sábado, 18 de novembro de 2017

O simples delicioso

O tempo entre panos ou Desconstruindo Hokusai

Ontem fiz uma garimpagem nos retalhos guardados por minha sogra, que tem um verdadeiro acervo para quiltagem, impressionantemente organizado, diverso e lindo. Estava atrás de uma chita para fazer uma ilustra de abertura para o bullet journal. Acabei misturando tecido, papel de origami - já minhas marcas pessoais - e feltro. Outra marca pessoal é a desconstrução de Hokusai.
O único perigo das colagens nesse tipo de uso é a agenda ficar muito gorda.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Organização interna, minha e do bullet journal


Depois de dar uma geral no site de Bullet Journal do seu criador, Ryder Carroll, comecei a desenhar o meu. Ainda bem simples, mas, como uma ideia puxa outra, hoje já adicionei uma cinta (que depois me lembrou da faixa de judô) e um envelope para guardá-la. 
As seções, por ora, se referem ao panorama de cada mês, a filmes e livros a conhecer e a um cantinho de gratidão, além de um rez-de-chaussée em cada semana para comentários gerais. Talvez role uma seção O quereres, a ver. 
Também começam as brincadeiras com colagem e ilustração, como o troféu no dia da prova de bike que Guga e Wendel venceram. 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Distração acertada e dois pães

Ontem resolvi fazer pão integral, receita do curso na Levain. Me distraí quanto à quantidade de manteiga e coloquei demais. Acrescentei um pouco mais de manteiga enquanto boleava, mas fiz outra receita, agora correta, porque queria testar para pedidos futuros.
Assei os dois, e o "equivocado" ficou, como era de se esperar, mais claro, mais macio, menos resistente ao corte que o outro. O segundo ficou ótimo, bem versátil, para acompanhar qualquer cobertura ou recheio.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Piadina, para não perder tempo

Eu já tinha visto uma receita de piadina no programa da Rita Lobo. Trata-se de um pão chato típico da Itália, muito rápido de fazer. Pensei que seria um ótimo quebra-galho para aquele dia em que temos pouco tempo para preparar algo. Foi o que aconteceu hoje: vi que a fome do marido era diretamente proporcional ao tempo que eu levaria para fazer um pão como se deve, ou pelo menos num tempo médio de 2 horas.
Procurei a receita da piadina, e arregacei as mangas. Em menos de meia hora os discos já estavam tostados, à espera da salada de tomate-cereja e pepino que seria colocada sobre o creme de ricota. Simples assim.
A piadina é quase o inverso do pão de fermentação natural. Outro dia, resolvi fazer um pão de nozes para a Ana, colega de pilates que me presenteou com os lindos tomates-cereja que compuseram nossa salada de hoje. Foram 12 horas do início ao fim do preparo. Mas o resultado valeu cada minuto.

Alegrias compartilhadas

Desde que descobriu o pedal, meu marido tem se dedicado a ele com afinco. Além de emagrecer bastante, pedalar trouxe a ele alegria e satisfação em se superar cada vez mais.
Por isso foi tão bom vê-lo no pódio na primeira prova de ciclismo de que participou, ao lado de seu parceiro de treino. Emoção e orgulho extremos!

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Bullet journal em processo

Achei no YouTube um tutorial para fazer capa dura, bem caseiro. Fui fazendo, fazendo, quando vi já tinha terminado a do meu bullet journal. O mais difícil foi mesmo decidir qual estampa utilizar. Acabei usando duas que comprei no Flor de Pano. Adicionei o marcador de fita de lembrança do Bonfim. Ainda devo acrescentar um fecho. Tudo parte do processo só iniciado de organização de ideias.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Gostos que nos definem

Já falei de tecidos aqui, que gosto muito e tal. Comprei há algum tempo umas amostras da Oficina Finisterre Urupês, que dá cursos de encadernação.
Na oficina de bordado na Flor de Pano, mais tecidos tentadores, mais voltados para o patchwork. Trouxe umas estampas lindas, sem saber o que faria com elas, e logo lhes achei serventia: uma agenda personalizada, cujo miolo comprei de novo na Oficina FU e cuja inspiração veio de um curso anunciado na Flor de Pano sobre bullet journal. Enfim, vou criar minha própria agenda do jeito que sempre quis.
A dúvida é quanto a qual estampa escolher. O que sei é que todas falam sobre mim, todas se harmonizam, mostrando como há alguns padrões do bem em nossa vida, aqueles que expressam nossas verdades internas. De olhar para essas estampas, tenho achado minha verdade interna bem bonita.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Com cafezim, é bão demais: broa caxambu


Das vantagens da vida no campo ou como "todo cambia"

Sim, os insumos são caros por aqui. É difícil ter coisas essenciais à mão, ou porque estamos longe, ou porque não há mesmo.
Mas a disposição de algumas pessoas compensa tudo isso. De uma colega de pilates, ganhei um pacotão desses tomates-cereja lindos (além de coentro, hortelã e pimentão); de nosso vizinho da frente (já fornecedor dos ovos caipiras) veio a abóbora. Outra colega se dispôs a encontrar tomilho para mim.
É preciso não esquecer disso quando me irrito com o que falta. É preciso lembrar o próprio movimento da vida, cambiante, todo o tempo.

Pão rústico de aipim, mandioca ou macaxeira

Este blog agora quase só fala de pão, madre mia!
Vi que nunca postei sobre o pão de mandioca, aipim ou macaxeira, que às vezes faço com batata-doce e fica incrível. Também já misturei aipim e batata-doce, muito boa mistura.
Esta receita é de uma família do Paraná. É rápida e eficiente. Faço sempre, especialmente quando sobra uma mandioquinha cozida. Pura energia que ajuda a plantar os pés no chão.

domingo, 5 de novembro de 2017

Panetone, o retorno


Faz tempo que experimentei as receitas de panetone, mas até que não tive tanto trabalho em revivê-las. O meu maior problema tem sido a compra de insumos - quando encontro, é tudo muito, muito caro. Não há condição nenhuma de fazer as compras aqui, só mesmo em caso de emergência. 
Desta vez, o chocolate que tinha era o da Garoto, em barra - a quantidade foi insuficiente para os dois panetones de 750 g e os seis pequenos de cerca de 110 g. Mas a consistência é bem boa, talvez melhor que da vez que usei gotas de Callebaut. 
Como as formas maiores que tinha eram de 1 kg, ficou uma sobra de papel nos panetones maiores. Os pequenos ficaram mimosinhos. 
Ainda no quesito insumo, faltou adicionar mais baunilha, e também umas raspas de laranja. Aí ficarão perfeitos, já que a massa, com um pouquinho de levain, é como acho que deve ser. 

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Crescendo como fermento

Hoje é feriado, e, em vez de descansar/estar na praia, estou assando pães (mas ainda pretendo sair pra pedalar um pouco, antes da terceira fornada). Muitos pães australianos - em poucos dias, fiz cinco vezes (só hoje, duas fornadas deles, totalizando cinco pães). Numa das vezes, errei a quantidade de açúcar e de cacau, e o pão saiu "fortificado", quase um bolo de chocolate (lindo, fermentado no banneton)! Bom, sempre, mesmo no erro.
O feedback tem sido bom, e é assim que procuro melhorar cada vez mais, cada vez mais concentrada no que faço.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Para que serve a arte?

