quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Orides, pássaros, silêncios e o não caber em si

Li em alguma postagem no Instagram que os diagnósticos de transtornos muitas vezes servem ao capitalismo e seus instrumentos - machismo, exploração do outro, violência etc. Assim é que classificar mulheres como histéricas, trabalhadores exaustos como preguiçosos, pessoas que não se enquadram como TDAH seria uma ferramenta para colocar todas e todos que não querem ser vistos como "anormais" a serviço do sistema. Faz sentido. 
Quando li isso, pensei logo em Orides Fontela. Acabo de preparar o texto de uma biografia sua. Fiquei consternada com a leitura. Orides parece dividida entre a necessidade de conter o próprio caos e o não caber em si. Cultiva o silêncio no templo zen e na poesia, mas não tem freios ao expressar seus desagrados. Parece indiferente ao desconforto que provoca, porém se ressente da crítica, venha de onde vier. Vejo-a lutando para sair de um casulo, talvez autoimposto, quem sabe? Não chegou a borboleta. Talvez por isso cante o vento, os pássaros, o mar, a liberdade que parece lhe fugir. 
É estranho, porque ela parece tão livre dos padrões, da normose (certamente, foi diagnosticada com alguma síndrome ou transtorno, talvez personalidade narcisista, ou borderline), e ao mesmo tempo busca a aprovação. Nunca se libertou da pobreza de origem, fala dela o tempo todo em entrevistas e conversas com amigos, usando-a muitas vezes como razão para seu não reconhecimento. Não duvido nada que isso seja uma razão - mulher, pobre, sem atrativos femininos clássicos -, mas me impressiona que não se tenha visto merecidamente o encantamento produzido por suas palavras certeiras, em romance com a filosofia. Como Drummond e João Cabral, mas ainda mais sucinta - talvez influência da cultura oriental, também um flerte com os haikais. 
Sua existência seria diferente se os papéis sociais, a normalidade não fossem tão arraigados? Mais fácil seria pensar que se ela não fosse estranha, se ela "gostasse" de trabalhar, se ela tivesse melhor aparência, se ela se contivesse - pouca diferença faria, porque seguiria mulher e pobre no mundo da fraternidade editorial, como vimos no caso recente de Vanessa Bárbara.
Entre tantos poemas - eu conhecia pouquíssimo da obra, um ou outro verso compartilhado por amigas poetas -, estes dois me falaram diretamente:
 

A onda
vem
do abismo mais
fundo

a onda
vem
e se
quebra: um
refundo

(a onda
dura
um mundo).


Errância

Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa da
procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

Margem de
erro: margem
de liberdade.


 Aplausos para você sempre, Orides, mestra de silêncios e voos. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

Arquivo do blog