segunda-feira, 22 de abril de 2019

Processando alimentos: chocolate enquanto pão e polpa de acerola

Faz tempo que não compramos ovos de chocolate para a Páscoa. Acabamos sendo demovidos pelo preço discrepante cobrado por duas finas cascas de chocolate com alguns bombons dentro - melhor é comprar os chocolates e preparar algo gostoso para a ocasião. Nas últimas edições pascais, já fiz bolo de chocolate com ganache, pain au chocolat, roscas de frutas e chocolate, tarteletes de chocolate e avelã com morangos, torta de maracujá e chocolate e, este ano, babka de creme de avelãs com chocolate. Inspirada pelo chocolate, até pão australiano, na versão de forma e brioche, rolou. Garanto que tudo valeu muito a pena. 
Também por esses dias as aceroleiras deram fruta como nunca. O risco era deixar de colher e a chuva derrubar tudo, como aconteceu na safra passada. O marido colheu várias bacias de acerola, e eu me concentrei em processar o máximo que pude. Dá um trabalhão: tirar a sujeira mais grossa (galhos, insetos, cabos), escolher as melhores, lavar em água corrente, deixar de molho em água com solução desinfectante, enxaguar, liquefazer, coar e embalar. Mas, mesmo não dando conta de tudo o que foi colhido, ainda tivemos muitos saquinhos de polpa para ocupar o freezer. E um suco absurdamente bom e fresco. 

sexta-feira, 19 de abril de 2019

As babkas de Páscoa X a cã comedora de manteiga

Chica é muito louca. Além de uma certa bipolaridade - passa da alegria ao drama em segundos -, ela devora tudo o que vê. Não só Crocs, como costuma acontecer com cachorros pequenos, mas também cigarras, tapetes, fechos plásticos para pacotes e... manteiga. Deixei um pote sobre a bancadinha de trabalho com 340 g de manteiga em pomada. Saí por 10 minutos para falar com minha sogra e, na volta, dou de cara com o pote esvaziado quase até o fim. Ou seja, ela comeu, sem derramar uma gota no chão, mais de meio pote de manteiga amolecida. Claro que foi um vomitório só até a hora de ela dormir. Hoje, um pouco também. 
Fiquei muito brava, mas por sorte tinha comprado mais manteiga, e pude fazer as babkas de Páscoa, que ficaram deliciosas. Quem provou, aprovou. De qualquer modo, não é mais possível tirar os olhos da magrela - algo de que ela, tão carente, jamais reclamará.   

terça-feira, 16 de abril de 2019

O mimimi é o pretexto dos intolerantes e covardes

Mimimi é uma coisa meio sem dono. Se alguém começa a reclamar demais, logo se fala em mimimi, servindo para designar chatos de direita e de esquerda. Ultimamente, o pessoal da ultradireita se apropriou do termo para se referir aos defensores do politicamente correto.
De todo modo, até mesmo quem não se define nem de direita nem de esquerda, por osmose, tem falado em mimimi para se referir a questões fundamentais, seriíssimas, como as que envolvem violências contra mulheres, negros, pobres, nordestinos e público LGBTS. Debaixo do meu nariz mesmo ouvi outro dia uma série de falas impensadas:
"- Quer dizer que não pode mais falar que a coisa tá preta?"
"- Ah, eu acho muita neurose isso. Quer dizer que não pode falar mais nada? Esse povo exagera! Ficou tudo muito chato com esse politicamente correto!"
Dali se passou à esperada associação com o bullying de outros tempos: "Na minha época, era normal falar essas coisas, ninguém se ofendia". Ainda tentei argumentar que nunca uma pessoa branca poderá saber o que é se colocar no lugar de uma pessoa negra que sofre todo tipo de violência, então o que lhe resta é apenas respeitar a maneira como o outro se sente. Mas para ouvidos moucos não há muito o que fazer. Está tudo entranhado, e é preciso muita consciência (algo que "reprodutores" de pensamento naturalmente não têm) e vontade de mudança para arrancar as raízes do preconceito.
Eu mesma reproduzi esse discurso por algum tempo (a chatice do politicamente correto), mas logo caí em mim de que o politicamente correto era uma forma, talvez a única na contemporaneidade, de compensar o desprezo pela ética em si, um paliativo, como as cotas na universidade. Não são o ideal, mas já são alguma coisa. Hoje, graças ao politicamente correto, o ruído é maior, os brados contra a intolerância e a covardia são mais altos, que coisa maravilhosa!
Tenho aprendido muito realizando a pura escuta. Também lendo nas redes sociais o que pensam amigos diversos - mulheres, negros, LGBTS. Sei que o exercício da alteridade é limitado - jamais sofrerei o mesmo que negros e LGBTS -, mas é essencial. E porque tenho tantos queridos lutando contra intolerâncias é que me solidarizo e cerro fileiras com eles. Por isso, ouvir que suas lutas são "mimimi" me incomoda muito e me faz ver com outros olhos as ditas pessoas "normais", e me faz preferir outras companhias no caminho.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Massas de final de semana: lasanha de espinafre e babka de avelã e castanha de caju