A arte no Brasil tem sido bombardeada pela ala mais conservadora e assustadoramente crescente da sociedade. Claramente, tem servido de boi de piranha para a política, mesmo sendo ela tão naturalmente "política" - assim, na atualidade nacional, falar dos riscos de pedofilia oferecidos por um artista performático nu e por uma exposição queer, ou atacar uma das sumidades dos debates transgênero no mundo, afasta as atenções do que é realmente urgente discutir: a sambada na nossa cara pelos corruptos, uma prática cada vez mais escancarada enquanto um bando de embasbacados corre na outra direção gritando palavras de ordem e moralidade/moralismo.
Isso tudo deve fazer pensar: afinal, para que serve a arte? De novo, penso nessa "serventia" em oposição ao pensamento utilitarista que tudo toma. As respostas têm sido as mais estapafúrdias possível, passando longe do conceito da arte como provocação ao pensamento, à emoção, ao debate inteligente. À simples expressão artística, do modo de ver o mundo de alguém diferente de nós.
Gente que nunca foi a um museu tem se arrogado o papel de juiz dos valores artísticos. Em São Paulo, a página do Sesc Pompeia, um oásis na Pauliceia doriavada, tem sido atacada pelos extremistas de direita, que veem na palestra de Judith Butler uma "ameaça às crianças". Oi? Cedendo a pressões desses extremistas, o Masp decidiu proibir para menores de 18 anos uma exposição que trata de sexualidade. Ou seja, a liberdade, que deveria ser uma premissa de qualquer forma de arte, vai sendo escamoteada pelo progresso da ignorância. A democracia está sendo soterrada, e não deve causar estranheza que os ataques que provocam sua derrocada sejam justamente contra o conhecimento, na forma da arte, da ciência (que perde cada vez mais incentivos no país), da educação e da cultura. Não é a primeira vez na história (vide o conceito nazista de Arte Degenerada), infelizmente não será a última.
A arte é um grito, um rasgo, uma pedrada numa janela para deixar entrar luz numa sala escura. A arte nos permite respirar, pensar, concordar, discordar, nos desperta. Ela é a forma mais refinada de distinção dos outros animais a que podemos almejar. Deixar que se cale a arte é abrir mão de nossa humanidade, é nos conformarmos com o adestramento coletivo puro e simples.

Malévola e o feminismo

Outro dia assisti a Malévola, uma releitura de Robert Stromberg para a fada má de A bela adormecida, protagonizada pela bela e talentosa Angelina Jolie. Já tinha achado o trailer interessante, mas demorei a ver, aproveitando agora a oportunidade de tê-lo no Netflix.
E adorei. Tudo é muito bem-feito, a atuação de Jolie não decepciona e, ainda por cima, o roteiro é um libelo feminista em tom de conto de fadas. O amado de Malévola corta-lhe literalmente as asas, algo que vemos as mulheres sofrerem todo dia, na forma de mutilações físicas e psicológicas. Ela perde parte de seu poder mágico, mas não sua inteligência. Perde também parte de sua capacidade de amar, mas irá recuperá-la nos cuidados (inicialmente não bem-intencionados) com sua afilhada, Aurora.
O beijo de amor verdadeiro que salva Aurora, aliás, não é o do príncipe (spoiler forte, lo siento), mas o que Malévola lhe dá quando a julga perdida para sempre por sua maldição. E é Aurora quem lhe devolve as asas cortadas e, portanto, seu poder, sua identidade. Isso me fez pensar na rede de amor necessária entre mulheres contra a opressão machista.
Por fim, Aurora resolve viver com sua madrinha, e não no palácio. Malévola recupera seu poder e vive satisfeita num lugar não regido por homens, aliás, um lugar onde ninguém se sobrepõe a ninguém. Um final realmente feliz, com cada um sendo quem deseja ser, e não o que se espera que seja.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Longe da perfeição, perto da alegria

A arte e a beleza ainda são antídotos para tempos tenebrosos como estes que vivemos. Especialmente porque criar nos coloca em contato com o nosso eu mais profundo, com aquilo que importa, no sentido de ser "trazido para dentro".
O novo encontro com o Matizes Dumont veio reforçar a importância desse criar. Sem pretensões à perfeição, mas numa busca decisiva da alegria.

domingo, 22 de outubro de 2017

Combinação explosiva: pâte à choux e chocolate

Hoje foi dia de éclair. Nunca tinha feito pâte à choux, a massa cozida da bomba, da carolina, do paris-brest... Na verdade, nem é difícil, o preparo é até rápido, mas chegar ao éclair-bomba propriamente dito demora um pouco por conta das diferentes etapas (fazer e gelar crème pâtissière, preparar a massa, assar até dourar, fazer um fondant ou ganache para cobrir). Como não tinha bico de confeiteiro maior, minhas bombas ficaram mais magrinhas, e algumas não deu para abrir e rechear. Mas o ponto ficou exato: bem assadas, aeradas e com aquele vaziozinho deixado pelo ar quente.
Usei a receita da Mariana Sebess para a massa, a da Rita Lobo para o creme de confeiteiro de chocolate e criei uma ganache com chocolate picado, creme de leite e um pouco de manteiga para dar brilho. Adorei o resultado dos meus éclairs rústicos.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O doce e achocolatado sabor do pão australiano

