domingo, 28 de dezembro de 2025

Bugonia, misoginia, câmara de eco e Chico Tosco derrapando bonito

Fui com Guga assistir ao último filme de Yorgos Lantimos, Bugonia, com Emma Stone e Jesse Plemons, brilhantes, e o surpreendente Aidan Delbis, um jovem ator autista que rouba a cena muitas vezes. O roteiro reúne teoria da conspiração, câmara de eco, misoginia, fascismo, extrema violência em uma parábola de nosso tempo. Não escapa a ninguém minimamente atento que a treta com a personagem de Emma Stone só acontece por ela ser mulher, e uma mulher com poder. 
Calhou de pouco antes de assistirmos ao filme Chico Tosco ter atacado de novo, primeiro em uma entrevista infeliz na infeliz Veja, depois atacando a atriz Alice Carvalho por ter comentado que ele "só falou bosta". Tosco disse que Alice é sempre "agressiva" e então, como argumento de sua tosquice misógina, desfilou alguns títulos que ele publicou. Dessa vez, a galera caiu sobre ele, e o pobre teve de se retirar das redes, mas deixou acólitos e defensores em seu lugar. 
Ao mesmo tempo que me desanima repetir as mesmas explicações, que não existe esse negócio de que toda "opinião" é válida, porque isso é flertar com o fascismo e a "liberdade de expressão" apropriada exatamente pelos fascistas, sinto um ventinho de esperança quando vejo mais pessoas, mulheres e alguns homens, que bom, clamando que a herança do patriarcado é inadmissível e que não somos nós, mulheres, que temos de fazer a lição dos homens que se dizem injustiçados por uma nova realidade - justamente, a de luta contra a opressão, seja ela qual for. 

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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A revolução será feminista, ou não será

Com o verdadeiro tsunami de feminicídios no país neste final de ano, logo milhares de mulheres se organizaram no Levante Mulheres Vivas. Ao primeiro indício de organização, fui perguntar nos grupos de que faço parte, ligados à universidade, se íamos participar do movimento. Cri-cri-cri. Depois perguntei no perfil das Juristas Negras e no grupo Tamo Juntas, que respondeu que estava havendo um grupo oficial, o do Levante, do qual, a essas alturas, eu já fazia parte. Entrei primeiro no nacional, depois encontrei o de Salvador. Na primeira reunião, só seis participantes. Sandra Munhoz, da Casa Mariele Franco Brasil, no Campo Grande, levou na unha a organização, quase sem apoio político e financeiro. 
Teve treta porque fizemos uma semana depois do nacional, em função de feriados e também por uma informação dada num dia e alterada em outro. Teve treta com o grupo de homens que queria que nos juntássemos ao ato contra a anistia a golpistas, a PL da dosimetria. Embora um ou outro defendesse que o protagonismo fosse todo das mulheres, não se chegou a um consenso - e foi incrível ver, pela primeira vez, homens tendo sua demanda negada. Um aprendizado para os dois lados, me pareceu - para quem ainda está no chão da fábrica e para quem ainda domina os debates. 
No dia 14, fomos para o morro do Cristo pela manhã. Algumas pessoas do ato contra a anistia, que sairia em seguida ao das mulheres, já estavam lá. Encontrei colegas do PPGNEIM lá, mas éramos poucas. Liu se juntou a nós e fomos marchar, algo que sempre renova as esperanças. 
Mas é importante dizer que, embora uma das pautas do Levante fosse a criminalização da misoginia, não acredito que o mero punitivismo vá resolver nada - prova disso é que o aumento da pena para feminicídios não reduziu a quantidade de crimes. Enquanto não houver mais mulheres na política, cobrança de medidas reais de proteção às mulheres e educação ampla da sociedade para que todas e todos enxerguem os meandros da misoginia e os homens se tornem aliados de fato, milhares de mulheres continuarão sendo vítimas da violência do sistema patriarcal. Os homens, por extensão, também - não é a vida que perdem, mas o próprio sentido de ser, apenas reproduzindo um modelo de masculinidade essencialmente violenta. 


Um refresco em meio a um mês conturbado

Estamos na metade de dezembro e já se pode dizer que este foi o mês mais conturbado do ano em termos de variedade de notícias tenebrosas. Um pico de feminicídios, Câmara e Senado atentando sem trégua contra nossos direitos, eventos climáticos extremos, ascensão da extrema-direita na América Latina, escalada de conflitos internos e externos pelo mundo. 
Mas alguns refrescos acontecem aqui e ali. No início de mês, Lavínia Dias, nossa colega de espanhol, lançou seu primeiro livro de poemas, Caderno vermelho sangue, pela prestigiada Editora Patuá. Tenho a satisfação de ter lido alguns antes do prelo e indicado o contato do Edu para Lavínia, e o resultado aí está, nós, sorridentes, prestigiando a querida caçula da turma, em pleno dia de Santa Bárbara (quase todos de vermelho, cor de Iansã e do livro de Lavínia). Que bons ventos espalhem força e poesia entre nós.  

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Heatcliffs e as mulheres

Outro dia, vi um anúncio da nova versão cinematográfica de O morro dos ventos uivantes, de Emily Brönte (aliás, li há pouco o livro de Rosa Montero, Nós, mulheres, que fala de diversas mulheres históricas, entre elas as melancólicas e criativas irmãs Brönte). 
Li o livro de Emily Brönte ainda meninota e ele também foi responsável por me fazer acreditar que amores de verdade eram dolorosos. Pelo jeito, a diretora da nova versão em filme, Emerald Fennell, também acredita nisso, ao dizer que se trata "da maior história de amor de todos os tempos". 
Hoje, tantos anos depois, com o distanciamento necessário e em plena semana de organização do Levante Mulheres Vivas, contra a epidemia de feminicídios no Brasil (mulheres espancadas, mutiladas, queimadas, mortas a tiros em diversas cidades), parece irônico que esse tipo de comportamento masculino, totalmente tóxico, abusivo, obsessivo, violento, possa ser considerado amoroso. 
Mesmo com um homem lindo como Jacob Elordi (antes dele, Lawrence Olivier, Ralph Fiennes, Tom Hardy - aliás, todos brancos, bem diferentes da personagem criada por Brönte, que o descreve como cigano, de pele escura) é um desserviço (re)vender essa ficção como modelo de relacionamento (amor além da morte, cruz credo!). Também é um desserviço tirar da história o racismo e o classismo evidentes - o que não justifica, embora explique em parte a violência masculina.
A realidade grita nas ruas algo muito diferente desse modelo de "amor". Nós, mulheres, gritamos em resposta pela nossa liberdade e pelo nosso direito de viver. 

Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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