Assisti à tão falada série All Her Fault, no Prime Video, em dois dias. Na primeira metade, pensei que poderia ter dois episódios a menos (são oito no total). Também já sabia como ia terminar, quase não vi o restante. Mas persisti.
E foi ótimo. Mesmo com algumas viradas rocambolescas, os plot twists que não podem faltar hoje, a mensagem-título é muito irônica e clara. O tempo todo as mulheres são culpabilizadas por todos, especialmente por seus companheiros, mas também por outras mulheres, quando há qualquer coisa que saia da rotina, das menores coisas até o desaparecimento de uma criança. Inclusive quando o desaparecimento está associado a uma mentira, a uma atitude masculina tomada anos antes. A união entre mulheres é que recoloca tudo nos trilhos de uma outra maneira, são elas que convencem umas às outras que a culpa nunca foi delas. Diante da incompetência masculina de um marido e o controle e toxicidade de outro, são elas que se apoiam mutuamente até mudar toda a situação.
Como se trata de uma história com personagens brancas e prósperas, não pude deixar de pensar no tamanho da culpa que seria atribuída às mulheres de outras raças, classes sociais e tipos de feminilidade. Ainda mais tendo lido, enfim, o livro de Virginie Despentes, Teoria King Kong, que destrincha as armadilhas da feminilidade imposta pela heteronorma, e quase terminado o de Dahlia de la Cerda, Desde los zulos, que Marisa me trouxe do México e que discute a práxis feminista a partir dos "buracos", das brechas onde vivem as mulheres periféricas, não brancas, que não têm um "teto todo seu" para escrever o que quer que seja.
Por maiores que sejam as diferenças entre as feministas das diferentes "ondas" e entre mulheres em geral, só me ocorre que apenas juntas, em meio às diversidades, é que conseguimos mudar as coisas. Admitindo privilégios e diferenças, acolhendo, ouvindo, tomando as ruas e os espaços, não assumindo responsabilidades alheias, rompendo com padrões a nós imputados. A culpa nunca foi delas, nem nossa.
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