sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Pertencimento

Com essa história do sumiê retornam as questões de pertencimento. Quando vou à Liberdade (como hoje, quando fui à Livraria Sol para comprar um pincel), sempre tenho a sensação de fazer parte daquele universo oriental. Puxo papo com as vendedoras, senhorinhas japonesas que lembram minha mãe, e tenho certeza de que elas não entendem meu olhar enternecido. Mesmo sem falar japonês, sem partilhar de todos os costumes, uma centelha de mim reacende quando boto os pés ali. Talvez por isso o origami  e o judô, tão tardios, tenham parecido "naturais" quando aconteceram.
Também sinto o mesmo quando visito o Nordeste, claro. Parece que estou na sala de casa, tomando fresca com as portas abertas. Rio de felicidade, quase sentindo o vento no rosto, ao ouvir uma expressão conhecida desde a infância - "parado como um dois de paus", "malajambrado", "cabaré de asa", "sururu de capote". Fico muito, muito à vontade. E é essa sensação de estar à vontade na própria pele que eu chamo de pertencimento. Como é boa, como é fundamental!
Clarice Lispector tem um texto lindo sobre pertencer. Foi originalmente publicado no JB, como crônica, e depois na coletânea A descoberta do mundo. Ela diz que pertencer vem muitas vezes de sua força, e não de depender de alguém mais forte - deseja pertencer para que sua força "não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa". Para não ficar com um presente embrulhado nas mãos sem ter a quem presentear. Não seria por acaso um dos aspectos da graça?
Ao final, Clarice fala, ao descobrir que pertencer é viver, de uma sede infinda, como quem, no deserto, bebesse as últimas gotas de água de um cantil. Aqui, agora, enquanto escrevo, imagino que viver/pertencer é mais como no deserto carregar um jarro d'água, que poderia derramar quando tropeçamos ou ir-se esvaziando quando damos de beber a alguém - mas, quase milagrosamente e ao mesmo tempo, vai se enchendo novamente da água trazida por outro passante. De forma abundante, até o fim.

8 comentários:

  1. Que lindo Solange! Clarice sempre inspiradora! Quando você falou no nordeste e nas expressões que ali são comuns, lembrou-me de minha avó (baiana) que falava em catrevagem, por exemplo. quando criança eu sempre achava o máximo, coisa de meu pertencimento, tal expressão, por exemplo. ;-)

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    1. Oi, Josafá. Sim, você sabe exatamente do que estou falando - Clarice que inspira, expressões que acalentam nosso pertencimento.
      beijos!

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  2. Que texto lindo, Sô! Esse sentimento de pertença também aflorou em mim recentemente, com os ukiyo-ê, as impressões do mundo flutuante... E fiquei tão tocada com elas que resolvi conhecer mais do Oriente e assim me conhecer melhor. Tô lendo o volume 2 de As máscaras de Deus, co Campbell, sobre mitologia oriental.
    É estranho pra mim, porque, apesar de ser mezzo japa, sempre tive um sentimento um pouco de negação desse lado. Mas é isso que você disse mesmo, mergulhar nessas águas da ancestralidade é um quase retorno...
    Ah, tá gostando das oficinas de sumiê?
    beijos!

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    1. Tam, esse mergulho é profundo, então às vezes demoramos pra nos aventurar - hay que estar listo (com a alma pronta, como diria a própria Clarice). Mas de que outro jeito podemos nos conhecer melhor?
      Quanto ao curso, estou adorando - pena que é curto. De todo jeito, vou praticar em casa; daí ter ido atrás do pincel. Quem sabe depois retome num curso regular?
      besitos!

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  3. E não veio tomar um cafezinho caboclo aqui em casa, ó, dona japotina?

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    1. Ops, a da mensagem anterior é a Marisa.

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    2. Ah, eu quero tomar cafezinho na casa nova-renovada! Mas depois do nosso almoço pós-viagem aqui em casa, com direito a fotos e lembranças. :)

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    3. Combinado!
      Beijos!

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Cabeceira

  • "Arte moderna", de Giulio Carlo Argan
  • "Geografia da fome", de Josué de Castro
  • "A metamorfose", de Franz Kafka
  • "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez
  • "Orfeu extático na metrópole", de Nicolau Sevcenko
  • "Fica comigo esta noite", de Inês Pedrosa
  • "Felicidade clandestina", de Clarice Lispector
  • "O estrangeiro", de Albert Camus
  • "Campo geral", de João Guimarães Rosa
  • "Por quem os sinos dobram", de Ernest Hemingway
  • "Sagarana", de João Guimarães Rosa
  • "A paixão segundo G.H.", de Clarice Lispector
  • "A outra volta do parafuso", de Henry James
  • "O processo", de Franz Kafka
  • "Esperando Godot", de Samuel Beckett
  • "A sagração da primavera", de Alejo Carpentier
  • "Amphytrion", de Ignácio Padilla

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