Amo pão australiano e seu gosto doce e achocolatado. Ainda não tinha tentado fazer, mas de tanto comprarmos pão australiano da Limiar, uma (boa) marca industrializada local, resolvi que era hora de achar uma receita doméstica.
Encontrei uma no site paorustico.com - o único senão é quanto ao preparo: como se pede para misturar todas as farinhas e a água e o fermento somente depois, desconfio que por isso (o fermento não ser previamente ativado) o pão cresça pouco. Mas o sabor é incrível!
No Desafios Gastronômicos, achei outra receita, com o fermento sendo ativado antes e sem uso de farinha de centeio - que, embora eu adore, é muito cara por aqui. Até usei na receita, mas em termos de custo não vale a pena.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Mjadra

É difícil para mim escolher uma comida favorita. Eu gosto de muitas. Gosto de comida. Mais fácil é dizer do que não gosto - fígado, talvez. Mas uma culinária que me atrai bastante é a árabe/síria, com todos os seus temperos.
Outro dia fiz mjadra, o arroz com lentilhas e muita cebola caramelizada. Até congelei o que sobrou. Costumo fazer a lentilha e o arroz separados e então juntá-los na hora de colocar as especiarias (cravo em pó, canela em pó, noz-moscada, sal, pimenta-do-reino, summac e às vezes coentro em pó).
Desta última vez, fiz com arroz integral, mandei ver nos temperos e preparei numa frigideira grande, quase uma paellera. Fiz como se fosse paella ou risoto, e demorou bem mais a ficar pronto - quando o arroz estava quase al dente, acrescentei a lentilha, que custou a cozinhar. Mas, desse modo, ela não ficou mole demais, o cozimento dos grãos foi mais uniforme. Também tenho deixado a cebola dourar em fogo baixo (poderia ter ficado mais amarronzada, mas a fome bateu antes). Mil técnicas. 

Feijuca de aniversário

A primeira feijoada que fiz, com direito a post aqui, foi a pedido de Guga. De lá pra cá, fui me aperfeiçoando. E a feijuca de aniversário que fiz para ele foi a mais longamente preparada, comme il faut.
Comecei na véspera, dessalgando as carnes (lombo defumado, salpresa e charque) de hora em hora, colocando o feijão de molho por umas 2 horas antes do cozimento - desta vez, a proporção de feijão foi maior que a de carne.
Depois de limpar as carnes, tirando o excesso de gordura, fui colocando cada tipo de uma vez no feijão já em cozimento, com intervalos de meia hora entre um tipo e outro, os embutidos (linguiças portuguesa e calabresa) no final. Acrescentei água de quando em quando, para o cozimento ser lento e gradual. Entre o início do processo e o cozimento, foram 10 horas. Daí, fui dormir, enquanto a panela emprestada da sogra ficou sobre o fogão, maturando a mistura, realizando a alquimia própria dos pratos "cozidos".
No outro dia, já cedo, fervi a feijoada (para não azedar), enquanto preparava alho picado e cheiro-verde para o tempero. E só. Nada de cebola. Nem de sal. Retirei parte do caldo para bebermos à parte, batido com alguns grãos. Mais umas 3 horas até considerar "pronta" a feijoada. E ficou uma delícia!

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Coisas chatas x alegrias de padeira

Como a vida não é só bichinhos fofos, pedal, comida boa, nos últimos dias tive uns perrengues. Soube, ao consultar meu extrato de cartão de crédito, que tive o mesmo clonado e usado em compras internacionais - por sorte, pequenas (até porque meu limite é pequeno mesmo). Consegui resolver logo, ligando para o banco, que cancelou as compras e providenciou o estorno na outra fatura. Mas fica aquela sensação de vulnerabilidade, de invasão.
Outra coisa bem chata é que, com a greve dos Correios, não recebi ainda o cartão novo, nem o frequencímetro que comprei há mais de um mês, nem uma compra de cadernos que fiz (e que, na verdade, nem tive resposta se o fornecedor enviará à Livraria Cultura). Claro, acho a greve legítima, mas estou naquela expectativa ansiosa e irritante.
Mas, porém, contudo, todavia, alguma coisa boa tinha que acontecer. Depois do malfadado não show de Gilberto Gil, fomos encontrar Cinho e Tai. E descobri que o pai dela tem uma distribuidora de insumos para padaria, inclusive da farinha de trigo que gosto de usar, Finna. E ela me deu 1 kg de farinha integral de boa qualidade para experimentar, benfazejamente. Acabei fazendo uma cuca de banana - inclusive porque ganhamos bananas do vizinho.
Se não estivermos atentos, deixamos de perceber os pequenos e diversos presentes cotidianos, que fazem frente às eventuais chaturas que também ajudam a compor a existência. Uma espécie de trégua, um respiro necessário.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

A importância da concentração

Voltando do pedal com o marido, outro dia, me estabaquei na calçada, tolamente. Fui fazer graça em resposta a um comentário dele e, quando me dei conta, o pneu já tinha raspado na guia e eu voei por cima da bike. Até então eu estivera superconcentrada no meu pedal, na minha respiração, e bastou uma distração pra eu ganhar uma raladura dolorida no cotovelo e rasgar minha jersey de mandacarus.
Hoje já não tenho dúvidas de que estar concentrada, inteira, presente no que faço é o melhor estado, que traz os melhores resultados. Pro trabalho, pra cozinha, pro pedal, pra arte, pra vida. Quantas comidas de bola, queimaduras na porta do forno, tombos, pontos malfeitos, más escolhas seriam evitados?
Claro que nem sempre é possível estar 100% ali, por ter alguma preocupação, por estar esgotada ou de saco cheio. Aí, talvez, o melhor seja fazer outra coisa, nem que seja por 10 minutos. E tentar voltar à concentração. Respirar, zerar os pensamentos e concentrar-se. Experimentar a plenitude do momento, experimentar estar integralmente em contato consigo mesma. É muito, muito bom.

Gostaria de ter escrito: Arqueologias culinárias da Índia

Ou qualquer coisa nessa linha. Que delícia ler sobre comida, em um livro escrito por alguém que não só tem prazer na degustação como também no entendimento do que há por trás dos hábitos alimentares.

domingo, 24 de setembro de 2017

O famoso gato por lebre - show de Gilberto Gil sem Gil

Tá, viramos ratos da Concha Acústica - vimos shows ótimos lá: Tom Zé, Zé Ramalho, Novos Baianos, Milton, O Grande Encontro. E achamos que não poderia ser diferente com o amado Gilberto Gil. Mas foi.
As informações sobre o show de comemoração de 40 anos do álbum Refavela, tanto no site do Teatro Castro Alves quanto em sites locais de cultura, como o IBahia e do jornal Correio, falavam que Gil receberia outros artistas, como Céu, para cantar as canções inspiradas em sua viagem à Nigéria. Porém, foi uma espécie de karaokê de familiares de Gil e Caetano, com tentativas explícitas de lançar artistas desconhecidos, como a nora de Gil, casada com o produtor do espetáculo, Bem. O anfitrião do show, na verdade, era Moreno Veloso. Gente, quando é que eu pagaria 120 reais e venceria 60 km de estrada para assistir Moreno Veloso saltitando para lá e para cá? Para ouvir o tímido vocal da nora de Gil? Para só ver Céu 1h20min depois de iniciado o show - quando, na verdade, já estávamos indo embora, por fim convencidos da trapaça toda?
O show começou com um áudio da voz de Gil, gravado nos anos 70, falando do lançamento do álbum. Foi o único sinal de sua presença, ainda que em todos os cartazes sua foto e seu nome apareçam em primeiro plano, inclusive na frente do TCA (grande responsável pela venda do engodo). Pelo que vi no site do Correio de hoje, "quase no final da festa, Gilberto Gil entrou no palco, colocando toda a Concha para dançar ao som do batuque da Patuscada de Gandhy". É realmente possível que aquelas 5 mil pessoas tenham achado normal ir a um show de Gilberto Gil com "participação especial de Gil", quando o que se vendeu foi sua atuação como anfitrião? A minha impressão é de que a maioria do público presente (porque, sim, mais gente foi embora) tenha achado mais cômodo esperar, que tenha se conformado com uma participação, mesmo que mínima, do artista.
Em uma entrevista do Correio, cuja chamada é de que Gil seria o anfitrião, somente no meio do texto dá-se a entender que ele vai cantar 3 músicas durante o show (se tivesse lido isto há 3 semanas, nem perderia tempo). De resto, parece haver um grande conluio midiático para promover o show e os parentes menos famosos do cantor. Tristes tempos estes, em que a cultura também é manchada pelo oportunismo, pelo favorecimento de iguais, em detrimento da maioria da população.