O final de semana é sempre muito curto para fazer tanta coisa! São arrumações da casa em geral, colocar estudos em ordem, ir a algum evento de amigos ou sair para tomar uma cervejinha e, principalmente, fazer experimentações gastronômicas. Sábado e domingo normalmente são meus dias de fazer testes - até pouco tempo, muitos testes de confeitaria, mas os quilos a mais fizeram que eu mudasse o foco das experimentações. 
No último finde, resolvi usar o espinafre em pó que comprei na Casa de Saron para fazer uma massa verde. Um pacotinho de 200 g rende muito - para 400 g de farinha e 4 ovos, por exemplo, bastam 16 g de espinafre em pó para já garantir aquela cor linda da massa. Fiz as placas de lasanha (doze, no total) bem finas, e minha sogra preparou dois molhos, o bolonhesa e o branco. A massa ficou perfeita. 
A outra experimentação foi uma nova receita de babka de creme de avelã, por conta da Páscoa. Receita do Prato Fundo, totalmente aprovada e já divulgada. 
A alegria de fazer algo que nutre o corpo e a alma de todos não conhece o que se lhe compare. Isso enriquece qualquer fim de semana.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Da persistência em meio ao caos

Falei brevemente uma vez sobre a beleza em meio ao caos, quando minha amiga Luciane me presenteou com uma caneta-tinteiro trazida da Itália enquanto eu chafurdava entre caixas de mudança. 
Bem, nos últimos 20 dias, temos vivido muitos momentos caóticos. Tem chovido na Bahia como há décadas não acontecia. O ciclone que deixou milhares de desabrigados no sudeste africano e matou quase 600 pessoas em Moçambique deu as caras por aqui - mesmo na sua forma mais branda, fez bastante estrago, do sul ao norte do estado. Aqui em casa temos visto chuvas muito intensas, aguaceiros mesmo, e até um olho d'água se formou junto ao piso do banheiro, inundando parte da sala, molhando sofá, som, discos. Lá fora, a lama descia, e me vi na mesma situação de mais de 20 anos atrás, quando a Bienal foi inundada e fiquei com mais um tanto de colegas monitores enxugando o chão com panos e baldes, enquanto as obras eram retiradas às pressas das paredes do terceiro andar. Isso aconteceu na semana passada, e voltou a acontecer ontem de madrugada. 
Já estávamos sem internet há dias quando veio o ciclone, e fiquei na ida e vinda sem fim entre casa e lan house, superlenta mas a única disponível aqui. Nesse meio tempo, houve um problema no trabalho, e tive de resolver em um dia - o único em que a internet voltou, porque, afinal, quando nasci não veio um anjo safado me dizer tonterias. 
Porém, para incrementar, parte do muro dos fundos caiu com a quantidade de água da chuva. Mais desvios da rotina, mais gastos. 
Também tinha uma prova on-line para fazer, mas, no último momento, consegui fazer pelo celular. 
Obviamente, não tem dado para pedalar ou me exercitar, e isso tem um efeito ruim sobre o humor, sobre o peso, sobre a saúde. 
Nesse meio meio tempo, eu, que tinha feito inscrição em um programa de castração solidária para Chica, fui convocada a levá-la - mas nosso carro quebrou e tive de pedir a remarcação. O pessoal da Cercan topou, mas a peça do carro que era preciso trocar precisava ser encomendada, e não pudemos ir na nova data. Remarquei de novo, eles toparam de novo. Fomos e passamos o dia inteiro lá, com uma equipe simpática e competente mas aparentemente desorganizada. 
Para mim, apesar dos pesares, este foi o melhor momento da quinzena caótica - Chica ficou em jejum 14 horas, vomitou no carro e em mim, demorou a voltar da anestesia, mas no segundo dia já ressurgiu lépida. Foi a melhor imagem da persistência - nossa, no caso. Persistimos, em meio ao caos, em fazer a coisa certa, e fizemos, como quem se dobra sem quebrar, como uma canção esperançosa em filme de Almodóvar. 

