Li em alguma postagem no Instagram que os diagnósticos de transtornos muitas vezes servem ao capitalismo e seus instrumentos - machismo, exploração do outro, violência etc. Assim é que classificar mulheres como histéricas, trabalhadores exaustos como preguiçosos, pessoas que não se enquadram como TDAH seria uma ferramenta para colocar todas e todos que não querem ser vistos como "anormais" a serviço do sistema. Faz sentido.
Quando li isso, pensei logo em Orides Fontela. Acabo de preparar o texto de uma biografia sua. Fiquei consternada com a leitura. Orides parece dividida entre a necessidade de conter o próprio caos e o não caber em si. Cultiva o silêncio no templo zen e na poesia, mas não tem freios ao expressar seus desagrados. Parece indiferente ao desconforto que provoca, porém se ressente da crítica, venha de onde vier. Vejo-a lutando para sair de um casulo, talvez autoimposto, quem sabe? Não chegou a borboleta. Talvez por isso cante o vento, os pássaros, o mar, a liberdade que parece lhe fugir.
É estranho, porque ela parece tão livre dos padrões, da normose (certamente, foi diagnosticada com alguma síndrome ou transtorno, talvez personalidade narcisista, ou borderline), e ao mesmo tempo busca a aprovação. Nunca se libertou da pobreza de origem, fala dela o tempo todo em entrevistas e conversas com amigos, usando-a muitas vezes como razão para seu não reconhecimento. Não duvido nada que isso seja uma razão - mulher, pobre, sem atrativos femininos clássicos -, mas me impressiona que não se tenha visto merecidamente o encantamento produzido por suas palavras certeiras, em romance com a filosofia. Como Drummond e João Cabral, mas ainda mais sucinta - talvez influência da cultura oriental, também um flerte com os haikais.
Sua existência seria diferente se os papéis sociais, a normalidade não fossem tão arraigados? Mais fácil seria pensar que se ela não fosse estranha, se ela "gostasse" de trabalhar, se ela tivesse melhor aparência, se ela se contivesse - pouca diferença faria, porque seguiria mulher e pobre no mundo da fraternidade editorial, como vimos no caso recente de Vanessa Bárbara.
Entre tantos poemas - eu conhecia pouquíssimo da obra, um ou outro verso compartilhado por amigas poetas -, estes dois me falaram diretamente:
Entre tantos poemas - eu conhecia pouquíssimo da obra, um ou outro verso compartilhado por amigas poetas -, estes dois me falaram diretamente:
A onda
vem
do abismo mais
fundo
a onda
vem
e se
quebra: um
refundo
(a onda
dura
um mundo).
Errância
Só porque
erro
encontro
o que não se
procura
só porque
erro
invento
o labirinto
a busca
a coisa
a causa da
procura
só porque
erro
acerto: me
construo.
Margem de
erro: margem
de liberdade.
Aplausos para você sempre, Orides, mestra de silêncios e voos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário