domingo, 1 de março de 2026

O pessoal, o público e a arte são políticos

Acompanhei nos últimos dias um debate intenso sobre identitarismo e decolonialidade nas redes. Claro que já tem rolado há algum tempo, sobretudo em ataques às identidades feitos pela extrema-direita. A novidade, porém, são as críticas virulentas vindas de intelectuais ligados à esquerda. 
Vladimir Safatle publicou um texto na Piauí fazendo uma crítica às teorias decoloniais, segundo ele muito ligadas aos teóricos dos países colonizadores. Pessoalmente, não vi como isso poderia desqualificar as teorias - não é possível se apropriar das anteriores e fazer a própria releitura, antropofagicamente, como sugeriria Oswald de Andrade? 
Na esteira de Safatle, Douglas Barros, que inicialmente me pareceu interessante por falar de identidades com Rita von Hunty - e que depois descobri ser um crítico do chamado identitarismo (termo usado pelos ultraconservadores), a respeito do qual ele lançou um livro -, saiu em ataque contra Nego Bispo e os originários em geral, que não têm, segundo ele, arcabouço teórico para discutir a realidade e propor soluções, ao contrário do marxismo. Gente!
Para lá e para cá pipocaram ataques e defesas de antidecoloniais e decoloniais, sobre quem consegue ou não fazer a crítica ao capitalismo, propor um novo estado de coisas. Interessante como esses autores, ao falarem de decolonialidade, nem citaram as lutas feministas, que conseguem justamente unir a questão de luta de classes com gênero e raça, como fizeram as ativistas negras. Enquanto isso, a extrema-direita se regozija com as lutas internas dos progressistas, alguns deles tomados pelo desejo de reconhecimento e brilho, não há dúvida. O capitalismo faz muito bem seu trabalho (explorando o trabalho dos outros) há séculos. 
Daí assisti, por fim, a aula magna do Leandro Colling na USP Leste. Leandro é muito combativo, mas não incoerente. Ele se organiza para os debates; não é avesso à crítica em si, mas à violência que pode advir de uma crítica irresponsável. Ao final, sempre me pergunto, eu que nem tenho esse arcabouço teórico todo, por que é tão difícil se unir pela causa comum, que deveria ser a luta pela justiça social em uma sociedade tão diversa. E não quem tem mais seguidores, vende mais livros, vence o debate. 
É curioso como é mais simples que um artista consiga unir as pessoas em prol de uma causa, pelo menos na superfície. Bad Bunny, o trapper porto-riquenho que ganhou vários Grammys, tem botado a boca no trombone para criticar Trump e sua política anti-imigração. No evento mais visto dos Estados Unidos, o Super Bowl, ele apresentou em 13 minutos um videoclipe ao vivo, em plano-sequência, cantando em espanhol, com várias referências latino-americanas tão conhecidas nossas, e ainda chamou de América todos os países do continente, para desgosto dos estadunidenses conservadores. Genial!
Ele conseguiu fazer milhões no mundo se orgulharem de suas raízes latinas. Partiu da sua casita porto-riquenha e atingiu o universal, pelo menos latino-americano. A arte tornou público o pessoal. Uma fagulha, no mínimo, para incendiar os debates. No caso de Bad Bunny, sua especificidade não foi criticada; antes, atraiu milhões que cantaram com ele - em São Paulo, milhares lotaram o Alliance Park. 
No caso de Nego Bispo, das feministas e dos ativistas LGBT, porém, o embate é certo. Porque, nestes exemplos, o pessoal não é só público, como apregoava Carol Hanisch, como também, necessariamente, o que é público é político e o que é político é (ou deveria ser) público. Quando se rejeitam as identidades, as especificidades de grupos, perde-se o entendimento do que é coletivo, o que acontece também quando se põe o foco tão somente no que é específico, ora vejam! Todos perdemos na luta contra a desigualdade quando os aliados se afastam e se enfrentam. Quem ganha são sempre os mesmos donos do poder. 
Nesse sentido, a lição de Bad Bunny está além da bandeira da América Latina e da América de todos: ela mostra a potência da arte como água que invade espaços, dissolve barreiras e, quando menos se espera, está em toda parte. Pelo jeito, é por meio dela que se pode avançar mais na construção de direitos. Como a água, muitas vezes parece inofensiva, mas sua essência é sempre abrangente, desarmante e poderosamente transformadora. 

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Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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