmo tempo, tenho aprendido, aos 50, a vestir-me não para disfarçar "defeitos" mas para realçar aquilo de que mais gosto em mim - e tenho aprendido a gostar de cada vez mais coisas. Entonces, eu, que morro de calor, resolvi comprar blusas para malhar que ficam na cintura, e tops que deixam, sim, parte da barriga de fora. E amei, me senti fresca e linda, envolvida numa felicidade libertadora. 
Daí entendi o que queria dizer esse apelo de botar a cropped e ir por aí. Nada mais do que ser feliz sendo o que se é. Gostar de quem se é. Eu ando gostando, como nunca gostei. Ando me vendo, como nunca me vi, e gostando do que vejo. E uso cropped sem pedir permissão a ninguém. 

Comprar de mulheres

Cada vez mais compro de mulheres, e quase que exclusivamente de mulheres. Isso significa que também tenho comprado cada vez mais dos pequenos negócios. Isso serve para tudo: roupas, produtos de beleza, utilidades, sapatos, agenda, comida, chocolate. Talvez não se aplique somente a medicamentos, ainda dominados pela grande indústria. E pneu de bicicleta, coisas assim.
Comprar de mulheres não é só apoiar quem ainda não encontra o espaço merecido no mercado de trabalho, que não tem como encontrar emprego formal porque precisa cuidar da família, que se vira nos 30 em criatividade para sobreviver. Comprar de mulheres é receber em troca produtos pensados a fundo por quem entende de cuidados, receber, sempre, cartinhas lindas e carinhosas e agradecidas escritas à mão (pena eu não ter guardado as cartinhas, tamanho o volume que se formou), muitas vezes com pequenos mimos, um cheirinho, uma folha de papel de seda envolvendo a peça, um frasquinho de álcool gel, um bombom! Para citar exemplos das duas últimas compras: recebi, junto com meu planner da _cincofolhas, calendário, bloco de post-it, marcador, chaveiro, e presilhas e flores de lã perfumadas, acompanhando shorts da Augusta 75, além das infalíveis cartinhas. Mesmo quando se trata de uma empresa maior, como a Calma São Paulo, a Kelly Kim também tem esse cuidado com embalagens lindas e recados personalizados. 
Já comprei também de homens na condição de pequenos empresários e nunca vi essa atitude - entregam o produto, e pronto. As mulheres, via de regra, trabalham de forma mais atenciosa, enquanto equilibram pratos, ficam de olho nas crias, respondem a mensagens de clientes, da escola das crianças, da família, pensam no que haverá em cada refeição, colocam roupa para lavar, organizam a rotina doméstica, financeira e profissional, muitas vezes enquanto ajudam os parceiros em seu trabalho de forma mais direta. E ainda são cobradas quanto a manter a boa forma, o desejo sexual, a simpatia etc. etc. Isso para não dizer que as mulheres são mais preocupadas com os destinos do planeta, com o que colocam no prato, seu e dos filhos, com testes feitos em animais, com trabalho escravo, com a luta pela democracia e contra a injustiça. 
Compro de mulheres porque isso ajuda a todas nós perceber que temos toda condição de mudar a ordem das coisas, de uma maneira justa (portanto coletiva), afetuosa e perene. 

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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