Atualização no dia 25 de setembro:
Teatro Castro Alves: Prezada Solange, lamentamos pelo seu descontentamento. O show de fato se configurava como um tributo, e não como apresentação de Gilberto Gil. O release publicado no site do TCA, disposto pela produção do evento, fazia esta contextualização. Ademais, esclarecemos que a realização do show e do projeto é independente, não se tratou de um espetáculo promovido pelo TCA. Ficamos à disposição para quaisquer esclarecimentos.
Solange Lemos: Teatro Castro Alves, ninguém lamenta mais do que eu, que tenho ido a tantos shows na Concha Acústica, e observado problemas aqui e ali, como a superlotação do espaço e os gritos do público na direção de quem está de pé. Lamento muito que a sanha do lucro produza massas apinhadas nos acessos às arquibancadas da Concha Acústica, que não haja nenhum cuidado da produção com a segurança e o bem-estar do público. Lamento a comunicação dúbia apresentada/compactuada no site do TCA e em outros meios digitais e no cartaz enorme diante do teatro no caso do evento referido. Lamento sobretudo por saber de antemão que esta seria a resposta óbvia à minha reclamação - "não temos nada a ver com isso" porque "o evento é independente", embora eu tenha comprado do TCA, e não da produtora de Bem Gil, os ingressos, o que configura responsabilidade solidária. Lamento, lamento muito mesmo que esse grande complexo tenha se tornado tão pouco convidativo, tão pouco "cultural".

domingo, 17 de setembro de 2017

Comemorando com etruscos e ingleses

Comentei aqui outro dia que estava querendo fazer um prato "etrusco" e uma banoffee pie. Calhou que eu e o marido tínhamos o aniversário de namoro a festejar - eu já não comemorava mais em setembro, porque há o dia dos namorados e também porque resolvemos morar juntos em outra data, além de as comemorações anteriores terem sido meio zicadas. Mas, como foi ele quem se lembrou da data, achei digno retomar a data setembrina. E assim entraram em cena o maiale al latte etrusco/romano e a banoffee pie inglesa.
Os preparativos começaram na véspera, porque quis marinar a carne de porco (usei filé mignon suíno em vez de lombo), embora a Samin Nosrat, professora de culinária do Michael Pollan, não indique isso, mas apenas temperar com sal e pimenta um pouco antes. Eu vi umas dicas num outro site de alguém que já fez o prato e resolvi juntar as duas receitas. Então marinei com vinagre de vinho (porque não tinha vinho), sálvia, alecrim, alho, sal, pimenta-do-reino e limão, para no outro dia selar a carne em azeite bem quente e então adicionar mais alho, sálvia fresca, sal, raspas de casca de limão e 1 litro de leite, incorporado aos poucos, ao longo de quase 3 horas de cozimento. 
Quanto à torta, segui a receita da Dani Noce. O creme de confeiteiro de doce de leite não ficou tão firme, embora gostoso. A dica do creme de leite em lata sem soro e bem gelado para fazer chantilly não funcionou; também não consegui usar meu sifão. Lá fui eu em busca de um preparado para chantilly, da Fleischmann mesmo. Ainda assim, ficou bem gostoso e bonitão. 
O maiale al latte fica com um aspecto talhado, uma espécie de vômito de bebê como bem descreve o Pollan. Mas é uma delícia, ainda mais acompanhado de legumes ao forno.
Foi um jantar preparado lentamente, com paciência, respeito e total atenção, ingredientes também para um relacionamento de longa data como o nosso.

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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