De equipamentos e Ferraris

Já disse aqui várias vezes que gosto de equipamentos apropriados para cada coisa. Também gosto de saber como fazer algo prescindindo de um equipamento - por exemplo, quando comecei a fazer sorvetes, não tinha sorveteira. De qualquer modo, em algumas situações, ou se tem o equipamento, ou não se evolui mais. Outro dia, acabei me rendendo a ter um mixer da Ostler, que pica, fatia, emulsiona, tudo muito mais rápido, e nem ocupa tanto espaço.
Em vista das minhas necessidades padeiras, há algum tempo planejo ter uma masseira. Isso, porém, significaria ter um espaço maior onde instalá-la, e sei que essa possibilidade inexiste no momento. Como fazer para conseguir produzir mais pães em menos tempo?
Pensei em comprar pelo menos uma batedeira com bowl maior do que o da minha Arno. Pesquisei, pesquisei e acabei achando opções da norte-americana KitchenAid e da inglesa Kenwood, semiprofissionais. A da Kenwood, mais difícil de encontrar no mercado, item sempre esgotado. A da KitchenAid, à venda em vários lugares. Mas o preço... Se a versão mais doméstica custa por volta de 1.600 reais no Brasil contra 300 dólares no exterior, a Proline custa no Brasil quase a mesma coisa que uma masseira, ou até mais, e cerca de 400 dólares nos States.  
Como não teria coragem de pedir a alguém para trazer para mim (peso, cobrança de bagagem e de impostos), segui pesquisando e encontrei uma oferta da Amazon do Brasil, com frete grátis. Não era uma pechincha, mas o desconto dava até pra comprar uma Stand Mixer (o modelo mais simples). Resolvi me jogar. 
Chegou tudo direitinho. Fiz um bolo de chocolate para testar. O bolo de chocolate mais fofo que já comi na vida (o iogurte no lugar do leite ajudou, justiça seja feita), a massa mais lisa de todas. Para bater poucas quantidades, é verdade, é um pouco mais complicado. Mas a questão eram as grandes quantidades, que a Arno não dava conta, ainda mais com o clipe que segura o bowl quebrado há anos (o que significava ter de ficar segurando o bowl por 10, 15 minutos). De qualquer modo, a pequena quantidade de massa de brioche batida na Proline rendeu pães ótimos, muito mais aerados do que eu costumo conseguir com o outro equipamento. 
O próximo passo é o projetinho esperto para adaptar a cozinha a esses investimentos.

Atualização: Para bater poucas claras em neve, a Proline não funciona bem. Acabei usando para as claras em neve do bolo de banana de hoje o fouet do mixer, e ficaram perfeitas. (Está respondido porque muita gente ainda usa aquelas batedeiras de mão.)

Padoca do João


JP completou um aninho e Gleice me pediu para levar algo para a festa. Além do queridinho tortano, o que mais poderia ter cara de aniversário, ser um bocadito fácil de comer, sem se despedaçar? Pensei logo nos muffins, esses bolinhos ingleses que podem ser doces ou salgados. Fui fazendo alguns testes de sabores e com diferentes formas e cheguei aos de queijo, queijo com alecrim e cenoura com chocolate. Ainda por cima, achei essa plaquinha-lousa com o tema da festa de JP - Mickey Mouse. 

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

Arquivo do blog